quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Superficial

deslizava por toda a parede
ao encontrar uma fresta
enfiei meu dedo na greta
depois o meu olho esquerdo
entrei em estado de choque
depois retomei do começo

e como se já nem pudesse
duvidar da superfície dada
e do contemplar que vaga
pego-me ainda alisando
e encontrando divisórias
porosidades, esfoleamentos

e composições de múltiplos segmentos
através das aparências mais chapadas

(2010, último post)

sábado, 18 de dezembro de 2010

Último Desafio

- já não há mais sentido, foi por isso que eu parei.
- foi por isso que eu comecei.
- é aí que nós somos o buraco negro, dentro de um discurso maior.
- aludes a teorizações relacionais?
- faço desfiles. esse é o meu ramo.
- é um ramo do que faço.
- suas feituras comportam as minhas então?
- venha ver, venha ver, eugenia.
- ah, você canta... são paulo?
- não tenho vontade.
- como não?
- não sei. não sou bom com as palavras das vontades.elas que ajam sem palavras. como fomes e sedes intrínsecas.
- é bom estar entregue, quando se tem algo a oferecer.
- tenho um corpo de muita valia.
- ora, isso eu também tenho.
- isso é um desafio?
- pois que seja o último!

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Tentáculos

quem não fui que sempre
inferisse luz dos meus laços ao
gestar e parir os mesmos pedaços

luz lúcida sobre traduções ofuscadas
sufocou com dinâmicas
panorâmicas laminadas

cãs queimam
ontém pensei e...
tropecei nos tentáculos

Guarda-Chuva

a palavra guarda-chuva
abre solicitação
aqui datilografada
pula do terraço

falo recolho, ou um ou outro

a palavra martela
sinto-me tentado
é ela, aquela
a palavra martelo
cuidado, é ela
sinto-me tentado

falo recolho, ou um ou outro

a palavra martela
aqui datilografada
tece consideração
pula do terraço

sábado, 27 de novembro de 2010

"RECONSIDERAÇÕES CÊNICAS NARCONARCISISTAS 2"




LIMERSON: Ela lia os meus pensamentos. Eu ria e me contorcia em constrangimentos. Esperava a minha deixa, para que pudesse fazer com que algo acontecêsse.

DOMENICO: Então, vocês seguiam um roteiro? Um roteiro de ações.

LIMERSON: Nós seguíamos um cortejo. Não, sem exageros... sobre o formato do cortejo... o exagero não parece a mais adequada, dentre as mais sedutoras... abordagens.

DOMENICO: Não quer destacar mais nada acerca do jogo de espelhos? Ciani afirma:


"Na personalidade narcisista predomina um sentimento de grandiosidade, uma tendência autocêntrica, mas também a insegurança, que se alterna com sentimentos de onipotência. Há, no fundo, a consciência da vulnerabilidade do Self maduro, do risco de sua fragmentação temporária com o aparecimento de experiências tipicamente narcisistas, que vão desde uma grandiosidade angustiada até a hipocondria e a depressão, no pólo oposto.
As emoções são instáveis, os sentimentos pouco diferenciados; há sobretudo a incapacidade de elaborar o todo, de experimentar uma verdadeira reação depressiva pela frustração e pela perda, ao mesmo tempo em que emergem raiva e sentimentos de vingança, até mesmo diante das perdas inevitáveis da vida, do declínio da idade, do poder, da beleza (...)
Existe uma incerteza fundamental quanto aos próprios ideais e a incapacidade de desfrutar plenamente dos próprios valores e extrair deles uma gratificação narcisista. Dali, o descontentamento e o sentimento devazio interior, não obstante a eficácia aparente do funcionamento social. Existe ainda uma incapacidade de suportar a frustração, a tendência a transferir para o exterior os seus próprios conflitos, a percebê-los como conflitos entre si mesmo e o ambiente, com a expectativa de que o ambiente deva mudar, sob o impulso de uma atividade inadiável e da busca contínua de novos estímulos. Portanto, há o desassossego: fantasias, desejos onipotentes, uma criatividade superficial e inconstante, mas também um recúo diante do compromisso, a incapacidade de avaliar as exigências dos programas à longo prazo e das relações de trabalho. O contato com os outros baseia-se no controle, na utilização. Há a necessidade de reconhecimento e de estima para alimentar o conceito de si mesmo (...) Há a tendência à idealização,mas também inveja dos outros, desinteresse por suas exigências reais, intolerância por suas limitações".

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

"RECONSIDERAÇÕES CÊNICAS NARCONARCISISTAS 1"



LIMERSON: Ela lia meu último poema, resultado mal ajambrado de algum desacorçoamento grave.

DOMENICO: Quando o tabaco me beija, fico assim, pensando nas igrejas, considerando as suas imagens... ou na economia, telematizo-me no século dezoito. Assim abria a boca da sua primeira atriz, veja bem...

LIMERSON: Não me introjete seus ritmos de leitura, por favor. Faz-me reler os contextos por outro ângulo. E eu não quero aderir ao cubismo de mim mesmo.

DOMENICO: Vejamos como Lasch descreve o narcisista, referindo-se ao contexto social dos Estados Unidos:

"Apesar das ilusões ocasionais de onipotência, ele espera dos outros a confirmação da própria auto-estima. Não pode viver sem um público de admiradores. Sua aparente libertação dos vínculos familiares e dos vínculos institucionais não o torna mais autônomo ou orgulhoso da própria individualidade. Ao contrário, ele alimenta a sua insegurança, que só pode ser vencida captando na atenção dos outros o reflexo de seu "eu grandioso", ou associando-se a quem goza de carisma, fama e poder. Para o narcisista, o mundo é um espelho (...) A expansão da burocracia cria uma rede fechada de relações interpessoais, premia a capacidade de socialização e torna insustentável o desenfreado egoísmo do Adão americano. Ao mesmo tempo, todavia, rompe todas as formas de autoridade patriarcal e, portanto, enfraquece o Superego social, representado outrora pelos pais, pelos mestres e pelos pregadores. Mas o declínio de uma autoridade institucionalizada em uma sociedade aparentemente permissiva não determina, nos indivíduos, um "declínio do Superego". Ao contrário, favorece o desenvolvimento de um Superego rígido e punitivo que, na ausência de proibições emanadas de autoridades socialmente reconhecidas, extrai em grande parte sua energia psíquica de impulsos destrutivos e agressivos inconscientes. A ação do Superego acaba sendo dominada por elementos inconscientes e irracionais. Como na sociedade moderna as figuras de autoridade perdem sua "credibilidade", o Superego do indivíduo deriva em um grau cada vez maior das fantasias primitivas da criança em relação aos pais- fantasias impregnadas de ressentimento sádico - e não da interiorização de Egos ideais que se formaram pelas sucessivas relações com modelos de comportamento social amados e respeitados.
A luta pela preservação do equilíbrio psíquico em uma sociedade que pretende o respeito das regras de relacionamento social, mas que se recusa a fornecer um código de conduta moral sobre o qual elas devem fundar-se, favorece uma forma de egocentrismo que nada tem em comum com o narcisismo primário do Self imperial. A estrutura da sociedade é cada vez mais dominada por elementos arcaicos e o Ego regride - como afirma Morris Dickstein - para um estado primitivo de passividade em que o mundo permanece disforme, incriado. O Self imperial, egomaníaco e ávido de experiências, regride para um Ego grandioso, narcisista, infantil e vazio".

Mal Resultado

os cabelos estão soltos
carrega o piano vermelho
de um lado para o outro

usava óculos também
e eram exatamente iguais
passaria por você sem pestanejar

por toda essa cidade
os ossos nus foram beijados
caminhei com nojo vendo acontecer

existe tensão entre as nossas obras
faltam fragmentos para os segmentos
que mal resultam este último poema

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Isso visto na janela 4

o vento derruba todos os meus objetos. esse trajeto é o seu único gesto. devasta o topo da minha cômoda. eu vejo sem proposições nem esboço de reação. vejo desnudo porque o objeto do vento é o devasso. desejo vendo com os braços tremendo. a caixa também deu os seus passos. quando eu derrubo o sono da cama o dia desliga a câmera. comigo não houve diálogo, ou qualquer forma primariamente reconhecível como código. o sonho do olho aberto derretia objetando o vento. fazia secas casquinhas amarelas. ornamentos das laterais oculares. o relato do ócio objeta assim, o ciclo de um tipo de ar. arder o ciclo do amanhecido dia impondo da ode estereotipada a qualquer traço mais elaborado que a primitivização criativa do ódio.

http://www.limerson.com/p/isso-visto-da-janela.html

domingo, 24 de outubro de 2010

Página em Branco

uma página foi pulada. exatamente essa. um chamado não atendido, dentre os pedidos solicitados. de atenção necessitada. isso ainda pode ser corrigido. e tão logo corrompido. e tão logo desmembrado, numa outra temporada, num outro parto pactual de temporalidade. alguém ajude, é um pedido. de outra ordem. não vamos confundir, vamos evitar isso. vamos lá pra cima, onde podemos conversar mais à vontade sobre isso.

tudo é mal intensionado por aqui, já deixo avisado, tende ao colapso. temos amigos desconcertantes, inimigos entre si. um brinde aos inimigos. tende tudo a dilaceração corpórea, que é o auge da resignificação, pela qual passa tudo, pelo reto horizontal do posterior e do anterior a modernidade. pelo qual passa tudo. a idéia de vagina é retomada neste momento.

não sei por que tanta atenção e tensão muscular. não é assim que se entra em combate. exceto se for uma tensão vazia, um artifício estático. envidraçado ao olhar o luar numa xícara. a vidraça na sacada de uma esquina. nosso primeiro lugar onde foi feito um esboço. o mundo inábil e inacabado se pergunta, enquanto cenário, terá sido minha culpa, ou dele (referindo-se a si mesmo sempre).

a pior pessoa do mundo existe, mas não se considera culpada. de alguma coisa se pena, mas não se abana através de apenas. são folhas maiores, no seu modo de ver, em pixel-películas. a moda das pérolas nos manequins. passeia de mão dada que é bom. sinta a minha dramaticidade através dos meus e dos seus mecanismos. assim supostos como uma coisa que é unida num conflito uníssono. a pior pessoa do mundo foi confundida com uma obra. foi trocada por uma máquina, imaginaram que era certo que ela fosse atropelada, mas nunca morta.

sacanagem, uma palavra ótima, para uma página pulada. algum intervalo em que alguma coisa deve ser feita. mesmo que a feitura de um tipo como uma pessoa, que é a pior, dentre as do mundo, dentre as únicas. é cabível, é disso que gostam. ferver o sangue ao mel. o que os pernilongos fazem no meu corpo. depois eu coço os buraquinhos. que viram feridas em feridos aspectos. e é uma pele morta, de fato, a pele de um amor. uma pele morta. melhor que uma perna torta. melhor não exagerar. também foi coxo até aqui todo contato. a pele da mulher que eu amei. está aqui porque sinto o cheiro mais do que o peso, e não mais vice e versa.

então serão raios de brevidades, como os horríveis soluços de sóis, entre os horríveis temporais. que assim seja, a mais prática dentre as maneiras de encaixar peças fora do lugar. frouxas entradas e saídas de ar, frágeis trouxas de lugares assemelhados. competidores emparelhados ou empertigados ou enfileirados, portando as suas posturas. cuidado sempre com essas senhas, sempre penso nisso. sou propenso a criar outras, caso se tornem objetos de rasos nadares, ou de nasas radares. narizes, de uma forma geral, é a eles que eu me refiro.

era pra ser uma carta para alguém, porque é da minha índole o vício em se remeter. e o remetimento é essa saudação e essa salvação, onde todos se queimam. e a natureza das palavras consome qualquer vivo humano que morra um dia, morrendo sempre saboreando em silêncio a sua guloseima. a iguaria de cada um não se igualaria a diferença de que cada um engoliria a do outro. dar de ombros ao joão sem braços. o melhor que se pode fazer sendo a pior pessoa do mundo. do ponto de vista de alguém. pula uma página e sente medo, está sozinho. é solitário e perversamente misterioso. dorme mal porque não funciona mais como próprio objeto de estudo. e nem como próprio objeto de exagero. idealiza uma máquina que só sabe que respira, e não sabe mais nada. não sabe e já não dá a mínima, dando de ombros latinos, femininos sombreamentos, joão sem braços de saias. estado de nem aí, vamos confessar. vamos interromper e apenas observar o que aconteceu.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

PROLIXA


a corretora de imóveis ria
trazia um mistério excitante
mostrou da janela a paisagem
disse: eis uma vista prolixa

hoje, arrependido, faço votos
dos piores intentos possíveis
que o lirismo da minha janela
aniquile a vida de tudo aquilo

a corretora de imóveis ria
eu não sabia que era verdade
quando descobri, fiquei parado
olhando a minha paisagem

disse: eis uma vista prolixa
aquela raiva hipnótica
debruçava-me o corpo
em repetidas lembranças

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Desdobramentos (parte de narrativa em processo)

1.


Sei bem quem é. Um estranho. Melhor que um estrangeiro. Um estranho. Melhor do que eu. Fico molhado em saber que ele é melhor do que eu. Porque não tem importância no caso a geografia do lugar introjetada. O que tem importância no caso é a serigrafia da gentileza robusta que porta o homem que você espera. Diz que nada espera, mas em nada morre. Maldita raiva, dai-me espaço para a paciência. Deixe-me escoar o tempo. Expirar o tanto que é o quente. Produzir o suor salgado que seca. A tinta que na folha fresca seca. A folha ainda estava la.


2.


Hoje, quando comecei a escrever, começaram a brotar em mim um par de seios. Pequenos, onde ficam os meus mamilos. Com pelos ao redor do bico. Então pensei, uma metáfora glandular. E a ironia velada levou-me a mão a um deles. Escrevia a palavra língua sem escorrer-me o sangue dos seus personagens pela minha boca. Excitei-me acariciando o entorno com os dedos nas costelas. A explosão venosa e arterial em transito amplificada foi assim para todo o meu corpo.


3.


Você sempre se re-encontrava com ela na minha casa. Aquela sua amiga bufona que nos apresentou. É isso o que alimenta o nosso silêncio. Você conecta-se a ela, mesmo tendo se tornado você depois em outra. Aquela bufona shakespeareana. Que une um casal pelo potencial alcoviteiro que há nisso. Fico em silêncio quando você fala dela. Ficamos assim, sem nada mal disposto.


4.


Desde quando isso, estava pensando. Domingo ou segunda passada. Tem mais de uma semana isso então. De as vacas ruminarem. E é por quem que se guarda tanto. Por uma tolice tão difícil de apontar num átimo. Uma bostinha, como disse o meu amigo bailarino. Querer que isso vire verdade, apenas isso. Nunca o suficiente sem o dote do invento. Todos sabem, só me faço em perguntas. Diante do espelho enxáguo esponjas. Desde que a flor madura a fruta brota abrupta. Colho e guardo nestas pequenas vasilhas, depois de no varal seco.


5.


Os corpos vão para o abatimento que as almas já vivem. Alma é a queimadura marcada no braço. No ante-braço. A ante-sala do churrasco, onde ainda é crua. Ainda sou vasto enquanto isso conectar-se ao gesto. Meu dedo tensionado mordido pelo seu gato. Tensionado está pretenso a nada. Sou quem sabe da força que tem minha incapacidade. Isso me protege e só emerge quando alcança um formato. Edward disse que todos os amantes dela passarão por mim.


6.


No campo de batalha, reconheço a afirmação predita. Eles realmente me tomam exigindo de mim a indiferença. A que se exerce quando se evita providencialmente a repetição de um pensamento. Os corpos já abatidos estavam bem alimentados. As barrigas exalam. Fora um artifício este campo, uma mímese diria político-cultural. A nova ficção escrita por. O autor já basta no que não se basta.


7.


Escute o raro. Que a história se dá assim. Pelo raro presente em tudo posto por simplicidade. Quanto mais simples, mais rara a postura. Numa descostura complexa de organelas. Escute que descompostura, que mal comporta. Se o peso que eu carrego vem sendo por mim carregado, como ele deve considerar a minha atividade? Será que escreve cartas, como eu fazia habitualmente para resolver os nossos problemas meus.


8. - Você não está no meio de uma conversa importante?


Edward gosta de fazer isso. Andar em muros e subir em árvores. Escala tudo até o telhado. Quando inicia os saltos. Notei que este era um dos seus principais afazeres. Muitas vezes surgia com graves ferimentos, nas palmas das mãos, e nos joelhos. Os cruciais joelhos.

A forma que o peso carregado toma pode ser destacada. O seu movimento, através do tempo, pode ser encarado como uma repetição obssessiva. Pontuada por paralisias catatônicas. Uma infiltração preta desce pela parede. É o mar sendo visto num outro momento. Qual momento terá sido, em torno desta evaporação essencial.

Estas repetições carregam as suas próprias diferenças decorrentes do seu próprio funcionamento. Sou uma máquina de Edwards, coreógrafo do Balé Trauma. Atravessando o bairro pelos telhados. Nas manhãs algo descansa entre eles. Os atores quando captam a palavra bailam. E quando raptam, balem. Prefiro quando balem. Isso começa pela manhã.

Bom dia, moscas do dia. Vocês, que dividem quarto comigo, devem ter uma visão mais ampla sobre mim. Vivem melhor em grupo, e saberiam me analisar sob esta perspectiva. Quero ouvir de cada uma individualmente o seu olhar de fora à meu respeito. Um zumbido que cada uma puder apresentar-me. Estou suscetível aos comentários, elogiosos ou reprovadores.

Afinal de contas, o que vai sobrar do corpo carregado pelo que carrega. Em que o que carrego carrega estrita e irrestritamente o que carrega, sem traduzir a exatidão em escravidão. Cada relação de função que associa um conhecimento ao outro. O corpo do nosso encontro perece no meu corpo morto. Edward já esteve pendurado pelas vísceras. Você, no corpo do nosso perecimento, ficou junto a mim, no desagregar das engrenagens. Teus braços, orgulhosos, e pescoço, pélvico, desavisavam.

sábado, 25 de setembro de 2010

Fragmentado 2

em uma semana, um longo período de descanso, inteiramente relaxante, e até decisivo, em até dizer chega de pensar, e no tempo de considerar, considerar, e considerar, coube ainda tempo para comemorar com os amigos qualquer coisa que não sei qual num irish pub. a conversa com a princesa margarida apple foi desastrosa e atordoante e não deve ser lembrada ou mencionada por ninguém mais. este assunto aliás deve ser enterrado, como todo assunto relacionado a princesas. porcaria de gostar esse meu que é um negócio que não vai pra frente então. fomos todos mais do que para a frente, fomos mais duas quadras subsequentes, e viramos na esquina do hospital de olhos. ali ao lado era o irish pub joyceano, lugar onde se encontram gentes, bichos-homem, escrotos e escrotas, com música ao vivo e cerveja importada.

- você já parou para conversar com o seu cérebro?
- oras, eu medito.
- oras, eu não minto. o cérebro tem todas as respostas para as suas perguntas, todas estão prontas, bem ali.
- a lei anti-fumo me faz menos sedentária, tendo de caminhar até la fora, fumar e voltar.
- observação interessante, lady.
- yap, one more!

o balconista demolei. a loira com grandes peitos e pequenas roupas. os copos, as garrafas, os baldes. gelo, está quente, está quente. alguns passos e os caminhos se bifurcam, trifurcam, quadrifurcam. gente infinita, cheia de assuntos e dos seus momentos. passa o tempo fica pior de lembrar, o que houve depois? tanta tristeza, coisa pequena que vai machucando como coisa grande, olhar para outro lado, qualquer lado, é só olhar... isso me mata. é só olhar. não é só olhar.

no segundo seguinte a isso eu estava do outro lado de fora sem nada na cabeça exceto a vontade de lembrar só disso depois, que me lembro agora para pouco falar certo. estou tentando. sei que eu pensava, e como era horrível, o quê de fundo, de tudo e de todo só me deixei cair; com a cara jogada no chão, abriu meu supercílio esquerdo e quebrou meus óculos o ocaso. bola de sangue por fora da pálpebra do globo ocular escondido. rasgo na vista, miopia e escuridão. vamos levá-lo ao hospital. não, obrigado, boa noite, apague a luz. acordei em choque, sem saber de nada, sem a minha cara de antes, e a certa falha descarada.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Fragmentado 1

conselho sobre as transformações, é particular. é sem dúvida tudo de mais preciso de que você precisa saber. há tantas imagens de um passado nas palavras que reencontrei. nos cumprimentamos cordialmente. as massivas porções de textos, nos mais variados formatos, há o que encontrei. conselho sobre transformações através de conceitos postos em resignificado, em laboratório. conselho caro, pois a dor vem logo ou muito depois. vem alguém me interromper no quarto, pedir isqueiro. saia daí, saia daí. desça as escadas e cante, pule o último degrau e grite, só não se arrebente. este ainda não é o conselho. fui interrompido, amasso alguns, outros rasgo em vários. são critérios de desfazer, isenção de culpa e autoautoridade. vão embora, não, vocês ficam. que libido nisso tudo, o pensamento fica quase mudo e sinto a libido nisso tudo.

som e imagem que não interagem, este é o conselho dentro do conselho. frase, palavra, letra, número, dia, hora, ano, semana, mês, quilo, ou mesmo aquilo em que eu me pensava: ciência. fausto era o cientista. encontrei nestes papéis que organizava quando tinha sido interrompido pelo casal dancer. tinha uma esboçada engenhosa de possível encenação de fausto, cujo nome seria philosophus philosophorum. idéia de encenar num estacionamento que já fora bordel, iluminação de carros em movimento, e cheiro tipicamente tóxico do fim dos tempos veiculares. o fausto atropelado por goethe e marlowe atrevia-se por baixo. pedido entre édipo e laio respondido entre o pai e o filho. a esposa, vamos comer, vamos comer, geralmente é isso. pisando em fausto com pés inchados.

ele chegou ou está chegando, o ator que se retirou: ele chamou aquela que se atirou de. que também chegou, só que já chegada morta. um sacrilégio com os pais. os olhos vidrados no vidro. eram auroras outroras criativas as minhas. eu posso fazer um poema para você, juro que posso.
ATRIZ: Diga, é importante que você se manifeste. Mas, diga em silêncio, em pensamento, porque você está proibido de falar.
(música alta. entra um carro. nas janelas da frente dois braços pra fora, apontados para a frente)
MEPHISTO: eu vou pisar no dedão do seu pé se você continuar assim. vou mesmo. vou pisotear o dedão do seu pé. e vai sair muito sangue do seu dedo porque eu vou arrancar a unha do dedo do seu pé. é sangue não é? então, vão juntar moscas no seu machucadinho. os cães e os pobres vão confundir o seu machucadinho com uma esmolinha ou um restinho de uma miragem. e vão ficar felizes e satisfeitos com isso. passados muitos anos, você receberá isso como presente.
(sangue no tapete e tomate no extrato)

ao mesmo tempo que penso escrevo. eu juro. são pastas e pastas, com folhas contendo uma única palavra, além de recortes de jornal e revista, ou recortes de notícias em parágrafos, ou recortes de parágrafos em forma de poemas. o que se carrega tem peso. e o que se contém se contenta.

"é pesado pois sou um homem imaginado por um gene de um germe de uma molécula de um músculo de uma parcela de uma parte de uma fatia de um porcento de um pedaço de uma placenta sobre um tijolo de uma parede de uma sinapse de um sentido de um sêmen que um pelo de uma barba de um cara de um deus de um signo de um semi de um astro de um som de uma luz de um som de uma luz de um som de um som que me chamou".

assim começava em fraca luz o silêncio. dando ouvidos a muitas vozes, humanos. em nenhum sentido verdade. e nada de algo de comunicação. melhor pôr os papéis em plásticos e embora com a desordem disso. lado a lado, um a um, com um fecho, e um lugar, frequentemente visto, não tanto acessado. adornar de ordem o caótico derradeirismo em pastas de arquivo. e acostumar-se com as presenças inofensivas dos ácaros que se acumulam, e do desarranjo de espaço em rearranjo. nesta reconfiguração, vejo meu pai em cheque, sentado com as mãos nos joelhos, e todo serenidade. faltam dois cadernos ou três, com poemas da adolescência.

sábado, 4 de setembro de 2010

Carta-aberta de comentário pessoal 1

Curitiba - Crei o universo cármico em torno da minha vida acadêmica no ano passado que hoje se reflete em realidade. Deixei as disciplinas que eu considerava as mais chatas (no hard feelings, dear teachers) para depois. E hoje pago os meus pecados (no hard feelings, i mean it). Bem vindos ao purgatório das disciplinas pendentes. Faço parte do segundo ano, do terceiro ano, e também do quarto ano. E por isso me refiro a este momento como uma experiência de purgatório, pois não tenho envolvimento vital com as atividades de nenhuma turma. Apenas cumpro o que eu devia e devo cumprir para a conclusão. Afinal, ao menos um curso eu tenho que concluir.

E, como num purgatório, sob uma ótica medievalista, caso minha alma alcance redenção, alcanço um status de paraíso, análogo ao que se observa nas catedrais antigas, destacadamente as provençais destacadas por Michel Vovelle, um precursor notável na história das mentalidades, continuada por Jaqcues Le Goff. Nenhum deles, aliás e nem Duby, encontram-se com William Shakespeare, afinal de contas, mesmo com avanços nas comunicações globais, alguns modelos de oposições histórico-idiomáticas ainda persistem, como a relação França-Inglaterra. Caso contrário, podemos purgar mais um pouco, Vovelle, Le Goff e Shakespeare, em jogos obsessivos de reflexão pelo Declínio da Idade Média. Há uma a purgação medievalista em Shakespeare, outra em Vovelle, e outra em Le Goff. Sim, mas, em linhas gerais, todos nós nos danamos. Essa tensão referencial, no exemplo destes dois idiomas, é importante sempre ser notada, inclusive por ser marcada com sangue, de um corpo e do outro, cada um estancando ao seu modo, seja na Nova História dos anos 60, seja na nova catarse shakespeareana, with all the blood through the eyes of The globe theater.

Não sei o que preciso provar para Curitiba. Provavelmente nada. Certamente que me incomodo, já que vim de fora. E, óbvio, temos que considerar também, tenho vinte e dois anos. E é bem pouco o que tenho de respostas. Mas, muita coisa tem me incomodado, por exemplo, a preguiça com relação ao auto-conhecimento, travestida de uma "mera" característica ocidental. Ocidental? Como assim? Do que nós nos orgulhamos tanto, quando enchemos o peito de indignação ao contato com a ausência de paz no oriente médio? Somos laicos, e temos outra relação de conceito quanto à paz. Somos laicos? O Ocidente, que chama modernidade ao que inventou, como o marco transgressor de tradicionalismos, foi cartesiano e surrealista ao mesmo tempo, mesmo que em períodos históricos diferentes. Como assimilar, não sei. No Brasil explodimos e derrubamos helicópteros da polícia militar. E nossa paz significa o que? Pratico meditação desde a adolescência, ninguém me ensinou, ninguém me doutrinou, ninguém me iniciou. É uma mutação religiosa em mim, que envolve paixão e libertação. Aqui se passa fome, sede e frio, não existe paz, amor e nem arte.

Uma dor no meio da minha testa. Dificuldades respiratórias, com tanta variação climática, mais para o seco do que para qualquer outra coisa. Então as mucosas estão vulneráveis. Como a maioria das pessoas são, e não se dão conta, vulneráveis. E quando se dão conta, tornam-se vulneráveis ao auto-conhecimento, a auto-percepção, que é tão catártica quanto purgativa. Tanto remédio quanto veneno. Tanto rotina quanto vício quanto dramaturgia. Dividi um cigarro com uma musa gripada, e ainda padeço. Os mesmos males solos. Maremotos em mares solos em males remotos em perpétuo retorno não, Mircea Eliade não! Não, isso é sério, não sei se são passos ao redor, ou se apenas trata-se de contemplação, exceto exista um objetivo sendo alcançado. Uma topeira shakespeareana que cava ou um coveiro shakespeareano que cava, redundam ambos em mim por Augusto dos Anjos.

Chega! As campanhas me dão vergonha, as politicas culturais me dão vergonha, os verdadeiros artistas me dão vergonha. Devo ter um problema sério com a vergonha então. Quem vem do interior tem dessas coisas. E aprende a rir de todas essas coisas depois. Só me avisem quando for pra rir então, OK?


LÍMERSON,2010


quarta-feira, 1 de setembro de 2010

ECCE

eis que o amor obsoleta
e se torna objeto obsidional
eis que quase uma visão
sonhada sem verdade se desloca

ponho-me de fronte e permito
o confrontamento facial aviltante
a frase se põe como num vômito
elíptico em diálogo sem diagonal

eis que acordo em pé num ônibus
comedido e envolvido em misérias
eis que passo além daquele ponto
salvo e entorpecido do etéreo

ponho uma frase num ouvido humano:
não sei voltar de onde estava
ela segue íngrime e fagulha em sonho
podendo ser retomada como espelho.

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Revelação

encontrei novamente a musa
no corpo da mesma mulher
vi minha casca esponjar-se
e minhas vestes encolherem

não ao corpo humano vivo
mas à sêde morta em gotas
d´água de um pulmão denegrido

tirou a peruca branca
as lentes de contato azul
e com meus óculos prateados
viu-me debochar do engôdo
e de autor tornar-me musa

Meu último aniversário

no meu último aniversário
não assoprei velas numerais
acendi as flores que engoli
toda a chama de um jardim
num engano lamacento

os ovos se chocaram, e os miolos
fritos como um lanche chinês, soavam
parabéns sem palmas, de mãos atadas
ao me ver dançar, minha mãe caiu dura
e ao meu ver da história, meu pai cochilava

2010

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Tudo o que vês chegou ao Fim

8

DIRETOR CULTURAL: Pessoal, essa é a nova atriz da companhia. Ela é a única atriz que fala inglês. E que só falará em inglês. Aqui conosco. Vocês querem que ela pense, ou dance?
LUCKY:
    Given the existence as uttered forth in the public works of Puncher and Wattmann of a personal God quaquaquaqua with white beard quaquaquaqua outside time without extension who from the heights of divine apathia divine athambia divine aphasia loves us dearly with some exceptions for reasons unknown but time will tell and suffers like the divine Miranda with those who for reasons unknown but time will tell are plunged in torment plunged in fire whose fire flames if that continues and who can doubt it will fire the firmament that is to say blast hell to heaven so blue still and calm so calm with a calm which even though intermittent is better than nothing but not so fast and considering what is more that as a result of the labors left unfinished crowned by the Acacacacademy of Anthropopopometry of Essy-in-Possy of Testew and Cunard it is established beyond all doubt all other doubt than that which clings to the labors of men that as a result of the labors unfinished of Testew and Cunnard it is established as hereinafter but not so fast for reasons unknown that as a result of the public works of Puncher and Wattmann it is established beyond all doubt that in view of the labors of Fartov and Belcher left unfinished for reasons unknown of Testew and Cunard left unfinished it is established what many deny that man in Possy of Testew and Cunard that man in Essy that man in short that man in brief in spite of the strides of alimentation and defecation wastes and pines wastes and pines and concurrently simultaneously what is more for reasons unknown in spite of the strides of physical culture the practice of sports such as tennis football running cycling swimming flying floating riding gliding conating camogie skating tennis of all kinds dying flying sports of all sorts autumn summer winter winter tennis of all kinds hockey of all sorts penicillin and succedanea in a word I resume flying gliding golf over nine and eighteen holes tennis of all sorts in a word for reasons unknown in Feckham Peckham Fulham Clapham namely concurrently simultaneously what is more for reasons unknown but time will tell fades away I resume Fulham Clapham in a word the dead loss per head since the death of Bishop Berkeley being to the tune of one inch four ounce per head approximately by and large more or less to the nearest decimal good measure round figures stark naked in the stockinged feet in Connemara in a word for reasons unknown no matter what matter the facts are there and considering what is more much more grave that in the light of the labors lost of Steinweg and Peterman it appears what is more much more grave that in the light the light the light of the labors lost of Steinweg and Peterman that in the plains in the mountains by the seas by the rivers running water running fire the air is the same and then the earth namely the air and then the earth in the great cold the great dark the air and the earth abode of stones in the great cold alas alas in the year of their Lord six hundred and something the air the earth the sea the earth abode of stones in the great deeps the great cold on sea on land and in the air I resume for reasons unknown in spite of the tennis the facts are there but time will tell I resume alas alas on on in short in fine on on abode of stones who can doubt it I resume but not so fast I resume the skull fading fading fading and concurrently simultaneously what is more for reasons unknown in spite of the tennis on on the beard the flames the tears the stones so blue so calm alas alas on on the skull the skull the skull the skull in Connemara in spite of the tennis the labors abandoned left unfinished graver still abode of stones in a word I resume alas alas abandoned unfinished the skull the skull in Connemara in spite of the tennis the skull alas the stones Cunard (mêlée, final vociferations)
- Ei.
- Shhh. Eles estão com o coração paralisados. Eu os ensinei a fazer isso. Agora eles estão mortos. Mas se forem acordados perceberão tudo, que o coração está paralisado, e então morrerão de verdade.
- Então estão mortos de mentira...
- Shhh! Tem que parecer verdade.

Tudo o que vês chegou ao Fim

7

- Está vivo... está vivo... não, é repulsivo, está vivo.
- Mãe...
- Deixei as suas luvas, como havia me pedido.
- Mãe... agora que eu te desamarrei, eu quero que você corra. Por favor,não pare de correr. Não pare de olhar para trás enquanto corre. E olhe sempre para frente enquanto estiver olhando para trás. Aqui as pessoas andam olhando para trás, o que não faz diferença, já que são pessoas invisíveis. E isso faz toda a diferença. Mas, já chega, mãe, agora que eu te desamarrei, eu quero que você corra.

Corro lentamente, do ponto do microfone do apresentador, para o microfone do outro apresentador, que é melhor que o primeiro, mais articulado, se assim posso dizer. No sentido oposto vem Wilson, e no mesmo sentido vem o policial.

-eu vi você caído pelos degraus. o rosto todo desfigurado. tinha sangue na sua barba. achei que você estivesse morto. verifiquei o pulso e vi que você estava vivo. não sei o que está acontecendo. você desapareceu e começou a sonhar, se é que posso dizer assim. você estava sonhando em carne viva. um dia eu perguntei, você pode me transformar numa grande atriz, como um diamante. e você disse, eu não sou acessor de imprensa. nós dois seremos esquecidos, tudo bem. mas, se você está pensando que é só mandar eu decorar uma porção de sacanagens em inglês, essas atrocidades tiradas de, das suas analogias...você saiba de uma coisa muito importante.

Em mute ela palestra sobre a patafísica para os presentes.

POLICIAL: Ei, você fala, você não fala, você fala?

-Saia do canto de Tadeusz Kantor agora, e venha já até aqui. isso aqui etá ótimo, hei... está genial.;.. tudo muito bem amarrado...

Eu saio do canto neste instante atendendo ao seu pedido com um bolo de aniversário e um ovo ou uma flor encima como uma vela. Corto e distribuo pedaços dele.

Tito Lívio: à medida que a disciplina moral abrandava, os costumes foram se relaxando pouco à pouco; decaíram cada vez mais e, finalmente, quase à beira do abismo, chegamos aos nossos dias incapazes já de suportar os vícios e de lhes dar remédio.

- Nós aqui e agora estamos um tanto piores, sr. Tito Lívio. estamos caindo neste abismo há muito, muito tempo, com nós mesmos nos empurrando. vemos todo o tipo de imagem passando e sem o menor critério, compondo as mais disformes e perversas iconografias. Nós estamos em queda livre, em decadência livre, janelas de um edifícil, o fim da Idade Média, um outono livre, liberto... um outono minguante em queda livre. janelas html. the waning of the middle ages... a nossa formação é assim,nnão não, a minha formação, não não, essa formação.

LE GOFF: Sinal, causa e conseqüência do que não está acontecendo. o despovoamento do campo, a deserção para as cidades, o silêncio das ruínas. não, algumas ruínas ainda não estão em silêncio, veja, então ainda não estamos em plena decadência.não mais. seremos apenas esquecidos.você não falou em morte, não é isso? não é sobre isso? não é esse o assunto?

-No primeiro caso (Visigodos de Alarico, 410) houve um acontecimento pontual e brutal. no outro, um longo, mas espetacular processo.

Próspero da Aquitânia: Nada, no campo ou nas cidades, conserva o seu estado original; todas as coisas se encaminham para o seu fim. Pelas armas, a peste, a fome, os sentimentos de culpabilidade, o frio, e o calor, a morte possui mil meios de aniquilar de um só golpe a miserável humanidade... A discórdia impiedosa impera no meio da confusão do mundo (lá onde se organiza a confusão), a paz deixou a Terra, TUDO O QUE VÊZ CHEGOU AO FIM.

- O Império Romano não é mais infinito. Eu não conheci nem o Império Austro-Húngaro. Nem a União das Repúblicas Soviéticas. Nada. O máximo de intercontinentalidade em minhas experiências pessoais foi ter jogado um jogo russo dentro da Rede Ferroviária Federal do Brasil Sociedade Anônima. Sob o gigante meio viaduto em eterno inacabamento,imposto à ocupaçãodo espaço. Você conhece os meus amigos? Permita-me apresentá-los. Este é Tito Lívio:
- Oi, sou produtor cultural.
- Esse é Próspero, da Aquitânia.
- Oi, eu sou agente cultural.
- Essa é Mary, Mary Stuart.
- Oi, eu sou contaminadora cultural.
- Esse é o Wilson.
- Oi, eu sou representante cultural.
- E essa é Le Goff, recicladora de gêneros.
- Oi, eu sou o lixo cultural.
- Como você pode ver, nós defendemos a diversidade cultural.

WILSON: Os impérios,como os indivíduos, tem uma vida e uma existência que lhes é própria. Crescem, atingem amaioridade, e depois começam a declinar.
PRÓSPERO: A decadência dos impérios, sendo uma coisa natural, acontece de uma maneira idêntica a qualquer outro acidente, como, por exemplo, a decrepitude que afeta a constituição dos seres vivos.
WILSON: Afeta é a ausência de feto. No pós da ausência de coito.
MARY: Eu quero te confessar que eu aborto muito mais vezes do que me confesso.
PRÓSPERO: Eu me aborto. Por isso sou encucado em incubadeiras de todos os tipos, para todos os tipos.
LEGOFF: Eu gosto dos tipos típicos.
TITO: Pare de ser uma descompromissada com tudo!
WILSON: E o senhor, pare de ser uma concubina.

- Isso, continuem alimentando a minha sede é a mesma.

MARY: Spengler aborda uma história mais faustiana do que Nietzsche e Goethe juntos. Nietzsche e Goethe juntos são mais Sturm und Drung do que Tempestade e Ímpeto. Não tão tempestade e ímpeto quanto Stirb und Werde. Da morte a transfiguração, morrer é viver até o fim.

LEGOFF: No campo da política as origens são misteriosas, os nascimentos inexplicáveis, as estabilidades são raras, e os aniquilamentos são evidentes. A história da política é uma história de séries e séries seriais subseriadas em decadências relacionadas.

MARY: Morrer é viver até o fim.

- Então toma!
Ela atira em cada um deles, matando um à um.
- Isso é o que eu faço com os meus amigos. Esses são os meus amigos. Você os conhece? Nós somos mais do que um grupo de amigos. Nós somos uma civilização. A exploração de
- uma herança histórica morta, juntos.

LEGOFF: mórbidaaa...

- Somos a fase necrofágica de uma cultura.
- a agulha que desce, ou seja, o sol poente. o último imperador mexicano.
- Um Necrotropos num Necrocorpus num Necrolocus.
- Decadentistas! Por que você atirou no seus amigos?
- Oh... oh... oh... oh... oh... porque você pediu.
- Você às vezes age como um homem. Um homem frágil.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Tudo o que vês chegou ao fim

6

- Este diálogo está me deixando confusa. Confundiu a todos. Toda a coisa ainda por resolver. Que nunca fora resolvida. Sempre se repetindo e se referindo...
- Mas é exatamente disso que eu estou falando.
- Não pareceu tão exata tal semelhança.
- Não costumo deixar as coisas explícitas à todo o tempo.
- Ao contrário, você me parece tão explícito quanto... não tenho nem um comparativo à altura que se compare à sua total e incrível explicitação individual.
- Sinto vergonha.
- Aprenda a lidar com isso. Você já me amou? Em algum momento você já me amou?
- Momento quando, incondicionalmente?
- Arg, pergunta abstrata não, por favor não! Pareces uma moçoila com tantos velórios.
- Pareces um urubú, mordiscando minha tripa em carniça viva.
- Nunca mais digas isso.
- Vou dizer isso infinitas vezes na sua presença ou ausência.
- Você me excita falando assim. Peço que pare. Você pode se machucar. Fraquinho desse jeito, vai acabar se estrepando toda, a mocinha.
- Pois então veja isso.
Mostro-lhe a minha cicatriz abdominal.

Tudo o que vês chegou ao fim

5

- Eu também devo admitir, estava enganadoo tempo todo. Tudo o que eu disse, tomem pelo oposto. E tudo o que eu disser, tomem como posto.Vocês podem fazer isso por mim?
- Dê um exemplo para que eles entendam melhor a sua proposta.
- Certo.
Dirige-se até um dos quatro.
- Caia.
Ele não se move.
- Muito bem - vai até outro - Caia! É uma ordem!
Ele não se move.
- Ótimo. Você, caia já! E você também! Caia! Ótimo! Todos entenderam!
Comemora, já que ninguém caiu. Lentamente, dirijo uma frase ao seu ouvido, com sigilo na proximidade. Ele volta ao primeiro dos quatro. Empurra-o com intenção de derrubá-lo. Ele cai, e o mesmo ocorre com todos os outros. Eu taxo:
- Seus exemplos são péssimos! Infeliz!
- Oh! Infantil! Está sendo infantil! Volte já para o canto de Tadeuz Kantor! E só saia de lá com um bolo de aniversário!

Dá-me um tapão que me derruba. E segue me perseguindo com agressões até a minha saída. Neste ínterim.
- Você sabe demais sobre mim.
- Tens uma clara noção do tempo decorrido, nobre parvo?
- No momento estou sem parâmetros claros. Quando evacuo sei que é a hora exata para um banho.
- Engraçado, eu tenho um relógio que funciona apenas às seis e meia da noite. Com apenas um ponteiro visível no número seis, e apenas um ponteiro invisível por trás do ponteiro visível.
- Ao menos você possui uma garantia, um relógio em perfeito estado durante apenas um minuto de todos os dias da sua vida.
- Tenho garantido que meu cú permaneça limpo.
Eu devia ter me retirado antes que isso acontecêsse. Foi uma tremenda falta de timming!

domingo, 22 de agosto de 2010

Tudo o que vês chegou ao fim

4

Ao final deste diálogo,o tempo se fecha em nuvem cinza nua, e inicia longa chuva. Ela parece extasiada como um raio catártico misturada com um choque anafilático. Sou tomado por uma movimentação de quadril e tronco. Sou tomado por óleo em minha costa marítima que engolfo em golfo. Lentamente destaco o formato de livro na minha barriga. Abro a camisa, desabotoando os botões, por cima de onde se forma o livro. No gesto lento de desligamento do livro do meu corpo o som do velcro é contínuo e esganiçado. Abro o livro e ponho-me a ler em silêncio.

PALESTRANTE TOTALITÁRIO: O fumo é uma oferta. O hábito é um rito. O Ato de fumar é uma oferta. Por isso mesmo, oferece-se o cigarro. Pede-se o trago. Existe uma diferença entre quem fuma 40 cigarros por dia, acometido do vídio em fumar, ou fumismo viciante. E o indivíduo que fuma os mesmos 40 cigarros por dia, mas em estado de oferenda. Fumando como quem oferece. Ofecere a morte, que seja; quem oferece a morte oferece a única certeza pactual que se configura em vida. E que vida oferece a morte a si mesma? Que indivíduo a vive, heim? Não importa.

-Então devo não ir a algum lugar.
-Espera, você não... você não estava lendo sobre cigarros?
-É, eu também achei que. Você estava lendo a palestra.
-Bom, eu também achei.
-Ei, às vezes a gente se engana. Não é? isso é tão normal.
-Eu talvez pudesse achar que você estivesse lendo a palestra já que eu estava ouvindo a palestra sendo dita no... meu iPhone 4.
-Por exemplo,você sabe o meu nome?
-Sei. Espera, esqueci. Sei,mas esqueci. Espera, lembrei. Lembrei, mas me esqueci. Lembrei. Mas, você sabe o meu nome?
-Não, deixe-me adivinhar. Stuart. Maria Stuart.
-Isso!
-Não, Solange Gomes.
-Isso!
-Não, Ivete Sangalo.
-Sim!
-Não! Hillary Clinton.
-Isso!
-Não, não posso dizer...
-Diga, ora, diga.
-Helena, como na novela, Helena de Tróia.

Tudo o que vês chegou ao fim

3

z. ela dança para mim. a dança aparenta durar pouco tempo. Mas foi tempo o suficiente para que ela acontecêsse. E também para que enquanto ela acontecêsse, noutros lugares acontecêssem outras coisas, de outros tipos.

- eles estão se conhecendo melhor.
- não, eles não podem estar fazendo isso.
- por que não?
- porque eles não se conhecem.
- que imagem normativa eles estão formando.
- isso incomoda você?
- não, eu sei muito bem que enquanto ela dança para ele costuma esfaquear o seu público. ou melhor, o seu súdito.
- são viciados em ataques súbitos. viciados em estéticas. viciados! viciados em estéticas viciadas.
- o pior vício é o vício em linguagem.
- não, o pior vício é o vício em lingüística.
- não,não, não, o pior vício é o vício em línguas indígenas.
- mero lamento nacionalista é o pior vício. pior que lingüiça chupada.
- comer cocô, comer cocô, ninguém aqui falouem comer cocô.

Ela interrompe a dança e diz:
- o pior vício é aquele em que o viciado enche uma bexiga até que ela quase estoure, e depois murcha a bexiga, soltando todo o ar dentro dela, enchendo novamente o ar e murchando, deixa o ar preso e solta, incessantemente, incessantemente...
- referes-te ao vício em onanismo?
- ou a algum ignorante que não possui a habilidade nobre de dar nós?
- alguns gênios também não sabem dar nós.
- gênios juniores, gênios com know-how de fundo de quintal.
- esse é o pior vício. esse que eu estou pensando. É como um candiru faceiro pela uretra.
- basta! o pior vício é o vício em si então? o próprio vício! o vício em si. é aí que nós estamos chegando? na pureza?
- Mas, convenhamos, os artifícios são lúbricos e suficientemente jubilosos.

Eu interrompo:
- não há pureza nisso!
- Não há pureza em mais nada,diz um deles, deixando os outros apreensivos.
- Não, não há pureza nisso.
- Não há isso em mais nada, ela diz.
- incrível isso o que você disse, eu digo. Por que não nos conhecemos melhor?
- Porque não nos conhecemos,dizemos juntos.

Retomo:
- É tarde.
- Não determine o tempo decorrido!!! Pare! Pare! Com essa pressão!!!
- É cedo
- Eu também acho.
Arrependo-me novamente, agora por ter retomado, como que no perpétuo retorno, acumulo mais algumas lembranças de sustos irretomáveis. Como quando me empurraram contra os arbustos. Quando parecia uma conhecida, ela me surpreendia. Quando ela era uma desconhecida,não nos reconhecíamos.

- você também se relaciona com eles?
- parece que você sabe a resposta do que você pergunta.
- sou viciada em elaborar perguntas deste tipo.
- voce não sabe elaborar perguntas de tipo algum.
- afinal, por que estamos trocando palavrórios?
- palavrorias? começou com você vindo até aqui.
- você sabe que não começou assim.
- sei que você veio até aqui. sei que não começou assim. sei que talvez não seja por isso, e sei de muitas outras coisas.
- você não vai a algum lugar?
- não enquanto não resolver isso.
- você nunca irá resolver isso. e sabe por que não? porque isso já deixou de existir.

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Tudo o que vês chegou ao fim

2

Retiro uma chave defenda do bolso e cautelosamente abro o mini-game. Demonstro experiência neste ato. Pratico desde a infância a desmontagem. Procuro desmontar cada elemento do mini-game. Deixando lado à lado os componentes. Aprecio calmamente as placas de circuitos. A estrutura do visor possui uma moldura atrás do visor. Não vemos enquanto jogamos,mas a moldura está lá. velada e ao mesmo tempo funcionalmente inventiva. Estando tudo minimamente exposto e minuciosamente decomposto, ponho-me a observá-lo já com certo incômodo. Pôr-se a observar torna-se incômodo conforme observo tudo lado à lado.
- O que você está fazendo?
- O que sempre fiz. Desmontando o jogo e montando novamente você passa a ter um novo jogo à cada remontagem. Todos os dias. Um mini-game novo.
-Esse mini-game mini conecta-se com múltiplos outros mini-games. Sendo sempre outros.
-Não. Eles sempre são os mesmos. Eu nunca consegui montá-los novamente após a desmontagem. Eles são sempre os mesmos mini-games novos. Simplesmente isso.
-Você está tentando impor à si mesmo algum tipo de desafio?
-OH, tudo é sempre uma discreta e dolorosa lição de vida para mim!
-Oh, - segurando as minhas bochechas - meu pequeno e eterno aprendiz...

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Tudo o que vês chegou ao fim

1

Cinco pessoas lendo uma revista Veja. Tirada enrolada de algum bolso. Fazem força e barulho para a leitura. Talvez pelos impedimentos que a deformação da revista provocam na sua própria leitura. Óbvio que estou me referindo apenas à deformação física. Da revista. Em forma de canudo resistindo à forma de leitura. A leitura em silêncio vai se transformando em uma rinha de galos e cães e cobras desenfreada. Através da trajetória que envolve e aborda: leitura balbuciada de notícia em solilóquio, leitura balbuciada em tom mais alto, tentativas de comunicação dialogal que teçam considerações rasas ou profundas ou vazas ou afrontadas ou extasiadas ou ainda o uso da própria reportagem escrita como incapacidade de tecer considerações próprias sobre esta, também gritos, tapas e revistadas, uivos e cacarejos, uso de gargarejos, mortes súbitas, assassinatos, retirada de corpos, até sobrar a única retiradora de corpos, uma mulher, que chora como se houvesse perdido tudo.

Ela vem buscar comunicação comigo, que permanecia sentado à parte o tempo todo, concentrado no mini-game em mãos.
-O que é isso?
-Estou jogando Tétris. É um jogo russo.
-Você quer conversar comigo?
Eu me levanto, seguro calmamente os seus ombros, seu pescoço e depois seu rosto. ponho os dedos nos olhos e no nariz. Cheiro a sua boca aberta. Paro e atenuo o contato visual. Respiro suspiro aliviado.
-Eu não te conheço.
E volto a jogar Tétris. Sentado. Ela permanece em pé, com seriedade, tentando compreender por que eu agira daquela forma. Até lentamente começar a parecer ter chegado à uma grande e importante conclusão. Mais importante do que grande, à julgar pela abusiva expressão que toma o seu rosto, segue o pescoço e o tronco. Ressalta as veias mais importantes. As mais pequenas através dos olhos.
- Você está inventando isso tudo.
A sabedoria além do que devia que aquela fala exalou, foi um fator determinante na conseqüente piora do meu desempenho no Tétris. Passa pouco certo tempo até que eu perca o jogo. E chore, com graves tons e graves pausas. Choro neste artifício. E através dele. Em pé:
-Calma.
-...
-Calma (-...)... Calma.
Isso repetidamente, seguindo o choro, parece ter causado algum efeito sobre ela. Nada explicitamente significativo. Um feitiço, que também pode ter causado efeitos em mim. Efeitos que não são palavras. Mas que através delas se comunicam. E se entrubicam. Sentado:
- Você. Sabe. Que eu sei. O que. Você sabe que eu sei?
-Que você não é muito chegado em trepar?
-Quem foi que te falou isso?
-Você não se sente incomodado?
-Não é por aí. Eu nem sou tão famoso assim. Isso que aconteceu aqui, isso sempre acontece...
-Eu sei disso.
-Você participa disso.
-Você também.
-... sempre aconteceu.
-e sempre acontecerá.
-Páre. Não gosto de ser interrompido.
-Não foi uma interrupção, foi uma antecipação.
-Pior, muito pior.

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Homenagem aos 114 anos de Bauru

A cidade onde eu nasci. Tinha uma estação de trem importante. Ainda tem. Mas, não é de trem que eu volto para lá, ver o seu aniversário acontecer. Isso pode ficar mais claro na sequência de fotos abaixo, com a Cia Paulista de Estradas de Ferro (1910-1971), ou FEPASA (1971-1998) através do século vinte.

(1910 - quase melhor que agora)

(1918 - em meio ao futurismo tardio)

(1920 - sim, era glamouroso)

(1982 - estranho como os anos 80...)

(sem data - meu pai nalgum canto)
(sem data)

(1999 - Límerson, 12 anos)
(2002 -privatizado, ou seja, virou privada...)





Parabéns Bauru!!!

(Pela inspiração de cada personagem perdido e encantado numa mesma malha abandonada)

domingo, 25 de julho de 2010

Ele

tinha culpa

meu pai notou

que derrubei o cálice

olhou-me nos olhos

e se divertiu

tinha culpa

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Hematóide

lamber a ponta dos seus dedos
e chupar as costas dos cotovelos
eu quero
lembrar
de quando mastigava os seus cabelos

naquele tempo havia mais serotonina do que hemoglobina

hoje espelhos me atravessam
e traveste-se de vinho tinto
do teu corpo arrepio
o abraço primordial

beijar as manchas do carpete
e suar no lençol já encardido
eu quero
ainda
teus odores da pelvis à boca
como um hematóide hoje em dia.

Curitiba, 2010

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Kranksein 1

o professor de funerária logomarca conjeturava:

- ... tempo, redunda e também contradiz-se.

sai do orelhão dançando o toque do seu celular

concentrado em vaidades complexas

erotiza-se sem ilusões

- mas isso é impossível!

- eu tenho três anos de idade.

- isso é uma doença, professor.

- isso só é considerado uma doença na medida em que foge à normalidade do envelhecimento humano. veja os meus músculos flácidos...

- com isso você está querendo me contradizer? quer dizer, com o óbvio mais mal argumentado dos últimos tempos?

- não me venha com últimos tempos...

o professor grifava e traçava setas, silente, sensual e autoritário. sentia-se incentivado com cada ofensa pessoal. contaminava-se orgiasticamente com cada prejuízo à homeostase, corrigindo pontualmente a imagem capilar. um vendedor ambulante perambulava balões:

- bebês de porcelana... cachorros de madeira... gatos inanimados, a equipe de resgate! desgastes empalhados... de estimação... de proveta...

sábado, 19 de junho de 2010

Rascunhos 3

à minha esquerda o sesc
casas de dois andares
o céu que nada muda

à minha direita já amanheceu
o pássaro sai de hora marcada
da árvore implantada de abelhas-flores
e some sentido praça ozório

sentido aeroporto passa o avião
bem perto do teto das cabeças
atrás de mim o quarto do joão
com computador e namorada

embaixo tem o estúdio
e na minha frente o prédio
barulho por todo o lugar

este sou eu geograficamente
se paro o olhar amanhecendo na janela
no anseio simbólico de quem vai embora

Rascunhos 2

o filhote de elefante repousa no meio da vitoria regia. sobra apenas a arquibancada. estamos com um céu dormente, um céu que formiga no pescoço e nos braços. os pais do elefante estão fazendo sexo nalguma paragem desta gigante praça. praça de alimentação dos prazeres. os elefantes quando estão tristes simplesmente desaparecem. o filhote repousa como derrotado de uma batalha, como quem desiste de argumentar num debate, como quem baixa a tromba e chega. os pais dele estão nalguma paragem, colhendo novos truques da vida, eles não podem pular nenhuma etapa. um elefante não pode nunca pular nenhuma etapa na sua formação. a mãe diz:

- quer pipoca?
- não.
- não quer?
- não.
- o que é que você tem?
- não queria precisar responder.

Rascunhos 1

Era uma pessoa chocada com os acontecimentos do mundo. Uma pessoa estagnada nos acontecimentos do mundo. Uma pessoa profundamente envolvida com os acontecimentos do mundo. Uma pessoa com inteligência para perceber que estava envolvida com os acontecimentos do mundo, que só agora percebia que estava profundamente envolvida com os acontecimentos do mundo. Quantas atrocidades... ela pensava, eu que sou uma pessoa, ela pensava, de dentro de uma espécie de um momento, ela pensava, de um monumento, ela pensava nas atrocidades. Coitadinha, é terrível sentir pena, mas...
Coitadinha dela... tinha dedos tão delicados, que se perdia no tempo fazendo movimentos lentos com eles. uma dança íntima. invisível.
Aparece uma visita. Começa uma festa. A festa acaba. Todos vão embora.
Essa pessoa se envolveu com muitas coisas. Esta pessoa se envolveu com o mundo todo. Essa pessoa desenvolveu um método de existir, onde era responsável por tudo. Coitadinha, é terrível sentir pena, mas...

terça-feira, 15 de junho de 2010

Tudo o que vês chegou ao fim 2

- O Império Romano não é mais infinito. Eu não conheci nem o Império Austro-Húngaro. Nem a União das Repúblicas Soviéticas. Nada. O máximo de intercontinentalidade em minhas experiências pessoais foi ter jogado um jogo russo dentro da Rede Ferroviária Federal do Brasil Sociedade Anônima. Sob o gigante meio viaduto em eterno inacabamento, imposto à ocupação do espaço. Você conhece os meus amigos? Permita-me apresentá-los. Este é Tito Lívio:
-Oi, sou produtor cultural.
-Esse é Próspero, da Aquitânia.
-Oi, eu sou agente cultural.
-Essa é Mary, Mary Stuart.
-Oi, eu sou contaminadora cultural.
-Esse é o Wilson.
-Oi, eu sou representante cultural.
-E essa é Le Goff, recicladora de gêneros.
-Oi, eu sou o lixo cultural.
-Como você pode ver, nós defendemos a diversidade cultural.

WILSON: Os impérios,como os indivíduos, tem uma vida e uma existência que lhes é própria. Crescem, atingem a maioridade, e depois começam a declinar.
PRÓSPERO: A decadência dos impérios, sendo uma coisa natural, acontece de uma maneira idêntica a qualquer outro acidente, como, por exemplo, a decrepitude que afeta a constituição dos seres vivos.
WILSON: Afeta é a ausência de feto. No pós da ausência de coito.
MARY: Eu quero te confessar que eu aborto muito mais vezes do que me confesso.
PRÓSPERO: Eu me aborto. Por isso sou encucado em incubadeiras de todos os tipos, para todos os tipos.
LEGOFF: Eu gosto dos tipos típicos.
TITO: Pare de ser uma descompromissada com tudo!
WILSON: E o senhor, pare de ser uma concubina.

ME: Isso, continuem alimentando a minha sede é a mesma.

MARY: Spengler aborda uma história mais faustiana do que Nietzsche e Goethe juntos. Nietzsche e Goethe juntos são mais Sturm und Drung do que Tempestade e Ímpeto. Não tão tempestade e ímpeto quanto Stirb und Werde. Da morte a transfiguração: morrer é viver até o fim.

LEGOFF: No campo da política as origens são misteriosas, os nascimentos inexplicáveis, as estabilidades são raras, e os aniquilamentos são evidentes. A história da política é uma história de séries e séries seriais subseriadas em decadências relacionadas.

MARY: Morrer é viver até o fim.

-Então toma!
Ela atira em cada um deles, matando um à um.
-Isso é o que eu faço com os meus amigos. Esses são os meus amigos. Você os conhece? Nós somos mais do que um grupo de amigos. Nós somos uma civilização. A exploração de
-uma herança histórica morta, juntos.

LEGOFF: mórbidaaa...

-Somos a fase necrofágica de uma cultura.
-a agulha que desce, ou seja, o sol poente. o último imperador mexicano.
-Um Necrotropos num Necrocorpus num Necrolocus.
-Decadentistas! Por que você atirou no seus amigos?
-Oh... oh... oh... oh... oh... porque você pediu.
-Você às vezes age como um homem. Um homem frágil.

DOVE


dois pombos com os dois pés
num só galho de uma árvore
enraizaram em minha janela
catavam à bicadas e cagavam
tomei todo o cuidado possível
pois como sempre levanto vôo
sendo esta a minha função chave
de todo exagero enquanto morro
por todo espetáculo que torna cada
em todo tempo à tempo que seleta
enquanto eles não usam as asas.

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Comunicação - Núcleo de Espetacularidades + Fotos do MANIFESTO PEEP SHOW - TERRITÓRIO IMAGINÁRIO




Dias e dias, mas que comecinho já por si mesmo irritantemente recalcitrante. Não, trata-se do conjunto de peças-trajetória apresentado pelo algum pouco conhecido e algum pouco anônimo Núcleo de Espetacularidades. Fundado por Límerson e Walace, convivendo com
artistas acadêmicos, e convivendo, e consequentemente atuando como artistas aqui denominados assim. Mas, são muitas as personas, e os jogos de espelhos, entre os vislumbramentos e as decepções, entre as forjações e as forçações de tragédias pessoais.



Sendo as peças, na sequência, Double Wilson (2007), Clube do Algodão (2008), Formigas Glitter (2009) e Loading (2009), configurações e reconfigurações que lentamente em ralentos idiossincráticos (ou os seus relentos) tensionam o deboche pastichizado, beco sem saída dos nossos tempos. Todas sempre foram amparadas pelo processo Território Imaginário, sequência (não necessariamente serial) de solos que culminaram no solo Manifesto Peep Show, apresentado em 2010, já que o suporte devida e indevidamente explorado que este comporta, considerando o contexto idiossincrático na performance art, estrutura prática e conceitual do trabalho de atuação no Núcleo.



Peça alguma dessas mencionadas provocou efetiva mudança , ou alteração tão significativa, que possa me garantir ilegítimo ao notar quase sempre o oposto. Oposto não, o impostor. Os impostores ávidos. Nós. Aves de rapina, isso sim, ou quase. Já que incorremos nos nossos mesmos medíocres erros, dia à dia. Fazemos as mesmas cagadas. Que sempre fizemos. Nos apaixonamos e amamos, mas é tudo mentira, convenção. Gozamos na convenção, ejaculamos as mesmas punhetas, manifestando o mesmo peep show, encontrado nos mais podres sex shops. Aliás, as convenções e nós, somos íntimos em laços estreitos (com direito à canastronas punhaladas pelas costas).

Não, estou falando de mim, não se deixe levar pelo lado exótico. Eu só estou muitíssimo preocupado. É necessário que agora eu provoque em mim mesmo uma dose de artificiosa calma. Não, não é necessário. Ou melhor, para que? What for? O período em que a sigla n.a.r.k.o.s.e., sigla aberta, sigla sem siglo, os apenas signos, esta palavra que acompanhava o nome do Núcleo de Espetacularidades, correspondente e análogo ao período de vínculo dos integrantes do grupo com a academia, é correspondente e análogo também ao período de atuações como artistas acadêmicos, entorpecido por crises pessoais, dores de mundos, que na verdade acabam sendo insolúveis. Em cada membro, e em cada humanidade. São rochosas e rolam como rolling stones, mas continuam rochosas à despeito disso, como algumas rocks que não roll. Enfim, continuam a mesma coisa. Óbvio, claro, meu deus, carregam também seus dolorosos arranhões e feridas e cicatrizes, suas próteses e suas cada vez mais novas máscaras. Criam maravilhosos mecanismos de defesa. Espetaculares. Eu tento, mas eu juro que tento, equacionar, mas sei como funciona o delírio e a celebração, e também das significações que tomam os seus momentos. E isso não se equaciona, por mais que se deleite no que se articule. Não sinto o cansaço. Sinto pior, estou fadado. Fodido e fadado, à mim, no que é irredutível, e correspondentemente fadado ao mundo.


É hora de concluir. Nada foi resolvido, mas apontamentos infinitos foram gerados. Óbvio que somos os mesmos, em processos de mudança. Alguma formação obviamentedeve estar se formando. E se forma. E note-se a falta de critério que caracteriza muitas delas. O encerramento definitivo da formação através de mestres. Ou, o encarceramento, entendido por enredamento, dos elementos deste processo de formação (mestre-discípulo), em múltiplas cadeias re-significadoras e re-articularoras destes elementos. Morre Kazuo Ohno. Não pude conhecê-lo, assistí-lo, exceto em vídeo. Tive contato com elementos da dança Butoh, devidamente orientados pelo, também falecido, Val Rai. Gerald Thomas escreve Kazuo era o “Liebestod” [ária final da ópera, onde o amor transcende a morte e vice-versa]. Meio vivo-morto em cena, tínhamos a impressão de que vinha carregado de “entidades”. Gerald Thomas, vivo, também não conheço pessoalmente, e nem assisti as peças que gostaria de ter assistido da sua carreira, exceto também em vídeo. Sem contato direto com nenhum de nossos "mestres", ou entidades de influência principais, seguimos juntando os seus pedaços, ao sabor amargo da nossa falta de critério.


Dias e dias, anos e anos, isso sempre foi assim. Não são os mesmos Narcisos, mas são os mesmos narcóticos (por sinal, cada vez piores), e o entorpecimento, a anestesia, inerentes ao nosso cultural-traduzido senso de presenvação, desvinculado absolutamente da preservação dos critérios de preservação. Agora devo voltar para o canto de Tadeusz Kantor. E depois, sairei novamente, carregando nas mãos um bolo de aniversário. Analgia das velas que são na verdade ovos ou flores. À partir daí, fica bom até aqui, e sinceramente gratificante. Estou exasperado e de boca fechada. Medito em como pensar no que pensa que medita.



Curitiba, 2010

P. S.: Crédito de todas as fotos - Sehigueo Murakami

terça-feira, 1 de junho de 2010

Tudo o que vês chegou ao fim - A piece of Skip Divided


ME:Mãe, agora que eu te desamarrei, eu quero que você corra. Por favor, não pare de correr. Não pare de olhar para trás enquanto corre. E olhe sempre para frente enquanto estiver olhando para trás. Aqui as pessoas andam ohando para trás, o que não faz diferença, já que elas são invisíveis. E isso faz toda a diferença. Mas já chega, mãe, agora que eu te desamarrei, eu quero que você corra.

(Corre lentamente, do ponto do microfone do apresentador, para o microfone do outro apresentador, que é melhor que o primeiro, mais articulado, se assim posso dizer).

Próspero da Aquitânia: Nada, no campo ou nas cidades,conserva o seu estado original; todas as coisas se encaminham para o seu fim. Pelas armas, a peste, a fome, os sentimentos de culpabilidade, o frio e o calor, a morte possui mil meios de aniquilar de um só golpe a miserável humanidade... A discórdia impiedosa impera no meio da confusão do mundo*, a paz deixou a Terra, TUDO O QUE VÊS CHEGOU AO FIM.

ME: Morrer é viver até o fim. No campo da política as origens são misteriosas, os nascimentos inexplicáveis, as estabilidades são raras, e os aniquilamentos são evidentes. A história da política é uma história de séries e séries seriais subseriadas em decadências relacionadas.

THOM:
No more common dress or elliptical caress
Don't look into your eyes cause I'm desperately in love
In love
When you walk in the room everything disappears
When you walk in the room it's a terrible mess
When you walk in the room I start to melt
When you walk in the room I follow you round
Like a dog, I'm a dog, I'm a dog, I'm a lapdog
I'm your lapdog, yeah
I just got a number and location
I just need my number and location

*No interior onde se organiza toda a confusão.


sexta-feira, 28 de maio de 2010

Isso é hábito e isso distrai


(eu, de costas para a câmera, com um cravo na lapela)



Curitiba - Ninguém, simplesmente ninguém, em toda esta cidade (que eu conheço (e que é bem pouco do todo, e próximo ao nada)) sabe os horários exatos do ônibus Juvevê/Água Verde, linha freqüente no meu arco transitante. Junto com a empresa Princesa (ou Penha), que realmente, me transporta para o real, no caso o real sendo Bauru. Vamos por partes. Cada pessoa diz um horário, quando eventualmente me abordam, perguntando sempre o quanto tempo espero por ele. Nunca sei a resposta exata, e sempre faço analogias, com o cigarro com o sol ou com o relógio da catedral. Mas não, isso definitivamente também não tem nada à ver com Esperando Godot, à despeito das árvores restauradas da Praça Tiradentes, mas não vamos cair em mais um truque analogizante (e analgesisante).

Vamos praticar mais um exercício de meditação dentro do ônibus menos utilizado da cidade. Juvevê/ÁguaVerde. Com senhoras, senhores e estudantes (poucos, sempre poucos) de faculdade ou colégio. O ônibus que cada um conhece por um horário, e espera por sua chegada cada um em um horário diferente. Espectativas nunca correspondentes com as estimadas ou estipuladas pela URBS, que também nunca correspondem com o horário real da chegada do ônibus no ponto da Tiradentes. Mas não vamos cair num outro estratagema semântico, só porque nem mesmo a URBS consegue escapar dos desígnios da URBE. E nem um de nós poderia tentar fazê-lo. O Fugere Urbem tornou-se tão intra-fragmentado, que não há mais como respirar ou não respirar, exceto após uma boa dose de abstração. Uma excessiva e nociva dose de hábito... ah, e como o hábito distrai.

O brasileiro afirma o seu cansaço através de uma condição de luta por uma condição melhor que essa, seja famililar, profissional, intelectual, sexual, introspectiva e extravagantemente. Imagem reutilzada por nojentos, asquerosos e ofensivos planos de mídia, numa paródia melodramática, que justifica sempre o insuportável do cansaço,através do orgulho excessivamente honroso (e até bocó) da luta. E como ficam os que se encontram sob o jugo do cansaço? Apenas tecem suas relações? Preguiça, isso me dá muita preguiça, buscar distração me dá muita preguiça.

Deve ser uma questão de hábito. Como limpar a casa. Antigamente as famílias tinham uma pessoa própria pra isso. Nunca vivi isso. Nunca vivi nada. Não, menos exagero. Ser brasileiro parece exigir certa disposição para o esforço. E o cansaço. Por isso me espreguiço antes de atravessar a primeira rua. Não sou tão deslocalizado como pareço. Só gostaria de perceber que esta procura por organização, que me delineia em todos os sentidos, é semelhante à qualquer processo absolutamente normal de vida. Ocorreu e sempre ocorrerá em todas as épocas. E não se trata de um destaque ou algo que podemos grifar, à não ser através de um grifo pessoal. É isso.

Límerson

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