quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Tudo o que vês chegou ao fim

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Cinco pessoas lendo uma revista Veja. Tirada enrolada de algum bolso. Fazem força e barulho para a leitura. Talvez pelos impedimentos que a deformação da revista provocam na sua própria leitura. Óbvio que estou me referindo apenas à deformação física. Da revista. Em forma de canudo resistindo à forma de leitura. A leitura em silêncio vai se transformando em uma rinha de galos e cães e cobras desenfreada. Através da trajetória que envolve e aborda: leitura balbuciada de notícia em solilóquio, leitura balbuciada em tom mais alto, tentativas de comunicação dialogal que teçam considerações rasas ou profundas ou vazas ou afrontadas ou extasiadas ou ainda o uso da própria reportagem escrita como incapacidade de tecer considerações próprias sobre esta, também gritos, tapas e revistadas, uivos e cacarejos, uso de gargarejos, mortes súbitas, assassinatos, retirada de corpos, até sobrar a única retiradora de corpos, uma mulher, que chora como se houvesse perdido tudo.

Ela vem buscar comunicação comigo, que permanecia sentado à parte o tempo todo, concentrado no mini-game em mãos.
-O que é isso?
-Estou jogando Tétris. É um jogo russo.
-Você quer conversar comigo?
Eu me levanto, seguro calmamente os seus ombros, seu pescoço e depois seu rosto. ponho os dedos nos olhos e no nariz. Cheiro a sua boca aberta. Paro e atenuo o contato visual. Respiro suspiro aliviado.
-Eu não te conheço.
E volto a jogar Tétris. Sentado. Ela permanece em pé, com seriedade, tentando compreender por que eu agira daquela forma. Até lentamente começar a parecer ter chegado à uma grande e importante conclusão. Mais importante do que grande, à julgar pela abusiva expressão que toma o seu rosto, segue o pescoço e o tronco. Ressalta as veias mais importantes. As mais pequenas através dos olhos.
- Você está inventando isso tudo.
A sabedoria além do que devia que aquela fala exalou, foi um fator determinante na conseqüente piora do meu desempenho no Tétris. Passa pouco certo tempo até que eu perca o jogo. E chore, com graves tons e graves pausas. Choro neste artifício. E através dele. Em pé:
-Calma.
-...
-Calma (-...)... Calma.
Isso repetidamente, seguindo o choro, parece ter causado algum efeito sobre ela. Nada explicitamente significativo. Um feitiço, que também pode ter causado efeitos em mim. Efeitos que não são palavras. Mas que através delas se comunicam. E se entrubicam. Sentado:
- Você. Sabe. Que eu sei. O que. Você sabe que eu sei?
-Que você não é muito chegado em trepar?
-Quem foi que te falou isso?
-Você não se sente incomodado?
-Não é por aí. Eu nem sou tão famoso assim. Isso que aconteceu aqui, isso sempre acontece...
-Eu sei disso.
-Você participa disso.
-Você também.
-... sempre aconteceu.
-e sempre acontecerá.
-Páre. Não gosto de ser interrompido.
-Não foi uma interrupção, foi uma antecipação.
-Pior, muito pior.

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