quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Vitória Régia

Bauru - Um calor que igual nunca vi. Não dá pra ler numa sala fechada sem um ventilador. Mas não dá pra conviver com um ventilador. Alívio é o som do ventilador em silêncio. De madrugada, o interfone da casa vizinha a minha mostra-se em uma frequência ruidosa. Parece aquele barulho que fica dentro da cabeça da gente. Agudo e constante. Enlouquecedor porque não pára nunca, parece que alguma coisa vai explodir, mas nunca explode. Ou seja, não existe alívio do ventilador desligado, porque em silêncio, a loucura pode ser ouvida além da própria idéia de loucura, ela está conectada no poste, num aparelho de ruído constante, agudo e maligno. Acho isso tudo profundamente nocivo.

Aqui também tem um parque chamado Vitória-Régia. Ali me ofecerecam maconha uma vez, eu fumei e não aconteceu nada. Ali um primo meu dormiu, fugido da casa dos pais dele. Ali também uma mulher foi morta. Ali eu costumava também procurar por um banheiro público, mas era sempre desencorajado por algum motivo, não me lembro agora qual. Acho que eu devia visitar o Parque Vitória Régia antes de voltar. O parque tem um auditório ao ar-livre, em forma de Teatro Grego (Grécia Antiga), cujo palco tem o formato da folha da vitória-régia. A flor da vitória-régia só se abre de noite, à partir das seis, e muda de cor conforme vão passando os seus dias de vida. A minha rotina de sono, está pior do que de costume, mas está como eu sempre desejei. Como a flor da vitória-régia, eu acordo às seis da tarde, mudo de assuntos em assuntos, de compromissos em compromissos, pequenos, mínimos, e durmo por volta das 13h. Com isso aproveito os horários mais interessantes do dia, sendo eles a noite, a madrugada e a manhã. O resto é depressão total, prefiro estar dormindo. O Parque Vitória Régia (acho que não tem hífen) em Bauru também tem uma floração especial, que começa a acontecer à partir das seis da tarde. Mas sobre isso vou me limitar a mencionar o cara que vende batata-frita na caixa de pizza na beira do parque, sempre à partir das 18 ou 19 ou 17 por ali. Um grande trabalho o dele...

Às cinco da manhã concentro-me da mudança do céu. O céu de Bauru tem planos de nuvens, tem tudo o que um fotógrafo precisa. Fico vendo virar dia, a noite de nenhum bauruense feliz. Até às oito as luzes do poste ainda estão acesas. O ruído do interfone do vizinho não pára nunca. É como eu, que só paro entre uma e duas da tarde. Período em que meu quarto é ocupado por seres estranhos. Dentre eles meus pais. Dentre eles meus sonhos. Dentre eles meus pesadelos. Devo estar sonhando em retornar porque já devia ter retornado, não posso fingir que me sinto em casa, esta é a casa dos meus pais. Sempre vai ser a minha casa, mas não posso fingir por muito tempo que me sinto em casa, porque estou fingindo isso para mim. Eu não me engano. Só equivoco.

Ulisses está vindo, na sua viagem que parece com a minha. Saído do pedido on-line. Quando ele chegar eu volto. É isso. E voltarei com a faca e o queijo na mão. Os elefantes quando estão tristes simplesmente desaparecem. Queria poder fazer isso. Entender que na verdade sempre faço isso. Ou aceitar o depoimento que uma amiga me escreveu, mencionando que estou sempre entre o tangível e o intangível. É mais do que ela pensa. Estou com a sensação de não ser alguém. Isso me lembrou que encontrei um sujeito no SESC esses dias, ele me disse que eu tenho que acreditar que eu sou alguém para ser alguém. Pode ser. Mas essa liberdade de ser, bastando acreditar que se é, criou em mim o problema de ser tudo, e a glória de ser nada. E a vergonha, que é alheia, de recorrer a filosofagens. Já chega.

L.

P.S.: Queria que o post fosse sobre este parágrafo: "A Festa de Hambach realizou-se no ano da morte de Goethe. A viravolta dos tempos ficou assim assinalada. Os versos, os luares e os rouxinóis passaram a ser considerados fastidiosos. Tudo tinha já sido sentido e cantado, todos os ritmos e estrofes tinham sido experimentados. Começara a época da prosa. As cordas da harpa tinham rebentado. As penas dos publicistas punham-se em movimento". Desse livro do Veit Valentin sobre a história da Europa. Achei um parágrafo inspirador, mas que perdeu totalmente o sentido conforme o post foi sendo escrito, cabendo apenas aqui a sua transcrição, desconectada de temática.

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