domingo, 3 de maio de 2009

Oito Pontos - Da Experiência de Terceiro Mundo à Morte de Augusto Boal


Oito pontos na mão direita. De onde vem tanta pretensão sanguinária ou sanguinolenta? Todo o meu medo e pavor de machucar gravemente, que devo carregar desde o final da infância, quando de uma hora pra outra, tornei-me adulto (que hilário e ignóbil). Mas de onde vem afinal esta fixação no machucado? Na perda de sangue? E na morte? Da ausência de sangue desta última década, tão impregnada de espectativas que criou qualquer seqüência aleatória de entretenimento necrosal? Minha alimentação não anda nada bem, e me entristece pensar que continuo (ou continuamos, para os que gostam de um papo mais "a geração") na mesma intuição delirante, que atravessa retroativamente esta década, e aquela outra, e mais uma ou duas. Na mesma. E artista falido bêbado é um saco, a coisa mais insuportável do mundo, uma falação, um delírio, que é ridículo. Cada vez mais os bêbados me irritam mais. Minha relação com o álcool nunca foi positiva. Sempre achei uma coisa meio extremista e reducionista beber até cair. Já caí, estou caído, e quando resolvo aceitar a diversão proposta pelos meus amigos, caio mais ainda e arrebento a minha mão.

Da minha mão escorria mais sangue que da nova lista da Miramax, da nova peça do Paulo Biscaia, ou do "jornal popular que nunca se expreme porque pode derramar". E eu andei, por toda a Visconde de Nácar, pingando sangue pela calçada, em estado de choque, levando nãos e nãos a cada hospital, farmácia, posto, tudo! Claro! Curitiba não vai parar para me ver sangrar, numa experiência adolescente de embriaguês e "aparente vandalismo" (pois eu sujava cada calçada e gritava com cada transeunte). Ah sim, alguém me parou sim, a Ronda Ostensiva Tático Móvel, numa estúpida e absurda abordagem, provavelmente proporcionada por alguma denúncia contra o meu ato de sangrar e não saber o que fazer. Sustos, revistas, ofensas, que nada significaram, nada ajudaram, não parou de sangrar, não me acalmou... ai ai ai... enfim... uma experiência de terceiro mundo em tempo real. Eu, com tantas e mil e umas paranóias, gestadas desde a gestação, e tritetraplicadas especialmente nos últimos dez anos, levando geral de policial. Um lugar como esse só pode ter muita merda acumulada durante muitos anos localizada em muitas partes do cérebro (mas em Curitiba a merda é européia, não é cool? Não!).

Dentro desta seqüência de experiências terceiro-mundistas, envolvendo o consumo de "mim mesmo" em sensações de desarticulação, desilusão, e desorientação, recebo a morte de Augusto Boal. Longe de haver um interesse particular no seu teatro, gosto de ver aqueles que, de alguma forma, se articularam em resistência à perpetuação do auto-pensamento, isto é, do pensamento sobre a sua "própria" produção. É triste saber quase certamente que inúmeros chatos de galocha (de bombacha?) envolvidos sabe-se lá por que com teatro, vão repetir isso e aquilo sobre Boal, louvar isso e aquilo sobre Boal, e homenagear isso e aquilo de Boal, que sempre resulta na mesma coisa. Será um imenso teatro do invisível sobre isso. Eu prefiro lavar meu machucado, trocar meu curativo, como um "bom enfermo" do saudosismo depressivo seculovintista.
Límerson,a irônica poesia da vida, ou a crônica polifonia calada, está em transe. Retorno a escrever com a mão direita mais ou menos. Pensando na morte (de Augusto Boal, do SéculoVinte e de alguns movimentos da mão direita), à medida artística da auto-reflexão. O tratamento poético do indivíduo que, depois de décadas de cortes metalingüísticos, estilísticos, idiossincráticos, metafóricos, cortes cortes cortes... corta a própria mão bêbada, e vaga (preferia escrever "caga") pela cidade cinzenta pingando sangue. Sem medo da gripe suína, pois em nenhuma moléstia mais acredita, pede um cheesebacon. Enquanto espera, acompanha informações sobre a morte de Augusto Boal, o do oprimido, comprimido entre 19403857375934 de notícias na GloboNews. No Brasil, poucos conhecem Boal. Estes poucos podem aparentemente saber a profunda marca pessoal que é pensar sobre a sua própria produção, e construir o seu próprio vocabulário. Mas quem vive assim, quem vive disso, quem vive da construção do seu vocabulário (como Boal), da pesquisa das suas próprias mitologias (como Zé Celso), da popularização (como Shakespeare) dos seus próprios procedimentos (oudo procedimento da "própria"popularização, como Andy Warhol), esses são cada vez menos. Sabem por que? Porque isso é a morte!

Os imbecis e picaretas não morrem, continuam fazendo suas imbecilidades e as suas picaretagens. Não sei se queremos que eles morram. Queremos que eles nãonosencham o saco, nos deixem em paz e, principalmente, PAREM DE GASTAR VERBAS GOVERNAMENTAIS COM IMBECILIDADES E PICARETAGENS, ISSO REAFIRMA A PICARETAGEM GOVERNAMENTAL, E DESARTICULA A INTELIGÊNCIA DO BRASIL, EDITAL À EDITAL.

Enough, I´ll keep loading my Loading...

Curitiba, 3 de Maio.

Um comentário:

desire disse...

sem rumo e sem sentido pela nossa terra...

saudades.

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