quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

O que engloba a performance de Rogério Skylab

Nunca fui num show em Curitiba que tivesse me deixado com tanto tesão, nestes quatro anos que moro na capital do estado mais sem identidade do Brasil, quanto o show de Rogério Skylab, em 2009, no dia 28 de Novembro. Abertura com bandas, e lá pelas tantas, Mr. Skylab chega, passa por todos no Ópera 1, finzinho do show anterior. Como tinha ido assistir o cara, logo que ele passou perto de mim, fiquei eufórico pensando: finalmente, finalmente.
O universo masculinizado da composição de Skylab, se assim se pode dizer quando se toma como referência a repetição, a violência, os palavrões, a sexualidade fisiologista, e o racionalismo compulsivo, como um fim a se alcançar, como uma perfeição, sempre me emocionaram, mesmo nas apresentações no Programa do Jô, onde o apresentador costuma ressaltar somente o lado humorístico do trabalho de Rogério. Show com fãs de verdade, eufóricos, excitadíssimos, serotonina away on business... antes do cantor, compositor e poeta entrar no palco, gritavam os fãs "skylab, skylab, skylab"... num tom quase messiânico, certamente algo fortíssimo de presenciar. Que Rogério logo desconstruíu, ao entrar e fazer um gesto displicente, mas muito polido, em resposta aos chamados, já começando a cantar a primeira música do set, "Dominante ou Dominada".
Andei lendo algumas entrevistas considerando a performance de Skylab no palco, como se isso fosse o mais importante de todo o trabalho, o que obviamente provocou um incômodo em Rogério, esta forma de raciocinar dialogicamente sobre um trabalho amplo como o dele. Bastante impressionante de fato a performance pessoal do artista, envolvido com a banda afinadíssima, chegando ao final do show a um visível estado de estafa física. Isso todos puderam ver, ou sentir como que contagiados pela presença em palco. Mas a performance apresentada está englobando todo o contexto da produção de Skylab, que vai desde à idéia da música tida por ele em algum lugar por onde estiver andando ou parado, passando por execuções sem ou com público, até chegar num cd. Ao que me parece, esse é o percurso seguido por Skylab, na maior parte dos casos. Então, a performance de Rogério, pensando na performance art, desde os primórdios sessenta-setentistas, engloba os processos criativos da letra/canção (poética verbal e arranjo) e a sua execução, como um todo. Isso se condensa, isto é, fica mais nítido, mais pulsante, na movimentação de Skylab, em contraponto com a estaticidade da banda. Daí destacarem a performance do cantor como o mais significativo no trabalho, pois os críticos de arte que se atrevem a falar de performance, não entendem uma coisa muito simples, seja no trabalho do Skylab, seja em toda produção da qual se possa apontar a performance.
Teatro performático, banda performática, performance nas artes visuais, esses termos que se repetem há anos, e anos e anos, anteriores à mim inclusive, confundem a cabeça dos críticos não adaptados ao pensamento vanguardista iniciado nos anos sessenta (que foi iniciado com Marcel Duchamp nos anos 20, com a morte da arte). E confundindo a cabeça dos críticos, confunde a cabeça dos acadêmicos e dos artistas que acreditam em críticos, criando formados em artes, sejam quais forem, limitados ao pensamento pré cinquentista da história das artes. A performance, entendam de uma vez por todas, engloba o teatro, a música, as artes visuais, a literatura, whatever, conforme a organização do performer! Não o contrário. Nos shows de Rogério Skylab, considerando a presença de um público fiel a sua poética, com grandes afinidades as suas palavras, a performance pessoal do compositor é enaltecida, por motivos que só o encontro do show pode explicar, como forma de experiência. Claro que é feito com os outros músicos, e eles tem toda a importância para a força do evento. Mas a expressividade destacada do vocalista e compositor (a quem boa parte do grande público está acostumado a admirar mais) deixa em muitos esta impressão significativa da performance. Sempre me lembro no entanto que, se for considerar performático, leva-se mais em conta no caso de Skylab, como o evento se organiza, como o evento dos shows de Rogério Skylab se dá. O que exije um conhecimento complexo, atrelando a criação particular dele como compositor, à execução musical Rogério Skylab + banda.
É observar assim a performance como manifestação pessoal que engloba as linguagens de que a idiossincrasia envolvida necessitar se apropriar, abordar, raptar, incestuar ou o que for. Não é música performática, não é poesia com fundo musical, nem performance verborrágica, mas possivelmente englobe estes, e talvez outros desdobramentos que articulem poesia, composição musical, rio de janeiro, samba, rock, mpb, e seja qual for mais a seqüência de leitomotives referentes a Rogério Skylab.

Um ótimo show! Parabéns! Todos da organização, muita coragem e muito trabalho! Do caralho! Carlos! Leandro! Nunca pensei ver este conflito realizado, Rogério Skylab em Curitiba.

Límerson.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

PORTÃO DE GRADE

Portão de grade. Um anteparo com metades. A primeira era um quadro. Via-se um cesto de lixo, tipicamente bairrista, sem lixo. Formações vegetais esparsas de espécies aleatórias, dispostas num espaço quadrado de terra. E um jornal estranhamente amassado e estranhamente posicionado. Do quadro que se formava, podia-se ler em letras garrafantes a idéia seguinte: Mudança de Vida.
- Jornais de rua!, debochei, não sem lamentações correlatas no ar decepcionante que saia desabafado dos meus pulmões.
Tudo do lado de fora. O pedaço de terra quadrado ficava no meio, entre o cesto de lixo bairrista e o jornal de rua. Atrás do pedaço de terra, confundindo-se entre a vegetação indeterminável, gavetas empilhadas encostadas no muro da casa da calçada da frente, compondo um legítimo pano de fundo. Era o enquadramento que todo fotógrafo sonhava, comecei a julgar com minhas considerações particulares sobre o olhar humano. Procurei inclusive me abaixar e me aproximar do portão, procurando entender como se formava aquela foto. O cesto, a terra e o jornal. Gavetas no fundo enriqueciam o quadro. Mudança de vida, quase um deboche pessoal.
Ali dentro eu realizava um dos poucos vícios que empreendo quando retorno à casa dos meus pais, procurando algum tipo de descanso da vida real, já que ainda tenho a oportunidade de fazer isso. Fumava um único cigarro diário e observava aquele portão de grade, quase em contemplação artística da realidade, o que naturalmente já me pasmava, pois sempre fui um exemplar tipo estarrecido. Fumar apenas um cigarro por dia, na casa dos meus pais só podia comportar um motivo: lembrar-me de que existo em outros lugares além daqui, e que em breve retornarei para, com o perdão da expressão, a minha vida, feita de muitos cigarros fumados por muitos motivos. Evitei resumir minha história de vida, como parte dos meus parentes resumiu, na vivência de compromissos familiares, sempre devendo algo à geração anterior, aliada a ascensão financeira, ou não. Estabeleci desde sempre este “ou não”, que meus pais sempre julgaram como algum tipo de revolta característica da idade. Hoje sei que estabeleci isso dessa forma, observando a superficialidade do julgamento dos meus pais, na medida em que esse “ou não”, vem deixando de ser uma postura de aversão irracional a qualquer conformidade, estruturando-se cada vez mais como uma agonia de viver. A verdade é sofrida pra mim, que não vivo sob os valores da minha época, e não tenho força o suficiente para romper com qualquer valor, sem que haja uma necessidade vital neste rompimento.
O interior dos estados brasileiros, e as suas cidades absurdas (sendo as do meu conhecimento algumas do estado de São Paulo), produzem jovens cada vez mais assustadores, portadores de seqüelas culturais drásticas, formadoras das suas personalidades nas acepções mais profundas, e isso deve acontecer desde 1985, acredito. Lembro-me de pouco divertimento em grupo, seja familiar ou escolar, que possa considerar rico, numa abordagem inicial. Utiliza-se dos meios mais desconexos para se alcançar relaxamento. Passear em supermercados ou locais de amplo consumo com a família, já que boa parte da economia da minha cidade sempre foi devida ao comércio, inclui muito dos momentos em que vi mais de cinco membros da família juntos. Observar as iluminações decorativas do Natal, nas casas grandes de bairros como o Jardim Europa, Jardim América ou Estoril, também era uma grande atração, à julgar pela freqüência anual assídua destes empreendimentos. Ah, que memórias vazias de mim as minhas.
Nestes momentos eu nunca estive com a minha família de fato. Não enganar-se então com a presença física de ninguém, presença física não existe, presença física é a presença de um morto, com a cara afundada na tristeza em movimento que oferece uma janela. Estive sempre envolvido em alguma experiência fotográfica como esta. Um clima refrescado que é diferente do interior da minha casa, um agradável (por ser o único) cigarro para fumar, e alguns instantes de observação atenta, meus deleites solo. Coloquei-me de cócoras para observar em silêncio a fotografia que inventei de pensar. O meu pensamento sem espaço pra memória, “mudança de vida”... sim, do lado de fora, ao que parece. A noite cimentada da calçada derretendo-se. Eu preciso seriamente chegar em algum lugar à partir destes próximos instantes. Chegar como quem, é o que me pergunto. De certo não como o profissional que me imaginava, ou o amante que eu preparava para eu mesmo interpretar, ou toda a interpretação que foi se desviando de algum caminho nestes últimos anos. Naturalmente eu entendo que as coisas desviem do seu caminho, como tudo o que é vivo que pulsa, seja o meu coração ou a minha vontade contida, expandindo-se e contraindo-se. Mas eu falo que estes últimos anos pelos quais passei, contemplaram-me com verdadeiras couraças reichianas, à julgar o pensamento através da evolução da modernidade. Possivelmente, estes segundos que são acompanhados pelos seus olhos, olhos de quem lê poesia, são os instantes precedentes à metamorfose de Gregor Samsa, se assim posso inserir a simbologia das minhas re-leituras em meu processo reflexivo. Ninguém sendo sou eu, inventando a foto da mudança de vida sugerida pelo jornal de rua. E quem é, pergunta-me o gato, enquanto desaparece. Não o gato vem depois.
Agora eu vejo que a terra é fraca e não compete, definitivamente não compete (definitivamente não, mas definitoriamente, se assim pode ser colocado o definitório deste instante, indefinitivo), não está à par da força que penetra a raiz. Como as calçadas que se levantavam, formando rachaduras por sobre as raízes de uma antiga árvore, compondo um antigo deleite, e um dos poucos, desfrutáveis no território da minha faculdade. Meu enraizamento, o enraizamento de Kazuo Ono, os braços de Pina Bausch. A peruca branca de Andy Warhol. Vejam, não há hipóteses? Minha terra de origem e minha coisa de raiz, são impressões que gradativamente vão se tornando incompatíveis. Risíveis, à final de contas, estou observando o portão da minha casa, a minha rua sem graça, que consegue ser silenciosa e ruidosa, tão intensamente quanto o incômodo dos insetos calorentos.
Não é o caso de um animal enjaulado, absolutamente. Eu já estive nas grandes épocas impressionistas, em seus grandes vernissages. É fato, eu já tive a impressão disso tudo, que culminou na grande depauperação fragmentista, impugnada no nome e nas vestes do pensamento modernista. Não é hora para pensar nisso. Os sons que eu ouvia, que compunham a sonoridade da imagem, eram emitidos por pássaros, filhotes agora. Certamente instalados com seu ninho dentro do forro de casa, em alguma viga da garagem. Embaixo da madrugada, era o silêncio. Ou a quase madrugada dos pássaros. Eu refletia alguma luz pra quem me visse de alguma lua, disso não me restava a menor dúvida. E eles ainda não eram também animais enjaulados. Agonizavam também, mas não é hora de pensar nisso, acredito que não.
Já ficava tempo demais naquela área da casa, isso certamente devia aborrecer os meus pais. Não gostam que eu fume, não gostam que eu fume nunca, não gostam que eu fume tanto. Eu também não gosto. Mas gostam que eu esteja aqui. Eu também gosto. Sabendo que isso dura pouco, e que semanas antes de partir, já sinto a necessidade vital de partir. O que é de impossível retorno, não é a totalidade de uma vida decorrida, mas aquilo que a impressão não comporta como essência. Não é hora de uma despedida também, vamos deleitar algumas palavras nômades, regateio da pele dos quadris, fogo na figuração. Falta-me ainda observar o que ocorre pela outra metade do portão, algo de suma importância na organização desta literalidade, não é isso?
Bem, era uma metade fechada. Poucas aberturas à visão. Acontecia de quase sempre a mesma coisa. Passando por todos os acontecimentos do mundo, os mais interessantes não passam por aquela. Ali, o outro lado, morava a cegueira da intuição, com quase toda a certeza é que digo. Impregnava naquela outra metade do portão de grade o ímpeto raso, a cômoda vida fogosa dos recém casados recém mudados vizinhos novos, a coisa do mundo que se sabe bem em cidades do interior. Viver metonímico, da parte pelo todo. É o que a outra metade revelava, através do que velava. E isso não é algo que ocorrerá para sempre, porque são vivas correntes. Talvez se abra num momento ou outro, de vaga determinação. Não cabe a mim. Mas sei.
No entanto acautelo, que foi essa a grande lição deste ano. Ano que me obrigou a dividir a vida em anos, como provavelmente foi 2005, e certamente serão outros anos desta geração que amadureço. Não, não somos uma geração, não é isso. Aprendi o acautelamento em estar sempre tão inteiro nos lugares, com as feridas tão expostas aos ambientes mais diversos, desconsiderando toda a orientação da assepsia. Acautelo pinçadelas prazerosas, do prazer dos pedaços que ela mostrava, que vão fazendo pinceladas de falta, prosseguindo sufragando à vida, como é o que parece ser. Se o caso é mais claridade, é preciso mais lucidez, nas veias que esvaem as vidas contidas nas garrafas de vinho. É o que parece ser, como o símbolo da vida paralisado, momentaneamente.
Foi quando passou um gato de duas cores, observou minhas vestes como quem encara Alice de Lewis Carrol, fingiu então estar atônito comigo, abriu um largo sorriso, começou a cantar e a desaparecer:
- Por acaso eu existo, você está mesmo me vendo
Calma, calma, dorme, dorme, há um final,
É certo que há.
Agora é.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Artigo que revela que nem escrevo tão bem assim para um "acadêmico" e que achei o show de Rogério Skylab muito mais emocionante que do Carlos Careqa.

Iconografia:

Toda a produção de artes visuais dos anos 60, concentrando-se principalmente nas relações estéticas e poéticas da pop-art, substanciadas nas produções de Andy Warhol em pintura (lata de Campbell Soup, séries de Marilyn Monroe, séries de Elvis Presley), cinema (contato com a modelo, atriz e socialite Edie Sedgwick, a quem transformaria na primeira superstar, através de vídeos como Vinyl e Poor rich girl) e produções musicais inseridas num contexto visual-performático (como a produção do disco da banda Velvet Underground, em 1967, envolvendo apresentações performáticas com a banda em Exploding Plastic Inevitable). Quadros específicos serviram de iconografia para alguns dos atores, por exemplo a pintura de James Rosenquist da atriz Joan Crawford, utilizada pela atriz Vanessa Benke em Loading, como leitmotive imagético durante os laboratórios de lentidão e estaticidade, ressaltando inclusive uma grande entrega corporal da atriz no processo de elaboração da atriz que montava Édipo Rei (sub-trama). Também foram utilizados auto-retratos de Andy Warhol, fotografias de Edie Sedgwick, Vladmir Herzog, Elvis Presley, abordados pelos atores no processo da elaboração de partitura corporal, onde a imagem era o estímulo pensado durante a vivência da dança pessoal.

Ao sentido imagético das iconografias de Loading é associada à abordagem idiossincrática da imagem, indo além do seu contexto sígnico histórico, tratando-se de uma relação de autoria sobre os ícones interpretados. Na relação com os procedimentos de atuação os atores são autores das iconografias que carregam (carry/load) durante a peça.


Iconoclastia:


Loading tem toda sua referência, pode-se assim dizer, na iconografia dos anos 60, 70. Mas, se pensarmos que esta iconografia já se tratava de uma iconoclastia, na medida em que o período constituiu-se por várias instaurações transgressoras, seja nas artes, seja na produção filosófica, seja na organização sócio-econômica, é ingênuo encarar de forma ingênua o período que englobou, ao mesmo tempo, em lugares diferentes, Andy Warhol, Vladmir Herzog e a banda Pink Floyd.

Durante um período inicial, envolvendo longas conversas, quase num formato de encontros informais, descaracterizados aparentemente de ensaios, foi abordada a iconoclastia das artes nos anos 60. Apontamos cada produção contemporânea que, de uma forma ou de outra, sob as vestes de muitos novos nomes, nada mais faz do que reproduzir as transgressões dos verdadeiros transgressores, os contemporâneos do LaMama (em específico, no teatro). Foram encontros que serviram mais para amadurecimentos intelectuais, ou provocações pessoais, com o intuito de ressaltar o aspecto particular da produção artística. Aspecto pervertido hoje, em meio à comercialização da arte, transgressora ou regressora, em toda estrutura de publicidade na qual o artista deve arquitetar a sua produção.

O Núcleo de Espetacularidades não é um grupo de teatro, mas por um mero acaso, nós nos conhecemos numa faculdade de artes cênicas. Por isso nos utilizamos desse meio, que é o que está mais próximo de nós, artistas sem nenhum nome ou notoriedade. Posso elucidar aqui, que o Núcleo de Espetacularidades, fundado em 2006, tem em suas raízes referenciais a iconoclastia dos anos 60, na medida em que este procedimento era autêntico em suas vicissitudes, e tratava-se de arte, da mesma forma que os textos de Shakespeare, escritos para um grupo de atores específicos, também se tratava de arte. O que investigamos, através de eventos diversos, dentre eles a peça Loading, é a idiossincrasia do artista, vetorizada por ele na sua produção (podendo esta possivelmente até não mais caracterizar-se por arte).


Idiossincrasia


O trabalho de pesquisa referencial para a peça Loading, como toda a produção do Núcleo de Espetacularidades, está alicerçado na idiossincrasia que procura por referência. E neste sentido, trata-se apenas de um processo humano absolutamente legítimo, de necessidade de identificação. Por isso lemos, assistimos filmes, peças, ouvimos músicas, ou conversamos com pessoas mais inteligentes ou menos inteligentes do que nós. Porque necessitamos, como todo ser humano, de identificação, de algo que externamente, nos caracterize como nós, e nos legitime internamente, seja por semelhança ou por oposição. O que visto de longe se assemelha com a antiga noção de funcionalidade da arte, re-colocada como a abordagem da arte enquanto função. Preferencialmente utilizo a palavra vetor, que parece atingir uma cadeia semântica mais científica do que a palavra função.

O processo de pesquisa está notificado por meio das referencias bibliográficas contidas neste documento, ficando aqui o destaque da idiossincrasia que se envolveu com cada material e, de forma muito particular colocou-se com relação a este. Nos três dias das apresentações pôde-se notar o grau de envolvimento de cada um com um todo, condensado na minha incômoda e perdida voz em off durante o espetáculo. E em cada dia foi se ressaltando que nós estamos tentando terminar com isso.


Entrevistas do site: www.geraldthomas.com

Vídeos do YouTube:

http://www.youtube.com/watch?v=7idi_5IaMrk

http://www.youtube.com/watch?v=ZutcjfJATRI&feature=related

http://www.youtube.com/watch?v=_cT10g9U9cU&feature=related

http://www.youtube.com/watch?v=KvOnRdMi4OM&feature=related

http://www.youtube.com/watch?v=uaAAmRDX4ok&feature=fvw

http://www.youtube.com/results?search_query=Vinyl+warhol&search_type=&aq=f


Toda tradução é uma traição!

Pela primeira vez o Núcleo de Espetacularidades trabalha com um elenco com mais de quatro pessoas na montagem de uma peça. Loading trata-se do projeto mais complexo e, num certo sentido, diferente, de todas as produções do grupo. Tem o formato de uma peça de teatro que aborda ícones históricos e artísticos, envolvidos num processo de referenciação metalingüística, que está sendo loadado metaforicamente na suposta montagem de Édipo Rei, de Sófocles, que ocorre dentro da peça. Os atores desta montagem de Édipo fazem das suas referências os seus monstros pessoais, e são presos a frases feitas, de caráter iconoclástico, como “toda tradução é uma traição”, como animais presos a necessidades fisiológicas (“Andy: Eles transavam o tempo todo”, fala da peça articulada com o momento mítico da descoberta de Édipo, acerca de sua real origem), como espirais ou círculos nos cantos de quadros pintados por Joan Miró.

A complexidade envolvendo tantas pessoas na produção fez com que tudo fosse muito mais do que aprender a montar uma peça de teatro. Percebemos que é quase impossível hoje em dia, um grupo com poucos recursos e menor ainda notoriedade, envolver tantas pessoas num projeto deste caráter. E temos quase certeza de quase não acreditarmos no que fizemos nestes três dias de apresentação.

A fase inicial, com laboratórios de concentração, lentidão e abordagem idiossincrática da peça, que funciona quase sempre como um processo de auto-conhecimento, onde também os envolvidos acabam se expondo mais do que o normal numa montagem de peça, acabando portanto se conhecendo num nível diferente dos contatos entre elenco de uma peça.

O fato é que o elenco quase se diluiu e nós quase desistimos de nos apresentarmos. Óbvio! Tanta gente envolvida, por mais de seis, sete, oito meses, é óbvio que num dado momento ninguém se suportaria. O mundo de hoje, propriamente dito, já não tem paciência para o teatro, muito menos para um grupo que não tem paciência para si mesmo. Dificuldades de conciliar horários, para encontros efetivamente produtivos, fizeram com que decidíssemos executar dois terços do todo ao qual havíamos nos proposto. Por isso, de fato, estamos tentando terminar com isso.

Cabe destacar que a cena final da peça era uma cena aberta, com apenas algumas marcações de atores ensaiadas, ou pequenos gestos que sabíamos que se repetiriam, seguindo apenas um roteiro de desmembramento, análogo à um HD que se desmembra num download maior do que a sua capacidade de trabalho. Mas que continua trabalhando, até que alguém tome alguma atitude. No caso, o público sair ou não, não fazia diferença, na idéia da cena. Cena que, inicialmente, nos expõe como figuras incapazes de executar o que de fato queremos. Isso gera certo paradoxo já que pode-se fazer a seguinte pergunta: como assim? Por que não fizeram o que queriam então? Trata-se primeiro de desconstruir o ego do ator, no limite do possível, evitando que ele sinta-se o máximo por simplesmente estar sendo visto (algo inconscientemente quase impossível de quebrar por completo num ator), mas esteja no seu máximo enquanto está sendo visto deslocado na dramaturgia, que trava. Deboche da filosofia, como Tom Stopard, e flerte com a poesia, como Kazuo Ono.

De acordo com o que foi proposto, em nenhuma das três apresentações esta cena teve seu intuito executado como gostaríamos. Por isso, o melhor é que uma cena não tenha intuito. Basicamente o público das apresentações era composto de amigos, ou estudantes deste mesmo curso (ou seja, inimigos também). A quem nós (no caso, o elenco) estamos acostumados a ver cotidianamente. Com isso, o efeito da cena, que envolve uma observação da postura da platéia, era de baixa intensidade, já que cada um tinha um amigo em especial no elenco para abraçar, e não via a hora de fazer isso. Essa relação de público influenciou bastante o ritmo das apresentações como um todo. A monotonia hipnótica é cansativa ao público de teatro de Curitiba, acostumado com eventos de impacto, ou desacostumados com relações que envolvam contemplação reflexiva e envolvimento subliminar na trama da comunicação.







E será que todos os envolvidos sabiam disso que estava acontecendo? É o que me pergunto, com certo remorso...


Ficha Técnica – LOADING:

Atuação (temperamentos de):

Bruna Marros

Clarissa Oliveira

Guilherme Marks

Rafaelin Poli

Ricardo Nolasco

Vanessa Benke

Walace Brassero

Límerson Morales

Iluminação(e lucidez):

Semy Monastier

Sonoplastia(e entorpecimento):

Límerson Morales

Maquiagem (e aquelas coisas de sempre):

Léo Glück

Cenário e Figurino (e bolo de aniversário):

Núcleo de Espetacularidades

Laboratórios (os temperamentos viram baratas):

Límerson Morales

Dramaturgia inicial:

Límerson Morales

Orientação (genial, genial, viva!): Luciana Barone

Encenação (muro de berlim entre o teatro e a poesia):

Límerson

Fotografias (e insistência):

Talita Morais (http://www.flickr.com/photos/talitamorais)

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Menos de um mês. E então, partir.





Loading estréia em menos de um mês. No Teatro Cleon Jaques, em Curitiba. Dos três dias da temporada, o dia do meio é o meu aniversário. Isso seria significativo, se não fosse tão comum na minha vida, essa data do aniversário ser sempre um dia com um bom tanto de afazeres. E eu não me entretenho com nada. Sou jovem pra isso, eu sei. Deveria me entreter mais com as coisas... é que desde pequeno fui me acostumando com a seriedade que tudo pode ter. Sou acostumado em me envolver em profundidades, das quais provavelmente nunca obterei resposta alguma. Os móveis da minha casa davam resposta quando eu conseguia imaginar boca e olhos neles. E a audição sempre será o sentido que me orientará em todo o meu processo criação. Processo de criação de alma e vivências, que toda pessoa desenvolve, com maiores ou menores níveis de percepção.

Até porque essa história de me envolver com artes, e logo especificamente com o teatro, fez com que gradativamente eu me afundasse numa porção de merda, bosta, lixo, detrito... a merda que falamos antes da merda das nossas peças. Estamos afundados nela. Depois, saímos para beber e nos passamos porque esta vida deve ser muito lastimante mesmo, pra ter que se passar tanto e enfiar o pé na jaca tanto e exacerbar tanto uma erotização, que na verdade é uma sublimação, uma merda de uma sublimação, que só significa que nossa tensão libidinosa ainda domina nosso inconsciente, desde que Freud entrou (inventou) na cabeça do Modernismo, ou entrou na cabeça dos modernistas o modernismo.

O teatro está submetido à condição de audiência como na televisão. O público que lota os teatros no Brasil é parte do público que compõe a audiência de uma Rede Globo, Sistema Brasileiro de Televisão, Rede Band, Rede Record, TV Cultura e MTV-Brasil. O público que lota os teatros no Brasil vai ver os ícones da televisão, há muito tempo isso acontece, e aquilo que o teatro comporta de atemporal, subjetivo e intuitivo, ou melhor ainda, o aspecto de risco do teatro fica substituído por este apelo à uma iconografia rasa. Rasa, mas revestida de moralismos travestidos, transversada também por alucinações textuais subliminarmente repetitivas e glamourizantes. Em Curitiba a nova geração de atores é uma geração de atores agenciados em agências de publicidade, modelos-atores, books fotográficos, testes de vídeo e rotinas deste aspecto. E acho que quem deveria ser conhecido nas artes cênicas, e isso no Brasil inteiro, não é conhecido. E, à despeito do valor que se tem em viver numa sociedade capitalista através do seu ofício (e isso no teatro, como sabemos, é bastante sofrido, exceto no ramo midiático-publicitário), muitos valores importantes estão sendo e já foram esquecidos.



Isso é nitidamente um processo de retroceder gravíssimo e lamentável e desestimulante, eu me desestimulo porque os artistas não estão fazendo teatro, estão em outros cantos. Em outras camadas da estrutura toda. Ainda é um retrocesso porque já se fizeram peças fora dos teatros (desde a Idade Média), ou peças para poucas pessoas, ou peças para uma pessoa, e até peças para nenhuma pessoa, como Grotowski, que eliminou o público polonês do teatro. Reafirmando o sentido do encontro no teatro, desenvolvido depois por Eugênio Barba, agora com público de volta. Hoje os teatros lotam, e também não lotam, mas por outras perspectivas de associação. Lotam ou não lotam numa relação de propaganda, publicidade e notoriedade. Não lotam por uma relação de publicidade, de propaganda e ignorância. Estamos afundados nesta merda.


Nos dias 1, 2, 3 de Dezembro o Núcleo de Espetacularidades apresenta LOADING, em Curitiba no Teatro Cleon Jaques, às 20h. Encerraremos este ano num período de imersão, que seria uma imersão no próprio umbigo de uma crise, mas deixando com o tempo algumas cabeças emergirem, como um pântano de onde surgem cabeças iconoclástico-iconográficas. Estou nos ossos, nas células dos ossos, nas hastes que sustentam ainda meu espírito, e encerro com um trecho do post anterior, ficando mais um tempo sem postagens, pois provavelmente eu estou iniciando uma etapa "sem tempo para":

"...já que é um pressuposto da minha presença, a pressuposição da minha presença que é um preço-posto. que se carrega com composição..."


Límerson, Curitiba (e Inferno Astral)

P.S. Fotos de Leituras, por Talita Morais: http://www.flickr.com/photos/talitamorais/

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

LOADING KING EDIPO PAGE

Uma coisa fragilizada feita de papel crepon que engatinha. engasga embasbacada engasga. cuspir é impossível cuspir é algo impossível cuspir algo impossível é cuspir algo incuspível. inesculpível não não é uma coisa tão desfeita assim uma coisa que é viva então, como dizem, se é vivo é algo mais complicado. saber que se é vivo é algo mais desconcertante. é o que há de mais incômodo em toda uma longa ou curta reflexão sobre a vida que se faz a vida que se fez ou a vida que se leva. sem dúvida algo de muito desconfortável e aborrecedor, o que traça as bases do insuportável. o medo a paranóia possessiva, é insegura e fragilizada essa coisa de que sou feito, sobre a qual me imagino.

Não chega a ser algo sobre o qual eu esteja falando, como uma temática no sentido de um assunto. já que é um pressuposto da minha presença, a pressuposição da minha presença que é um preço-posto. que se carrega com composição. não se chega a amor nenhum mas ainda se sofre, e o animal artista ou não é perecível. inexistente ou desaparecido.

http://colunistas.ig.com.br/geraldthomas/2009/10/11/10278/

Isso nunca vai desaparecer essa sensação insone. eu não sumo ela não some e não me consome, só eu me consumo. sumo só mas sempre soa a simulação. não me consagra nem se esvai, permanece conforme a minha atenção. cada passo quanto engano. cada engano então. não deixa de chegar a ser uma seqüência de passos. deve ser ou haver alguma sacada.
Conforme a minha atenção engatinho até a infância não a idéia. em aberto não em processo. em aberto. não. em processo. um irresistível carregamento de arquivos. imensurável como o que é um carregamento de pesos. medidas.

Camadas Dramatúrgicas

Que bobagem que horror, camadas my ass! Os dramaturgos... hahaha os dramaturgos... Quem vê as camadas (da linguagem do psiquismo) ou os núcleos (da linguagem telenovlesca) ou os setores (da linguagem didática) ou o que for de divisão com relação a fruição da linguagem é quem, propriamente frui a linguagem. Sim sim, a organização que o artista faz já é o duplo da organização da fruição da linguagem executada pelo público. seja nos planos conscientes seja nos planos inconscientes da comunicação (divisão didática que espero contribuir para... o que?).

São realizações de encontros que vão acontcendo, conforme seja o que penso sobre o teatro, estendendo-se (não em cronologia mas em associação simbólica) à literatura e às artes visuais. Os anos que foram legitimamente desconstrutivistas que colocaram todos estes suportes em estado de perigo, em estado de desmistificação, isso desde a iconoclastia duchampiana. Um desdobramento: existe o perigo de que sejamos incertamente construídos ou desconstruídos - e este perigo somos nós.
A profundidade ou a metafísica desta última afirmação está muito longe das produções artísticas de notoriedades e muito próxima do que está muito longe. Há muitos anos que a própria notoriedade, de tão facilitada e acessível mundialmente, tornou-se não notória, tornou-se mais uma coisa nenhuma. E é isto o que somos, mais uma coisa nenhuma, que será facilmente esquecida como todas as outras. Mas existe o perigo de que sejamos certos, de que precisássemos de uma construção, e este perigo acontece em muitos processos de identifiação artística. Aliás, o perigo sempre aconteceu. Hoje a arte não tem perigo nenhum.
O artista hoje deve estar engatinhando até uma comunicação que satisfaça sua inconsistência; e com isso me refiro mais ao seu desdobramento em função do que a sua função: social, cultural, pedagógica, comercial, o, que, for. Eu engatinho até a minha infância. Imprudência e inocência ou uma virgem colhendo flores ou vendendo flores na festa dos mortos. Que coisa genial é a vírgula: ou respira ou engasga a frase, que coisa mais genial!

E as camadas dramatúrgicas? Bem as coisas andam, tudo muito difícil, mas andam não andam? Um movimento repetitivo insuportável. A corda no pescoço mas no pescoço de quem e quando é que fica difícil determinar. Acabo de imitar alguém agora mesmo por exemplo eu tenho certeza disso. Uma corda no pescoço e tudo sempre esteve relacionado a um pescoço uma cabeça, sobre a mesa deixada como uma algo posto. Esta cena, com estas linhas de força, engatinha, eu engatinho por elas engatinha por referenciais iconográficos iconoclásticos mitológicos e representativos. Mas o referencial que não referencia cria outro processo de fruição, através do qual meu pensamento tenta se organizar: o peso que o artista (uma pessoa de uma época) carrega pelo mundo (load/carry). Concatenação de duplos que são só, o que? O que?

Não, tudo é muito mais difícil, e viver é muito mais perigoso do que dizia Riobaldo.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

O que me emociona.




E o que Duchamp dizia ha... sei la, já vai fazer cem anos, ainda é o que acontece. A vivência em grupo não passa de uma vivência individual. Para os pacientes, e os que possuem um mínimo conhecimento de leitura em inglês, acho que será uma bela vivência, como foi para mim. Estou cansado e preciso, realmente, descansar.

Límerson

terça-feira, 6 de outubro de 2009

GLITTER ANT em ARAUCÁRIA - PR

GLITTER ANT - BRILHO DE FORMIGAS (FORMIGAS GLITTER)

Núcleo de espetacularidades – Coletivo de Pequenos (nome que, aliás, acho horrível)

Data: 16 de outubro

Horário: 20h

Local: Espaço Cultural Teatro da Praça

Ingresso: R$4 e R$2

Duas cabeleireiras cortam a orelha de um artista, Vincent Van Price, um showman. Não, na verdade elas não cortam. Uma delas acha que cortou. Uma delas não. Não, na verdade são dois críticos de arte que acham que são cabeleireiros. Eles se julgam entendidos de lesbianismo, não, entendidos do cinema lynchiano. Não, não é isso... na verdade eles não têm nome. Formigas Glitter é uma junção de duas palavras com o único objetivo de confundir a significação com relação ao fazer artístico, com relação ao fazer não artístico, com relação à mim mesmo. Um evento muito bem freqüentado.

Direção: Límerson

Elenco: Clarissa Oliveira, Rafa Poli, Vanessa Benke, Guilherme Marks e Rafael Di Lari.

Iluminação: Ana Paula Frazão

Sonoplastia: Walace Brassero


"Após o sucesso no Festival de Curitiba 2009 o Coletivo de Pequenos Conteúdos retorna aos palcos. Dessa vez as Companhias Transitória, Subjétil e N.A.R.K.O.S.E preparam-se para entrar em cena no Espaço Cultural Teatro da Praça em Araucária nos dias 16 e 17 de outubro sempre às 20h.
A edição da região metropolitana conta com algumas novidades, como o espetáculo "Eu Nunca", da Cia. Transitória, sob a direção de Ana Paula Frazão.
A Cia. Subjétil apresenta o trabalho solo de Patrícia Cipriano e direção de Renata Petisco com o monólogo: " Palavras inúteis que exprimem poucas ideias ou manifesto ao apego", a cena pode ter várias interpretações dependendo da leitura e referência de cada pessoa, mas tenta brincar com o universo da solidão e as angústias do ser humano.
Já o espetáculo "O Beijo", do Teatro de Breque, um dos mais comentados pela crítica, não fará parte da programação de Araucária por problemas de agenda.
O Núcleo de Espetacularidades N.A.R.K.O.S.E traz até Araucária toda a irreverência e sarcasmo do espetáculo Formigas Glitter".

(Copiado do blog companhiatransitoria.blogspot.com)


P.S.: Não sabemos o que será, Glitter Ant que era Formigas Glitter, n.a.r.k.o.s.e. que agora é Núcleo de Espetacularidades, Límerson, the Knockouter knockouted, que já não administra muito bem suas... que precisa descansar. We are loading all this stuff we are carrying on and under and the zauberflüte. Mas, continuamos, na medida do possível.


domingo, 27 de setembro de 2009

NARCISSUS - N.A.R.K.O.S.E. vira NÚCLEO DE ESPETACULARIDADES

NARCISSUS directed by Gerald THOMAS from The Dry Opera Co. on Vimeo.


O p(P)olicial carrega uma bolsa feminina vermelha, demonstrando que aquilo era realmente algo muito caro. Aproxima-se de uma ex-atrizfrancesa, escondendo e (re)velando a bolsa. Pega algo escondido dentro dela e diz:- A senhora senhorita pode carregar para mim este... tijolo! Ia começar a rir. Arrir. Arrirrirrir. Arrirrirrira em silêncio. A cara esticou lentamente em riso enquanto o tijolo passava para as mãos da ex-atrizfrancesa. E foi embora, discretamente.

Ela estava estado de pânico com o tijolo vermelho na mão. Os dentes cerrados sorridentes. Vagabunda, ela pensava, vagabunda. Ainda pego essa filha da puta mal caráter ela pensava. Era algo que corroia que corria entre os dentes. Os cerridentes. Entrou um ator segurando um tijolo vermelho que era igual ao da ex-aquilo. Foi-se aproximando. Foi-se-aproximando. Ao que ela repetia: - oui, oui, oui, Je ne parle pas français, je ne par-le pa frran-cé. Isso para alguém começou a soar um suor que poderia ser muito mário de andrade. O p(P)olicial foi então chamado.

Voltou e matou o ator.

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Núcleo de Espetacularidades - Post in Process com Post Scriptum

Quanto mais eu demonstro que a minha real necessidade é de carinho, mais são as punhaladas que eu recebo. Não, não são apenas as desilusões afetivas que me estimulam a escrever aqui. Mas elas, as desilusões, não são menos importantes. As desilusões não passam de revelações, epifanias, maya e lyla, essa coisa toda... Há uma Constante de Avogrado no espaço entre as minhas desilusões. Minhas grandes ilusões idealistas.

No blog do Gerald Thomas (http://colunistas.ig.com.br/geraldthomas/) uma longa despedida do teatro, à partir de todas as associações do seu universo. O que é isso? Gerald Thomas ainda refletindo sobre a sua geração, e a estigma que ela carrega, a impossibilidade de contar uma história:

Além do mais, a minha geração não INVENTOU nada. Somente levou aquilo que (frutos de Artaud, Julian e Grotowski), como Bob Wilson, Pina Bausch, Victor Garcia, Peter Brook, Peter Stein e Richard Foreman e Ellen Stewart, etc., haviam colocado em cena. Faço parte de uma geração de “colagistas” (se é que essa palavra existe). Simplesmente “levamos pra frente, com alguns toques pessoais” o que a geração anterior nos tinha dado na bandeja. Mas quem sofreu foram eles. Digo, a revolução foi de Artaud e não da minha geração..

Com um pouco de sorte, o que eu acho, é que a minha geração será totalmente esquecida. Mas a que tipo de memória eu me refiro? Quer dizer, a que tipo de esquecimento? Não existe chance de sermos lembrados, na medida em que os acontecimentos de dez anos atrás já parecem não exercer importancia alguma. Um grande empecilho para arte, que sempre criou pontes temporais entre acontecimentos, entre ícones, entre simbologias. Eu, com 21 anos, não conheci nenhum dos meus heróis, exceto por livros. E quem lê? Minha nossa... tudo desdobra num despropósito.

“Mais do que nunca eu acredito que somente através da arte o ser humano voltará a ter uma consciência do que está fazendo nesse planeta e de seu ínfimo tamanho perante a esse imenso universo".

Outro trecho do blog do Gerald, outro trecho do meu pensamento, outra idéia muito vaga, que com muito esforço ainda se desenvolve pouco.

Estou para tomar uma decisão importante na minha vida, que ainda não sei qual é. O que eu sei é que é mínima, diante do tamanho do medo do vazio que ela pode desembocar. Meu Núcleo de Espetacularidades não chega a ser um grupo de teatro, ou uma companhia. Não conseguimos ainda. E o motivo disso é o envolvimento excessivo com ambientes onde a criatividade é igual a zero: um deles é a academia. Já escrevi demais sobre ela. Simplesmente não consigo mais. O envolvimento nunca houve e sempre houve. Mas a dependência da academia, e as relações viciosas que isso gerou, estafaram as minha concessões. Estou me tornando alguém rigoroso e deprimido. E cada vez mais, quando penso no trajeto deste estado, e me manifesto sobre ele como uma reflexão, uma interrogação, para quem quer que seja, não me compreendem. Porque esse estado todo é o estado da minha criação. Mas preferem dizer que estou perdendo a noção, que uso drogas em excesso, que estou errado em atacar os outros em atacar a mim mesmo. Words, words, words...

Eu moro numa casa com seis pessoas, uma espécie de república (coisa que não existe em Curitiba). Três deles são músicos, um é analista de sistemas, e os outros dois somos eu e Walace. Vim de uma vivência teatral com Márcio Pimentel, que hoje nem sei onde está, mas que foi o primeiro a me ensinar que a arte tem à ver com a criação, com a autoria, com a idiossincrasia. O primeiro a me falar em Duchamp, em Beuys, em Ono, em Thomas. Também foi o primeiro a falar abertamente sobre as drogas, bem como as suas, assim chamadas, referências, em hipnose, transe pessoal, ritualismo. Hoje o que eu sinto é que dei um passo para trás. Minha vida acadêmica, propriamente dita, em termos de produção de pesquisa, ou a potencialidade de eu ser um bacharel, tudo isso é um passo para trás. E isso é triste, para mim, para os meus pais, deve ser triste também para o Márcio, para o Walace, para o Gerald... ufa... precisamos de algo...

Não importa eu dizer o que eu preciso, são punhaladas atrás de punhaladas. Ninguém precisa ser um conformista. Pra mim já deu. Se forem lembrar da nossa, da minha era, como a era do twitter, do iPhone, do iPode, do orkut (esse já é tão velho quanto Antunes Filho) prefiram que esqueçam. Ai, que vergonha, ai, que dor no peito, ai que vergonha que eu sinto desse papel que eu faço. Não importa também o quão subjetivo tudo isso esteja parecendo. É uma subjetividade perdida, desesperada, deprimida.

(Blog sempre foi pra limpar o cu)

Límerson, criador do Núcleo de Espetacularidades.

P.S.: aliás...



FORMIGAS GLITTER

Núcleo de espetacularidades – Coletivo de Pequenos (nome que acho horrível)

Data: 16 de outubro

Horário: 20h

Local: Espaço Cultural Teatro da Praça

Ingresso: R$4 e R$2

Duas cabeleireiras cortam a orelha de um artista, Vincent Van Price, um showman. Não, na verdade elas não cortam. Uma delas acha que cortou. Uma delas não. Não, na verdade são dois críticos de arte que acham que são cabeleireiros. Eles se julgam entendidos de lesbianismo, não, entendidos do cinema lynchiano. Não, não é isso... na verdade eles não têm nome. Formigas Glitter é uma junção de duas palavras com o único objetivo de confundir a significação com relação ao fazer artístico, com relação ao fazer não artístico, com relação à mim mesmo. Um evento muito bem freqüentado.

Direção: Límerson

Elenco: Clarissa Oliveira, Rafa Poli, Vanessa Benke, Ricardo Nolasko e Rafael Di Lari.

Iluminação: Ana Paula Frazão

Sonoplastia: Walace Brassero


quinta-feira, 27 de agosto de 2009

O mesmo momento em momentos diferentes

Curitiba, Junkie House - Atravesso uma jornada que, neste momento, vou definir como um profundo distúrbio de sono e vigília. Mas é claro que é óbvio que eu sei que é muito claro que é muito mais do que isso. Deito no sofá da sala para aproveitar um dos (raros) momentos em que a sala está vazia. A TV está ligada, num volume que só me provoca mais sono, na verdade não me provoca nada, não me incomoda, é como um aquário. E durmo, entrando em processos de sonhos muito peculiares.

Quando sou acordado com o Senador Eduardo Suplicy levantando um cartão vermelho contra o presidente do Senado José Sarney. Tudo muito cênico, ofensas com pronomes de tratamento muito adequados, o Heráclito Fortes com a sua fisionomia "humorística", o mesmo espetáculo. O que estragou foi o comentário posterior, desse Arnaldo Jabor (que já foi cineasta "experimental", ou sem experiência?) que comenta na Rede Globo. E o Arnaldo fez o que? Deu o mesmo cartão vermelho para quem ele chama de "elite pensante brasileira". Deus do céu! Arnaldo... elite pensante brasileira my ass! A elite pensante brasileira é a elite dinheirante brasileira. De nada adianta esperar pelos "caras pintadas" como disse o Arnaldo, ou pelos artístas revolucionários, ou pelos pensadores brasileiros. Porque esses pensadores, como o senhor Arnaldo Jabor, por exemplo, não fazem e não farão mais do que ganhar o seu dinheiro no seu empreguinho. E é isso! Nunca vi comentário mais oportunista do que esse do Jabor, "cartão vermelho para a elite pensante brasileira". Se houvesse uma elite pensante brasileira o Senador Eduardo Suplicy não precisaria utilizar esse signo do futebol, para comunicar uma coisa que na Coréia do Sul não se comunica. Sai porrada isso sim!

O que é isso? Digam-me qual o objetivo disso tudo? Estou longe, muito longe, entre o sono e a vigília, e vejo um espetáculo de desmoronamento. Mas não é um desmoronamento, é um espetáculo de desmoronamento. De espetáculo eu entendo. E do desmoronamento do espetáculo, o século XX já entendeu o suficiente. Mas ainda insistimos em nos pautar por um sistema de informações, um sistema de conhecimento, e um sistema de aprendizado, temporalmente inadequado. O que eu quero dizer? Como o Sol que enxergamos, um Sol de oito minutos atrás. O desmoronamento que enxergamos, já desmoronou há décadas, e o nosso entretenimento ainda parece ser a REPETIÇÃO a estúpida REPETIÇÃO. Seja nas artes, seja na comunicação, seja nas organizações sociais, seja nas organizações do pensamento. A criatividade, o instinto e a intuição, deviam ser as nossas perspectivas.

David Lynch, em 1997, dez anos depois do meu nascimento, lançou o filme que, dez anos depois do seu lançamento, influenciaria muito a minha produção. E este filme chama-se Lost Highway. E daí? Daí que o filme começa e acaba com uma frase, a mesma frase: "Dick Laurent is dead". No começo ela é dita pelo interfone e quem atende é o Bill Pullman. No final, ela é dita pelo mesmo interfone, pelo próprio Bill Pullman. O mesmo momento em momentos diferentes. É isso, a dramaturgia que colapsa. E quem é Dick Laurent? O nome do ator é Robert Loggia! Aí é que tá...


Robert Loggia em Lost Highway, David Lynch (1997)

Robert Loggia em Scarface, Brian de Palma (1983)

Em Lost Highway, Loggia faz Dick Laurent, uma espécie de empresário mafioso pornô. Quem assiste outros filmes do Lynch percebe que é comum ele utilizar o seguinte recurso: algo acontece, algo, qualquer coisa, mas com uma trilha DENSA ou uma atuação mais fake, e então alguns personagens chave, simplesmente mudam de nome. O que é isso? Pura manipulação dramatúrgica. Só isso? Bem, Robert Loggia, em Lost Highway, é Dick Laurent. No mesmo filme, mas em outro plano dramatúrgico (O mesmo momento em momentos diferentes), Loggia também é Frank. E Frank é Dick Laurent. E daí? Simplesmente mudaram de nome? Pode ser. Mas o que dizer se, em 1983, Loggia faz um outro Frank em Scarface, de Brian de Palma? E o que dizer quando vemos que é o mesmo Frank? É o mesmo personagem, retirado de Scarface, e ressignificado em Lost Highway. É o mesmo momento em momentos diferentes. Uma dramaturgia muito avançada, que se apropria de tudo, dos atores, da sua história como atores, de certa escola de atuação, de TUDO. Totalmente criativa, intuitiva e instintiva. E o que o Lynch faz além de cinema? Escreve livros de meditação transcendental!

Não é irônico, Jabor? Até mesmo membros do que seria a "elite pensante" estadunidense, estão preocupados, como você, em ganhar dinheiro!

Límerson

sábado, 8 de agosto de 2009

Medo 2




Nada mais novo que isso. O mais novo retrato de si mesmo à cada dia. Reproduzir do começo com a memória dói. Dói de pouco. Alguém que, como Fausto, atravessa os limites dos anseios pelo conhecimento. Ou alguém que, como Riobaldo, relata um período como esse, de auto-conhecimento, com base nessa nossa vivência besta e absurda. Nada mais de novo.

Calma e controle e calma é difícil. Fica difícil e exije. Mexe. Não sabemos a razão, mas nos distraímos com frequência. Não, sabemos sim a razão. Sabemos do conhecimento do corpo. Das temperaturas do cérebro. Onde cada toque estoca armazenado? Onde guarda? É difícil e pode expiar logo. Carregamos nosso peso, e somos. Difícil é pouco, diante do medo.

E o medo é o de pensar tanto, e voltando até a infância sentir pouco, sentir lembranças, sentir nada. Saltar no ambiente das ambiências abandonadas. Claro, isso é muito ambivalente. Também melhora tanto piora. Estou com o discurso afetado. Estou. Porque atrás da imagem do medo está também a imagem do medo. E atrás da imagem também está. Sem amor.

À cada páragrafo, Riobaldo se atravessa, e eu estou muito afetado por isso, por cada parágrafo da voz tão particular de João Guimarães Rosa. E a minha vida está não está plena. Pequena. In in in significante.

sexta-feira, 31 de julho de 2009

O encontro está suspenso. Fiquem em casa.



Curitiba - Foi cancelada a apresentação do Formigas Glitter em Araucária, estado do Paraná. E isso por que? Porque temos que cuidar com a pandemia. Não, não vou escrever sobre o fim do mundo, ou a extinção da humanidade, nem me aproveitar disso para incentivar a cultura da paranóia.

Mas, basicamente,está acontecendo o seguinte.



A Organização Mundial de Saúde deu orientações precisas sobreuma das principais formas de evitar o contágio da gripe Nova Gripe: evitar eventos que reúnam muitas pessoas. E o teatro é basicamente isso, um evento que reúne as pessoas. Então,por enquanto, esteja posto que a atividade teatral trata-se de uma atividade de descumprimento. Eu mesmo sempre descumprimentei o teatro, e essa áura mística e simbólica do encontro, que vem sendo pervertida por manipuladores conceituais, e perdidos.

Esfria cada vez mais em Curitiba, e o céu não muda o seu aspecto. O que isso faz com a sensibilidade das pessoas? Um mesmo céu cinza por semanas, no ambiente a mesma umidade, entrando e saindo pelas mucosas. Agora que precisamos ficar em casa, que as aulas foram suspensas, que muitos compromissos foram suspensos, que fica difícil enfrantar rotinas como de rodoviárias ou aeroportos, ou mesmo os tradicionais e tristes e divertidos "porres", podemos parar um pouco. Só nos resta ficar em casa mesmo. Eu me afundo no café.




O encontro do teatro, para assistir a uma mentira, que "todos" "sabem" ser mentira, mas insistem em assistir, porque alguma história sempre está relacionada a um jogo de espelhos com a pessoa, ou a própria organização gestual, visual e sonora que arrasta a psiquê. Como o pessoal que se encontrou em março nas apresentações do Formigas Glitter no Teatro Universitário de Curitiba, passando pela sinopse (que era uma sinopse de "nada", composta com frases da peça), para ver uma mistura deVincent Van Gohgh com Vincent Price, que na verdade era um performer fracassado. Esse encontro está suspenso. Acho bom. Acho realmente bom. Fora o lado paranóico disso tudo, fora o lado hipocondriaco, fora essa loucura...é um tempo para ficar sozinho. Isso devia voltar a ser equacionado quando se fala em bem estar social, quando se fala em reforma na educação, e principalmente quando se fala em produção artística. Um momento para ficar sozinho, tratado também como um encontro, tratado também como uma cena, preenche de "conteúdos" psíquicos riquíssimos nossas tentativas de encontros "na vida real".

É só isso, só mais um período onde a preservação é o principal leitmotive, a linha de força que parece reger tematicamente o nosso cotidiano. Espero que seja um vírus que nos ensine um pouco sobre a auto-preservação que não nos ensinam na escola, nem na faculdade, nem na iniciação científica, nem na pós-graduação. A preservação do que nós somos, é parte de um raciocínio que mistura filosofia e história, e está sendo desenvolvido por mim, em forma de dramaturgia.








Límerson, autor e diretor da peça Glitter Ant (Formigas Glitter - Brilho de Formiga), cancelada nesta semana em virtude da orientação da Organização Mundial da Saúde. Estas fotos foram tiradas da apresentação no Teatro Universitário de Curitiba, em março de 2009, por Emmanuel Peixer.

sexta-feira, 24 de julho de 2009

"NONADA"

Tenho que começar a reler Guimarães Rosa. E a ensaiar uma peça composta por um elenco de seis ou sete pessoas, já não tenho certeza, todos atores/estudantes de artes cênicas, já não tenho certeza. Acho particularmente que alguns estudantes de artes cênicas deviam estudar matemática industrial ou oceanografia, mas algumas figuras são realmente interessantes. O interessante mesmo é que, confusões egóicas à parte, são figuras contraditórias ao extremo, complexas ao extremo e trágicas. Quando toda esta história de desgraças acabar, e só restar o material perecível que carregamos e pelo qual nos justificamos, só a marca da nossa dor no mundo é o que vai restar. Esta peça se chama Loading e em nada tem à ver com Guimarães Rosa.

"NONADA"!

Mas amanhã não pretendo acordar. Não insistam.

domingo, 12 de julho de 2009

Afinal, anestesiaram o entorpecimento ou entorpeceu a anestesia?




Curitiba -
Quando eu era um adolescente escrevia poemas, sombras dos ícones que eu lia na época. Seja Vinicius de Moraes, ou o poeta torto Drummond, ou Machado de Assis (esta sombra ainda permanente), ou Mario de Andrade, ou ainda Edgar Allan Poe, Shelley, Byron, Bukowski, ou quem fosse. Incestuava a própria história da literatura na minha produção, desproporcional em vários aspectos. Melhor seria ter virado rockstar. Seria bem melhor...

Fui estudar teatro porque diziam que era bom para acabar com a timidez. Que conceito mais besta... Também diziam que ajudava a superar desafios. Outra bobagem sem tamanho que pouco tem à ver com o teatro como conhecimento, como construção de pensamento. Quer dizer, esta abordagem do teatro, muito comum nos cursos particulares de muitos "não vou dizer o que" espalhados por aí, faz com que, de certa forma, eu possa afirmar que o teatro destruíu a minha vida. Calma, não é bem assim, eu explico.

Em primeiro lugar, o teatro não acaba com timidez nenhuma, e nem é aconselhável ingressar em qualquer tipo de coisa que acabe com a timidez. Isso é um absurdo. Acabar com a minha timidez pra que? Se é nela que se condensa parte da minha história, boa parte da construção dos meus pensamentos também se dão em momentos de timidez. E a timidez, o medo de se comunicar, o medo de se expressar, são necessários parâmetros da expressividade idiossincrática. Como o teatro lida com a comunicação em larga escala, tudo tem que ser alto e grande (porque nos grandes auditórios as velhas míopes e surdas sentam-se no fundo), como o teatro é o lugar de onde se vê, deve ser bom para acabar com a timidez! É isso! Não! Não é bom para isso, não faça teatro para isso. Quando a timidez está atrapalhando, transformando-se em algo mais pathos, não faça teatro para acabar com isso. Deus do céu, que preguiça de refletir.

Por muito tempo o teatro era a anestesia contra a minha timidez. Anestesia, em alemão, narkose. A foto do cheetah anestesiado mostra como parte da minha personalidade, a timidez, foi anestesiada, anulada, num processo de entorpecimento narcótico e narcísico. Confusão de conceitos mal refletidos, só isso. O teatro sempre vai ser o lugar onde se reflete sobre si mesmo, como a arte sempre relfetiu sobre si mesma, como um duplo. A anestesia nas artes sempre era suprida por acréscimos comunicantes ao que foi suprimido. Se o dadaismo e o surrealismo anestesiaram o sentido lógico da litearatura, da pintura e do cinema, contrabalançou a supressão do logos com com a dilatação do mythos. E Duchamp, anestesiando a aura? Anestesiando qualquer relação de entorpecimento iconográfico numa relação de entorpecimento iconoclástico? O que contrabalançou? Nada, o pós-dadaismo, pós-modernismo, até o contemporâneo (os nossos) anestesiam o entorpecimento e se entorpecem pela anestesia.

Tenho ansiedades, inseguranças, e delírios. Pra que isso? Seria melhor parar, seria melhor se eu tivesse virado rockstar. Mas estes também foram atravessados pelos seus próprios fantasmas. Enquanto nos atravessam, como um vento, nos retraem. Lou Reed, Alice Cooper, John Lennon. Minha última peça fala sobre a iconografia (Formigas Glitter, 2009). Estou ensaiando uma nova peça (Loading) que fala sobre a iconoclastia. De que? De que se trata o Núcleo Espetacular n.a.r.k.o.s.e.? A sigla é em aberto, e carrega nesta gama, a anestesia e o entorpecimento. Isso que atravessou as vicissitudes das histórias incestuadas envolvendo a produção teatral, dramatúrgica e cênica. O pessoal do teatro se entorpece bastante, inclusive depois das apresentações. Costumam beber até cair, cheirar até cair o nariz, e trepar. No n.a.r.k.o.s.e., depois das peças, eu vou pra minha casa e choooro. De repente recebo uma ligação, uma das atrizes, choraaaando... numa criiiise... TUDO tem à ver com a anestesia do entorpecimento, e com o entorpecimento da anestesia, variantes da crítica artística, das noções de estética, e da autoria de poéticas. É um vocabulário que estou tentando organizar, com base na filosofia, na poesia e na história. E que é demorado, pois exige reflexão.

Dos artistas que criaram o seu próprio vocabulário, com base em traços dos mais particulares e idiossincráticos, sempre nos lembraremos dos mesmos. São os que estão nos livros, pelo menos, quem os lê? Poucos. Pouquíssimos e pouquíssimos fazem um bom uso da memória, porque o artista com vocabulário próprio trata dos seus próprios extremos, dos limites dos seus próprios extremos, e dos não limites dos seus não próprios extremos. O que envolve risco, de vida, de morte e de fracasso. Já tenho falado sobre o fracasso e a falha por aqui. Quero encerrar com esta história sobre a timidez que me atravessava. O teatro só foi um dos meios que me influenciaram a refletir sobre mim mesmo. De todos, o teatro foi o que mostrou menos resultados práticos. Pouco devo ao teatro. E isso de o teatro ajudar com a timidez e com superação de desafios tem um nome: picaretagem encima da insegurança e da insuficiência alheia. O teatro não faz nada mais do que as outras artes fazem, organiza os pensamentos.

E cada um que organize os seus, começando já. Ou daqui a alguns instantes. Ou depois de ver os recados no orkut. Ou depois da série que passa às 19h. É melhor tomar banho antes porque mais tarde vai esfriar. Fome, sempre sinto fome. Não há alimento.


Límerson (poeta, autor, diretor de teatro e jornalista)

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