domingo, 14 de junho de 2009

Estamos todos abandonados

Curitiba - Todos se encontravam com alguma freqüência, uns com os outros, nos lugares diretos e nos lugares indiretos. E todos se encontravam consigo mesmos. Com seus pensamentos, com seus LDS, com suas sativas, com suas pensativas tentativas. Sempre foi assim. Hoje, muita hipocrisia (uma palavra indiscutivelmente teatral) faz com que muitos hipócritas (o que os atores pensam que...) deixem de fazer isso, deixem de considerar este tipo de formação social, ou este formato de organização criativa, onde existem encontros, e reflexões sobre os encontros. Mas eu sei que sempre foi assim.

A maior parte dos meus amigos da oitava série (é uma sorte que eu ainda me lembre deles) estão fazendo sabe-se lá o que numa cidade chamada Bauru. Não me encontro com estas pessoas mais. Não vejo mais cada rosto e nem sinto cada cheiro adolescente de cada um mais (o que para mim era um incômodo inenarrável) pois mudamos todos de escola. As pessoas foram para as escolas mais caras, e eu para as mais baratas, então fiz amigos mais obscuros, vinculados a perspectivas profundamente tabagistas, ou com tendências muito grandes ao consumo de maconha e álcool. Isso tudo bombardeando meu inconsciente colegial. Abandonado e sem amigos. Cada aula, cada matéria, era insuportável, era desinteressante, era desprezível, então eu raciocinava comigo mesmo, em poemas absurdos que escrevia e não mostrava, ou em cartas anônimas que publicava nos jornais. Uma delas, por sinal, foi lida pelo diretor do colégio, que me repreendeu porcamente, como um porco DONO de COlégio PARTICULAR!

Agora moro em Curitiba. à cada dia que passa o frio aumenta mais, e eu estou congelando e delirando, neste hemisfério hipotético, neste ambiente absurdamente ideológico que é o Estado do Paraná, em comparação com o resto do país-brasil. É utópico. Mas a tranqüilidade realmente encanta. E como todo encanto, possui algo obscuro, possui algo velado. O encanto da tranqüilidade paranista é o bom-mocismo, que já foi pervertido há muito, e que não engana o brasileiro mais tapado! Não engana nem o curitibano mais tapado, e por isso os curitibanos são todos desconfiados. E todos abandonam seus amigos. Todos. São ridículos. Tapados. Aliás, o mundo todo, com relação a atitudes com as pessoas, anda tomando as decisões mais ridículas. Posso enumerar e nomear alguns amigos "curitibanos"... Heleno, o bailarino (que disse que ia dividir apartamento comigo e com Walace e nos deixou na Junkie House), que fica pedindo visitas no seu misterioso novo apartamento, que ele não diz onde fica. O Ricardo Mr Wild Wind in the World of Coke. Felipe Chaves, o último playboy do Brasil, que me deve uma visita, Ailime, Bruna... E mais algumas pessoas que, em geral, sem exceção, me abandoram e estão abandonadas em algum lugar. Não sei qual. Algum emprego ou algum apartamento ou alguma droga ou alguma mentira ou alguma coisa melhor do que a minha companhia. E eu sinto a falta de todos. Mas preciso sentir outras coisas.

Fico na minha imensa casa vazia, sentindo a falta dos outros, e ninguém simplesmente aparece, todos simplesmente estão fazendo outra coisa. Eu não tenho nada para fazer, é uma pena para mim. Vou ver se presto um concurso, ou dirijo uma peça, ou escrevo um poema apaixonado (porque sempre estou apaixonado, pelamesmapessoa). Acho que é uma época difícil mesmo, com um excesso de meios de comunicação e um retro(ex)cesso da própria comunicação, que vem se estendendo, ou se prolongando, ou se projetando, há pelo menos dez anos. Dez anos de puro simulacro. E existe uma parcela de orgulho nisso tudo que aconteceu nestes últimos dez anos, e este orgulho é legítimo! Mas eu gosto de observar a parte constrangedora da história da humanidade, e isso tudo também é muito constrangedor, sobretudo para os que são contemporâneos natos deste processo. Estamos todos abandonados.

E por falar em abandono quero escrever também sobre a imensa casa abandonada localizada ao lado da minha, na Saldanha Marinho. A casa dos crackers. Onde todo tipo de pessoa invade, fuma a sua pedra, mija, caga, trepa, vomita, esconde sabe deus o que... Todos que passam por ali, uma quadra pra cima do Ao Distinto sentem o mal cheiro, ou se assustam com os freqüentadores da casa, que são os freqüentadores do crack. O crack está destruindo o mundo, todos sabemos disso. Mas deixar que uma casa como aquela, seja destruída, seja posta em um estado crítico de saúde pública, com ratos, doenças e marginais, é o próprio abandono. E como eu disse, todos pulam ali, mendigos, prostitutas, crackers, maconheiros noiados, emos, travestis, carroceiros, todos. E ninguém faz absolutamente nada.

Chega, agora acabou, fomos abandonados. Pelos amigos, pelos pais, pelos professores, e pelos nossos pensamentos. Todos nos deixaram.

Rastejemos até a infância!

Límerson

5 comentários:

desire disse...

límerson límerson você me cortou em muitos outros pedaços agora.

já que já haviam tantos pedacinhos abobados dançando pela salacozinha de papel de parede azul e descascado.

fiquei espalhada como carne por ela fazendo preocupada em fazer outras coisas enquanto meus amigos meus límersons fazem outras coisas e não fazem nada e um dia já entrevejo no futuro indistante.

nós pedacinhos de carne dura. temo que eu tenha me abandonado.

desire disse...

temo que eu esteja cansada de fazer e fazer por algo que não tem rosto nem braços algo que quando eu precisar desse algo não será nada além de investimento abstrato.

sinto falta dos meus amigos.
odeio a faculdade.
odeio a obrigatoriedade de se ter uma merda de um diploma.
diploma minha vontade era cagar em cima da sua cabeça.

desire disse...

alguma coceirinha dentro do meu peito me faz ter esperança de que toda essa trajetória não seja escorregadia.

abraços e saudades.

Felipe Chaves disse...

Há mais ou menos um ano eu tento descobrir onde ficam as novas residências de Heleno, o Dançarino. Há mais ou menos um ano, bem, há mais ou menos um ano fui abandonado pela pessoa que eu mais "amava" e consegui descobrir que era a pessoa que eu mais odiava. Há mais ou menos um ano me "enfiei" em uma rotina destrutiva, assim todo este desconforto poderia passar. Bem, não passou, e muito pelo contrário, aumentou.

Por que não cessa este trovão da mente? Por que não cessa esta dor que apenas cresce?

Eu gostaria de estar fazendo qualquer outra coisa, menos existindo.

Sua falta é enorme, Límerson, suas palavras deveriam continuar soando em meus ouvidos quase que semanalmente como acontecia há algumas semanas, soando como um brado pós heróico de libertação do meu temeroso dia-a-dia que é apenas um enunciado de uma vergonha que florecerá em crise de meia idade.

Enfim, a visita está próxima, o café irá junto.

Ailton Junior disse...

É, o felipe visitou e eu vi. Já o Heleno... cadê o Bailarino que diz que é cantor que diz que é bailarino?

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