quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

Uncle inside/ Reveillon glitter

Rafa e Vanessa em Formigas Glitter/2008
Foto: Chico Nigueira



Depois de um excesso de exageros (minha nossa, como consigo começar um texto assim?), não há sistema nervoso que agüente o mesmo ritmo. Na verdade, há sistema nervoso que agüente sim. Pois se não houvesse, noventa porcento dos adolescentes desta geração de adolescentes, teria sucumbido à algum colapso, diante de qualquer (e não faltam opções de quais) escolha escolher. Mas meu sistema nervoso deixou de ser o de um adolescentes, e por sorte estou longe da minha adolescência. Minha relação com esta fase vem sendo a de uma observação temporal. E o que importa? Bem, pretendo encontrar o que deu no que... Pra chegar nisso. Provavelmente não encaixarei todas as peças, mas estou numa espécie de caminho, numa espécie de produção. E estou em extinção.
O reveillon? Bem, passei conversando com meu tio, que está numa daquelas espécies de liberdade que os presos tem. Dia 5 ele volta. E foi isso, ficamos fumando, bebendo e conversando. Foi uma situação estranha. Sem ser original, ele sugeriu que eu tomasse cuidado com determinadas vivências, com determinados consumos (inclusive cuidar para ninguém bater cinza de cigarro no meu copo de cerveja pois isso pode me deixar doidinho), e toda esta conversa foi muito interessante.A condição em que ele se encontra, condição inimaginável, de vivência inimaginável, faz com uqe ele observe de forma mais ampla o que acontece no mundo. E isso é incrível pois até onde me conheço, teria me matado no primeiro dia de prisão. Ele está tentando produzir, ser mais comunicativo, menos internalizado. E ele entende a solidão que as pessoas estão sentindo e como isso é angustiante, como é angustiante tomar decisões por si só. Sempre tem alguém querendo olhar com quem você se deita, não se deita, se deleita, falos, fumos, fodas, que loucura. Que solidão. É impossível, é ignorância não observar, que aparecer com a sua própria cara no mundo, é muito dolorido, amar é tão dolorido quanto odiar, e conhecer é tão mais dolorido que desconhecer, mas reconhecer é um passo.
Conversamos também sobre a irmã dele, minha mãe, que ele insiste distraidamente em chamar de minha irmã, isto é, referindo-se a minha mãe como sendo minha irmã, quando é irmã dele, enfim... não sei, já me acostumei e sei exatamente de quem ele está falando. Da minha mãe. Do que sou mais nítido reflexo afetivo e afetado, e este conhecimento, cada vez mais amplo, cada vez mais óbvio, permite que eu caminhe anywhere. E tudo o que estou encaixando na minha vida vem sendo minha responsabilidade agora. Então ele falou da Alcione interrompendo um show em Bauru, por causa do som ruim, e eu comentei do Caetado interrompendo o VMB da mtv envergonhado ao lado do David Byrne, pra eles arrumarem aquela porra.
Tudo isso pra quê? A grosso modo , pra passar o tempo. E neste grosso modo deixo que tudo se contamine, ou melhor, vejo que tudo está contaminado. Neste ano reapresentaremos o Formigas Glitter, em Curitiba, no Festival de Teatro (a vida selvagem), junto com outros grupos com trabalhos com menos de 50 minutos, sei lá, por mim... sei que agora tenho mais vontade e interesse em arrumar e rearranjar muita, muita, muita muita muita muita coisa desarranjada. Mostrar pra Rafa com mais clareza, como vincent van price está totalmente fodido e provavelmente seja um tipo de personalidade desconjuntada in natura. Perdido numa trama da minha cabeça, envolvido com duplos, duplas, dublés de cabeleireiros apresentadores de um programa de tv sobre cabelo e arte e lesbianismo. Ainda sim, se coincidir com o show do radiohead, estarei em off. Apenas. Meu tio policial ex-policial mostrou que é isso mesmo pra mim. Tem que haver uma investigação um interrogatório uma busca uma apreensão de si mesmo. E terça ele vai e eu volto a ser o único fumante da família. Difícil.

Um comentário:

na disse...

é o primeiro relato de ano novo que eu gosto por me tocar, sem ser dramatico, mas apenas sensivel. e basta. gostei!

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