quinta-feira, 18 de junho de 2009

Glitter Ant - A Academia devia almejar mais à popularidade





Curitiba, a terra da dúvida e do pé atrás - Formigas Glitter é uma peça acadêmica. Entre os acadêmicos gerou todos os tipos de reações, aversões, diversões, e muitas muitas muitas digressões. E em cada apresentação foi se transformando, e se tornando mais acadêmica. Uma peça que pede aos acadêmicos, que dêem um passo para trás, e retornem a infância. Rastejem até ela. Ao o que ela é. E por isso provocou essa diversidade de reações, foi "a pior" peça de teatro para muitos que viram no Festival de Curitiba em 2009, e também foi um alívio, ou uma exacerbação do manicômio social contemporâneo, e para alguns foi a melhor coisa que aconteceu. Todos envolvidos de alguma forma com a academia, sejam estudantes ou freqüentadores ou professores, ou tipos como eu, que se relacionam com a academia por um mero acaso, pois não freqüentam como alunos, mas como estudantes ou pesquisadores ou viajantes ou nômades ou nada disso. Menos como alunos, porque há muito o ensino nos defeca, e hoje defeca-se no ensino. Sandices. Não, Formigas Glitter não é uma peça acadêmica não!

Sou acometido por memórias esparsas que surjem da infância: eu assisti à luta em que Mike Tyson mordeu a orelha de Evander Holyfield, em 1997, há mas de dez anos atrás, eu tinha 10 anos. Dez anos depois eu escrevo Formigas Glitter, onde a orelha de Vincent Van Gogh, arrancada com os dentes por Vincent Van Price (um gênio idiota, da geração dos idiólatras), é encontrada numa trama lynchiana paralela, envolvendo dois críticos de artes iguais (artes e críticos iguais entre si mesmos). É encontrada jogada, como o pedaço da orelha de Holyfield foi encontrado depois de ter sido cuspido por Tyson. Não sei se o Tyson cuspiu o pedaço que comeu no ringue ou se engoliu. Quem lutavam eram os críticos de arte, disfarçados de cabeleireiros (como muitos críticos de arte são, if you know what i mean). E Vincent Van Price, um artista contemporâneo, envolvido com as artes plásticas, as artes cênicas e com a filosofia, está sendo ovacionado pelos apresentadores, os rounders. Apesar disso ele é vulgar, rude, sombrio, grosseiro e violento. Sintomático do comportamento que apresenta o artista que passa pelas crises atuais. Devem provavelmente ter engolido o pedaço de orelha que o Tyson mordeu...

Mas parece que os acadêmicos não entenderam, quer dizer, alguns entenderam, mas... o que eu quero dizer é que a recepção não apresentou muita relação com isso, pelo menos em seus comentários. No blog da Desire, uma acadêmica de Letras da UFPR, surgiu uma polêmica absolutamente ridícula (eu quase escrevi risícula) que mais falou sobre liberdade de expressão do que sobre teatro. E discutir liberdade de expressão num blog, tá tudo bem mas, ah, deixa pra lá, é muito fácil cair nas ciladas do pessoal que discute liberdade de expressão, eles são os mais repressores repressivos. Repressão é outra história. Quanto ao endereçamento do Formigas Glitter aos acadêmicos, tem a ver com esta situação absurda do estado do Paraná, onde existe uma Faculdade de Teatro Estadual em total silêncio com a comunidade. Ela está em Curitiba, na mesma cidade onde encontra-se a UFPR, UFTPR, PUC-PR, TUIUTI, eu não sei como são estes lugares neste aspecto. Mas sei do diálogo constante destas instituições com a sociedade na qual estão inseridas, por meio de eventos sejam lá quais forem. No entanto, lá no Cabral, existe a Faculdade de Artes do Paraná. Não existe fluxo de diálogo entre a sociedade Curitibana e a Fap, o que faz daquele lugar uma máquina burocrática de muita tristeza. Porque a Academia sempre foi um ambiente que (ainda que restrito aos eruditos, ou aos iniciados, ou aos cabeções, conforme a história veio denominando os "acadêmicos") pretendia um diálogo com a sociedade. Isso se perdeu. É de chorar. A Fap virou um lugar de meninos que não tem o que fazer e precisam se formar para provar alguma coisa para os papais. am i one of them?

É risivo e risículo porque Formigas Glitter está inserido neste ringue de instruídos complexados, foi gerado, gestado, nesta rinha de galos, com o peito cheio de conhecimento. Mas como falar de academia para os acadêmicos? Não é isso, eu mesmo estou tentando me confundir. A pergunta é, para que falar de rinha de galos para os acadêmicos? E Tyson e Van Gogh e Van Price e Holyfield? Depois de Marcel Duchamp, Andy Warhol expôs toda a iconografia do século XX (Nova Iorque), e por isso mesmo toda a iconoclastia do século XX, multiplicando marylin monroes por elvis presleys tão rápido quanto o som da lata de coca-cola quando abre. Ah, então era por isso... é claro que qual quer pessoa pode observar o fato de uma forma diferente, mas pra ficar claro o ringue e a rinha tem de estar estabelecidos. E é mais claro ainda que o combate move a humanidade, em todos os sentidos. E em todos os sentidos, é natural que haja uma reconstrução. E por falar em confusão e reconstrusão e reconfusão, jornalistas agora não precisam de diploma. Ainda não entendemos que ninguém nunca precisou disso, ninguém nunca precisou da aprovação de ninguém. Mas todos, em vários estágios da vida, sempre sempre precisaram de alguma. Estamos devagar e cada vez mais perdidos...

Que engraçado... cair na mesma armadilha do final do século XX... não é tão engraçado assim.

Acredito sinceramente que estamos num processo de retomada de alguma coisa que estamos desesperados para saber o que é. Aparentemente, rastejamos pelos cacos mondrianianos, e ainda sorrimos das piadas de Duchamp (mas com certo incômodo). "É uma desgraça, mas é assim", para quem prefere Samuel Beckett, "apesar do tempo, da morte e da decomposição, estamos reunidos" para quem prefere Shopenhauer (não, não é do Shopenhauer). Não é tão engraçado assim, mas é engraçado. Acabo de descer um pouco na sala, e o pessoal estava conversando sobre o Fernandinho Beira-Mar, e sua indestrutibilidade. Isso é incrível, é a mesma coisa que sempre acontece.

O n.a.r.k.o.s.e. vai voltar com o Formigas Glitter, que passará a se chamar Glitter Ant, e veremos se desta vez haverá um knockout. E eu boto os críticos de arte pra brigar! Eu sinceramente espero que não haja, pois eu prefiro o tempo estendido da agonia até o juiz finalizar. Estendo o tempo da queda, o da dor, o da agonia, o do sangue. Estendo o tempo da mordida, da orelha cortada, da arte entrecortada. Porque eu sou o juíz. O juíz que não julga. O juíz nocauteado.

Um abraço em todos os meus amigos, sempre distantes, sempre em transe.

Límerson, The Knockouter Knockouted.

3 comentários:

Ailton Junior disse...

É...

Jorge Miyashiro disse...

E aí bauruense!
Ainda não aclimatou?
Desculpa invadir teu pirogui, mas como teu compatriota não posso deixar de meter o bedelho. Além do mais, nossa amiga Ana só fala de ti, acho que ela tem um... deixa pra lá.

Vc. não tava cansado daquelas trips calorentas naqueles botecos morféticos, sujos, infectados de botulismo, estreptococos... Nem um virus decente aquela Bauru(r) tinha!
Sabe o que é legal em Curitiba? eu ainda falo com sotaque de Baurur e ninguém comenta!!!! ninguém dá nota de ironia! Vai morar em SP ou Rio... é a porra colonialista lisboeta! É aquela mania monárquica, de achar que tem pingo de sangue azul. Aqui não tem isso. A mais loura das polacas acha que tem mais sangue bugre do que a índia paraguaia.
Um amigo bicha certa vez me disse que Curitiba é um lugar que respondem, corteses, quando se dirige a eles e te deixam em paz sem meter na tua vida. Vai pra BH e vc.vai ver as mariquinhas invadindo teu ape atrás de açúcar emprestado pro café, é um ataque de formigas...
Vai cara! Arruma uma polaquinha de olho azul cobalto enriquecido, ou se vc. for afim um polaco e visita Bru de dois em dois anos só pra deixar aqueles porras inertes que se dizem (vamos lá...) artistas, cagando de inveja!
Um abraço e boa sorte

Jorge Miyashiro disse...

Ah! Bom texto.
Uma edição seria bem-vinda, mas prendeu.
Tá jóia!
O que mais se quer da vida?

Ah! não vi a tua peça mas se as profes da FAP não gostaram, para mim isso é um indispensável critério de qualidade. Cinco estrelas!

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