sexta-feira, 29 de maio de 2009

Abafamento

Sinto-me como a aproximação mais abstrata do nada, uma emissão sonora em forma abafada. Respirar, preciso respirar. Ontém pude respirar um pouco, conversando com um ator e um diretor que moram em Curitiba. O primeiro divide casa comigo e o segundo dividiu o seu cantil de conhaque. Caminhamos por todo o centro até que minha respiração voltasse ao normal. Algum silêncio ainda me move enquanto minha tosse destrói a tranqüilidade que existiria, caso eu não levasse a vida que eu levo. Cada vez mais noto que os meus passos estão sendo dados para trás, por que será isso?

A história da humanidade me soa perturbadora desde os treze anos, e desde esta época, por algo deliberado, percebo minha afetação nesta equação. E dela que se exacerba um anti-jogo de espelhos, e é com os pés desta percepção que dou passos para trás. Anti-jogo de espelhos? Isso parece não estar claro no meu discurso. Aonde exatamente o pensamento se perdeu? PArece-me impossível prever com exatidão. Os sobreviventes das vanguardas, como Gerald Thomas, Ellen Stewart, Judith Malina, Zé Celso (para falar dos envolvidos em teatro, o que ainda acho que ainda faço) devem saber, talvez... Eu não. Eu sou um sobrevivente da televisão dos anos noventa, e da espectativa da informática. Uma psiquê com um apresentador, e macacas de auditório. Este trauma, traum, que em alemão é o sonho, não se constrói em quatro anos de faculdade... NÃO! Não faço mais faculdade, e não falo mais sobre isso nos próximos 10 anos. Esqueçam isso, é um mero acaso, menos que um caso perdido.

Preciso olhar para isso que (des) construiu a minha infância (e escrever assim não é um capricho estilístico, antes de ser uma postura idiossincrática). O olhar foi dilaceradamente imposto pela casualidade da compreensão. Enquanto minha adolescência foi repleta de ícones decadentes, todos mortos, por algum tipo de droga, ou poetas anônimos em suas épocas, ou pintores anônimos em suas épocas, tenho medo da minha adolescência também. E tudo isso aparece transfigurado num palco imaginário, um palco traumático (onírico), que não está em Curitiba, não existe. Curitiba não me conhece e eu não conheço Curitiba. Temos uma relação hipotética, menos do que nada hipersígnico, como a maioria das relações que não se estabelecem, onde um acha que está em contato com o outro, mas não está. O Cleber, o diretor, me falava ontém sobre isso, e é verdade. Este provavelmente é o meu maior incômodo. Ser um desconhecido, que resolveu produzir peças em Curitiba, uma cidade tomada por empreendedores comerciais, e listas e listas de editais! Não tenho acesso a nenhum dos dois meios, afinal hoje as pessoas são importantes por terem se tornado famosas, algo parece estar trocado e ninguém percebeu. Estou ilhado, à Tempestade. Estou como uma emissão sonora em frequência abafada. Preciso Respirar, respirar.

Pronto. Aconteceu novamente. Voltei ao começo. Isso sempre acontece... Eu até escrevia sobre isso, sobre uma retomada, uma reeeeobservação destes últimos dez anos, que obrigatoriamente nos leva a uma reeeeobservação dos últimos 30 anos o que nos leva a uma reeeeobservação dos últimos 50, 60, 70, eu não consigo parar! Minha cabeça funciona assim. Toda a produção, dentro do meu repertório, toda a produção artística, imbuída de alguma genialidade, pois os gênios sempre foram meu repertório, toda esta produção que remete ao imanente, que é tão difícil de encontrar, toda esta produção... toda esta produção parou no último ready-made. E se a genialidade esteve presente na popularização da genialidade, como resolver esta piada, quase interna? Repetindo ridículas exposições com objetos cotidianos, repetindo montagens arrastadas de Beckett, Müller, Pinter... ??Não sei vocês, mas eu não consigo dividir meu cérebro entre coisas inteligentes e coisas estúpidas de outro jeito, que não deliberadamente deixar de um lado as coisas estúpidas e do outro...

Um espelho porque, de qualquer forma, precisamos retomar, nós sempre estivemos falando da nossa vida, e a nossa vida está radicalmente inserida na nossa época. Tal radicalidade faz com que pareçamos deslocados, mas não somos mais uns desajustados, não somos mais marginais, nem heróis, infelizmente. Não esperem por nós. Principalmente porque, nesta época de instituições investigando instituições, sub-instituições meta-investigando mega-instituições, são gangsters lynchianos perseguindo os sonhos de alguma estrela do cinema. São tentativas de reorganizar o caos que está dilacerando com a nossa cabeça há tantos anos, dilacerando com as gestações que devem ocorrer nos próximos anos, dilacerando com a psiquê. E o que mais os grandes artistas sempre fizeram? Ah, sim... "não queremos mais ser grandes artistas"... não me venham com essa, por favor, isso é risível. Falem por vocês então hahaha, "não queremos"... ai ai ai nós estamos numa época histórica bem hipócrita, bem teatral mesmo.

Acho bom, pela conversa que tive ontém com o diretor e o ator (Walace), começarmos a pensar um pouco melhor sobre isso, sobre nossa própria produção. Era mentira a mentira desvelada. Era meta-verdade, era teatro. Eu preciso respirar, sinto-me abafado... O desmoronamento, a farsa, o pastiche, TUDO o que foi desconstruído o foi em relação a alguma escolha pessoal, referente a um contexto específico. Se continuarmos nos enganando com o engano modernista, pós-vanguardista, nosso trauma se tornará intransponível, irremediável, imaterial.

Límerson, diretor do Núcleo Espetacular n.a.r.k.o.s.e.
(um grupo de teatro de atores traumatizados)

Um comentário:

Ailton Junior disse...

Leia esse texto...

http://rizoma.net/interna.php?id=217&secao=artefato

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