domingo, 22 de agosto de 2010

Tudo o que vês chegou ao fim

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Ao final deste diálogo,o tempo se fecha em nuvem cinza nua, e inicia longa chuva. Ela parece extasiada como um raio catártico misturada com um choque anafilático. Sou tomado por uma movimentação de quadril e tronco. Sou tomado por óleo em minha costa marítima que engolfo em golfo. Lentamente destaco o formato de livro na minha barriga. Abro a camisa, desabotoando os botões, por cima de onde se forma o livro. No gesto lento de desligamento do livro do meu corpo o som do velcro é contínuo e esganiçado. Abro o livro e ponho-me a ler em silêncio.

PALESTRANTE TOTALITÁRIO: O fumo é uma oferta. O hábito é um rito. O Ato de fumar é uma oferta. Por isso mesmo, oferece-se o cigarro. Pede-se o trago. Existe uma diferença entre quem fuma 40 cigarros por dia, acometido do vídio em fumar, ou fumismo viciante. E o indivíduo que fuma os mesmos 40 cigarros por dia, mas em estado de oferenda. Fumando como quem oferece. Ofecere a morte, que seja; quem oferece a morte oferece a única certeza pactual que se configura em vida. E que vida oferece a morte a si mesma? Que indivíduo a vive, heim? Não importa.

-Então devo não ir a algum lugar.
-Espera, você não... você não estava lendo sobre cigarros?
-É, eu também achei que. Você estava lendo a palestra.
-Bom, eu também achei.
-Ei, às vezes a gente se engana. Não é? isso é tão normal.
-Eu talvez pudesse achar que você estivesse lendo a palestra já que eu estava ouvindo a palestra sendo dita no... meu iPhone 4.
-Por exemplo,você sabe o meu nome?
-Sei. Espera, esqueci. Sei,mas esqueci. Espera, lembrei. Lembrei, mas me esqueci. Lembrei. Mas, você sabe o meu nome?
-Não, deixe-me adivinhar. Stuart. Maria Stuart.
-Isso!
-Não, Solange Gomes.
-Isso!
-Não, Ivete Sangalo.
-Sim!
-Não! Hillary Clinton.
-Isso!
-Não, não posso dizer...
-Diga, ora, diga.
-Helena, como na novela, Helena de Tróia.

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