quinta-feira, 9 de julho de 2009

Alguns problemas uterinos ainda não foram resolvidos

Curitiba, sim, o mesmo lugar - Parece que faz menos de dois anos que não encontro os meus amigos de Bauru mais importantes. Mas deve fazer mais tempo, não sei. Estamos distantes da relação quase terapêutica que era sermos uns companheiros dos outros (dois ou três), quando viviamos sob os trópicos calorentos de Bauru. Aqui no cinza, tudo se organiza como uma miniatura. Todos fechados, como é melhor para a psiquê. Danificar ônibus, terminais, e estações tubo, ou não pagar a passagem, encarece a tarifa.

Fico muito sozinho, apesar de morar com muitas pessoas. E este estado sempre teve afinidade com o meu jeito de ser. Mas passei por períodos de muita solidão, muito isolamento. Chega a ser incômodo porque, quando você se relaciona de uma forma satisfatoriamente produtiva com uma pessoa que seja, toda a interpessoalidade flui com mais natureza. E por muito tempo, os entretenimentos eram muito ao léo, ao vento frio curitibano, tropegar pela XV, coisas do gênero festivo. Mas com pouco envolvimento. Com a psiquê entocada. Não gosto disso. Eu prefiro Beckett com seu "Try again. Fail again. Fail Better". Samuel Beckett, que foi demais para o Núcleo Espetacular n.a.r.k.o.s.e. (sob a minha direção). Sucumbimos com Beckett, e muitos estão até hoje esperando Godot. Trancados em apartamentos, presos a compromissos da vida real que, à longo prazo, simbolizam a construção de um alicerce, de uma morada, de um útero.

A segurança uterina que tracamos nos trejeitos das nossas experiências! Quanta segurança... quanta paz... será? Será que as reuniões entre os países mais importantes do mundo vai ser capaz de organizar a nossa vida? Hoje, que cada vez mais nos comunicamos pior, e nos ressentimos pois o avanço da comunicação trata-se de uma simulação. Tantas são as opções que temos para nos comunicarmos, mas sobre o que estamos falando? Creio que já não sabemos se damos passos para frente, passos para trás ou passos no mesmo lugar. O teatro de Samuel Beckett flerta com essa incerteza arriscada, com o errar melhor. Como o Oficina flerta com os riscos que envolvem a mitologia antropofágica brasileira. Como a Ópera Seca parece flertar, e incestuar os riscos da dilaceração da narrativa modernística. A imagética.

Estes e outros flertes que transformaram as artes, falavam de transformações históricas, de trajetórias humanísticas, de antropologia, tudo envolto (ou envolvendo) numa psiquê em dilaceração. Hoje que isso acontece em escalas de proporção infinitamente maiores, com o que flertamos? Parece ser com qualquer coisa que proporcione prazer relacionado a segurança. Bobagem. Não encontraremos segurança nenhuma. Precisamos de lucidez, de luz. Luz encima desta lenta trajetória que acontece em retorno ao útero. A luz que ela emite é o que me atravessa, através da travessia, e me assegura, pelo menos quanto a lucidez. Lucidez quanto à política na qual estamos envolvidos, o que é muito trabalhoso em países como o Brasil. E lucidez quanto aos nossos relacionamentos, as relações que fazemos.

Os símbolos estão nos movimentando, estamos seguindo as mesmas narrativas gregas, referentes ao culto da beleza, e as mesmas narrativas romanas, referentes à política, entretenimento, esportes, arte, tudo! Mas um jogo de espelho faz com que este nosso trajeto narrativo também seja um retorno ao útero, às gestações mal resolvidas, ao próprio parto, passando por infâncias mal crescidas, até o que somos hoje. Uns descompensados. Aqueles que se encantarem demais pela aparência do ritual, talvez se percam, como os que estão perdidos. É difícil. É preciso atenção, porque durante o retorno acabamos nos deslumbrando com o que já nos deslumbrou. Uma imagem, em segundos... um susto.

Tenho pensado em tudo isso, depois de ser acometido por certa sensação positiva. Ainda é positivo conversar com as pessoas, como sempre foi positivo pensar (e nunca existiu pensamento negativo).

Límerson

9 de Julho
2009

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