sexta-feira, 30 de abril de 2010

Erros, Erros, Erros

Um mundo com erros, e as soluções não estão mais ao nosso alcance. Não cabe a nós solucionar mais nada. O Brasil inunda, ano à ano, sempre as mesmas tragédias. E ano à ano crescem as moradias inapropriadas. O que se pode fazer? Explodir as pessoas... talvez apenas o seu cérebro, ou apenas o seu sexo. Podemos fazer algo, sim certamente, mas esse algo está muito longe de parecer uma solução. Podemos quem, eu mesmo me pergunto, e do que eu estou falando exatamente? Vamos exercitar o foco.

Nessa semana inicia o evento Ato Performático, no Sesc da Esquina, com performances de artistas "curitibanos" (Núcleo de Espetacularidades, Heliogábalus, Fernando Ribeiro, Leo Glück, Coletivo Néctar), grupo Pedra Branca, palestra com Margarida Rauen (lançamento do livro A Interatividade, o Controle da cena e o Público como Agente Compositor). Como esse não é um blog de um jornalista, mas sim de um artista, já é o suficiente de informações e menções. Deixo o verdadeiro jornalismo xamã para Jornal Tira-Gosto

"um evento que tem como proposta criar espaço para apresentação de trabalhos baseados na arte da performance, ampliar o conhecimento teórico e prático e promover e difundir a performance arte”

Então, durante esta semana, de 4 à 9 de Maio, a Performance Art estará em pauta, no formato de vários eventos no Sesc da Esquina. Acho um evento da maior importância pra ficar nas mãos de tão poucas pessoas organizarem. E por isso mesmo sou grato por estar envolvido nisso, esperando ansiosamente que haja comparecimento significativo.

Entendo o trabalho do performer como o de abrangência de linguagens. Não acho que hajam performances mais das artes visuais e menos do teatro, ou mais da música contemporânea e menos da poesia falada, ou nada disso ao contrário. De acordo com a história das artes, a performance sempre se tratou da "voz" do artista, ecoando como linguagem através dos discursos que utilizar, conforme declarada escolha. É apropriação que, mesmo desagregando, vincula os mais diferentes discursos, numa autoria, uma voz/vocabulário, podendo englobar o teatro nas antigas direções de Gerald Thomas e Robert Wilson, as artes visuais nos antigos happenings de Kaprow, a poesia e a música nos antigos eventos de Arnaldo Antunes. Enfim, a performance é antiga, só é mais nova que o cinema.

Sem falar no expressionismo butoísta, que tanto me influenciou pouco antes de eu sair de Bauru e me mudar para Curitiba.Os vídeos de Kazuo Ono, e suas performances iniciais com Tatsumi Hijikata. Que mamam nas tetas do porco e arrancam a cabeça da galinha. Artistas que reconstruíram o seu discurso através do tempo. Cerimônias de enterro do século XX. E nós aqui, em plena retomada de algo, e eu aqui, no plenilúnio anti-lamentoso, em meditativa aversão. Não consigo dizer à que, me recuso. Dizendo cometeria mais um erro, incorrigivel e destituído de culpado. Seria como um e-mail enviado que não chega. Onde o meio torna-se o próprio autor, e o autor o próprio culpado.

Isso vai me causando nojo e repugnância. Eu quero ouvir os autores, quero ouvir as vozes. Todas as situações que não podemos solucionar, e nem mesmo apontar um autor, aquelas onde a autoria só cabe apenas ao seu próprio e exaustivo existir (tragédias "naturais", colapsos virtuais, e-mails que vão e não vão, guerras e guerras), fazem de nós humanos esses seres incapazes de dialogar. Mas por que será? Querer encontrar o autor não passa da vontade de buscar identificação. As situações erráticas e errôneas sempre foram para mim artifícios (como a arte, e o fictício), onde o humano é traduzido, e sempre é, mas... This is the end, my only friend, but why?

P.S.: Em breve, postagem especial sobre a apresentação de quinta-feira do Núcleo de Espetacularidades e seu Manifesto Peep Show no A.P.

terça-feira, 27 de abril de 2010

Beco sem saída

não se pode fazer nada
em um beco sem saída
fora sair pela entrada

minha fala foi puída
nem parece emparedada
numa frase sem saída:

não se pode fazer nada

recitei dois versos ontém
mas fiquei tão ressentido
que calei em olhar a estante

meu avô não tinha morrido
nem memórias me alentavam
não se aliteravam instantes

e se agora estou voltando
por um beco sem linguagem
deixo a frase como antes

escrita com mãos atadas
qual desenho na parede:
não se pode fazer nada.

http://limerson.blogspot.com/2010/04/um-novo-beco-sem-saida.html

sábado, 17 de abril de 2010

Um Novo Beco Sem Saída - COM PARÊNTESE DO FUTURO

O Ato Performático no Sesc da Esquina comportará apresentações das mais variadas no mês que vem. Eu pareço estar na lista, com o que chamo de Manifesto Peep Show, embora eu sinta sempre vontade de desistir. E embora eu não tenha sido informado sobre as datas específicas, e especificamente a data do Núcleo de Espetacularidades, neste peculiar evento.

(Passado o tempo eu descobri que tudo isso não passou de um erro do mundo virtual, e-mails enviados que nunca chegam, coisas do tipo. Foram enviadas as informações para o meu e-mail, mas não chegaram ao meu e-mail. Certamente não se tratou de um erro meu, e muito menos da organização do evento. Estamos todos sujeitos à isso, e não temos como culpar um ser humano se quer, não é angustiante? UM PARÊNTESE VINDO DO FUTURO
).

Mais nada? É delicado, isso sim. Há quase dez anos venho tentando me livrar do que há quase dez anos eu na verdade vinha assimilando. E sem o menor critério, diga-se de passagem, já que infelizmente é assim, se posso ser categórico nesse momento, é assim que a minha geração aprendeu a assimilar conhecimento, sem o menor critério. Então, não é absurdo e nada mais, mas ser absurdo é só um aspecto. Foram dez anos de obsessão pela literatura romântica spleen. Que comportou, de forma nada cronológica catedraticamente, de Lord Byron à Augusto dos Anjos, de Emily Bronte à Nelson Rodrigues (romantismo?!), de Bocage à Skylab. Nada disso parece ser romântico de fato, ou pode ser algum dia, não importa, a questão era uma leitura. A minha leitura do mundo vem deixando de ser romântica. E junto com isso a minha forma de assimilação de conhecimento, e conseqüentemente a minha forma de produção de conhecimento, e a postura que eu tenho com relação à criação vem sendo cada vez menos romântica.

Terminei de ler Ulisses, traduzido de James Joyce por Antonio Houaiss. Tradução apadrinhada por Augusto de Campos, em importantíssimo comentário na orelha da edição. "Impossível ser fiel ao espírito da obra sem transportar a sua insubordinação lingüística para o idioma ao qual se queira vertê-la". Isso me parece mais importante do que o contato com Joyce de fato, já que esse contato já se deu por mim, muito antes de lê-lo, tendo lido tanto antes Beckett, que era secretário dele e, de alguma forma tem na sua própria voz uma sombra joyceana sendo exaustivamente depurada. Seria absurdo eu escrever um artigo sobre James Joyce, quando o que me move no momento é, ao mesmo tempo, a tradução legitimamente insubordinada do Houaiss, e a opção (postura, opinião, função em si mesma) de aglomerar todas as literaturas numa literatura. Esse traço romântico de querer sempre observar a voz do autor que se locomove, através dos autores que atravessam o tempo, que ora ou outra configuram linguagem. Traço que veio sendo apagado de forma inconscientemente estúpida e absolutamente anti-criativa nas minhas peças...

Meu envolvimento com teatro parece ter começado onde fracassa a trajetória acadêmica. Deus do céu, a minha trajetória, de míseros quatro anos. A besteira, da qual eu não poderia nunca escapar, a qual eu não poderia nunca evitar, de ter saído de casa. Filho único com aspirações exemplares paulatinamente prismadas em jogos de espelhos. Estaria ao meu agrado, ser um bom exemplo, ou ou mal exemplo, não me importando o valor inserido em cada opção, mas em cada opção de optar. Eu não optei pelo teatro, e não me puno, sendo inclusive muito grato sob várias perspectivas. Mas o teatro parece estar sempre presente, como processo comunicativo, em todo o meu arco cognitivo, sobretudo em seu sentido de arte resistente. Ou persistente. Que mesmo em meio a todo novo lançamento da Apple, parece sempre existir dessa forma, persistente. Parece sempre ser a arte dos que nunca desistiram. Irritantemente recalcitrante, o teatro recalcitra, em cada desesperada forma de a-parecer, agora multi-mega-fragmentadas, mas que sempre foram um traço do humano. Em se reconhecendo forma, há necessidade de produzir forma.

Ulisses, de Joyce, por Houaiss, parece e deve ser um caminho ao Ulisses de Joyce. E nesse caminho, onde esteve Ulisses homérico, o Telemaco recalcitrante, está também todo um processo de digestão. Parece ser, como algumas poucas leituras verdadeiramente marcantes, na minha relação de conhecimento literário(tais como Macunaíma, Otelo, Grande Sertão:Veredas...), o tipo de livro que permanecerei digerindo nos próximos anos. É tardio, já adianto. É coisa que, em sendo digerida, regurgitada assim, bem ao modo Michel Melamed (o que regurgitofagizava corrente elétrica em teatros), soa tardio. Por isso sou cuidadoso, sendo também perigosamente afobado comigo mesmo. E do que se tratou toda aquela relação de romantismo? Eu sei que é mentira, é encenação. É metade mentira. Tudo de novo. Mas de alguma forma, estou querendo entender, aonde esteve minha alma, e os meus pensamentos, nesses últimos quatro anos, enquanto meu corpo aparentava dirigir autoralmente, Double Wilson (2007), Clube do Algodão (2008), Glitter Ant (2009) e Loading (2009). Estou tentando abrir uma senda, de serenidade cínica (sínica e cênica) que configure em novo beco sem saída.

"Que imagem compósita assimétrica no espelho atraiu então sua atenção?

A imagem de um solitário (ipsorrelativo) mutável (aliorrelativo) homem.

Por que solitário (ipsorrelativo)?

Irmãos e irmãs nenhuns ele tivera,
Mas dele o pai filho do avô proviera.

Por que mutável (aliorrelativo)?

Da infância à maturidade ele se parecera à progenitriz materna. Da maturidade à senilidade ele crescentemente se pareceria ao seu genitor paterno".

(Ulisses - Joyce - Houaiss)


"What final visual impression was communicated to him by the mirror?


The optical reflexion of several inverted volumes improperly arranged and not in the order of their common letters with scintillating titles on the two bookshelves opposite".


O poeta-xamã, em festa cigana de clima universitário.

domingo, 11 de abril de 2010

Cantarolo

penso, logo me alimento
do intento de nutrir pedras
e poder digerir moedas

a família montechapuleta
comemora nova festa
um tio atira no outro

eu sonhava em ser careca
hoje penso em passar fome
cantarolo sem rabeca:

esqueci-me do meu nome.

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Inexpressa

quando a idéia fica de pau duro
extraio flores da minha buceta
ficando com os braços atados
abertos espaços para poemas
que poucos muros anteparam

quando a idéia se mostra
pouco sobra da palavra
se eu estivesse no ônibus
poderia ser poeta mago
em acender o que não trago

gosto de esgotar em esgoto
a teta que orvalha na sarjeta
quando conta-gotava perdigotos
tive idéia de um poema roto
que não chegava de veneta

quando a idéia bate
no oco da minha cabeça
retumba e reverbera
lembrança que esquecera
se corro sem ter pressa

atravancava em alamedas
atravessava em marginais
de praxe, o vento
de brinde, a chuva

dentro da mão na luva
nutava o dedo fatigado
"ela não vem e nem peça"
era minha idéia inexpressa.

domingo, 4 de abril de 2010

Isso simplesmente é assim

Curitiba - A ficção sendo construção de outra coisa me deixa bastante confuso num tanto repleto de funções trajetórias. Escreva uma cena que não tenha fim, ela me disse. Porque as coisas continuam sendo as mesmas no seu ser outra. Através de todos os tempos. Não é aterrador, contador de histórias? Não é ilusoriamente promissor, descontador de histórias?

Um tipo de coisa que certamente parece, que simplesmente é assim, sendo dotada de rotina em seus constantes erros inclusive arquitetados. Não é a vida que está acontecendo, é a mesma coisa. A mesma coisa que um erro, inclusive, acertou quem disse rito. Quase acertou quem estava mentindo. É o mesmo que parecer uma outra coisa, um ensimesmismo arquitetado em espelhos.

A cadeira de praia ventava ares obscuros de ficção. Era mitológico quem estivesse lá e nadasse até o fundo e ficasse no raso do chão do fundo e notasse: a areia dá pé. Nada estava sendo declarado. Então fico confuso com a premissa de alteridade do processo criativo, e cada vez mais acho mais difícil mudar de cena para cena, conforme as satisfações imediatas se consomem. Acabo sempre convencido de ser sempre a mesma mesmíssima coisa, se esforçando por parecer.

E eu realmente espero que isso seja apenas impressão.

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