segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Artigo que revela que nem escrevo tão bem assim para um "acadêmico" e que achei o show de Rogério Skylab muito mais emocionante que do Carlos Careqa.

Iconografia:

Toda a produção de artes visuais dos anos 60, concentrando-se principalmente nas relações estéticas e poéticas da pop-art, substanciadas nas produções de Andy Warhol em pintura (lata de Campbell Soup, séries de Marilyn Monroe, séries de Elvis Presley), cinema (contato com a modelo, atriz e socialite Edie Sedgwick, a quem transformaria na primeira superstar, através de vídeos como Vinyl e Poor rich girl) e produções musicais inseridas num contexto visual-performático (como a produção do disco da banda Velvet Underground, em 1967, envolvendo apresentações performáticas com a banda em Exploding Plastic Inevitable). Quadros específicos serviram de iconografia para alguns dos atores, por exemplo a pintura de James Rosenquist da atriz Joan Crawford, utilizada pela atriz Vanessa Benke em Loading, como leitmotive imagético durante os laboratórios de lentidão e estaticidade, ressaltando inclusive uma grande entrega corporal da atriz no processo de elaboração da atriz que montava Édipo Rei (sub-trama). Também foram utilizados auto-retratos de Andy Warhol, fotografias de Edie Sedgwick, Vladmir Herzog, Elvis Presley, abordados pelos atores no processo da elaboração de partitura corporal, onde a imagem era o estímulo pensado durante a vivência da dança pessoal.

Ao sentido imagético das iconografias de Loading é associada à abordagem idiossincrática da imagem, indo além do seu contexto sígnico histórico, tratando-se de uma relação de autoria sobre os ícones interpretados. Na relação com os procedimentos de atuação os atores são autores das iconografias que carregam (carry/load) durante a peça.


Iconoclastia:


Loading tem toda sua referência, pode-se assim dizer, na iconografia dos anos 60, 70. Mas, se pensarmos que esta iconografia já se tratava de uma iconoclastia, na medida em que o período constituiu-se por várias instaurações transgressoras, seja nas artes, seja na produção filosófica, seja na organização sócio-econômica, é ingênuo encarar de forma ingênua o período que englobou, ao mesmo tempo, em lugares diferentes, Andy Warhol, Vladmir Herzog e a banda Pink Floyd.

Durante um período inicial, envolvendo longas conversas, quase num formato de encontros informais, descaracterizados aparentemente de ensaios, foi abordada a iconoclastia das artes nos anos 60. Apontamos cada produção contemporânea que, de uma forma ou de outra, sob as vestes de muitos novos nomes, nada mais faz do que reproduzir as transgressões dos verdadeiros transgressores, os contemporâneos do LaMama (em específico, no teatro). Foram encontros que serviram mais para amadurecimentos intelectuais, ou provocações pessoais, com o intuito de ressaltar o aspecto particular da produção artística. Aspecto pervertido hoje, em meio à comercialização da arte, transgressora ou regressora, em toda estrutura de publicidade na qual o artista deve arquitetar a sua produção.

O Núcleo de Espetacularidades não é um grupo de teatro, mas por um mero acaso, nós nos conhecemos numa faculdade de artes cênicas. Por isso nos utilizamos desse meio, que é o que está mais próximo de nós, artistas sem nenhum nome ou notoriedade. Posso elucidar aqui, que o Núcleo de Espetacularidades, fundado em 2006, tem em suas raízes referenciais a iconoclastia dos anos 60, na medida em que este procedimento era autêntico em suas vicissitudes, e tratava-se de arte, da mesma forma que os textos de Shakespeare, escritos para um grupo de atores específicos, também se tratava de arte. O que investigamos, através de eventos diversos, dentre eles a peça Loading, é a idiossincrasia do artista, vetorizada por ele na sua produção (podendo esta possivelmente até não mais caracterizar-se por arte).


Idiossincrasia


O trabalho de pesquisa referencial para a peça Loading, como toda a produção do Núcleo de Espetacularidades, está alicerçado na idiossincrasia que procura por referência. E neste sentido, trata-se apenas de um processo humano absolutamente legítimo, de necessidade de identificação. Por isso lemos, assistimos filmes, peças, ouvimos músicas, ou conversamos com pessoas mais inteligentes ou menos inteligentes do que nós. Porque necessitamos, como todo ser humano, de identificação, de algo que externamente, nos caracterize como nós, e nos legitime internamente, seja por semelhança ou por oposição. O que visto de longe se assemelha com a antiga noção de funcionalidade da arte, re-colocada como a abordagem da arte enquanto função. Preferencialmente utilizo a palavra vetor, que parece atingir uma cadeia semântica mais científica do que a palavra função.

O processo de pesquisa está notificado por meio das referencias bibliográficas contidas neste documento, ficando aqui o destaque da idiossincrasia que se envolveu com cada material e, de forma muito particular colocou-se com relação a este. Nos três dias das apresentações pôde-se notar o grau de envolvimento de cada um com um todo, condensado na minha incômoda e perdida voz em off durante o espetáculo. E em cada dia foi se ressaltando que nós estamos tentando terminar com isso.


Entrevistas do site: www.geraldthomas.com

Vídeos do YouTube:

http://www.youtube.com/watch?v=7idi_5IaMrk

http://www.youtube.com/watch?v=ZutcjfJATRI&feature=related

http://www.youtube.com/watch?v=_cT10g9U9cU&feature=related

http://www.youtube.com/watch?v=KvOnRdMi4OM&feature=related

http://www.youtube.com/watch?v=uaAAmRDX4ok&feature=fvw

http://www.youtube.com/results?search_query=Vinyl+warhol&search_type=&aq=f


Toda tradução é uma traição!

Pela primeira vez o Núcleo de Espetacularidades trabalha com um elenco com mais de quatro pessoas na montagem de uma peça. Loading trata-se do projeto mais complexo e, num certo sentido, diferente, de todas as produções do grupo. Tem o formato de uma peça de teatro que aborda ícones históricos e artísticos, envolvidos num processo de referenciação metalingüística, que está sendo loadado metaforicamente na suposta montagem de Édipo Rei, de Sófocles, que ocorre dentro da peça. Os atores desta montagem de Édipo fazem das suas referências os seus monstros pessoais, e são presos a frases feitas, de caráter iconoclástico, como “toda tradução é uma traição”, como animais presos a necessidades fisiológicas (“Andy: Eles transavam o tempo todo”, fala da peça articulada com o momento mítico da descoberta de Édipo, acerca de sua real origem), como espirais ou círculos nos cantos de quadros pintados por Joan Miró.

A complexidade envolvendo tantas pessoas na produção fez com que tudo fosse muito mais do que aprender a montar uma peça de teatro. Percebemos que é quase impossível hoje em dia, um grupo com poucos recursos e menor ainda notoriedade, envolver tantas pessoas num projeto deste caráter. E temos quase certeza de quase não acreditarmos no que fizemos nestes três dias de apresentação.

A fase inicial, com laboratórios de concentração, lentidão e abordagem idiossincrática da peça, que funciona quase sempre como um processo de auto-conhecimento, onde também os envolvidos acabam se expondo mais do que o normal numa montagem de peça, acabando portanto se conhecendo num nível diferente dos contatos entre elenco de uma peça.

O fato é que o elenco quase se diluiu e nós quase desistimos de nos apresentarmos. Óbvio! Tanta gente envolvida, por mais de seis, sete, oito meses, é óbvio que num dado momento ninguém se suportaria. O mundo de hoje, propriamente dito, já não tem paciência para o teatro, muito menos para um grupo que não tem paciência para si mesmo. Dificuldades de conciliar horários, para encontros efetivamente produtivos, fizeram com que decidíssemos executar dois terços do todo ao qual havíamos nos proposto. Por isso, de fato, estamos tentando terminar com isso.

Cabe destacar que a cena final da peça era uma cena aberta, com apenas algumas marcações de atores ensaiadas, ou pequenos gestos que sabíamos que se repetiriam, seguindo apenas um roteiro de desmembramento, análogo à um HD que se desmembra num download maior do que a sua capacidade de trabalho. Mas que continua trabalhando, até que alguém tome alguma atitude. No caso, o público sair ou não, não fazia diferença, na idéia da cena. Cena que, inicialmente, nos expõe como figuras incapazes de executar o que de fato queremos. Isso gera certo paradoxo já que pode-se fazer a seguinte pergunta: como assim? Por que não fizeram o que queriam então? Trata-se primeiro de desconstruir o ego do ator, no limite do possível, evitando que ele sinta-se o máximo por simplesmente estar sendo visto (algo inconscientemente quase impossível de quebrar por completo num ator), mas esteja no seu máximo enquanto está sendo visto deslocado na dramaturgia, que trava. Deboche da filosofia, como Tom Stopard, e flerte com a poesia, como Kazuo Ono.

De acordo com o que foi proposto, em nenhuma das três apresentações esta cena teve seu intuito executado como gostaríamos. Por isso, o melhor é que uma cena não tenha intuito. Basicamente o público das apresentações era composto de amigos, ou estudantes deste mesmo curso (ou seja, inimigos também). A quem nós (no caso, o elenco) estamos acostumados a ver cotidianamente. Com isso, o efeito da cena, que envolve uma observação da postura da platéia, era de baixa intensidade, já que cada um tinha um amigo em especial no elenco para abraçar, e não via a hora de fazer isso. Essa relação de público influenciou bastante o ritmo das apresentações como um todo. A monotonia hipnótica é cansativa ao público de teatro de Curitiba, acostumado com eventos de impacto, ou desacostumados com relações que envolvam contemplação reflexiva e envolvimento subliminar na trama da comunicação.







E será que todos os envolvidos sabiam disso que estava acontecendo? É o que me pergunto, com certo remorso...


Ficha Técnica – LOADING:

Atuação (temperamentos de):

Bruna Marros

Clarissa Oliveira

Guilherme Marks

Rafaelin Poli

Ricardo Nolasco

Vanessa Benke

Walace Brassero

Límerson Morales

Iluminação(e lucidez):

Semy Monastier

Sonoplastia(e entorpecimento):

Límerson Morales

Maquiagem (e aquelas coisas de sempre):

Léo Glück

Cenário e Figurino (e bolo de aniversário):

Núcleo de Espetacularidades

Laboratórios (os temperamentos viram baratas):

Límerson Morales

Dramaturgia inicial:

Límerson Morales

Orientação (genial, genial, viva!): Luciana Barone

Encenação (muro de berlim entre o teatro e a poesia):

Límerson

Fotografias (e insistência):

Talita Morais (http://www.flickr.com/photos/talitamorais)

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