segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Menos de um mês. E então, partir.





Loading estréia em menos de um mês. No Teatro Cleon Jaques, em Curitiba. Dos três dias da temporada, o dia do meio é o meu aniversário. Isso seria significativo, se não fosse tão comum na minha vida, essa data do aniversário ser sempre um dia com um bom tanto de afazeres. E eu não me entretenho com nada. Sou jovem pra isso, eu sei. Deveria me entreter mais com as coisas... é que desde pequeno fui me acostumando com a seriedade que tudo pode ter. Sou acostumado em me envolver em profundidades, das quais provavelmente nunca obterei resposta alguma. Os móveis da minha casa davam resposta quando eu conseguia imaginar boca e olhos neles. E a audição sempre será o sentido que me orientará em todo o meu processo criação. Processo de criação de alma e vivências, que toda pessoa desenvolve, com maiores ou menores níveis de percepção.

Até porque essa história de me envolver com artes, e logo especificamente com o teatro, fez com que gradativamente eu me afundasse numa porção de merda, bosta, lixo, detrito... a merda que falamos antes da merda das nossas peças. Estamos afundados nela. Depois, saímos para beber e nos passamos porque esta vida deve ser muito lastimante mesmo, pra ter que se passar tanto e enfiar o pé na jaca tanto e exacerbar tanto uma erotização, que na verdade é uma sublimação, uma merda de uma sublimação, que só significa que nossa tensão libidinosa ainda domina nosso inconsciente, desde que Freud entrou (inventou) na cabeça do Modernismo, ou entrou na cabeça dos modernistas o modernismo.

O teatro está submetido à condição de audiência como na televisão. O público que lota os teatros no Brasil é parte do público que compõe a audiência de uma Rede Globo, Sistema Brasileiro de Televisão, Rede Band, Rede Record, TV Cultura e MTV-Brasil. O público que lota os teatros no Brasil vai ver os ícones da televisão, há muito tempo isso acontece, e aquilo que o teatro comporta de atemporal, subjetivo e intuitivo, ou melhor ainda, o aspecto de risco do teatro fica substituído por este apelo à uma iconografia rasa. Rasa, mas revestida de moralismos travestidos, transversada também por alucinações textuais subliminarmente repetitivas e glamourizantes. Em Curitiba a nova geração de atores é uma geração de atores agenciados em agências de publicidade, modelos-atores, books fotográficos, testes de vídeo e rotinas deste aspecto. E acho que quem deveria ser conhecido nas artes cênicas, e isso no Brasil inteiro, não é conhecido. E, à despeito do valor que se tem em viver numa sociedade capitalista através do seu ofício (e isso no teatro, como sabemos, é bastante sofrido, exceto no ramo midiático-publicitário), muitos valores importantes estão sendo e já foram esquecidos.



Isso é nitidamente um processo de retroceder gravíssimo e lamentável e desestimulante, eu me desestimulo porque os artistas não estão fazendo teatro, estão em outros cantos. Em outras camadas da estrutura toda. Ainda é um retrocesso porque já se fizeram peças fora dos teatros (desde a Idade Média), ou peças para poucas pessoas, ou peças para uma pessoa, e até peças para nenhuma pessoa, como Grotowski, que eliminou o público polonês do teatro. Reafirmando o sentido do encontro no teatro, desenvolvido depois por Eugênio Barba, agora com público de volta. Hoje os teatros lotam, e também não lotam, mas por outras perspectivas de associação. Lotam ou não lotam numa relação de propaganda, publicidade e notoriedade. Não lotam por uma relação de publicidade, de propaganda e ignorância. Estamos afundados nesta merda.


Nos dias 1, 2, 3 de Dezembro o Núcleo de Espetacularidades apresenta LOADING, em Curitiba no Teatro Cleon Jaques, às 20h. Encerraremos este ano num período de imersão, que seria uma imersão no próprio umbigo de uma crise, mas deixando com o tempo algumas cabeças emergirem, como um pântano de onde surgem cabeças iconoclástico-iconográficas. Estou nos ossos, nas células dos ossos, nas hastes que sustentam ainda meu espírito, e encerro com um trecho do post anterior, ficando mais um tempo sem postagens, pois provavelmente eu estou iniciando uma etapa "sem tempo para":

"...já que é um pressuposto da minha presença, a pressuposição da minha presença que é um preço-posto. que se carrega com composição..."


Límerson, Curitiba (e Inferno Astral)

P.S. Fotos de Leituras, por Talita Morais: http://www.flickr.com/photos/talitamorais/

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