sexta-feira, 14 de maio de 2010

Mensagem


ave agonizando na praia de Mauá, RJ, 2000



Das vivências na semana passada do Ato Performático, repleto em links nos posts abaixo, fica o deslocamento da comunicação como paradigma insuperado, salvo os óbvios excetos. A relação de deslocamento comunicativo proposta pela performance art, seja pelo desconstrutivismo na narrativa, ou o desmantelamento da noção de obra acabada em proveito da obra em processo, e ainda, e não menos significativamente, os diversos procedimentos de quebra dos limites arte/vida (live art), trata-se de uma relação histórica.

E na semana passada diversos artistas, e grupos de artistas, arriscaram-se no peep show, ou melhor, nas tentativas de como retomar este caráter, se assim posso dizer, da performance art,
sem necessariamente incorrer nas constantes repetições freqüentemente visíveis na produção artística. A retomada se dá do agora. A Crise de Comunicação, nome da terceira cena do Loading, que se desdobra na crise dos artistas atuais. A comunicação nas artes cênicas, com a performance englobando o teatro (tratarei deste caso específico), e em autores anteriores aos anos sessenta (Antonin Artaud, Alfred Jarry, Qorpo Santo) sofreu este abalo. Este vazamento de óleo, a mensagem se espalhou e toda uma política se posiciona em relação à isso.

Agora me desviei. Foi falado em lançamento do livro organizado por Margie (Margarida Rauen), A Interatividade, o Controle da cena e o Público como Agente Compositor, foi falado em MENSAGEM. A mensagem que a peça devia transmitir ao público, passando de uma abordagem moralizante à uma abordagem processualizante. Não sei se é claro, aonde quero chegar com mensagem. Só acho que o artista tem clareza, e transmite mensagem, sempre transmitiu. A sua peça, a sua escultura, ou o seu texto de blog ficam à merce de talvez falharem enquanto transmissores... Pensamos a mensagem com a lente modernista, que começou com aqueles a quem sempre menciono, e que agora reduzirei à Duchamp. Não tivemos ainda coragem ou capacidade de aceitar a mensagem novamente, com os nossos olhos, mesmo assim achamos lindo quando alguém vem dizer que saiu modificado das nossas peças, sem saber muito bem o motivo. Isso só pode ser um resquício da mensagem, que sempre vai existir, e que eu nunca ignorei. Desconstruída, Ironizada, Metalingüisticamente Pervertida, a mensagem vaza e se espalha sem critério algum, sobretudo no litoral sul dos Estados Unidos.

Nos Anos Loucos parisienses, na Paris dos Anos 20, capitaneada em divertida biografia de William Wiser, Sergei Diaghilev deve ter dito assim "Em primeiro lugar, sou um charlatão, mas um charlatão com estilo. Em segundo, sou um grande sedutor; e em terceiro, minha desfaçatez não tem limites". Fiquei rindo à toa, pensando nos paralelos daquele começo de século, onde Paris era o refúgio de todo tipo de expatriado genioso, com o atual começo de século, raso de refúgios mas refugiado num tristíssimo ensimesmismo. Na quarta-feira voltei com Hemingway na mão, e com cuidado, já que foi a minha primeira leitura da vida, uma leitura já traduzida: eu sofro do mal de Augusto dos Anjos.

Duvido de artistas que não querem dizer nada através de suas obras de arte. Pois algo está sendo dito e existe, por mais indesejável aos nossos olhares pós-pop-desconstruídos, uma mensagem. Hoje funcionam menos as mensagens moralizadoras, não chegam à lugar algum, nem no teatro infantil. Sinto este período, e isso é só um sentimento, uma intuição, como um momento de tanto individualismo, que vez ou outra algum desses abrange o mundo em seu individualismo, através do que eu chamaria de desconstrutivismo descabaçado. É uma intuição enfumaçada, não dêem crédito. Mas que abarca outro tipo de mensagem, retoma a mensagem como foi pêga pelos primeiros modernistas, mas sem o cabaço, com o hímen rompido, pois não trata-se de uma subversão tal e qual à dos anos de início do Dada, futurismo, cubismo,etc. É a reapropriação do medo dos gatos escaldados. Duvido porque o artista que diz não querer dizer nada através da sua obra possivelmente (mas só possivelmente) pode estar confuso com relação à várias opções estéticas, o que denota falta de comprometimento, ou simplesmente falta de reflexão sobre:

- quem não "quer dizer nada" é a música, a peça, a escultura, o filme, os constructos, os artefatos, eles não tem mensagem à passar, não tem moralidade à imprimir, são artifícios;
- quem pode "querer dizer algo" é a vida, a vida real, o vazamento de óleo, o fim da picada, e a gota d´água, ou o que de fato retome algo perdido em nossas mentes, estando nisso o artista inserido, confortável ou desconfortável;
- quem vê mensagem é quem frui a obra

É uma dúvida metódica (vontade de escrever medótica), e somente eu sofro dela, porque me esqueci nisso tudo, e nem gostaria de lembrar, do primeiro e profundo corte feito na auto-observação: Descartes!

E certamente, desse corte escorreram mensagem.

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