quinta-feira, 2 de julho de 2009

As veias esticadas num imenso fio especulativo, ou apenas América

Curitiba - A Folha de São Paulo publicou uma entrevista com o cientista político norte-americano Aaron Schneider, onde ele avalia o golpe de estado que depôs Manuel Zelaya como "um desentendimento dentro da elite hondurenha". El des posto, depois de um longo "plano" com a OEA, anuncia o seu retorno ao país. El in terino Roberto Micheletti alertou que Zelaya será preso se retornar ao país. Daqui de longe, de não muito longe, nos trópicos não muito trópicais (mas muito "tropicalistas), isto é, Curitiba, só chove. Ahh, a chuva... ahhh, o frio... ahh... ahh, o não pertencimento. Bem, daqui de longe, numa mesma América, uma mesma veia se estende, mas está longe de ser aberta.

Então, Schneider usa estas palavras para continuar "Por isso, não é tão impressionante que a maior parte do país esteja calma, sem grandes mobilizações pró ou contra Zelaya". Não, as veias abertas não estão mais abertas, mas esticadas sob múltiplos tecidos, constituídos por múltiplos tipos de fios confusos, OEAs, UEs, Brasis, Congressos e uma caralhada de instituições, uma investigando a outra. Ou seria meta-investigando, em linguagens oficiais, em encontros e assinaturas? Assim é a política, relações que são estabelecidas. Hoje paguei o aluguel, e achei impressionante ver um monte de papel virar um papelzinho, quase um bilhete, "pago". E assim, por meio destas mega-organizações de convenções, este meta-sequenciamento de protocolos, o mundo vem tentado organizar a sua vida.

Nenhum país reconheceu a deposição de Zelaya, e em Honduras, o segundo país mais pobre da América Central, a situação de desinformação da população é crescente. Jornalistas vem sendo agredidos, segundo denúncias, emissoras de TV e rádio de fato enfrentam diversas limitações quanto a veiculação de informações sobre Zelaya. Mas... ele diz que vai voltar. No entanto, para a população geral, na observação de Schneider, o envolvimento desse golpe de estado com as suas vidas é raso. A população "apenas assiste atônita aos erros de seus governos", já que o golpe não representa "um grupo de ideias, de ideologias nem das bases da sociedade civil". Bem, Schneider é um americano, dos Estados Unidos, especialista em América Central. Aqui no sul, da América, as coisas aparentam ser diferentes, mas trata-se de outro tipo de teatro, calcado nas mesmas convenções de representação, atuação e relação, também com outro tipo de público. Enquanto o governo de Honduras enfrenta uma grave briga interna entre as suas elites, que resultou nesta deposição, que pouco se relaciona com a sociedade diretamente, mas que por isso mesmo denuncia uma crise na estrutura democrática... enquanto isso, nós enfrentamos uma seqüência de revelações da preguiça, da falta de caráter, e da robalheira no nosso sistema democrático. Como já passamos por um golpe de estado (e o nosso presidente não voltaria), e por anos de governo militar,acreditamos possuir uma vacina "contra" isso, o que nos impede de enxergar estamos atados à teia dos fios organizativos. Honduras estava envolvida em projetos com o mundo todo, o Brasil pouco significará enquanto não retomar a sua própria observação (uma Floresta Amazônica com tanta biodiversidade, que nem um porcento dos que se orgulham do Brasil conhecem), e deixar de fingir certo amor pelo Brasil. Amor pelo Brasil? Mal se conhece o Brasil, eu entendo pouquíssimo o que acontece. E se existe algum amor pelo Brasil, existe em Glauber Rocha, existe em Nelson Rodrigues, existe em Mário de Andrade e... sei lá... existe em Guimarães Rosa, existe em Tom Zé, existe em Gerald Thomas e... Machado de Assis!

E muitos outros, eu me perdi completamente! Assim como eu vivo uma necessidade de antropofagia do resultado da antropofagia oswaldiana, e um palimpsesto do palimpsesto de Gerald Thomas, ou o palimpsesto da antropofagia de Glauber Rocha... estou num país que não se atenta para observar isso. Não observa uma diferença na crise política hondurenha entre a brasileira, por contextualização histórica, e observação vivencial. E também não observa uma semelhança, entre os significantes que gestam a ausência de comunicação entre as instituições que visariam servir à sociedade e a sociedade, mal servida por informações on-line.
Nossa política então tornou-se uma seqüência auto-fágica de revelações. Uma imensa meta-linguagem, escancarada nos meios de comunicação. Sim... estamos melhores que os Hondurenhos... mas e nós?

Nós somos da América que passou por tudo e não viveu nada
, na medida em que triplicam gerações seguidas e, na mesma proporção, cresce a falta de memória e o desinteresse pelo conhecimento. Resumindo, é só foder e gastar. Tudo calcado em representações não muito inteligentemente arquitetadas, mas disfarçadas de muitos "projetos sociais", muitas "inclusões digitais", muito "maracatu", muito debates na TV sobre folclore. Sinceramente, não sei até onde esta organização do nosso conhecimento vai nos levar. Tento apenas observar além da minha "imensa" brasilidade, além da "maravilha" da diversidade étnica da América e além das Veias Abertas da América Latina. Porque elas não estão mais abertas, mas fica em aberto que elas mal se conhecem (ia escrever "sonhecem"), e demorarão para entender que é relacionando os seus contextos (e os seus conceitos) que podem chegar à alguma conclusão criativa, ou alguma conclusão não criativa, ou, a alguma conclusão genial, como as glauberianas, ou as andradeanas, ou as machadianas. Ou... à nenhuma conclusão .

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