sábado, 17 de abril de 2010

Um Novo Beco Sem Saída - COM PARÊNTESE DO FUTURO

O Ato Performático no Sesc da Esquina comportará apresentações das mais variadas no mês que vem. Eu pareço estar na lista, com o que chamo de Manifesto Peep Show, embora eu sinta sempre vontade de desistir. E embora eu não tenha sido informado sobre as datas específicas, e especificamente a data do Núcleo de Espetacularidades, neste peculiar evento.

(Passado o tempo eu descobri que tudo isso não passou de um erro do mundo virtual, e-mails enviados que nunca chegam, coisas do tipo. Foram enviadas as informações para o meu e-mail, mas não chegaram ao meu e-mail. Certamente não se tratou de um erro meu, e muito menos da organização do evento. Estamos todos sujeitos à isso, e não temos como culpar um ser humano se quer, não é angustiante? UM PARÊNTESE VINDO DO FUTURO
).

Mais nada? É delicado, isso sim. Há quase dez anos venho tentando me livrar do que há quase dez anos eu na verdade vinha assimilando. E sem o menor critério, diga-se de passagem, já que infelizmente é assim, se posso ser categórico nesse momento, é assim que a minha geração aprendeu a assimilar conhecimento, sem o menor critério. Então, não é absurdo e nada mais, mas ser absurdo é só um aspecto. Foram dez anos de obsessão pela literatura romântica spleen. Que comportou, de forma nada cronológica catedraticamente, de Lord Byron à Augusto dos Anjos, de Emily Bronte à Nelson Rodrigues (romantismo?!), de Bocage à Skylab. Nada disso parece ser romântico de fato, ou pode ser algum dia, não importa, a questão era uma leitura. A minha leitura do mundo vem deixando de ser romântica. E junto com isso a minha forma de assimilação de conhecimento, e conseqüentemente a minha forma de produção de conhecimento, e a postura que eu tenho com relação à criação vem sendo cada vez menos romântica.

Terminei de ler Ulisses, traduzido de James Joyce por Antonio Houaiss. Tradução apadrinhada por Augusto de Campos, em importantíssimo comentário na orelha da edição. "Impossível ser fiel ao espírito da obra sem transportar a sua insubordinação lingüística para o idioma ao qual se queira vertê-la". Isso me parece mais importante do que o contato com Joyce de fato, já que esse contato já se deu por mim, muito antes de lê-lo, tendo lido tanto antes Beckett, que era secretário dele e, de alguma forma tem na sua própria voz uma sombra joyceana sendo exaustivamente depurada. Seria absurdo eu escrever um artigo sobre James Joyce, quando o que me move no momento é, ao mesmo tempo, a tradução legitimamente insubordinada do Houaiss, e a opção (postura, opinião, função em si mesma) de aglomerar todas as literaturas numa literatura. Esse traço romântico de querer sempre observar a voz do autor que se locomove, através dos autores que atravessam o tempo, que ora ou outra configuram linguagem. Traço que veio sendo apagado de forma inconscientemente estúpida e absolutamente anti-criativa nas minhas peças...

Meu envolvimento com teatro parece ter começado onde fracassa a trajetória acadêmica. Deus do céu, a minha trajetória, de míseros quatro anos. A besteira, da qual eu não poderia nunca escapar, a qual eu não poderia nunca evitar, de ter saído de casa. Filho único com aspirações exemplares paulatinamente prismadas em jogos de espelhos. Estaria ao meu agrado, ser um bom exemplo, ou ou mal exemplo, não me importando o valor inserido em cada opção, mas em cada opção de optar. Eu não optei pelo teatro, e não me puno, sendo inclusive muito grato sob várias perspectivas. Mas o teatro parece estar sempre presente, como processo comunicativo, em todo o meu arco cognitivo, sobretudo em seu sentido de arte resistente. Ou persistente. Que mesmo em meio a todo novo lançamento da Apple, parece sempre existir dessa forma, persistente. Parece sempre ser a arte dos que nunca desistiram. Irritantemente recalcitrante, o teatro recalcitra, em cada desesperada forma de a-parecer, agora multi-mega-fragmentadas, mas que sempre foram um traço do humano. Em se reconhecendo forma, há necessidade de produzir forma.

Ulisses, de Joyce, por Houaiss, parece e deve ser um caminho ao Ulisses de Joyce. E nesse caminho, onde esteve Ulisses homérico, o Telemaco recalcitrante, está também todo um processo de digestão. Parece ser, como algumas poucas leituras verdadeiramente marcantes, na minha relação de conhecimento literário(tais como Macunaíma, Otelo, Grande Sertão:Veredas...), o tipo de livro que permanecerei digerindo nos próximos anos. É tardio, já adianto. É coisa que, em sendo digerida, regurgitada assim, bem ao modo Michel Melamed (o que regurgitofagizava corrente elétrica em teatros), soa tardio. Por isso sou cuidadoso, sendo também perigosamente afobado comigo mesmo. E do que se tratou toda aquela relação de romantismo? Eu sei que é mentira, é encenação. É metade mentira. Tudo de novo. Mas de alguma forma, estou querendo entender, aonde esteve minha alma, e os meus pensamentos, nesses últimos quatro anos, enquanto meu corpo aparentava dirigir autoralmente, Double Wilson (2007), Clube do Algodão (2008), Glitter Ant (2009) e Loading (2009). Estou tentando abrir uma senda, de serenidade cínica (sínica e cênica) que configure em novo beco sem saída.

"Que imagem compósita assimétrica no espelho atraiu então sua atenção?

A imagem de um solitário (ipsorrelativo) mutável (aliorrelativo) homem.

Por que solitário (ipsorrelativo)?

Irmãos e irmãs nenhuns ele tivera,
Mas dele o pai filho do avô proviera.

Por que mutável (aliorrelativo)?

Da infância à maturidade ele se parecera à progenitriz materna. Da maturidade à senilidade ele crescentemente se pareceria ao seu genitor paterno".

(Ulisses - Joyce - Houaiss)


"What final visual impression was communicated to him by the mirror?


The optical reflexion of several inverted volumes improperly arranged and not in the order of their common letters with scintillating titles on the two bookshelves opposite".


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