quinta-feira, 27 de agosto de 2009

O mesmo momento em momentos diferentes

Curitiba, Junkie House - Atravesso uma jornada que, neste momento, vou definir como um profundo distúrbio de sono e vigília. Mas é claro que é óbvio que eu sei que é muito claro que é muito mais do que isso. Deito no sofá da sala para aproveitar um dos (raros) momentos em que a sala está vazia. A TV está ligada, num volume que só me provoca mais sono, na verdade não me provoca nada, não me incomoda, é como um aquário. E durmo, entrando em processos de sonhos muito peculiares.

Quando sou acordado com o Senador Eduardo Suplicy levantando um cartão vermelho contra o presidente do Senado José Sarney. Tudo muito cênico, ofensas com pronomes de tratamento muito adequados, o Heráclito Fortes com a sua fisionomia "humorística", o mesmo espetáculo. O que estragou foi o comentário posterior, desse Arnaldo Jabor (que já foi cineasta "experimental", ou sem experiência?) que comenta na Rede Globo. E o Arnaldo fez o que? Deu o mesmo cartão vermelho para quem ele chama de "elite pensante brasileira". Deus do céu! Arnaldo... elite pensante brasileira my ass! A elite pensante brasileira é a elite dinheirante brasileira. De nada adianta esperar pelos "caras pintadas" como disse o Arnaldo, ou pelos artístas revolucionários, ou pelos pensadores brasileiros. Porque esses pensadores, como o senhor Arnaldo Jabor, por exemplo, não fazem e não farão mais do que ganhar o seu dinheiro no seu empreguinho. E é isso! Nunca vi comentário mais oportunista do que esse do Jabor, "cartão vermelho para a elite pensante brasileira". Se houvesse uma elite pensante brasileira o Senador Eduardo Suplicy não precisaria utilizar esse signo do futebol, para comunicar uma coisa que na Coréia do Sul não se comunica. Sai porrada isso sim!

O que é isso? Digam-me qual o objetivo disso tudo? Estou longe, muito longe, entre o sono e a vigília, e vejo um espetáculo de desmoronamento. Mas não é um desmoronamento, é um espetáculo de desmoronamento. De espetáculo eu entendo. E do desmoronamento do espetáculo, o século XX já entendeu o suficiente. Mas ainda insistimos em nos pautar por um sistema de informações, um sistema de conhecimento, e um sistema de aprendizado, temporalmente inadequado. O que eu quero dizer? Como o Sol que enxergamos, um Sol de oito minutos atrás. O desmoronamento que enxergamos, já desmoronou há décadas, e o nosso entretenimento ainda parece ser a REPETIÇÃO a estúpida REPETIÇÃO. Seja nas artes, seja na comunicação, seja nas organizações sociais, seja nas organizações do pensamento. A criatividade, o instinto e a intuição, deviam ser as nossas perspectivas.

David Lynch, em 1997, dez anos depois do meu nascimento, lançou o filme que, dez anos depois do seu lançamento, influenciaria muito a minha produção. E este filme chama-se Lost Highway. E daí? Daí que o filme começa e acaba com uma frase, a mesma frase: "Dick Laurent is dead". No começo ela é dita pelo interfone e quem atende é o Bill Pullman. No final, ela é dita pelo mesmo interfone, pelo próprio Bill Pullman. O mesmo momento em momentos diferentes. É isso, a dramaturgia que colapsa. E quem é Dick Laurent? O nome do ator é Robert Loggia! Aí é que tá...


Robert Loggia em Lost Highway, David Lynch (1997)

Robert Loggia em Scarface, Brian de Palma (1983)

Em Lost Highway, Loggia faz Dick Laurent, uma espécie de empresário mafioso pornô. Quem assiste outros filmes do Lynch percebe que é comum ele utilizar o seguinte recurso: algo acontece, algo, qualquer coisa, mas com uma trilha DENSA ou uma atuação mais fake, e então alguns personagens chave, simplesmente mudam de nome. O que é isso? Pura manipulação dramatúrgica. Só isso? Bem, Robert Loggia, em Lost Highway, é Dick Laurent. No mesmo filme, mas em outro plano dramatúrgico (O mesmo momento em momentos diferentes), Loggia também é Frank. E Frank é Dick Laurent. E daí? Simplesmente mudaram de nome? Pode ser. Mas o que dizer se, em 1983, Loggia faz um outro Frank em Scarface, de Brian de Palma? E o que dizer quando vemos que é o mesmo Frank? É o mesmo personagem, retirado de Scarface, e ressignificado em Lost Highway. É o mesmo momento em momentos diferentes. Uma dramaturgia muito avançada, que se apropria de tudo, dos atores, da sua história como atores, de certa escola de atuação, de TUDO. Totalmente criativa, intuitiva e instintiva. E o que o Lynch faz além de cinema? Escreve livros de meditação transcendental!

Não é irônico, Jabor? Até mesmo membros do que seria a "elite pensante" estadunidense, estão preocupados, como você, em ganhar dinheiro!

Límerson

4 comentários:

Felipe Chaves disse...

De todos os meus vícios, o que mais rendeu a minha submissão, foi o dinheiro...

Límerson disse...

e há que render

Límerson disse...

A foto do Robert Loggia mudou misteriosamente.

Ailton Junior disse...

E o projetinho?

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