sexta-feira, 28 de maio de 2010

Isso é hábito e isso distrai


(eu, de costas para a câmera, com um cravo na lapela)



Curitiba - Ninguém, simplesmente ninguém, em toda esta cidade (que eu conheço (e que é bem pouco do todo, e próximo ao nada)) sabe os horários exatos do ônibus Juvevê/Água Verde, linha freqüente no meu arco transitante. Junto com a empresa Princesa (ou Penha), que realmente, me transporta para o real, no caso o real sendo Bauru. Vamos por partes. Cada pessoa diz um horário, quando eventualmente me abordam, perguntando sempre o quanto tempo espero por ele. Nunca sei a resposta exata, e sempre faço analogias, com o cigarro com o sol ou com o relógio da catedral. Mas não, isso definitivamente também não tem nada à ver com Esperando Godot, à despeito das árvores restauradas da Praça Tiradentes, mas não vamos cair em mais um truque analogizante (e analgesisante).

Vamos praticar mais um exercício de meditação dentro do ônibus menos utilizado da cidade. Juvevê/ÁguaVerde. Com senhoras, senhores e estudantes (poucos, sempre poucos) de faculdade ou colégio. O ônibus que cada um conhece por um horário, e espera por sua chegada cada um em um horário diferente. Espectativas nunca correspondentes com as estimadas ou estipuladas pela URBS, que também nunca correspondem com o horário real da chegada do ônibus no ponto da Tiradentes. Mas não vamos cair num outro estratagema semântico, só porque nem mesmo a URBS consegue escapar dos desígnios da URBE. E nem um de nós poderia tentar fazê-lo. O Fugere Urbem tornou-se tão intra-fragmentado, que não há mais como respirar ou não respirar, exceto após uma boa dose de abstração. Uma excessiva e nociva dose de hábito... ah, e como o hábito distrai.

O brasileiro afirma o seu cansaço através de uma condição de luta por uma condição melhor que essa, seja famililar, profissional, intelectual, sexual, introspectiva e extravagantemente. Imagem reutilzada por nojentos, asquerosos e ofensivos planos de mídia, numa paródia melodramática, que justifica sempre o insuportável do cansaço,através do orgulho excessivamente honroso (e até bocó) da luta. E como ficam os que se encontram sob o jugo do cansaço? Apenas tecem suas relações? Preguiça, isso me dá muita preguiça, buscar distração me dá muita preguiça.

Deve ser uma questão de hábito. Como limpar a casa. Antigamente as famílias tinham uma pessoa própria pra isso. Nunca vivi isso. Nunca vivi nada. Não, menos exagero. Ser brasileiro parece exigir certa disposição para o esforço. E o cansaço. Por isso me espreguiço antes de atravessar a primeira rua. Não sou tão deslocalizado como pareço. Só gostaria de perceber que esta procura por organização, que me delineia em todos os sentidos, é semelhante à qualquer processo absolutamente normal de vida. Ocorreu e sempre ocorrerá em todas as épocas. E não se trata de um destaque ou algo que podemos grifar, à não ser através de um grifo pessoal. É isso.

Límerson

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