sábado, 19 de junho de 2010

Rascunhos 3

à minha esquerda o sesc
casas de dois andares
o céu que nada muda

à minha direita já amanheceu
o pássaro sai de hora marcada
da árvore implantada de abelhas-flores
e some sentido praça ozório

sentido aeroporto passa o avião
bem perto do teto das cabeças
atrás de mim o quarto do joão
com computador e namorada

embaixo tem o estúdio
e na minha frente o prédio
barulho por todo o lugar

este sou eu geograficamente
se paro o olhar amanhecendo na janela
no anseio simbólico de quem vai embora

Rascunhos 2

o filhote de elefante repousa no meio da vitoria regia. sobra apenas a arquibancada. estamos com um céu dormente, um céu que formiga no pescoço e nos braços. os pais do elefante estão fazendo sexo nalguma paragem desta gigante praça. praça de alimentação dos prazeres. os elefantes quando estão tristes simplesmente desaparecem. o filhote repousa como derrotado de uma batalha, como quem desiste de argumentar num debate, como quem baixa a tromba e chega. os pais dele estão nalguma paragem, colhendo novos truques da vida, eles não podem pular nenhuma etapa. um elefante não pode nunca pular nenhuma etapa na sua formação. a mãe diz:

- quer pipoca?
- não.
- não quer?
- não.
- o que é que você tem?
- não queria precisar responder.

Rascunhos 1

Era uma pessoa chocada com os acontecimentos do mundo. Uma pessoa estagnada nos acontecimentos do mundo. Uma pessoa profundamente envolvida com os acontecimentos do mundo. Uma pessoa com inteligência para perceber que estava envolvida com os acontecimentos do mundo, que só agora percebia que estava profundamente envolvida com os acontecimentos do mundo. Quantas atrocidades... ela pensava, eu que sou uma pessoa, ela pensava, de dentro de uma espécie de um momento, ela pensava, de um monumento, ela pensava nas atrocidades. Coitadinha, é terrível sentir pena, mas...
Coitadinha dela... tinha dedos tão delicados, que se perdia no tempo fazendo movimentos lentos com eles. uma dança íntima. invisível.
Aparece uma visita. Começa uma festa. A festa acaba. Todos vão embora.
Essa pessoa se envolveu com muitas coisas. Esta pessoa se envolveu com o mundo todo. Essa pessoa desenvolveu um método de existir, onde era responsável por tudo. Coitadinha, é terrível sentir pena, mas...

terça-feira, 15 de junho de 2010

Tudo o que vês chegou ao fim 2

- O Império Romano não é mais infinito. Eu não conheci nem o Império Austro-Húngaro. Nem a União das Repúblicas Soviéticas. Nada. O máximo de intercontinentalidade em minhas experiências pessoais foi ter jogado um jogo russo dentro da Rede Ferroviária Federal do Brasil Sociedade Anônima. Sob o gigante meio viaduto em eterno inacabamento, imposto à ocupação do espaço. Você conhece os meus amigos? Permita-me apresentá-los. Este é Tito Lívio:
-Oi, sou produtor cultural.
-Esse é Próspero, da Aquitânia.
-Oi, eu sou agente cultural.
-Essa é Mary, Mary Stuart.
-Oi, eu sou contaminadora cultural.
-Esse é o Wilson.
-Oi, eu sou representante cultural.
-E essa é Le Goff, recicladora de gêneros.
-Oi, eu sou o lixo cultural.
-Como você pode ver, nós defendemos a diversidade cultural.

WILSON: Os impérios,como os indivíduos, tem uma vida e uma existência que lhes é própria. Crescem, atingem a maioridade, e depois começam a declinar.
PRÓSPERO: A decadência dos impérios, sendo uma coisa natural, acontece de uma maneira idêntica a qualquer outro acidente, como, por exemplo, a decrepitude que afeta a constituição dos seres vivos.
WILSON: Afeta é a ausência de feto. No pós da ausência de coito.
MARY: Eu quero te confessar que eu aborto muito mais vezes do que me confesso.
PRÓSPERO: Eu me aborto. Por isso sou encucado em incubadeiras de todos os tipos, para todos os tipos.
LEGOFF: Eu gosto dos tipos típicos.
TITO: Pare de ser uma descompromissada com tudo!
WILSON: E o senhor, pare de ser uma concubina.

ME: Isso, continuem alimentando a minha sede é a mesma.

MARY: Spengler aborda uma história mais faustiana do que Nietzsche e Goethe juntos. Nietzsche e Goethe juntos são mais Sturm und Drung do que Tempestade e Ímpeto. Não tão tempestade e ímpeto quanto Stirb und Werde. Da morte a transfiguração: morrer é viver até o fim.

LEGOFF: No campo da política as origens são misteriosas, os nascimentos inexplicáveis, as estabilidades são raras, e os aniquilamentos são evidentes. A história da política é uma história de séries e séries seriais subseriadas em decadências relacionadas.

MARY: Morrer é viver até o fim.

-Então toma!
Ela atira em cada um deles, matando um à um.
-Isso é o que eu faço com os meus amigos. Esses são os meus amigos. Você os conhece? Nós somos mais do que um grupo de amigos. Nós somos uma civilização. A exploração de
-uma herança histórica morta, juntos.

LEGOFF: mórbidaaa...

-Somos a fase necrofágica de uma cultura.
-a agulha que desce, ou seja, o sol poente. o último imperador mexicano.
-Um Necrotropos num Necrocorpus num Necrolocus.
-Decadentistas! Por que você atirou no seus amigos?
-Oh... oh... oh... oh... oh... porque você pediu.
-Você às vezes age como um homem. Um homem frágil.

DOVE


dois pombos com os dois pés
num só galho de uma árvore
enraizaram em minha janela
catavam à bicadas e cagavam
tomei todo o cuidado possível
pois como sempre levanto vôo
sendo esta a minha função chave
de todo exagero enquanto morro
por todo espetáculo que torna cada
em todo tempo à tempo que seleta
enquanto eles não usam as asas.

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Comunicação - Núcleo de Espetacularidades + Fotos do MANIFESTO PEEP SHOW - TERRITÓRIO IMAGINÁRIO




Dias e dias, mas que comecinho já por si mesmo irritantemente recalcitrante. Não, trata-se do conjunto de peças-trajetória apresentado pelo algum pouco conhecido e algum pouco anônimo Núcleo de Espetacularidades. Fundado por Límerson e Walace, convivendo com
artistas acadêmicos, e convivendo, e consequentemente atuando como artistas aqui denominados assim. Mas, são muitas as personas, e os jogos de espelhos, entre os vislumbramentos e as decepções, entre as forjações e as forçações de tragédias pessoais.



Sendo as peças, na sequência, Double Wilson (2007), Clube do Algodão (2008), Formigas Glitter (2009) e Loading (2009), configurações e reconfigurações que lentamente em ralentos idiossincráticos (ou os seus relentos) tensionam o deboche pastichizado, beco sem saída dos nossos tempos. Todas sempre foram amparadas pelo processo Território Imaginário, sequência (não necessariamente serial) de solos que culminaram no solo Manifesto Peep Show, apresentado em 2010, já que o suporte devida e indevidamente explorado que este comporta, considerando o contexto idiossincrático na performance art, estrutura prática e conceitual do trabalho de atuação no Núcleo.



Peça alguma dessas mencionadas provocou efetiva mudança , ou alteração tão significativa, que possa me garantir ilegítimo ao notar quase sempre o oposto. Oposto não, o impostor. Os impostores ávidos. Nós. Aves de rapina, isso sim, ou quase. Já que incorremos nos nossos mesmos medíocres erros, dia à dia. Fazemos as mesmas cagadas. Que sempre fizemos. Nos apaixonamos e amamos, mas é tudo mentira, convenção. Gozamos na convenção, ejaculamos as mesmas punhetas, manifestando o mesmo peep show, encontrado nos mais podres sex shops. Aliás, as convenções e nós, somos íntimos em laços estreitos (com direito à canastronas punhaladas pelas costas).

Não, estou falando de mim, não se deixe levar pelo lado exótico. Eu só estou muitíssimo preocupado. É necessário que agora eu provoque em mim mesmo uma dose de artificiosa calma. Não, não é necessário. Ou melhor, para que? What for? O período em que a sigla n.a.r.k.o.s.e., sigla aberta, sigla sem siglo, os apenas signos, esta palavra que acompanhava o nome do Núcleo de Espetacularidades, correspondente e análogo ao período de vínculo dos integrantes do grupo com a academia, é correspondente e análogo também ao período de atuações como artistas acadêmicos, entorpecido por crises pessoais, dores de mundos, que na verdade acabam sendo insolúveis. Em cada membro, e em cada humanidade. São rochosas e rolam como rolling stones, mas continuam rochosas à despeito disso, como algumas rocks que não roll. Enfim, continuam a mesma coisa. Óbvio, claro, meu deus, carregam também seus dolorosos arranhões e feridas e cicatrizes, suas próteses e suas cada vez mais novas máscaras. Criam maravilhosos mecanismos de defesa. Espetaculares. Eu tento, mas eu juro que tento, equacionar, mas sei como funciona o delírio e a celebração, e também das significações que tomam os seus momentos. E isso não se equaciona, por mais que se deleite no que se articule. Não sinto o cansaço. Sinto pior, estou fadado. Fodido e fadado, à mim, no que é irredutível, e correspondentemente fadado ao mundo.


É hora de concluir. Nada foi resolvido, mas apontamentos infinitos foram gerados. Óbvio que somos os mesmos, em processos de mudança. Alguma formação obviamentedeve estar se formando. E se forma. E note-se a falta de critério que caracteriza muitas delas. O encerramento definitivo da formação através de mestres. Ou, o encarceramento, entendido por enredamento, dos elementos deste processo de formação (mestre-discípulo), em múltiplas cadeias re-significadoras e re-articularoras destes elementos. Morre Kazuo Ohno. Não pude conhecê-lo, assistí-lo, exceto em vídeo. Tive contato com elementos da dança Butoh, devidamente orientados pelo, também falecido, Val Rai. Gerald Thomas escreve Kazuo era o “Liebestod” [ária final da ópera, onde o amor transcende a morte e vice-versa]. Meio vivo-morto em cena, tínhamos a impressão de que vinha carregado de “entidades”. Gerald Thomas, vivo, também não conheço pessoalmente, e nem assisti as peças que gostaria de ter assistido da sua carreira, exceto também em vídeo. Sem contato direto com nenhum de nossos "mestres", ou entidades de influência principais, seguimos juntando os seus pedaços, ao sabor amargo da nossa falta de critério.


Dias e dias, anos e anos, isso sempre foi assim. Não são os mesmos Narcisos, mas são os mesmos narcóticos (por sinal, cada vez piores), e o entorpecimento, a anestesia, inerentes ao nosso cultural-traduzido senso de presenvação, desvinculado absolutamente da preservação dos critérios de preservação. Agora devo voltar para o canto de Tadeusz Kantor. E depois, sairei novamente, carregando nas mãos um bolo de aniversário. Analgia das velas que são na verdade ovos ou flores. À partir daí, fica bom até aqui, e sinceramente gratificante. Estou exasperado e de boca fechada. Medito em como pensar no que pensa que medita.



Curitiba, 2010

P. S.: Crédito de todas as fotos - Sehigueo Murakami

terça-feira, 1 de junho de 2010

Tudo o que vês chegou ao fim - A piece of Skip Divided


ME:Mãe, agora que eu te desamarrei, eu quero que você corra. Por favor, não pare de correr. Não pare de olhar para trás enquanto corre. E olhe sempre para frente enquanto estiver olhando para trás. Aqui as pessoas andam ohando para trás, o que não faz diferença, já que elas são invisíveis. E isso faz toda a diferença. Mas já chega, mãe, agora que eu te desamarrei, eu quero que você corra.

(Corre lentamente, do ponto do microfone do apresentador, para o microfone do outro apresentador, que é melhor que o primeiro, mais articulado, se assim posso dizer).

Próspero da Aquitânia: Nada, no campo ou nas cidades,conserva o seu estado original; todas as coisas se encaminham para o seu fim. Pelas armas, a peste, a fome, os sentimentos de culpabilidade, o frio e o calor, a morte possui mil meios de aniquilar de um só golpe a miserável humanidade... A discórdia impiedosa impera no meio da confusão do mundo*, a paz deixou a Terra, TUDO O QUE VÊS CHEGOU AO FIM.

ME: Morrer é viver até o fim. No campo da política as origens são misteriosas, os nascimentos inexplicáveis, as estabilidades são raras, e os aniquilamentos são evidentes. A história da política é uma história de séries e séries seriais subseriadas em decadências relacionadas.

THOM:
No more common dress or elliptical caress
Don't look into your eyes cause I'm desperately in love
In love
When you walk in the room everything disappears
When you walk in the room it's a terrible mess
When you walk in the room I start to melt
When you walk in the room I follow you round
Like a dog, I'm a dog, I'm a dog, I'm a lapdog
I'm your lapdog, yeah
I just got a number and location
I just need my number and location

*No interior onde se organiza toda a confusão.


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