quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

O que engloba a performance de Rogério Skylab

Nunca fui num show em Curitiba que tivesse me deixado com tanto tesão, nestes quatro anos que moro na capital do estado mais sem identidade do Brasil, quanto o show de Rogério Skylab, em 2009, no dia 28 de Novembro. Abertura com bandas, e lá pelas tantas, Mr. Skylab chega, passa por todos no Ópera 1, finzinho do show anterior. Como tinha ido assistir o cara, logo que ele passou perto de mim, fiquei eufórico pensando: finalmente, finalmente.
O universo masculinizado da composição de Skylab, se assim se pode dizer quando se toma como referência a repetição, a violência, os palavrões, a sexualidade fisiologista, e o racionalismo compulsivo, como um fim a se alcançar, como uma perfeição, sempre me emocionaram, mesmo nas apresentações no Programa do Jô, onde o apresentador costuma ressaltar somente o lado humorístico do trabalho de Rogério. Show com fãs de verdade, eufóricos, excitadíssimos, serotonina away on business... antes do cantor, compositor e poeta entrar no palco, gritavam os fãs "skylab, skylab, skylab"... num tom quase messiânico, certamente algo fortíssimo de presenciar. Que Rogério logo desconstruíu, ao entrar e fazer um gesto displicente, mas muito polido, em resposta aos chamados, já começando a cantar a primeira música do set, "Dominante ou Dominada".
Andei lendo algumas entrevistas considerando a performance de Skylab no palco, como se isso fosse o mais importante de todo o trabalho, o que obviamente provocou um incômodo em Rogério, esta forma de raciocinar dialogicamente sobre um trabalho amplo como o dele. Bastante impressionante de fato a performance pessoal do artista, envolvido com a banda afinadíssima, chegando ao final do show a um visível estado de estafa física. Isso todos puderam ver, ou sentir como que contagiados pela presença em palco. Mas a performance apresentada está englobando todo o contexto da produção de Skylab, que vai desde à idéia da música tida por ele em algum lugar por onde estiver andando ou parado, passando por execuções sem ou com público, até chegar num cd. Ao que me parece, esse é o percurso seguido por Skylab, na maior parte dos casos. Então, a performance de Rogério, pensando na performance art, desde os primórdios sessenta-setentistas, engloba os processos criativos da letra/canção (poética verbal e arranjo) e a sua execução, como um todo. Isso se condensa, isto é, fica mais nítido, mais pulsante, na movimentação de Skylab, em contraponto com a estaticidade da banda. Daí destacarem a performance do cantor como o mais significativo no trabalho, pois os críticos de arte que se atrevem a falar de performance, não entendem uma coisa muito simples, seja no trabalho do Skylab, seja em toda produção da qual se possa apontar a performance.
Teatro performático, banda performática, performance nas artes visuais, esses termos que se repetem há anos, e anos e anos, anteriores à mim inclusive, confundem a cabeça dos críticos não adaptados ao pensamento vanguardista iniciado nos anos sessenta (que foi iniciado com Marcel Duchamp nos anos 20, com a morte da arte). E confundindo a cabeça dos críticos, confunde a cabeça dos acadêmicos e dos artistas que acreditam em críticos, criando formados em artes, sejam quais forem, limitados ao pensamento pré cinquentista da história das artes. A performance, entendam de uma vez por todas, engloba o teatro, a música, as artes visuais, a literatura, whatever, conforme a organização do performer! Não o contrário. Nos shows de Rogério Skylab, considerando a presença de um público fiel a sua poética, com grandes afinidades as suas palavras, a performance pessoal do compositor é enaltecida, por motivos que só o encontro do show pode explicar, como forma de experiência. Claro que é feito com os outros músicos, e eles tem toda a importância para a força do evento. Mas a expressividade destacada do vocalista e compositor (a quem boa parte do grande público está acostumado a admirar mais) deixa em muitos esta impressão significativa da performance. Sempre me lembro no entanto que, se for considerar performático, leva-se mais em conta no caso de Skylab, como o evento se organiza, como o evento dos shows de Rogério Skylab se dá. O que exije um conhecimento complexo, atrelando a criação particular dele como compositor, à execução musical Rogério Skylab + banda.
É observar assim a performance como manifestação pessoal que engloba as linguagens de que a idiossincrasia envolvida necessitar se apropriar, abordar, raptar, incestuar ou o que for. Não é música performática, não é poesia com fundo musical, nem performance verborrágica, mas possivelmente englobe estes, e talvez outros desdobramentos que articulem poesia, composição musical, rio de janeiro, samba, rock, mpb, e seja qual for mais a seqüência de leitomotives referentes a Rogério Skylab.

Um ótimo show! Parabéns! Todos da organização, muita coragem e muito trabalho! Do caralho! Carlos! Leandro! Nunca pensei ver este conflito realizado, Rogério Skylab em Curitiba.

Límerson.

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