segunda-feira, 13 de abril de 2009

Desaprendemos a explorar nossa merda de crise no mundo + Reportagem sobre Formigas Glitter

"Crítica: Experimentalismo crítico

Formigas Glitter é confuso, mas faz críticas contundentes
Reportagem Elisa Barbieri
Edição Rafael Rodrigues
 Cabeleireiras -ou críticos de arte- confundem o público no TUC
Cabeleireiras -ou críticos de arte- confundem o público no TUC (Elisa Barbieri)

Parte integrante do Coletivo de Pequenas Histórias teatros experimentais de curta duração —, Formigas Glitter, apresentado na tarde da última terça-feira, é tão nonsense quanto o seu título. Duas cabeleireiras ou críticos de arte que entraram em crise por serem muito parecidos podem (ou não) ter cortado a orelha de um artista importante. A orelha cortada pode ser do showman Vincent Van Price ou de Vincent Van Gogh. Eis uma trama pouco comum.

Sem cenário, mas com um figurino e maquiagem marcantes e som mecânico, todo o sentido (ou confusão) da montagem é dado pela atuação de vários atores que representam, aparentemente, os mesmos personagens. Mas as críticas feita pela peça não se perdem nas aleatoriedades.

A peça fala de pessoas famosas e reconhecidas que não fazem jus às qualidades atribuídas a elas: cada vez mais pessoas sem talento são consideradas grandes e importantes artistas. Fala também de traumas infantis: essa, que deveria ser uma fase de descobertas, acaba sendo uma fase de cobranças. “Você não sabe, você não estudou, você não se dedicou, você não deu o seu melhor”, diz um trecho.

Mas, no final, o que o espetáculo mostra é a impotência da sociedade diante dessas coisas. Faz questionamentos sobre um mundo que não quer saber a verdade. “O que você pode fazer a não ser ficar em silêncio? O que você pode fazer a não ser o que já está fazendo?”, provoca o texto. Denunciando a apatia do ser humano, que abaixa a cabeça para tudo, o elenco se despede. Sem explicar de quem era a orelha e se, de fato, ela foi parar num urinol."

e no blog eoutraspreliminares.blogspot.com
desire comentou vagamente que odiou a peça, e por causa disso, foi bombardeada por uma porção de opiniões, tão relativas quanto as dela, mas com uma diferença. uma espécie de purismo nas opiniões fazia com que aquilo soasse incômodo. uma espécie de juízo de valor da diferenciação,do tipo "você não entende nada disso, então não pode opinar". não concordo. só porque ela não entende de teatro (meu deus... entender de teatro... não me façam rir...) ela não pode falar? e por que não? e por que não? sei que foi muita gente que gostou da peça, que às vezes mais pra defender do que pra conversar, que acabou se jogando encima dela pra derrubar os argumentos. mas na internet? na internet ninguém derruba ninguém. aqui todos nós somos gênios, não é assim? e não existe intenção nenhuma pré-definida, não é isso? ou não é isso? e aquilo virou uma infinita e desnecessária polêmica, que serviu mais para divulgar a peça, e para eu entrar em contato com a Desire, do que para esclarecer alguma coisa sobre teatro ou sobre nós.
eu ainda prefiro descobrir quem é a Desire. assim como queria descobrir quem é a Elisa Barbieri, que fala que "cada vez mais pessoas sem talento são consideradas grandes e importantes artistas". mas eu não sei quem assiste teatro em Curitiba... sinceramente não sei.
eu venho do interior de são paulo. Bauru. um reduto de junkies e gênios perdidos. quem vai ao teatro em Bauru? ninguém... quem faz teatro em Bauru? alguns... por que ainda estão em Bauru? Não sei. Quem vai ao teatro em São Paulo? Um pessoal que não agüenta mais nada, que já viu gente fazendo Puck, gente fazendo Lucky, gente se cortando, gente babando, gente se filmando, dançando, jogando pneus, cagando, mijando... uma pequena nova iorque, onde tem uma espécie de público para tudo, ainda que não seja "aquela maravilha". Mas nada fica vazio. Em Bauru fica vazio, porque não tem público específico. Em São Paulo sempre tem alguém com alguém que sabem muito bem onde meter os pés. E em Curitiba?
Vazio, vazio, vazio, quase da mesma forma que Bauru. Claro que tem gente! Um dia ou outro. Sim. Com uma boa divulgação, como foi a organização do Tiago e do Pablito, sim... claro. Mas e fora do Grande Festival Mundial de Teatro de Curitiba? Quem continua montando peças e quem continua indo? Pouco sabemos. Sabemos bem a cara do público das peças apresentadas pela Máscaras. E sabemos bem quem são eles. E eles também sabem bem quem são eles, e por isso é o grupo melhor estruturado por aqui. Este que todos os envolvidos na "cena alternativa" apedrejam, estes sabem muito bem o que estão fazendo. É muito fácil meter a boca no Fiani. Mas o que fazer?
A Cia Silenciosa tem uma espécie de público específico às suas produções, mas tem uma inteligência muito além deste público específico. Isto faz com que eles sejam muito bons para o seu público, um conjunto de "indies, deslocados, junkies, andrógenos e loucos", e também consigam se comunicar com qualquer pessoa que pense no que estão fazendo, que vejam, que olhem, o que estão fazendo. Los jogadores provechosos são esse pessoal da Cia Silenciosa. No entanto, penso eu que, uma hora ou outra, não caberão mais em Curitiba, à não ser que busquem com isso o conforto e a comodidade, dos marginais tv à cabo, dos gênios andrógenos, dos junkies lariquentos, dos indies perdidos. E mais, achei do caralho Los Juegos Provechosos! Na frente do McDonalds, bonecos, wet T-shirt and Leo Glück falling... feeling mesmo. A melhor coisa parecida com peça de rua no Festival de Teatro de Curitiba.

E até onde vai tudo isso? Até quando vai durar este Festival de Teatro, antes que alguém o exploda, sabote ou boicote? Não creio que dure o suficiente até nossa desorganização juvenil que se diz de opiniões fortes tomar alguma atitude. Podem se reunir em seus coletivos ridículos, que nada significam, para decidir o futuro da vanguarda do movimento revolucionário. Eu vou ficar na minha casa, me acabando no (down)Loading, meu mais novo projeto, envolvido com a academia (e espero que o último), ou simplesmente dividindo um cigarro com alguém.
Depois do artigo, da Desire, da Elisa, do Formigas, de Bauru, de Curitiba acho sinceramente que é mais viável ao artista o nomadismo, sobretudo no período da juventude, mesmo que seja pra afirmação do conhecimento. No mínimo isso é conhecimento de verdade. Estar em todos os lugares possíveis de estar. Acho que nós teremos sempre que dar o fora daqui, Desire. Ou eu terei sempre que dar o fora daqui. Começou assim, em Bauru, e creio que permanecerá assim por um longo tempo. O artista ocupa o mundo onde vive sofrendo, e se diverte com aquilo que ninguém vê. Afinal, o que é aquilo que ninguém vê hoje? Possivelmente aquilo que alguém está escondendo. O artista de hoje desaprendeu a explorar sua merda de crise no Mundo. E aprendeu a ser explorado no Mundo da crise de merda.

Um comentário:

desire disse...

Simplesmente tudo o que precisava ser dito. Tudo o que está(va) entalado. Tudo o que parece tão difícil de digerir. De fato, somos nada mais que nômades. Estamos e estaremos sempre no lugar certo e no errado dividindo o mesmo espaço de tempo. Somos e seremos sempre estrangeiros. Nasci nesta linda cidade branca parasita e me sinto tão curitibana quanto um tamanco holandês (se é que ele ainda é holandês, nessa universalização de tudo mas ainda não de todos). A diferença é que nosso mundo evoluiu e não somos mais acolhidos como os estrangeiros dos gregos. Há tantas regras, tantas leis, e na realidade não há nenhuma! Não tem mais graça ir contra, afinal se vai contra o que? Ainda existe algo para se ir contra? E nós, indo contra, somos realmente contra? Afinal eu fui contra Formigas? Ou não seria só birra por me sentir tão distanciada daquele mundo ao qual julgava pertencer? (E de fato pertenço? Ou nego? Ou ignoro? Finjo fazer parte de qualquer outra outra outra coisa?) Querido, faço parte de seu público e ao seu último post, PALMAS!

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