sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

missiva

falta na minha pele o eriçado

pontilhado impresso da carícia

sobe ao pensamento saboreado

penetra do caminho vertebrado

o cheiro que vaga nos meus presságios

no outro palato gosto do gosto

a saliva que escoa de mim

é a dança lenta de um poeta

lapida a matéria esquecida

falta em minha pele uma ferida

o dente da despedida mastiga

subida ao pensamento sem subida

instiga da coluna serpenteando

uma língua no mamilo pulsante

o movimento reverso na forma

da mão que desce ao plexo e volta

tem sangue no meu querer tem raiva

e tem simulacro nessa missiva

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Psicopompos

"Morrer pra mim hoje
É saúde ao doente
Como alforria para o escravo
Morrer pra mim hoje
É o cheiro de mirra
Como um abrigo à ventania
Morrer pra mim hoje
É beijar o lótus
Como que à beira de um orgasmo
Morrer pra mim hoje
É a chuva que chega
Como a volta da guerra ao lar
Morrer pra mim hoje
É o céu se abrindo
Como transfiguração pelo além
Ah, morrer pra mim hoje
É como voltar para casa
Depois de anos sem coragem"


(REED, 1997 - tradução: André Benevides)

*extraído da tese de mestrado Guerreiros do Alfabeto Estelar, de Samira de Souza Brandão Borovik, 2005, UNICAMP;

**ela é de Bauru, como eu e a minha última amiga que fiz antes de me mudar, para onde estou voltando em breve;

*** com um pouco mais de vontade de me expor que possa me arrebatar momentaneamente, escrevo mais sobre as tangentes deste poema, nesta postagem, neste blog salubre que é o meu.

Beijos ao nada e a ninguém que em nenhum momento aqui se encontra,
(desencontro)
Límerson
2010

sábado, 23 de janeiro de 2010

O Processo de digestão

o processo de digestão

não está mais em teste

não está mais em fuga

não está mais em voga

não está mais em riste

o processo de digestão ficou triste

precisa-se de um objeto

precisa-se de um organismo

precisa-se de uma combustão

precisa-se de uma objetivação

o processo de digestão ficou óbvio

nas idéias dos historiadores

nas maneiras dos inventivos

nos princípios dos criadores

nos processos já digestivos

o processo de digestão fica proibido

porque não tem mais sentido

porque não tem cara própria

porque não foi preventivo

porque não foi só foi cópia

o processo de digestão fica permitido

na medida em que houver alimento

na medida em que houver fome

na medida em que houver boca

na medida em que houver cu

o processo de digestão fica permitido

na medida em que houver

alimento fome boca e cu

a noite de comprimento cumprido

noite com dedos compridos
(e medos cumpridos)
dedo do meio pro dia
(o meio do medo)

meio curta meio comprida
ela nunca termina sempre começa
meio longa meio cumprida

noite com medos cumpridos
(e dedos comprimidos)
o medo do meio pro dia
(e o dedo do meio em riste)

meio longo meio cumprido
ele nunca completa sempre remete
meio curto meio comprido

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Tiro pra cima


a cada cadeia de vento a imagem

a artéria do céu até o sol

a veia nublada lembrou

o corpo em plenilúnio

o corpo feminino

o sumo da noite

a musa de núpcias

a gota no olho

o cuspe pra cima

o temporal

o corpo inflado

o corpo da chuva

o organismo do céu

a veia artéria da musa


o tiro no todo da vontade

a tira-vontade de tudo

o tiro pra cima do comediente


a cada encadeamento o sol

o fluido intruso do corpo

a luz da imagem nublou

o raio (de luz) na tela

o raio (re luz) no olho

a lembrança de luz

o cuspe pra dentro

o corpo de núpcias

a nuvem do gozo

o restolho

o organismo da musa

o organismo do chuva

o feminino da gota

a artéria veia do estômago


o tiro no meio da vontade

a tira-vontade do meio

o tiro pra cima do comediante

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Vitória Régia

Bauru - Um calor que igual nunca vi. Não dá pra ler numa sala fechada sem um ventilador. Mas não dá pra conviver com um ventilador. Alívio é o som do ventilador em silêncio. De madrugada, o interfone da casa vizinha a minha mostra-se em uma frequência ruidosa. Parece aquele barulho que fica dentro da cabeça da gente. Agudo e constante. Enlouquecedor porque não pára nunca, parece que alguma coisa vai explodir, mas nunca explode. Ou seja, não existe alívio do ventilador desligado, porque em silêncio, a loucura pode ser ouvida além da própria idéia de loucura, ela está conectada no poste, num aparelho de ruído constante, agudo e maligno. Acho isso tudo profundamente nocivo.

Aqui também tem um parque chamado Vitória-Régia. Ali me ofecerecam maconha uma vez, eu fumei e não aconteceu nada. Ali um primo meu dormiu, fugido da casa dos pais dele. Ali também uma mulher foi morta. Ali eu costumava também procurar por um banheiro público, mas era sempre desencorajado por algum motivo, não me lembro agora qual. Acho que eu devia visitar o Parque Vitória Régia antes de voltar. O parque tem um auditório ao ar-livre, em forma de Teatro Grego (Grécia Antiga), cujo palco tem o formato da folha da vitória-régia. A flor da vitória-régia só se abre de noite, à partir das seis, e muda de cor conforme vão passando os seus dias de vida. A minha rotina de sono, está pior do que de costume, mas está como eu sempre desejei. Como a flor da vitória-régia, eu acordo às seis da tarde, mudo de assuntos em assuntos, de compromissos em compromissos, pequenos, mínimos, e durmo por volta das 13h. Com isso aproveito os horários mais interessantes do dia, sendo eles a noite, a madrugada e a manhã. O resto é depressão total, prefiro estar dormindo. O Parque Vitória Régia (acho que não tem hífen) em Bauru também tem uma floração especial, que começa a acontecer à partir das seis da tarde. Mas sobre isso vou me limitar a mencionar o cara que vende batata-frita na caixa de pizza na beira do parque, sempre à partir das 18 ou 19 ou 17 por ali. Um grande trabalho o dele...

Às cinco da manhã concentro-me da mudança do céu. O céu de Bauru tem planos de nuvens, tem tudo o que um fotógrafo precisa. Fico vendo virar dia, a noite de nenhum bauruense feliz. Até às oito as luzes do poste ainda estão acesas. O ruído do interfone do vizinho não pára nunca. É como eu, que só paro entre uma e duas da tarde. Período em que meu quarto é ocupado por seres estranhos. Dentre eles meus pais. Dentre eles meus sonhos. Dentre eles meus pesadelos. Devo estar sonhando em retornar porque já devia ter retornado, não posso fingir que me sinto em casa, esta é a casa dos meus pais. Sempre vai ser a minha casa, mas não posso fingir por muito tempo que me sinto em casa, porque estou fingindo isso para mim. Eu não me engano. Só equivoco.

Ulisses está vindo, na sua viagem que parece com a minha. Saído do pedido on-line. Quando ele chegar eu volto. É isso. E voltarei com a faca e o queijo na mão. Os elefantes quando estão tristes simplesmente desaparecem. Queria poder fazer isso. Entender que na verdade sempre faço isso. Ou aceitar o depoimento que uma amiga me escreveu, mencionando que estou sempre entre o tangível e o intangível. É mais do que ela pensa. Estou com a sensação de não ser alguém. Isso me lembrou que encontrei um sujeito no SESC esses dias, ele me disse que eu tenho que acreditar que eu sou alguém para ser alguém. Pode ser. Mas essa liberdade de ser, bastando acreditar que se é, criou em mim o problema de ser tudo, e a glória de ser nada. E a vergonha, que é alheia, de recorrer a filosofagens. Já chega.

L.

P.S.: Queria que o post fosse sobre este parágrafo: "A Festa de Hambach realizou-se no ano da morte de Goethe. A viravolta dos tempos ficou assim assinalada. Os versos, os luares e os rouxinóis passaram a ser considerados fastidiosos. Tudo tinha já sido sentido e cantado, todos os ritmos e estrofes tinham sido experimentados. Começara a época da prosa. As cordas da harpa tinham rebentado. As penas dos publicistas punham-se em movimento". Desse livro do Veit Valentin sobre a história da Europa. Achei um parágrafo inspirador, mas que perdeu totalmente o sentido conforme o post foi sendo escrito, cabendo apenas aqui a sua transcrição, desconectada de temática.

Rascunhos 2

o filhote de elefante repousa no meio da vitoria regia. sobra apenas a arquibancada. estamos com um céu dormente, um céu que formiga no pescoço e nos braços. os pais do elefante estão fazendo sexo nalguma paragem desta gigante praça. praça de alimentação dos prazeres. os elefantes quando estão tristes simplesmente desaparecem. o filhote repousa como derrotado de uma batalha, como quem desiste de argumentar num debate, como quem baixa a tromba e chega. os pais dele estão nalguma paragem, colhendo novos truques da vida, eles não podem pular nenhuma etapa. um elefante não pode nunca pular nenhuma etapa na sua formação. a mãe diz:

- quer pipoca?
- não.
- não quer?
- não.
- o que é que você tem?
- não queria precisar responder.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Como era de costume

como era de costume

peguei a escada de madeira

e encostei na parede da noite


subi no telhado da época

com minha caneca de café

e observei a minha metrópole

da infância do meu fumo diário


acaba o café sobra a caneca

a noite, eu, e meu plano alto

éramos os descartáveis ali

acaba o fumo sobra a bituca

as estrelas, eu, e meu plano alto

éramos os apagados ali


(solto o céu preso

a fumaça solta no céu

salta um grito da goela

congela o corpo aceso)


ao descer empurrei a escada da parede

e fiquei um tempo descobrindo

um novo jeito de retornar


como era de costume

peguei o jeito de retornar

e retornei ao chão da noite


acaba a noite sobra o poema

a bituca e a caneca não descem

eu, meu plano alto e o tema

éramos os disponíveis ali


a parede e o chão anoitecem

acaba a noite sobre o poema

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

MANIFESTO PEEP-SHOW - TERRITÓRIO IMAGINÁRIO



Apresensei dia 21 de Novembro, do esgotado e esgotante ano recém desgastado, que vamos lembrar como 2009, o solo que venho elaborando há quatro anos, em meio à inúmeras desistências em seus justos e injustos motivos, que se chamava Território Imaginário, mas que vamos chamar à partir de agora de Manifesto Peep-Show (Território Imaginário passa a estar num campo implícito da idéia do título, eu acredito, conforme penso no título das coisas à partir de agora). Posso lembrar de 2009 como o ano em que apresentei este solo, onde danço monstros infantis, e interpreto um complexo de polissemias, através das quais imagino que se construa a simbologia do masculino, a minha construção simbólica da machesa. Falo no microfone, experimentalmente, o que não funcionou no dia 21, seguido de um contato com público que também foi um pouco frustrante, mas para mim foi instigante enquanto observação comportal. Refiro-me a um momento do evento, quando eu me apaixonava por uma pessoa da platéia, no sentido que convencionou-se vulgarmente chamar de platônico, à saber, um tipo de gostar fundamentalmente idealista.

Os sentidos do idealismo sempre estiveram presentes no meu trabalho em teatro, e nunca deixei claro, por opção própria, se acho bom ou ruim, aquilo que se qualifica através do idealismo. Seja no que diz respeito à posturas artísticas ou opções de criação, ambiente de discussão na peça Loading (outro motivo para eu me lembrar de 2009, "o ano da apresentação da coisa mais complicada que eu já fiz"). Ou mesmo no idealismo que pode qualificar uma forma de afetividade, uma forma de gostar, no sentido romântico, se assim posso dizer de um sentimento de uma pessoa por outra.

No Território Imaginário, que agora se chama Manifesto Peep-Show, a última coisa que acontecia, era o estabelecimento de uma paixão romântica idealizada. Uma pessoa da platéia era escolhida e eu me "apaixonava" por ela, através de olhar vidrado nos olhos e de respiração fixante. Não sei como ficou isso pra quem via, realmente não sei, acho que não funcionou. Mas, como disse, acredito que tenha sido uma experiência comportamental muito rica, para mim, enquanto evocador da afetividade referente, e para a pessoa escolhida, sendo evocada e significada, à partir de um referencial que vai se construindo durante o contato. Contato, como imaginei, não sei se houve, mas houve um. E ali ficou uma marca abstraída de um tempo decorrido, envolvendo uma observação do amor, ou melhor, do gostar contemporâneo, coisa que definitivamente está muito longe de ser amor e, principalmente no campo das artes, está mais próximo de uma inveja tão velada, mas tão velada, mas tão velada que... o que? Nesta abordagem, já acho que deve ser melhor construído, o acontecimento final. Até mesmo o acontecimento final deste parágrafo.

São quatro anos de morada em Curitiba, passando pelo Bacacheri, pelo Cabral, e pelo Centro. Quem mora em capital, tem que morar no Centro, ou próximo à ele, pelo menos durante um tempo. Acho que para mim já deu esse tempo. Quero voltar ao bairro. Porque só morando no centro o sujeito entende o que significa a capital, culturalmente. Mesmo em Bauru, que não é capital de nada, mas é cheia de universitários, quem vive no centro entende que a movimentação cultural bauruense não acontece ali. O que acontece no centro de Bauru é só uma coisa chamada comércio, e é essa única coisa que movimenta dinheiro nessa cidade; e a única coisa com movimento no centro de Bauru é o dinheiro do comércio. O pensamento criativo, está em outros polos. Em Curitiba temos um centro diferente, mas não menos fácil de se assimilar. Centro com praças, largos (das ordens), feiras, sesc (da esquina), museus, teatros (da FCC ou de "donos") e... bem e o centro de Curitiba vive muito bem, tudo é muito agradável e tranqüilo. Só não me diz mais nada como lugar, então desejo desligar-me, voltar prum bairro talvez, não sei... agora estou descansando de tudo o que houve nestes quatro anos, em especial neste último. Toda a gente que eu conheci e que resolveu interferir na minha vida de uma forma tão significativa, ao mesmo tempo que o meu suposto último ano de faculdade ia por água à baixo então, calma, gente, calma. Não estou neste rítmo desenfreado, estou bem pra trás, estou bem mais devagar.

Estes anos fizeram o Território Imaginário se transformar em Manifesto Peep-Show. O que acontece afinal? Por que as coisas mudam de nome? Bom, pra começar, no segundo ano de faculdade, eu descobri que devia desistir da vida acadêmica. Mas não desisti, e montei a peça Double Wilson, seguida de uma seqüência de peças, através do Núcleo de Espetacularidades (que também tinha outro nome). Enquanto isso eu vinha tentando conseguir um espaço para apresentar o Território Imaginário, este evento poético-cênico que apresentei no Sesc, só no ano passado, passados quatro anos, na Mostra de Artes Universitárias (que deu significado à vida acadêmica na Faculdade de Artes do Paraná fora dos seus dois blocos). Não conseguindo nenhum lugar fui seguindo com essa história de diretor de teatro, que me levou a conseqüências drásticas no campo da comunicação humana neste ano que acabou. E também me levou a apresentação da peça Loading, mencionada já em posts anteriores (um deles inclusive é um relatório final sobre a peça, entregue para a minha orientadora, Luciana Barone). O que acontece afinal? Oportunismo meu, continuar fazendo faculdade de teatro com o único objetivo de utilizar os atores que encontro para lá e para cá (mais preocupado com as significação humana destas pessoas em seus contextos mais complexos, estabelecidas por elas mesmas, no decorrer de suas vidas), e dos teatros que a faculdade consegue para as apresentações dos seus trabalhos? Pode ser... fica a interrogação, eu prefiro...

Mas, para que não fique só isso, só uma interrogação, além dela, antes e depois, temos o evento Manifesto Peep-Show em questão. Menos teatro em Curitiba, já que é tudo tão saturado mesmo, e mais poesia. Ou melhor, mais poesia na cara dos eventos que houver. Mais incêndio e menos combustível. Única e exlusivamente, porque estamos refletindo, não tão seriamente, pois dispersamos, acerca desse ritmo desenfreado de vida. Muito além de estar se formando, todo sucesso que queiram, pra essa turma que foi a minha sala. Eu, que sempre fui mal aluno e bom aluno ao mesmo tempo, me relaciono com o estudo de outra forma, e pra mim, ainda estou parado na oitava série, me masturbando provavelmente, atrás de uma grande enciclopédia.

Este post é um longo comunicado, e ainda não acabou, mas está sujeito a toda sorte de interrupções que o blog Límerson, o poeta-xamã exigir.

Límerson, 06/01/2010, Bauru

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

O Nascimento do meu Eu-Lírico

a buceta do meu eu-lírico
está fechada para mim
tento conquistá-la
em más artimanhas
brecha estreita entranha...

a buceta do meu eu-lírico
está se abrindo para mim
eu sei pelo calor surdo
que sai do olhar nublado
da núbia mãe enobrecida

a buceta do meu eu-lírico
é seca e só do lado de dentro
do lado de fora, assustado,
o olhar da mãe olha:
- meu grande nublo noble...
eu molho o sofá da casa dela
com o suor aminiótico que sai
da buceta do meu eu-lírico.

domingo, 3 de janeiro de 2010

Ouriço



retomei todos os meus compromissos
mas sinto-me omisso a mim mesmo
sinto-me em estado de sumiço.
um espaço na minha cabeça
deixou de ser maciço e isso
parece só o começo
(becos talvez, surjam e desapareçam,
compostos por começos de cabeças
dispostos pelo chão, becos abafados)
mas retomei, hoje sou dois,
e não descanso porque não existo.

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