domingo, 22 de agosto de 2010

Tudo o que vês chegou ao fim

3

z. ela dança para mim. a dança aparenta durar pouco tempo. Mas foi tempo o suficiente para que ela acontecêsse. E também para que enquanto ela acontecêsse, noutros lugares acontecêssem outras coisas, de outros tipos.

- eles estão se conhecendo melhor.
- não, eles não podem estar fazendo isso.
- por que não?
- porque eles não se conhecem.
- que imagem normativa eles estão formando.
- isso incomoda você?
- não, eu sei muito bem que enquanto ela dança para ele costuma esfaquear o seu público. ou melhor, o seu súdito.
- são viciados em ataques súbitos. viciados em estéticas. viciados! viciados em estéticas viciadas.
- o pior vício é o vício em linguagem.
- não, o pior vício é o vício em lingüística.
- não,não, não, o pior vício é o vício em línguas indígenas.
- mero lamento nacionalista é o pior vício. pior que lingüiça chupada.
- comer cocô, comer cocô, ninguém aqui falouem comer cocô.

Ela interrompe a dança e diz:
- o pior vício é aquele em que o viciado enche uma bexiga até que ela quase estoure, e depois murcha a bexiga, soltando todo o ar dentro dela, enchendo novamente o ar e murchando, deixa o ar preso e solta, incessantemente, incessantemente...
- referes-te ao vício em onanismo?
- ou a algum ignorante que não possui a habilidade nobre de dar nós?
- alguns gênios também não sabem dar nós.
- gênios juniores, gênios com know-how de fundo de quintal.
- esse é o pior vício. esse que eu estou pensando. É como um candiru faceiro pela uretra.
- basta! o pior vício é o vício em si então? o próprio vício! o vício em si. é aí que nós estamos chegando? na pureza?
- Mas, convenhamos, os artifícios são lúbricos e suficientemente jubilosos.

Eu interrompo:
- não há pureza nisso!
- Não há pureza em mais nada,diz um deles, deixando os outros apreensivos.
- Não, não há pureza nisso.
- Não há isso em mais nada, ela diz.
- incrível isso o que você disse, eu digo. Por que não nos conhecemos melhor?
- Porque não nos conhecemos,dizemos juntos.

Retomo:
- É tarde.
- Não determine o tempo decorrido!!! Pare! Pare! Com essa pressão!!!
- É cedo
- Eu também acho.
Arrependo-me novamente, agora por ter retomado, como que no perpétuo retorno, acumulo mais algumas lembranças de sustos irretomáveis. Como quando me empurraram contra os arbustos. Quando parecia uma conhecida, ela me surpreendia. Quando ela era uma desconhecida,não nos reconhecíamos.

- você também se relaciona com eles?
- parece que você sabe a resposta do que você pergunta.
- sou viciada em elaborar perguntas deste tipo.
- voce não sabe elaborar perguntas de tipo algum.
- afinal, por que estamos trocando palavrórios?
- palavrorias? começou com você vindo até aqui.
- você sabe que não começou assim.
- sei que você veio até aqui. sei que não começou assim. sei que talvez não seja por isso, e sei de muitas outras coisas.
- você não vai a algum lugar?
- não enquanto não resolver isso.
- você nunca irá resolver isso. e sabe por que não? porque isso já deixou de existir.

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