domingo, 12 de julho de 2009

Afinal, anestesiaram o entorpecimento ou entorpeceu a anestesia?




Curitiba -
Quando eu era um adolescente escrevia poemas, sombras dos ícones que eu lia na época. Seja Vinicius de Moraes, ou o poeta torto Drummond, ou Machado de Assis (esta sombra ainda permanente), ou Mario de Andrade, ou ainda Edgar Allan Poe, Shelley, Byron, Bukowski, ou quem fosse. Incestuava a própria história da literatura na minha produção, desproporcional em vários aspectos. Melhor seria ter virado rockstar. Seria bem melhor...

Fui estudar teatro porque diziam que era bom para acabar com a timidez. Que conceito mais besta... Também diziam que ajudava a superar desafios. Outra bobagem sem tamanho que pouco tem à ver com o teatro como conhecimento, como construção de pensamento. Quer dizer, esta abordagem do teatro, muito comum nos cursos particulares de muitos "não vou dizer o que" espalhados por aí, faz com que, de certa forma, eu possa afirmar que o teatro destruíu a minha vida. Calma, não é bem assim, eu explico.

Em primeiro lugar, o teatro não acaba com timidez nenhuma, e nem é aconselhável ingressar em qualquer tipo de coisa que acabe com a timidez. Isso é um absurdo. Acabar com a minha timidez pra que? Se é nela que se condensa parte da minha história, boa parte da construção dos meus pensamentos também se dão em momentos de timidez. E a timidez, o medo de se comunicar, o medo de se expressar, são necessários parâmetros da expressividade idiossincrática. Como o teatro lida com a comunicação em larga escala, tudo tem que ser alto e grande (porque nos grandes auditórios as velhas míopes e surdas sentam-se no fundo), como o teatro é o lugar de onde se vê, deve ser bom para acabar com a timidez! É isso! Não! Não é bom para isso, não faça teatro para isso. Quando a timidez está atrapalhando, transformando-se em algo mais pathos, não faça teatro para acabar com isso. Deus do céu, que preguiça de refletir.

Por muito tempo o teatro era a anestesia contra a minha timidez. Anestesia, em alemão, narkose. A foto do cheetah anestesiado mostra como parte da minha personalidade, a timidez, foi anestesiada, anulada, num processo de entorpecimento narcótico e narcísico. Confusão de conceitos mal refletidos, só isso. O teatro sempre vai ser o lugar onde se reflete sobre si mesmo, como a arte sempre relfetiu sobre si mesma, como um duplo. A anestesia nas artes sempre era suprida por acréscimos comunicantes ao que foi suprimido. Se o dadaismo e o surrealismo anestesiaram o sentido lógico da litearatura, da pintura e do cinema, contrabalançou a supressão do logos com com a dilatação do mythos. E Duchamp, anestesiando a aura? Anestesiando qualquer relação de entorpecimento iconográfico numa relação de entorpecimento iconoclástico? O que contrabalançou? Nada, o pós-dadaismo, pós-modernismo, até o contemporâneo (os nossos) anestesiam o entorpecimento e se entorpecem pela anestesia.

Tenho ansiedades, inseguranças, e delírios. Pra que isso? Seria melhor parar, seria melhor se eu tivesse virado rockstar. Mas estes também foram atravessados pelos seus próprios fantasmas. Enquanto nos atravessam, como um vento, nos retraem. Lou Reed, Alice Cooper, John Lennon. Minha última peça fala sobre a iconografia (Formigas Glitter, 2009). Estou ensaiando uma nova peça (Loading) que fala sobre a iconoclastia. De que? De que se trata o Núcleo Espetacular n.a.r.k.o.s.e.? A sigla é em aberto, e carrega nesta gama, a anestesia e o entorpecimento. Isso que atravessou as vicissitudes das histórias incestuadas envolvendo a produção teatral, dramatúrgica e cênica. O pessoal do teatro se entorpece bastante, inclusive depois das apresentações. Costumam beber até cair, cheirar até cair o nariz, e trepar. No n.a.r.k.o.s.e., depois das peças, eu vou pra minha casa e choooro. De repente recebo uma ligação, uma das atrizes, choraaaando... numa criiiise... TUDO tem à ver com a anestesia do entorpecimento, e com o entorpecimento da anestesia, variantes da crítica artística, das noções de estética, e da autoria de poéticas. É um vocabulário que estou tentando organizar, com base na filosofia, na poesia e na história. E que é demorado, pois exige reflexão.

Dos artistas que criaram o seu próprio vocabulário, com base em traços dos mais particulares e idiossincráticos, sempre nos lembraremos dos mesmos. São os que estão nos livros, pelo menos, quem os lê? Poucos. Pouquíssimos e pouquíssimos fazem um bom uso da memória, porque o artista com vocabulário próprio trata dos seus próprios extremos, dos limites dos seus próprios extremos, e dos não limites dos seus não próprios extremos. O que envolve risco, de vida, de morte e de fracasso. Já tenho falado sobre o fracasso e a falha por aqui. Quero encerrar com esta história sobre a timidez que me atravessava. O teatro só foi um dos meios que me influenciaram a refletir sobre mim mesmo. De todos, o teatro foi o que mostrou menos resultados práticos. Pouco devo ao teatro. E isso de o teatro ajudar com a timidez e com superação de desafios tem um nome: picaretagem encima da insegurança e da insuficiência alheia. O teatro não faz nada mais do que as outras artes fazem, organiza os pensamentos.

E cada um que organize os seus, começando já. Ou daqui a alguns instantes. Ou depois de ver os recados no orkut. Ou depois da série que passa às 19h. É melhor tomar banho antes porque mais tarde vai esfriar. Fome, sempre sinto fome. Não há alimento.


Límerson (poeta, autor, diretor de teatro e jornalista)

Pesquisar este blog