sexta-feira, 29 de maio de 2009

Abafamento

Sinto-me como a aproximação mais abstrata do nada, uma emissão sonora em forma abafada. Respirar, preciso respirar. Ontém pude respirar um pouco, conversando com um ator e um diretor que moram em Curitiba. O primeiro divide casa comigo e o segundo dividiu o seu cantil de conhaque. Caminhamos por todo o centro até que minha respiração voltasse ao normal. Algum silêncio ainda me move enquanto minha tosse destrói a tranqüilidade que existiria, caso eu não levasse a vida que eu levo. Cada vez mais noto que os meus passos estão sendo dados para trás, por que será isso?

A história da humanidade me soa perturbadora desde os treze anos, e desde esta época, por algo deliberado, percebo minha afetação nesta equação. E dela que se exacerba um anti-jogo de espelhos, e é com os pés desta percepção que dou passos para trás. Anti-jogo de espelhos? Isso parece não estar claro no meu discurso. Aonde exatamente o pensamento se perdeu? PArece-me impossível prever com exatidão. Os sobreviventes das vanguardas, como Gerald Thomas, Ellen Stewart, Judith Malina, Zé Celso (para falar dos envolvidos em teatro, o que ainda acho que ainda faço) devem saber, talvez... Eu não. Eu sou um sobrevivente da televisão dos anos noventa, e da espectativa da informática. Uma psiquê com um apresentador, e macacas de auditório. Este trauma, traum, que em alemão é o sonho, não se constrói em quatro anos de faculdade... NÃO! Não faço mais faculdade, e não falo mais sobre isso nos próximos 10 anos. Esqueçam isso, é um mero acaso, menos que um caso perdido.

Preciso olhar para isso que (des) construiu a minha infância (e escrever assim não é um capricho estilístico, antes de ser uma postura idiossincrática). O olhar foi dilaceradamente imposto pela casualidade da compreensão. Enquanto minha adolescência foi repleta de ícones decadentes, todos mortos, por algum tipo de droga, ou poetas anônimos em suas épocas, ou pintores anônimos em suas épocas, tenho medo da minha adolescência também. E tudo isso aparece transfigurado num palco imaginário, um palco traumático (onírico), que não está em Curitiba, não existe. Curitiba não me conhece e eu não conheço Curitiba. Temos uma relação hipotética, menos do que nada hipersígnico, como a maioria das relações que não se estabelecem, onde um acha que está em contato com o outro, mas não está. O Cleber, o diretor, me falava ontém sobre isso, e é verdade. Este provavelmente é o meu maior incômodo. Ser um desconhecido, que resolveu produzir peças em Curitiba, uma cidade tomada por empreendedores comerciais, e listas e listas de editais! Não tenho acesso a nenhum dos dois meios, afinal hoje as pessoas são importantes por terem se tornado famosas, algo parece estar trocado e ninguém percebeu. Estou ilhado, à Tempestade. Estou como uma emissão sonora em frequência abafada. Preciso Respirar, respirar.

Pronto. Aconteceu novamente. Voltei ao começo. Isso sempre acontece... Eu até escrevia sobre isso, sobre uma retomada, uma reeeeobservação destes últimos dez anos, que obrigatoriamente nos leva a uma reeeeobservação dos últimos 30 anos o que nos leva a uma reeeeobservação dos últimos 50, 60, 70, eu não consigo parar! Minha cabeça funciona assim. Toda a produção, dentro do meu repertório, toda a produção artística, imbuída de alguma genialidade, pois os gênios sempre foram meu repertório, toda esta produção que remete ao imanente, que é tão difícil de encontrar, toda esta produção... toda esta produção parou no último ready-made. E se a genialidade esteve presente na popularização da genialidade, como resolver esta piada, quase interna? Repetindo ridículas exposições com objetos cotidianos, repetindo montagens arrastadas de Beckett, Müller, Pinter... ??Não sei vocês, mas eu não consigo dividir meu cérebro entre coisas inteligentes e coisas estúpidas de outro jeito, que não deliberadamente deixar de um lado as coisas estúpidas e do outro...

Um espelho porque, de qualquer forma, precisamos retomar, nós sempre estivemos falando da nossa vida, e a nossa vida está radicalmente inserida na nossa época. Tal radicalidade faz com que pareçamos deslocados, mas não somos mais uns desajustados, não somos mais marginais, nem heróis, infelizmente. Não esperem por nós. Principalmente porque, nesta época de instituições investigando instituições, sub-instituições meta-investigando mega-instituições, são gangsters lynchianos perseguindo os sonhos de alguma estrela do cinema. São tentativas de reorganizar o caos que está dilacerando com a nossa cabeça há tantos anos, dilacerando com as gestações que devem ocorrer nos próximos anos, dilacerando com a psiquê. E o que mais os grandes artistas sempre fizeram? Ah, sim... "não queremos mais ser grandes artistas"... não me venham com essa, por favor, isso é risível. Falem por vocês então hahaha, "não queremos"... ai ai ai nós estamos numa época histórica bem hipócrita, bem teatral mesmo.

Acho bom, pela conversa que tive ontém com o diretor e o ator (Walace), começarmos a pensar um pouco melhor sobre isso, sobre nossa própria produção. Era mentira a mentira desvelada. Era meta-verdade, era teatro. Eu preciso respirar, sinto-me abafado... O desmoronamento, a farsa, o pastiche, TUDO o que foi desconstruído o foi em relação a alguma escolha pessoal, referente a um contexto específico. Se continuarmos nos enganando com o engano modernista, pós-vanguardista, nosso trauma se tornará intransponível, irremediável, imaterial.

Límerson, diretor do Núcleo Espetacular n.a.r.k.o.s.e.
(um grupo de teatro de atores traumatizados)

terça-feira, 19 de maio de 2009

Não estão levando nada nem ninguém à sério mais

Estou esgotado do dia de ontém. Poderia nem me levantar hoje, porque ontém foi um dia que me esgotou. Pensando nisso, percebi que na verdade, o dia se esgotou através de mim. E se esgotou ... estou perdido... se esgotou... esgotou-se? E tornou-se esgoto. Tornou-se, ao final do seu percurso, o esgoto. Estou esgotado.

E será que precisava de tudo isso? O que significou tudo aquilo que aconteceu ontém... (nada... a resposta não pode ser nada) a resposta só pode ser nada. Enquanto eu caminhava pelas ruas biarticuladas, intermináveis, penetrantes, à caminho do Cabral, o bairro nobre de Curitiba onde fica a Faculdade de Artes do Paraná, eu pensava... Jacó Guinsburg... Jacó... um dos fundadores da Editora Perspectiva, em 1965... Jacó Guinsburg... professor de crítica teatral na USP... é engraçado. Na entrevista ele deixou claro que preferia a cachaça ao trabalho, que o Décio "inventou" que ele ia dar aula na USP... mas ele também deixou clara uma coisa que hoje parece rara, o "conhecimento notório". Conhecimento notório... acho que já deu pra entender o que eu quero dizer não?

Bem... dizer mesmo, eu não queria ter dito nada. Mas ontém, na Faculdade de Artes do Paraná, ocorreu a tal banca das peças do quarto ano, de teatro. Na Fap, uma faculdade estadual, existe uma espécie de patrimônio, uma etiqueta de patrimônio, e um número de patrimônio, não é isso? Nas cadeiras, nas mesas, nas televisões, e em tudo o que é comprado com dinheiro do estado, do Paraná. Ontém, eu tive uma briga com uma professora de artes visuais, que montava uma exposição no hall de exposições. Não foi uma briga, mas foi um atrito. E um incômodo muito grande, porque eu precisava de dois cubos que ela utilizava para a exposição. Como de costume na Fap, um lugar que nada significa, escondido entre o Juvevê e o Cabral, do qual noventa porcento de Curitiba não faz conhecimento, na Fap você tem que se virar. Pedir esmolas, como ridículos cubos, usados para apoiar uma exposição que nada significa, porque eu precisava destes cubos, para a minha banca do quarto ano, que também nada significa.

Tudo bem, nada significa, nada significa. Será que não? Não será estranho esta professora de artes visuais ter dito que comprou estes cubos com dinheiro particular... numa faculdade estadual... não soa estranho? Afinal, o que mais na FAP é comprado com dinheiro particular? É Doação? Comprou e doôu, ohhhh que bonito, que patriótico, que libertino, porque não? Então é da faculdade, da instituição, do estado... Foi isso que eu não entendi. Se ela comprou os cubos, porque eles sempre estão à solta pela fap? servindo como apoio de bundas, apoio de cenas frágeis, apoio de projetos, mesinhas, enfim... se os cubos são delas ela que leve pra casa, senhora dona dos cubos montadora de exposição. Não é assim que funciona? Ai ai... mas o que mais na Fap foi adquirido desta forma? As privadas também foram compradas com dinheiro privado e devem ser protocoladas? Proctocoladas?

Então... de toda a balbúrdia de ontém, o que houve de sério? Nada? Absolutamente nada? Parece que sim, mas não estou aqui atacando nada disso, estou querendo entender melhor, ou estou querendo ver quem ainda não entendeu? Quem ainda vai ter coragem de entrar nos portões da Faculdade de Artes do Paraná, com sua carinha de anjo acadêmico, de macaco de biblioteca, com sua agenda na mão... nossa... o que é isso? Uma Faculdade com dois blocos que não passam de uma quadra, bancas de teatro, exposições de artes visuais, e falta de espaço para essas duas coisas acontecerem ao mesmo tempo! E eu penso, Jacó Guinsburg, e eu penso "isso foi há 50 anos atrás, imbecil". É isso. Não é a USP! Não é a UNICAMP! Acordem, vocês estão na FAP!

Não é uma pergunta que será respondida, com algum tipo de reflexão, talvez com algum tipo de sinceridade, aquela sinceridade inocente, sim. Mas reflexão... é difícil. Mas eu vou tentar... acadêmicos da fap, vocês vão continuar levando isso à sério? Quer dizer... a professora não queria emprestar o negócio por cinco minutos, porque "ela" comprou, e nesse "ela comprou" existem muitas entrelinhas, e existem muitas entrelinhas como essa na Faculdade de Artes do Paraná. Muitas? Quantas? Quais? Será que eu quero ver notas fiscas? Boletos? É... Procto colos? Será que é isso que nós vamos ter que ver? Será que teremos que levar tudo isso tão à sério? Eu não fui levado à sério ontém, um elenco de seis pessoas não foi levado à sério ontém, um curso na fap não é levado à sério pelo outro... é assim. Será que o Centro Acadêmico pensa nisso? Porque não mudam seu nome para Epicentro Acadêmico? Seria mais sugestivo. Acabou! Não estão levando nada nem ninguém à sério mais! É algo maior do que vocês pensam...

Não sei... considerando a escassa leitura deste blog, considerando a existência deste blog o próprio esgotamento da leitura, o esgotamento do dia de ontém, ninguém nem vai perceber, ou vai guardar por muito tempo isso na memória. Hoje está rolando a outra banca do quarto ano, a exposição de artes visuais, o grupo de choro, alguém sabe disso? Alguém em Curitiba sabe o que está acontecendo na Fap? E na PUC? Talvez, na PUC talvez. E na Fap? Não na Fap não. Mas está acontecendo isso, acreditem. Eu até poderia estar lá, mas acho que agora vocês entenderam, estou esgotado.

Estou esgotado, de um esgoto que pouco significa.

Curitiba, 19 de Maio, 2009.

quarta-feira, 13 de maio de 2009

Placebos, projetos e Prozacs - É o sangue do Rambo ou de Rimbaud


Curitiba - Não dá mais! Sera (im)possível o quão insuportável esta fala se torna cada vez mais insuportável cada vez que é repetida? Mas não dá mais. Não tenho mais tempo para encontrar meus amigos, meus amigos de Bauru acham que eu me esqueci completamente deles. Meus amigos que não estão mais em Bauru estão com menos tempo do que eu, provavelmente. E do que adianta Límerson - a irônica poesia da vida, se há quase quatro anos eu não penso em poesia e nem em vida? Somente Límerson, e a ironia, Límerson e a ironia, Límerson e a ironia. Isso ficou maior do que eu pensava que eu era, e menor do que idealizava que isso fosse.


Eu mesmo tive que tirar os pontos da minha mão direita, porque não existe pronto socorro no centro da cidade sorriso. Calculem, como diriam os curitibanos, calculem... Como Rambo, eu mordi a linha com os dentes, e cortei meus próprios pontos, com a faca mais afiada e tetânica que eu encontrei. Ou como Rimbaud, viajo pelos infernos históricos, produzindo eventos que ficam sobre o "muro de berlim que divide a poesia e a filosofia". No final eu mesmo acabo arrancando os pontos, as cascas, e no final quem sangra sou eu. E hoje não consigo observar onde esta postura está inserida: na cena underground curitibana? na cena alternativa dos coletivos curitibanos? na cena imigrante bauruense? na fucking junkie house? Nada disso se consolida para mim, estou numa nuvem de fumaça. Estamos numa nuvem de fumaça, de cigarros fora de catálogo, de ervas envelhecidas e pipes entopidos. Mas tentamos ainda fingir que estamos vendo tudo, com muuuuita clareza, com muuuuita consciência, com muuuuita precisão. Não! Não e não!

Onde está esta precisão? Precisão? Na edição coordenada das mídias imbutidas no palco, com a ideologia ou a fraseologia ou a epistemologia de vinte trinta anos passados? Talvez, o dia que for compreendido que isto não passa de uma incorporação da tecnologia, que pouco acrescentou na autenticidade das produções artísticas que se influenciaram por isso. Pouquíssimo se acrescentou senão a própria repetição do que já havia sido acrescentado (a multiplicidade). E hoje a tecnologia incorporada autoralmente, isto é, com algum tipo de autencidade particular, idiossincrasia traumatizada, está presente apenas em Radiohead, provavelmente os artistas que estão no melhor auge que um artista pode ter (isso porque não quero falar dos velhos). O resto é imprecisão, não precisão... o resto é projetinho inacabado de um picareta decadente, ou é o coletivo de artes conjuntas dos gênios que não passam dos trinta anos, o resto, para mim, só fará parte da triste história, ou a triste parte na história, que apenas dois ou três países estão construindo.

Semana que vem eu tenho uma banca artística, onde minha cena será avaliada, por alguns acadêmicos, dando-me permissão ou não para executar minha mais nova produção, em "parceria" com a Faculdade de Artes do Paraná. Do que se trata? Trata-se do meu maior desgaste energético atual. Trata-se do meu cérebro, em esquizofrenia perpétua, com fluxos inorgânicos jorrando sem o menor canal que pudesse comportá-lo, e alguma matéria orgânica, em fase de gestação. É como se eu estivesse grávido de um relógio histórico, imbuído de alguma certeza estúpida de que Loading terá uma gestação tranqüila, sem grandes traumas. E abrisse momentaneamente, com qualquer bisturi envelhecido, a minha placenta, e a colocasse em avaliação. Depois eu costuro tudo, com alguns pontos, que sabe deus qual hospital em Curitiba vai fazer, já que não tenho plano de saúde.
Não é uma ultrassonografia obstétrica convencional. Veja como ficou a minha mão depois de eu mesmo ter arrancado os pontos. É uma ultrassonografia hipotética. E todos estão de acordo. É hipotético que a cena da banca resulte num resultado parecido com o final do processo, porque eu não sei o final do proceso. Não sei nem que processo!! Que processo? Processo my ass! Teatro precisa de tempo. A humanidade precisa de tempo. Não, na verdade a humanidade não tem mais tempo. Mas precisa de tempo, uma idéia de tempo que mais se assemelha a uma concentração do pensamento, nos seus próprios traumas específicos. Os mais de cinqüenta anos de mutilação d
o pensamento humano geram sangue até hoje... Estes glóbulos vermelhos não são meus... espera... de onde vem isso? De que século? Nossos traumas são de ordem mnemônica, fisiológica e erótica. E ainda nos interessamos em saber a quem matou elizaveta bam. Não sei vocês, que participam dos editais, que ganham dinheiro, e parecem estar de acordo, mas eu não tenho tido boas noites de sono. E meus sonhos andam arrebatadores.

Pra mim não dá mais. Só me resta observar até quando vai continuar assim. Até quando vai durar esta ultrassonografia hipotética, que nada significa, mas que toma decisões muito importantes e muito significativas para o rumo das produções artísticas. O obstetra está ansioso, since so many years, e não encontra nada na placenta, fora placebo, projetos e prozac.

P.S.:

Image Credit: NASA and Michael Rich (UCLA)

"A luz do Hubble está chegando ao fim", diz o blog da Ísis, http://xisxis.wordpress.com/2009/05/13/a-luz-do-hubble-esta-chegando-ao-fim/. E o que acontecerá? Entrará em ação o James Webb, com um espelho quase três vezes maior que o do Hubble. Simples assim. Entra algo melhor no lugar. Com o James Webb os cientistas pretendem observar as primeiras galáxias do universo, há mais de 13 bilhões de anos. A ciência entende tão bem as variações EXTREMAMENTE necessárias entre avanços e retomadas, tudo convergindo numa perspectiva de ampliar o conhecimento da sua própria área. Na filosofia sempre foi assim. Na arte deixou de ser assim. Há muito tempo, e por muito tempo surgirão coisas aqui, coisas ali, até alguém perceber que não dá mais pra continuar com só isso que se conhece. O que esta pessoa faz? O que esta geração faz? O que este movimento faz? Não retoma e nem vai pra frente! Que mal estar...

www.hubblesite.org

"Since the earliest days of astronomy, since the time of Galileo, astronomers have shared a single goal — to see more, see farther, see deeper.

The Hubble Space Telescope's launch in 1990 sped humanity to one of its greatest advances in that journey. Hubble is a telescope that orbits Earth. Its position above the atmosphere, which distorts and blocks the light that reaches our planet, gives it a view of the universe that typically far surpasses that of ground-based telescopes.

Hubble is one of NASA's most successful and long-lasting science missions. It has beamed hundreds of thousands of images back to Earth, shedding light on many of the great mysteries of astronomy. Its gaze has helped determine the age of the universe, the identity of quasars, and the existence of dark energy".


Límerson, como Tom Waits, considera a música análoga à medicina.



sexta-feira, 8 de maio de 2009

Loading King Edipo Page and the Schoolers


Hoje vou explicar para vocês como está se dando a execução da minha mais nova peça, pelo Núcleo Espetacular n.a.r.k.o.s.e. (sigla em aberto, ou siglo-ciclo de amplitude sígnica). O nome é
Loading, para apresentações americanas. Acho que mudaria o nome em outros continentes, afinal são outros lugares. Infelizmente (ou felizmente, talvez, forçando um pouco a barra) é um trabalho vinculado à academia, o que me favorece em espaços e um aparente contato com pessoas diversas. Felizmente (ou infelizmente, talvez, forçando um pouco a barra) eu pareço estimulado, ou em contato com pessoas estimuladas em, de alguma forma, participar disso. Mas além desta bobagem contraditória, que sempre existiu em basicamente cada afirmação mental estudada pela filosofia, quero destacar as situações pelas quais venho passando para levar isso adiante. Exatamente, girando em torno de Límerson, a irônica poesia da vida.

Vejam só, neste momento, por exemplo, eu acabo de sair de um ensaio do Loading. Este foi o ensaio da cena que apresentaremos na banca. Banca??? O que é isso?? Vocês passam por uma banca?? Sim, uma banca de avaliação, que avaliará, sob algumas perspectivas mais ou menos redundantes (banca tem que ser redundante), se a cena que apresentarmos corresponde com o projeto escrito. Projeto escrito, isso mesmo, um projeto da peça. Não sei muito bem o que é isso, pois cada projeto é de um jeito, mas atualmente, projeto parece ser a palavra mais utilizada pela academia, pelos artistas que vivem de arte (isto é, de editais), e pelos "gênios contemporâneos". Então, pelo que eu entendi, se a cena corresponder ao escrito, a banca diz : tudo bem, você pode fazer isso, pela nossa Faculdade de Artes do Paraná (de quem?). Todos recebem notas e são aprovados para a segunda etapa, que será desenvolvida no segundo semestre.

Deve ser muito complicado ser banca. Horrível. Perigoso. Principalmente banca de um processo em Faculdade Estadual, como é a Fap. Afinal, a banca que está tomando decisões é, de alguma forma, o Estado tomando decisões, não é? Simbolicamente (você quer dizer "no plano das idéias"?). Por exemplo: a Faculdade de Artes do Paraná organiza mostras de teatro, com trabalhos da faculdade, que passam por uma banca semelhante. A banca deste ano reprovou alguns projetos para a mostra. E aprovou outros. Decidindo o que, em 2009, a instituição estadual Fap, apresentará em sua mostra. Esta significação "estadual" faz com que eu considere esta decisão "seríssima....". No meu caso então, o quarto ano, passa por este messmo processo.

- É normal? Sim, é uma faculdade que se "organiza" desta forma.

Mas também é anormal. Quem é esta banca? Com que critério esta banca pensa o processo de adequar mentalmente, conceitualmente talvez, a cena apresentada com o projeto escrito. Com que tipo de equação eles trabalham? Possivelmente com uma boa carga de conhecimentos pessoais, afinal são os professores da instituição. Conhecimentos teatrais adquiridos pela experiência pessoal. Alguns com maior vivência prática, outros com maior vivência acadêmica, essa variação acontece, e não tem como fugir dela, numa faculdade com professores tão novos, às vezes recém formados. E mais anormal ainda, sou eu, ainda envolvido com isso tudo. Oh, eu devia ter percebido antes, eu não tenho muito à ver com isso.. ohh... enfim... já chega... posso ter continuado simplesmente porque meus pais precisam me ver formado. Não quero falar sobre família por aqui.

Retomando retomando, é anormal sim. E também é anormal a seguinte situação. Apresentar uma cena de uma coisa que não está pronta. Quer dizer... não é bem assim... mas, vejam se não é estranho, vocês. A apresentação de uma cena (formato) ensaiada, com duração de 10 minutos, em comparação ou em diálogo com um projeto escrito. O que faz o link? De um para o outro... o papel e a cena, um link... pelo amor de deus (que eu não ria), um link um link... quem sabe o que fará eles verem o link? Eu não vejo link nenhum. Ou vejo alguns. De qualquer forma está muito distante do que eu pretendo apresentar. Porque o que eu pretendo apresentar só acontecerá no dia da apresentação, e salvas todas as previsões, todos os ensaios, todas as marcações e marcações e marcações... no dia tem público. É o momento mais inseguro, e a gente finge uma segurança. O fingimento teatral. A mentira. Todos fizeram assim. Alguma faz daquilo que nós apresentamos algo seguro. É óbvio para mim que a mentiramentira para a banca é diferente da mentira para o público, que será diferente das mentiras das outras apresentações, e poeticamente se relaciona com a mentira dos ensaios. E toda esta mentira foi explorada por todos eles, Shakespeare, Gogol, Sófocles, e Brecht e Beckett e Genet e... e... hoje destroçados em genialidades banais, em cenas-aforismos modernistas que nada significam.

Então... anormalidades por anormalidades, é isso o que acontece nas produções teatrais da Faculdade de Artes do Paraná. No final eu vou dar risada, ou vou chorar, não sei. Agora, acho desagradável todo este procedimento pelo qual estamos passando, e acho que é um pedaço do esfacelamento hipnótico pelo qual passa (ainda) o procedimento global em artes atual. É desta forma que penso na legitimidade disso tudo. Não é legal, ou porque é particularmente chato, ou por ser uma imensa crise mundial. Prefiro não definir, por talvez não ter capacidade. Mas acho que dá para pensar pelos dois sentidos. Enfim... é isso o que vai acontecer no dia 18.

Queria fazer hoje uma espécie de postagem/diário de lamentos/sensação blogueira. Por aqui (internet) não me restam muitas alternativas.

Curitiba (entopida de carros), 8 de Maio, 2009.

domingo, 3 de maio de 2009

Oito Pontos - Da Experiência de Terceiro Mundo à Morte de Augusto Boal


Oito pontos na mão direita. De onde vem tanta pretensão sanguinária ou sanguinolenta? Todo o meu medo e pavor de machucar gravemente, que devo carregar desde o final da infância, quando de uma hora pra outra, tornei-me adulto (que hilário e ignóbil). Mas de onde vem afinal esta fixação no machucado? Na perda de sangue? E na morte? Da ausência de sangue desta última década, tão impregnada de espectativas que criou qualquer seqüência aleatória de entretenimento necrosal? Minha alimentação não anda nada bem, e me entristece pensar que continuo (ou continuamos, para os que gostam de um papo mais "a geração") na mesma intuição delirante, que atravessa retroativamente esta década, e aquela outra, e mais uma ou duas. Na mesma. E artista falido bêbado é um saco, a coisa mais insuportável do mundo, uma falação, um delírio, que é ridículo. Cada vez mais os bêbados me irritam mais. Minha relação com o álcool nunca foi positiva. Sempre achei uma coisa meio extremista e reducionista beber até cair. Já caí, estou caído, e quando resolvo aceitar a diversão proposta pelos meus amigos, caio mais ainda e arrebento a minha mão.

Da minha mão escorria mais sangue que da nova lista da Miramax, da nova peça do Paulo Biscaia, ou do "jornal popular que nunca se expreme porque pode derramar". E eu andei, por toda a Visconde de Nácar, pingando sangue pela calçada, em estado de choque, levando nãos e nãos a cada hospital, farmácia, posto, tudo! Claro! Curitiba não vai parar para me ver sangrar, numa experiência adolescente de embriaguês e "aparente vandalismo" (pois eu sujava cada calçada e gritava com cada transeunte). Ah sim, alguém me parou sim, a Ronda Ostensiva Tático Móvel, numa estúpida e absurda abordagem, provavelmente proporcionada por alguma denúncia contra o meu ato de sangrar e não saber o que fazer. Sustos, revistas, ofensas, que nada significaram, nada ajudaram, não parou de sangrar, não me acalmou... ai ai ai... enfim... uma experiência de terceiro mundo em tempo real. Eu, com tantas e mil e umas paranóias, gestadas desde a gestação, e tritetraplicadas especialmente nos últimos dez anos, levando geral de policial. Um lugar como esse só pode ter muita merda acumulada durante muitos anos localizada em muitas partes do cérebro (mas em Curitiba a merda é européia, não é cool? Não!).

Dentro desta seqüência de experiências terceiro-mundistas, envolvendo o consumo de "mim mesmo" em sensações de desarticulação, desilusão, e desorientação, recebo a morte de Augusto Boal. Longe de haver um interesse particular no seu teatro, gosto de ver aqueles que, de alguma forma, se articularam em resistência à perpetuação do auto-pensamento, isto é, do pensamento sobre a sua "própria" produção. É triste saber quase certamente que inúmeros chatos de galocha (de bombacha?) envolvidos sabe-se lá por que com teatro, vão repetir isso e aquilo sobre Boal, louvar isso e aquilo sobre Boal, e homenagear isso e aquilo de Boal, que sempre resulta na mesma coisa. Será um imenso teatro do invisível sobre isso. Eu prefiro lavar meu machucado, trocar meu curativo, como um "bom enfermo" do saudosismo depressivo seculovintista.
Límerson,a irônica poesia da vida, ou a crônica polifonia calada, está em transe. Retorno a escrever com a mão direita mais ou menos. Pensando na morte (de Augusto Boal, do SéculoVinte e de alguns movimentos da mão direita), à medida artística da auto-reflexão. O tratamento poético do indivíduo que, depois de décadas de cortes metalingüísticos, estilísticos, idiossincráticos, metafóricos, cortes cortes cortes... corta a própria mão bêbada, e vaga (preferia escrever "caga") pela cidade cinzenta pingando sangue. Sem medo da gripe suína, pois em nenhuma moléstia mais acredita, pede um cheesebacon. Enquanto espera, acompanha informações sobre a morte de Augusto Boal, o do oprimido, comprimido entre 19403857375934 de notícias na GloboNews. No Brasil, poucos conhecem Boal. Estes poucos podem aparentemente saber a profunda marca pessoal que é pensar sobre a sua própria produção, e construir o seu próprio vocabulário. Mas quem vive assim, quem vive disso, quem vive da construção do seu vocabulário (como Boal), da pesquisa das suas próprias mitologias (como Zé Celso), da popularização (como Shakespeare) dos seus próprios procedimentos (oudo procedimento da "própria"popularização, como Andy Warhol), esses são cada vez menos. Sabem por que? Porque isso é a morte!

Os imbecis e picaretas não morrem, continuam fazendo suas imbecilidades e as suas picaretagens. Não sei se queremos que eles morram. Queremos que eles nãonosencham o saco, nos deixem em paz e, principalmente, PAREM DE GASTAR VERBAS GOVERNAMENTAIS COM IMBECILIDADES E PICARETAGENS, ISSO REAFIRMA A PICARETAGEM GOVERNAMENTAL, E DESARTICULA A INTELIGÊNCIA DO BRASIL, EDITAL À EDITAL.

Enough, I´ll keep loading my Loading...

Curitiba, 3 de Maio.

Pesquisar este blog