sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Revelação

encontrei novamente a musa
no corpo da mesma mulher
vi minha casca esponjar-se
e minhas vestes encolherem

não ao corpo humano vivo
mas à sêde morta em gotas
d´água de um pulmão denegrido

tirou a peruca branca
as lentes de contato azul
e com meus óculos prateados
viu-me debochar do engôdo
e de autor tornar-me musa

Meu último aniversário

no meu último aniversário
não assoprei velas numerais
acendi as flores que engoli
toda a chama de um jardim
num engano lamacento

os ovos se chocaram, e os miolos
fritos como um lanche chinês, soavam
parabéns sem palmas, de mãos atadas
ao me ver dançar, minha mãe caiu dura
e ao meu ver da história, meu pai cochilava

2010

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Tudo o que vês chegou ao Fim

8

DIRETOR CULTURAL: Pessoal, essa é a nova atriz da companhia. Ela é a única atriz que fala inglês. E que só falará em inglês. Aqui conosco. Vocês querem que ela pense, ou dance?
LUCKY:
    Given the existence as uttered forth in the public works of Puncher and Wattmann of a personal God quaquaquaqua with white beard quaquaquaqua outside time without extension who from the heights of divine apathia divine athambia divine aphasia loves us dearly with some exceptions for reasons unknown but time will tell and suffers like the divine Miranda with those who for reasons unknown but time will tell are plunged in torment plunged in fire whose fire flames if that continues and who can doubt it will fire the firmament that is to say blast hell to heaven so blue still and calm so calm with a calm which even though intermittent is better than nothing but not so fast and considering what is more that as a result of the labors left unfinished crowned by the Acacacacademy of Anthropopopometry of Essy-in-Possy of Testew and Cunard it is established beyond all doubt all other doubt than that which clings to the labors of men that as a result of the labors unfinished of Testew and Cunnard it is established as hereinafter but not so fast for reasons unknown that as a result of the public works of Puncher and Wattmann it is established beyond all doubt that in view of the labors of Fartov and Belcher left unfinished for reasons unknown of Testew and Cunard left unfinished it is established what many deny that man in Possy of Testew and Cunard that man in Essy that man in short that man in brief in spite of the strides of alimentation and defecation wastes and pines wastes and pines and concurrently simultaneously what is more for reasons unknown in spite of the strides of physical culture the practice of sports such as tennis football running cycling swimming flying floating riding gliding conating camogie skating tennis of all kinds dying flying sports of all sorts autumn summer winter winter tennis of all kinds hockey of all sorts penicillin and succedanea in a word I resume flying gliding golf over nine and eighteen holes tennis of all sorts in a word for reasons unknown in Feckham Peckham Fulham Clapham namely concurrently simultaneously what is more for reasons unknown but time will tell fades away I resume Fulham Clapham in a word the dead loss per head since the death of Bishop Berkeley being to the tune of one inch four ounce per head approximately by and large more or less to the nearest decimal good measure round figures stark naked in the stockinged feet in Connemara in a word for reasons unknown no matter what matter the facts are there and considering what is more much more grave that in the light of the labors lost of Steinweg and Peterman it appears what is more much more grave that in the light the light the light of the labors lost of Steinweg and Peterman that in the plains in the mountains by the seas by the rivers running water running fire the air is the same and then the earth namely the air and then the earth in the great cold the great dark the air and the earth abode of stones in the great cold alas alas in the year of their Lord six hundred and something the air the earth the sea the earth abode of stones in the great deeps the great cold on sea on land and in the air I resume for reasons unknown in spite of the tennis the facts are there but time will tell I resume alas alas on on in short in fine on on abode of stones who can doubt it I resume but not so fast I resume the skull fading fading fading and concurrently simultaneously what is more for reasons unknown in spite of the tennis on on the beard the flames the tears the stones so blue so calm alas alas on on the skull the skull the skull the skull in Connemara in spite of the tennis the labors abandoned left unfinished graver still abode of stones in a word I resume alas alas abandoned unfinished the skull the skull in Connemara in spite of the tennis the skull alas the stones Cunard (mêlée, final vociferations)
- Ei.
- Shhh. Eles estão com o coração paralisados. Eu os ensinei a fazer isso. Agora eles estão mortos. Mas se forem acordados perceberão tudo, que o coração está paralisado, e então morrerão de verdade.
- Então estão mortos de mentira...
- Shhh! Tem que parecer verdade.

Tudo o que vês chegou ao Fim

7

- Está vivo... está vivo... não, é repulsivo, está vivo.
- Mãe...
- Deixei as suas luvas, como havia me pedido.
- Mãe... agora que eu te desamarrei, eu quero que você corra. Por favor,não pare de correr. Não pare de olhar para trás enquanto corre. E olhe sempre para frente enquanto estiver olhando para trás. Aqui as pessoas andam olhando para trás, o que não faz diferença, já que são pessoas invisíveis. E isso faz toda a diferença. Mas, já chega, mãe, agora que eu te desamarrei, eu quero que você corra.

Corro lentamente, do ponto do microfone do apresentador, para o microfone do outro apresentador, que é melhor que o primeiro, mais articulado, se assim posso dizer. No sentido oposto vem Wilson, e no mesmo sentido vem o policial.

-eu vi você caído pelos degraus. o rosto todo desfigurado. tinha sangue na sua barba. achei que você estivesse morto. verifiquei o pulso e vi que você estava vivo. não sei o que está acontecendo. você desapareceu e começou a sonhar, se é que posso dizer assim. você estava sonhando em carne viva. um dia eu perguntei, você pode me transformar numa grande atriz, como um diamante. e você disse, eu não sou acessor de imprensa. nós dois seremos esquecidos, tudo bem. mas, se você está pensando que é só mandar eu decorar uma porção de sacanagens em inglês, essas atrocidades tiradas de, das suas analogias...você saiba de uma coisa muito importante.

Em mute ela palestra sobre a patafísica para os presentes.

POLICIAL: Ei, você fala, você não fala, você fala?

-Saia do canto de Tadeusz Kantor agora, e venha já até aqui. isso aqui etá ótimo, hei... está genial.;.. tudo muito bem amarrado...

Eu saio do canto neste instante atendendo ao seu pedido com um bolo de aniversário e um ovo ou uma flor encima como uma vela. Corto e distribuo pedaços dele.

Tito Lívio: à medida que a disciplina moral abrandava, os costumes foram se relaxando pouco à pouco; decaíram cada vez mais e, finalmente, quase à beira do abismo, chegamos aos nossos dias incapazes já de suportar os vícios e de lhes dar remédio.

- Nós aqui e agora estamos um tanto piores, sr. Tito Lívio. estamos caindo neste abismo há muito, muito tempo, com nós mesmos nos empurrando. vemos todo o tipo de imagem passando e sem o menor critério, compondo as mais disformes e perversas iconografias. Nós estamos em queda livre, em decadência livre, janelas de um edifícil, o fim da Idade Média, um outono livre, liberto... um outono minguante em queda livre. janelas html. the waning of the middle ages... a nossa formação é assim,nnão não, a minha formação, não não, essa formação.

LE GOFF: Sinal, causa e conseqüência do que não está acontecendo. o despovoamento do campo, a deserção para as cidades, o silêncio das ruínas. não, algumas ruínas ainda não estão em silêncio, veja, então ainda não estamos em plena decadência.não mais. seremos apenas esquecidos.você não falou em morte, não é isso? não é sobre isso? não é esse o assunto?

-No primeiro caso (Visigodos de Alarico, 410) houve um acontecimento pontual e brutal. no outro, um longo, mas espetacular processo.

Próspero da Aquitânia: Nada, no campo ou nas cidades, conserva o seu estado original; todas as coisas se encaminham para o seu fim. Pelas armas, a peste, a fome, os sentimentos de culpabilidade, o frio, e o calor, a morte possui mil meios de aniquilar de um só golpe a miserável humanidade... A discórdia impiedosa impera no meio da confusão do mundo (lá onde se organiza a confusão), a paz deixou a Terra, TUDO O QUE VÊZ CHEGOU AO FIM.

- O Império Romano não é mais infinito. Eu não conheci nem o Império Austro-Húngaro. Nem a União das Repúblicas Soviéticas. Nada. O máximo de intercontinentalidade em minhas experiências pessoais foi ter jogado um jogo russo dentro da Rede Ferroviária Federal do Brasil Sociedade Anônima. Sob o gigante meio viaduto em eterno inacabamento,imposto à ocupaçãodo espaço. Você conhece os meus amigos? Permita-me apresentá-los. Este é Tito Lívio:
- Oi, sou produtor cultural.
- Esse é Próspero, da Aquitânia.
- Oi, eu sou agente cultural.
- Essa é Mary, Mary Stuart.
- Oi, eu sou contaminadora cultural.
- Esse é o Wilson.
- Oi, eu sou representante cultural.
- E essa é Le Goff, recicladora de gêneros.
- Oi, eu sou o lixo cultural.
- Como você pode ver, nós defendemos a diversidade cultural.

WILSON: Os impérios,como os indivíduos, tem uma vida e uma existência que lhes é própria. Crescem, atingem amaioridade, e depois começam a declinar.
PRÓSPERO: A decadência dos impérios, sendo uma coisa natural, acontece de uma maneira idêntica a qualquer outro acidente, como, por exemplo, a decrepitude que afeta a constituição dos seres vivos.
WILSON: Afeta é a ausência de feto. No pós da ausência de coito.
MARY: Eu quero te confessar que eu aborto muito mais vezes do que me confesso.
PRÓSPERO: Eu me aborto. Por isso sou encucado em incubadeiras de todos os tipos, para todos os tipos.
LEGOFF: Eu gosto dos tipos típicos.
TITO: Pare de ser uma descompromissada com tudo!
WILSON: E o senhor, pare de ser uma concubina.

- Isso, continuem alimentando a minha sede é a mesma.

MARY: Spengler aborda uma história mais faustiana do que Nietzsche e Goethe juntos. Nietzsche e Goethe juntos são mais Sturm und Drung do que Tempestade e Ímpeto. Não tão tempestade e ímpeto quanto Stirb und Werde. Da morte a transfiguração, morrer é viver até o fim.

LEGOFF: No campo da política as origens são misteriosas, os nascimentos inexplicáveis, as estabilidades são raras, e os aniquilamentos são evidentes. A história da política é uma história de séries e séries seriais subseriadas em decadências relacionadas.

MARY: Morrer é viver até o fim.

- Então toma!
Ela atira em cada um deles, matando um à um.
- Isso é o que eu faço com os meus amigos. Esses são os meus amigos. Você os conhece? Nós somos mais do que um grupo de amigos. Nós somos uma civilização. A exploração de
- uma herança histórica morta, juntos.

LEGOFF: mórbidaaa...

- Somos a fase necrofágica de uma cultura.
- a agulha que desce, ou seja, o sol poente. o último imperador mexicano.
- Um Necrotropos num Necrocorpus num Necrolocus.
- Decadentistas! Por que você atirou no seus amigos?
- Oh... oh... oh... oh... oh... porque você pediu.
- Você às vezes age como um homem. Um homem frágil.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Tudo o que vês chegou ao fim

6

- Este diálogo está me deixando confusa. Confundiu a todos. Toda a coisa ainda por resolver. Que nunca fora resolvida. Sempre se repetindo e se referindo...
- Mas é exatamente disso que eu estou falando.
- Não pareceu tão exata tal semelhança.
- Não costumo deixar as coisas explícitas à todo o tempo.
- Ao contrário, você me parece tão explícito quanto... não tenho nem um comparativo à altura que se compare à sua total e incrível explicitação individual.
- Sinto vergonha.
- Aprenda a lidar com isso. Você já me amou? Em algum momento você já me amou?
- Momento quando, incondicionalmente?
- Arg, pergunta abstrata não, por favor não! Pareces uma moçoila com tantos velórios.
- Pareces um urubú, mordiscando minha tripa em carniça viva.
- Nunca mais digas isso.
- Vou dizer isso infinitas vezes na sua presença ou ausência.
- Você me excita falando assim. Peço que pare. Você pode se machucar. Fraquinho desse jeito, vai acabar se estrepando toda, a mocinha.
- Pois então veja isso.
Mostro-lhe a minha cicatriz abdominal.

Tudo o que vês chegou ao fim

5

- Eu também devo admitir, estava enganadoo tempo todo. Tudo o que eu disse, tomem pelo oposto. E tudo o que eu disser, tomem como posto.Vocês podem fazer isso por mim?
- Dê um exemplo para que eles entendam melhor a sua proposta.
- Certo.
Dirige-se até um dos quatro.
- Caia.
Ele não se move.
- Muito bem - vai até outro - Caia! É uma ordem!
Ele não se move.
- Ótimo. Você, caia já! E você também! Caia! Ótimo! Todos entenderam!
Comemora, já que ninguém caiu. Lentamente, dirijo uma frase ao seu ouvido, com sigilo na proximidade. Ele volta ao primeiro dos quatro. Empurra-o com intenção de derrubá-lo. Ele cai, e o mesmo ocorre com todos os outros. Eu taxo:
- Seus exemplos são péssimos! Infeliz!
- Oh! Infantil! Está sendo infantil! Volte já para o canto de Tadeuz Kantor! E só saia de lá com um bolo de aniversário!

Dá-me um tapão que me derruba. E segue me perseguindo com agressões até a minha saída. Neste ínterim.
- Você sabe demais sobre mim.
- Tens uma clara noção do tempo decorrido, nobre parvo?
- No momento estou sem parâmetros claros. Quando evacuo sei que é a hora exata para um banho.
- Engraçado, eu tenho um relógio que funciona apenas às seis e meia da noite. Com apenas um ponteiro visível no número seis, e apenas um ponteiro invisível por trás do ponteiro visível.
- Ao menos você possui uma garantia, um relógio em perfeito estado durante apenas um minuto de todos os dias da sua vida.
- Tenho garantido que meu cú permaneça limpo.
Eu devia ter me retirado antes que isso acontecêsse. Foi uma tremenda falta de timming!

domingo, 22 de agosto de 2010

Tudo o que vês chegou ao fim

4

Ao final deste diálogo,o tempo se fecha em nuvem cinza nua, e inicia longa chuva. Ela parece extasiada como um raio catártico misturada com um choque anafilático. Sou tomado por uma movimentação de quadril e tronco. Sou tomado por óleo em minha costa marítima que engolfo em golfo. Lentamente destaco o formato de livro na minha barriga. Abro a camisa, desabotoando os botões, por cima de onde se forma o livro. No gesto lento de desligamento do livro do meu corpo o som do velcro é contínuo e esganiçado. Abro o livro e ponho-me a ler em silêncio.

PALESTRANTE TOTALITÁRIO: O fumo é uma oferta. O hábito é um rito. O Ato de fumar é uma oferta. Por isso mesmo, oferece-se o cigarro. Pede-se o trago. Existe uma diferença entre quem fuma 40 cigarros por dia, acometido do vídio em fumar, ou fumismo viciante. E o indivíduo que fuma os mesmos 40 cigarros por dia, mas em estado de oferenda. Fumando como quem oferece. Ofecere a morte, que seja; quem oferece a morte oferece a única certeza pactual que se configura em vida. E que vida oferece a morte a si mesma? Que indivíduo a vive, heim? Não importa.

-Então devo não ir a algum lugar.
-Espera, você não... você não estava lendo sobre cigarros?
-É, eu também achei que. Você estava lendo a palestra.
-Bom, eu também achei.
-Ei, às vezes a gente se engana. Não é? isso é tão normal.
-Eu talvez pudesse achar que você estivesse lendo a palestra já que eu estava ouvindo a palestra sendo dita no... meu iPhone 4.
-Por exemplo,você sabe o meu nome?
-Sei. Espera, esqueci. Sei,mas esqueci. Espera, lembrei. Lembrei, mas me esqueci. Lembrei. Mas, você sabe o meu nome?
-Não, deixe-me adivinhar. Stuart. Maria Stuart.
-Isso!
-Não, Solange Gomes.
-Isso!
-Não, Ivete Sangalo.
-Sim!
-Não! Hillary Clinton.
-Isso!
-Não, não posso dizer...
-Diga, ora, diga.
-Helena, como na novela, Helena de Tróia.

Tudo o que vês chegou ao fim

3

z. ela dança para mim. a dança aparenta durar pouco tempo. Mas foi tempo o suficiente para que ela acontecêsse. E também para que enquanto ela acontecêsse, noutros lugares acontecêssem outras coisas, de outros tipos.

- eles estão se conhecendo melhor.
- não, eles não podem estar fazendo isso.
- por que não?
- porque eles não se conhecem.
- que imagem normativa eles estão formando.
- isso incomoda você?
- não, eu sei muito bem que enquanto ela dança para ele costuma esfaquear o seu público. ou melhor, o seu súdito.
- são viciados em ataques súbitos. viciados em estéticas. viciados! viciados em estéticas viciadas.
- o pior vício é o vício em linguagem.
- não, o pior vício é o vício em lingüística.
- não,não, não, o pior vício é o vício em línguas indígenas.
- mero lamento nacionalista é o pior vício. pior que lingüiça chupada.
- comer cocô, comer cocô, ninguém aqui falouem comer cocô.

Ela interrompe a dança e diz:
- o pior vício é aquele em que o viciado enche uma bexiga até que ela quase estoure, e depois murcha a bexiga, soltando todo o ar dentro dela, enchendo novamente o ar e murchando, deixa o ar preso e solta, incessantemente, incessantemente...
- referes-te ao vício em onanismo?
- ou a algum ignorante que não possui a habilidade nobre de dar nós?
- alguns gênios também não sabem dar nós.
- gênios juniores, gênios com know-how de fundo de quintal.
- esse é o pior vício. esse que eu estou pensando. É como um candiru faceiro pela uretra.
- basta! o pior vício é o vício em si então? o próprio vício! o vício em si. é aí que nós estamos chegando? na pureza?
- Mas, convenhamos, os artifícios são lúbricos e suficientemente jubilosos.

Eu interrompo:
- não há pureza nisso!
- Não há pureza em mais nada,diz um deles, deixando os outros apreensivos.
- Não, não há pureza nisso.
- Não há isso em mais nada, ela diz.
- incrível isso o que você disse, eu digo. Por que não nos conhecemos melhor?
- Porque não nos conhecemos,dizemos juntos.

Retomo:
- É tarde.
- Não determine o tempo decorrido!!! Pare! Pare! Com essa pressão!!!
- É cedo
- Eu também acho.
Arrependo-me novamente, agora por ter retomado, como que no perpétuo retorno, acumulo mais algumas lembranças de sustos irretomáveis. Como quando me empurraram contra os arbustos. Quando parecia uma conhecida, ela me surpreendia. Quando ela era uma desconhecida,não nos reconhecíamos.

- você também se relaciona com eles?
- parece que você sabe a resposta do que você pergunta.
- sou viciada em elaborar perguntas deste tipo.
- voce não sabe elaborar perguntas de tipo algum.
- afinal, por que estamos trocando palavrórios?
- palavrorias? começou com você vindo até aqui.
- você sabe que não começou assim.
- sei que você veio até aqui. sei que não começou assim. sei que talvez não seja por isso, e sei de muitas outras coisas.
- você não vai a algum lugar?
- não enquanto não resolver isso.
- você nunca irá resolver isso. e sabe por que não? porque isso já deixou de existir.

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Tudo o que vês chegou ao fim

2

Retiro uma chave defenda do bolso e cautelosamente abro o mini-game. Demonstro experiência neste ato. Pratico desde a infância a desmontagem. Procuro desmontar cada elemento do mini-game. Deixando lado à lado os componentes. Aprecio calmamente as placas de circuitos. A estrutura do visor possui uma moldura atrás do visor. Não vemos enquanto jogamos,mas a moldura está lá. velada e ao mesmo tempo funcionalmente inventiva. Estando tudo minimamente exposto e minuciosamente decomposto, ponho-me a observá-lo já com certo incômodo. Pôr-se a observar torna-se incômodo conforme observo tudo lado à lado.
- O que você está fazendo?
- O que sempre fiz. Desmontando o jogo e montando novamente você passa a ter um novo jogo à cada remontagem. Todos os dias. Um mini-game novo.
-Esse mini-game mini conecta-se com múltiplos outros mini-games. Sendo sempre outros.
-Não. Eles sempre são os mesmos. Eu nunca consegui montá-los novamente após a desmontagem. Eles são sempre os mesmos mini-games novos. Simplesmente isso.
-Você está tentando impor à si mesmo algum tipo de desafio?
-OH, tudo é sempre uma discreta e dolorosa lição de vida para mim!
-Oh, - segurando as minhas bochechas - meu pequeno e eterno aprendiz...

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Tudo o que vês chegou ao fim

1

Cinco pessoas lendo uma revista Veja. Tirada enrolada de algum bolso. Fazem força e barulho para a leitura. Talvez pelos impedimentos que a deformação da revista provocam na sua própria leitura. Óbvio que estou me referindo apenas à deformação física. Da revista. Em forma de canudo resistindo à forma de leitura. A leitura em silêncio vai se transformando em uma rinha de galos e cães e cobras desenfreada. Através da trajetória que envolve e aborda: leitura balbuciada de notícia em solilóquio, leitura balbuciada em tom mais alto, tentativas de comunicação dialogal que teçam considerações rasas ou profundas ou vazas ou afrontadas ou extasiadas ou ainda o uso da própria reportagem escrita como incapacidade de tecer considerações próprias sobre esta, também gritos, tapas e revistadas, uivos e cacarejos, uso de gargarejos, mortes súbitas, assassinatos, retirada de corpos, até sobrar a única retiradora de corpos, uma mulher, que chora como se houvesse perdido tudo.

Ela vem buscar comunicação comigo, que permanecia sentado à parte o tempo todo, concentrado no mini-game em mãos.
-O que é isso?
-Estou jogando Tétris. É um jogo russo.
-Você quer conversar comigo?
Eu me levanto, seguro calmamente os seus ombros, seu pescoço e depois seu rosto. ponho os dedos nos olhos e no nariz. Cheiro a sua boca aberta. Paro e atenuo o contato visual. Respiro suspiro aliviado.
-Eu não te conheço.
E volto a jogar Tétris. Sentado. Ela permanece em pé, com seriedade, tentando compreender por que eu agira daquela forma. Até lentamente começar a parecer ter chegado à uma grande e importante conclusão. Mais importante do que grande, à julgar pela abusiva expressão que toma o seu rosto, segue o pescoço e o tronco. Ressalta as veias mais importantes. As mais pequenas através dos olhos.
- Você está inventando isso tudo.
A sabedoria além do que devia que aquela fala exalou, foi um fator determinante na conseqüente piora do meu desempenho no Tétris. Passa pouco certo tempo até que eu perca o jogo. E chore, com graves tons e graves pausas. Choro neste artifício. E através dele. Em pé:
-Calma.
-...
-Calma (-...)... Calma.
Isso repetidamente, seguindo o choro, parece ter causado algum efeito sobre ela. Nada explicitamente significativo. Um feitiço, que também pode ter causado efeitos em mim. Efeitos que não são palavras. Mas que através delas se comunicam. E se entrubicam. Sentado:
- Você. Sabe. Que eu sei. O que. Você sabe que eu sei?
-Que você não é muito chegado em trepar?
-Quem foi que te falou isso?
-Você não se sente incomodado?
-Não é por aí. Eu nem sou tão famoso assim. Isso que aconteceu aqui, isso sempre acontece...
-Eu sei disso.
-Você participa disso.
-Você também.
-... sempre aconteceu.
-e sempre acontecerá.
-Páre. Não gosto de ser interrompido.
-Não foi uma interrupção, foi uma antecipação.
-Pior, muito pior.

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Homenagem aos 114 anos de Bauru

A cidade onde eu nasci. Tinha uma estação de trem importante. Ainda tem. Mas, não é de trem que eu volto para lá, ver o seu aniversário acontecer. Isso pode ficar mais claro na sequência de fotos abaixo, com a Cia Paulista de Estradas de Ferro (1910-1971), ou FEPASA (1971-1998) através do século vinte.

(1910 - quase melhor que agora)

(1918 - em meio ao futurismo tardio)

(1920 - sim, era glamouroso)

(1982 - estranho como os anos 80...)

(sem data - meu pai nalgum canto)
(sem data)

(1999 - Límerson, 12 anos)
(2002 -privatizado, ou seja, virou privada...)





Parabéns Bauru!!!

(Pela inspiração de cada personagem perdido e encantado numa mesma malha abandonada)

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