quarta-feira, 31 de março de 2010

Dizer embotadamente diante do espelho


atordoalcoolisergisado

o essencialista tergiversava

tanta energia desperdiçada

tanto canalizava quanto

atordoalcoolinsaciável

segunda-feira, 29 de março de 2010

O Movimento

meus móveis se movem

não fazem barulho de nada

ruído mudou seu lugar

ruía o ouvido

corroído.

movimento mole que bole

na língua a bala dura

a míngua da fala que fura

os móveis palavreados

os modos se móveis mudam

se movem e nada muda

não fazem nenhum ruído

até mesmo os seus sentidos

se podem ser corrompidos

que é mole o seu conteúdo

só soa sendo absurdo

meus móveis se movem e mudo

meus modos (são móveis mudos)

são falas moles na boca

respingos de quase toda

palavra da mesma língua.

sábado, 27 de março de 2010

Um hippie micróbio e um playboy



- Ei, irmão, ei, irmão. Posso roubar um pouco a sua atenção?
- Não tenho nada para ajudá-lo, desde já vou avisando.
- Então beleza, desculpe aí.

O playboy olha para trás enquanto caminha, e volta aonde o hippie micróbio estava.

- Escuta, você já se previniu contra a nova gripe?
- Não, não tomei a vacina.
- E que tipo de lesado é você que não se vacinou para a nova gripe?
- Sou desses que perdem as datas das coisas e ficam deitados fazendo simplesmente nada.
- Entendo.
- Ah, entende é?
- Sim. Eu também não me vacinei.
- É mesmo?
- Acabei perdendo a data também, eu estava deitado e não fazia nada.

Olham nos olhos um do outro, com um riso vasando entre os dentes cerrados. O riso vai se gargalhando naturalmente. Brincam de espirrar, como crianças. Espirram pra cima e observam as particulas se misturarem no ar. Espirram juntos no caminho dos transeuntes da Rua das Flores.

- Vamos espalhar essa loucura pelo mundo?
- Eu acho que é disso mesmo que o mundo precisa, de uma loucura sendo espalhada.

E ali, os dois passaram alguns minutos, muito curiosamente demorados, cultivarando um certo idealismo partilhado, o qual nunca imaginariam partilhar. Um hippie micróbio, e um playboy.



P.S.: acabou ficando cultivarando mesmo

quinta-feira, 25 de março de 2010

Sonho

Límerson diz:

eu subia escadas
e chegava sempre num lugar
diferente
conforme eu subia as escadas
o último foi uma espécie de cozinha
industrializada
mistura de rembrandt com magritte
gente decomposta com rosto de frutas decompostas
e era eu construindo a imagem
foi uma grande experiência
da qual só comento agora com você
porque não acho bom falar pra muita gente.

segunda-feira, 22 de março de 2010

Passagem ímpar em Santa Felicidade

Estava eu numa festinha particular, na casa de uns amigos curitibanos, com uns amigos bauruenses, quando uma música começou no toca cd. Era a voz do Jim Morrison.

- Essa música é do Brecht

Olho pro Walace e ao mesmo tempo para o toca toca cd, quando alguém já trocava a música e o cd. Fiquei muito curioso e achei meio incrível como não pude ficar sabendo da música e o quão prontamente ela foi mudada naquele exato momento em que eu me atentava.

Uma passagem ímpar de distanciamento brechtiano em Santa Felicidade.

quarteirão

calota na sarjeta
de cá ou de lá?
a de cá e a de lá.

uma pessoa de cor preta
e branca manca a coxa
de cá ou de lá?
a de cá e a de lá.

e como se nada
atravessa
carlton no bolso
o de cá e o de lá!

Hino para ser musicado

coberto de pelos
sensorio-receptivos
dança o animal primitivo
repete dito em rito
gesto e palavra
(gesto em palato)
em mole traquejo

é um homem
é uma mulher
é um conceito isso
que da um nome
canta declama em transe
parado vai feito palavra
o mundo movendo
a chuva chovendo
para finos raios

esse é o seu hino
e deve ser musicado

quarta-feira, 17 de março de 2010

O Medo é uma Doença Sexualmente Transmissível


O pavor causado pela experiência do parto é habilmente suplantado pelo amparo da teta, onde se esquece do corte umbelical do qual não se lembra mais, e da extirpação de si mesmo do ambiente uterino. Trama inevitável esta. Passamos pelo sexo e ao sexo vamos. É por onde começamos e não é por onde terminamos.

O medo amparado pelo outro, o primeiro aprendizado do qual se deve desvincular, pois só funciona dessa vez, quando da infância. Depois disso, ninguém ampara o seu medo. E hoje que lidamos com o sexo tão superfluamente, não há o que fazer senão vivê-lo, em todas as suas crises de libido, relacionamento, afetividades básicas, desvios de comportamento, anti-depressivos.


Passo a reconhecer o medo como a primeira doença sexualmente transmissível. Observe-se que em pessoas o comportamento muda quando da primeira transa já se ampara um primeiro medo. Ou aqueles que transam com sujeitos desviados em idéias, ou caráter, ou inteligência, e passam a atuar em seu nível. A idiotice também é sexualmente transmissível. E a inteligência também, essa doença.


Precisa-se do outro, do seu colo e do seu todo. Apanha-se na cara dado o medo de não havê-lo. Esconde-se as hematomas, pois imagem hoje é tudo. Precisa-se de tudo ligado ao todo que é o amparo. O medo de perder o outro é sexualmente transmissível, congenitamente preparado. Sem preservativo nem campanha publicitária. Transou, pegou. Ferrão de escorpião como espada crava em rocha.

quarta-feira, 10 de março de 2010

PASTA 2010

MARGENS DA FILOSOFIA – JACQUES DERRIDA



“Histórial” e não “histórico. Ressoa aqui a distinção de Heidegger entre geschichtlich (historial), que diz respeito a essência do pro-vir histórico, e historich, que designa tão só a “investigação historiográfica” ou os seus resultados.

(nota, pág. 31, Campinas: Papirus, 1991)
Todos os seus homens, aos cuidados de Circe, consumiram as mais naturais e poderosas drogas. Até que se viram transformados em porcos, por arte circense (a arte cênica que todos acham impossível).

Isso acontece repetidas vezes, cinco talvez, oito talvez, trinta. Os soldados são um homem só, com ares de Gregor Samsa.

Um os tripulantes que não entraram no castelo de Circe, correu de volta para a embarcação, para avisar Ulisses do que estava acontecendo com os seus homens.

ELE: Senhor, temo informar-lhe, que toda a sorte de drogas oferecidas por Circe, em forma de cortesias a estrangeiros como nós, tem transformado nossos homens em Gregor Samsas. E temo por isso pois... o processo é bem mais delicado.

Circe tenta drogar Ulisses, que se levanta e aponta uma espada para Circe. Circe abraça os seus joelhos. Sexo. Sexo. Sexo mitológico.

chega de adolescência

não que isso aconteça

já que sempre se passa

mas quando desse durante

que se passe por todo

e quando deste passado

que se olhe para ele

e quando deste observado

que se veja sua origem

e quando desta visão

que se sinta a vertigem

que seja o vento que se

seja do fogo sob a terra

quando a história faz a curva

e o espírito não se quebra

chega de adolescência

e de noticiários também.

quinta-feira, 4 de março de 2010

*

quase largo mão e vou

quase embora

quase desisto

quase volto

quase mudo

quase fico

(quasar)

a noite de comprimento cumprido

noite com dedos compridos
(e medos cumpridos)
dedo do meio pro dia
(o meio do medo)

meio curta meio comprida
ela nunca termina sempre começa
meio longa meio cumprida

noite com medos cumpridos
(e dedos comprimidos)
o medo do meio pro dia
(e o dedo do meio em riste)

meio longo meio cumprido
ele nunca completa sempre remete
meio curto meio comprido

Pesquisar este blog