terça-feira, 24 de agosto de 2010

Tudo o que vês chegou ao Fim

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- Está vivo... está vivo... não, é repulsivo, está vivo.
- Mãe...
- Deixei as suas luvas, como havia me pedido.
- Mãe... agora que eu te desamarrei, eu quero que você corra. Por favor,não pare de correr. Não pare de olhar para trás enquanto corre. E olhe sempre para frente enquanto estiver olhando para trás. Aqui as pessoas andam olhando para trás, o que não faz diferença, já que são pessoas invisíveis. E isso faz toda a diferença. Mas, já chega, mãe, agora que eu te desamarrei, eu quero que você corra.

Corro lentamente, do ponto do microfone do apresentador, para o microfone do outro apresentador, que é melhor que o primeiro, mais articulado, se assim posso dizer. No sentido oposto vem Wilson, e no mesmo sentido vem o policial.

-eu vi você caído pelos degraus. o rosto todo desfigurado. tinha sangue na sua barba. achei que você estivesse morto. verifiquei o pulso e vi que você estava vivo. não sei o que está acontecendo. você desapareceu e começou a sonhar, se é que posso dizer assim. você estava sonhando em carne viva. um dia eu perguntei, você pode me transformar numa grande atriz, como um diamante. e você disse, eu não sou acessor de imprensa. nós dois seremos esquecidos, tudo bem. mas, se você está pensando que é só mandar eu decorar uma porção de sacanagens em inglês, essas atrocidades tiradas de, das suas analogias...você saiba de uma coisa muito importante.

Em mute ela palestra sobre a patafísica para os presentes.

POLICIAL: Ei, você fala, você não fala, você fala?

-Saia do canto de Tadeusz Kantor agora, e venha já até aqui. isso aqui etá ótimo, hei... está genial.;.. tudo muito bem amarrado...

Eu saio do canto neste instante atendendo ao seu pedido com um bolo de aniversário e um ovo ou uma flor encima como uma vela. Corto e distribuo pedaços dele.

Tito Lívio: à medida que a disciplina moral abrandava, os costumes foram se relaxando pouco à pouco; decaíram cada vez mais e, finalmente, quase à beira do abismo, chegamos aos nossos dias incapazes já de suportar os vícios e de lhes dar remédio.

- Nós aqui e agora estamos um tanto piores, sr. Tito Lívio. estamos caindo neste abismo há muito, muito tempo, com nós mesmos nos empurrando. vemos todo o tipo de imagem passando e sem o menor critério, compondo as mais disformes e perversas iconografias. Nós estamos em queda livre, em decadência livre, janelas de um edifícil, o fim da Idade Média, um outono livre, liberto... um outono minguante em queda livre. janelas html. the waning of the middle ages... a nossa formação é assim,nnão não, a minha formação, não não, essa formação.

LE GOFF: Sinal, causa e conseqüência do que não está acontecendo. o despovoamento do campo, a deserção para as cidades, o silêncio das ruínas. não, algumas ruínas ainda não estão em silêncio, veja, então ainda não estamos em plena decadência.não mais. seremos apenas esquecidos.você não falou em morte, não é isso? não é sobre isso? não é esse o assunto?

-No primeiro caso (Visigodos de Alarico, 410) houve um acontecimento pontual e brutal. no outro, um longo, mas espetacular processo.

Próspero da Aquitânia: Nada, no campo ou nas cidades, conserva o seu estado original; todas as coisas se encaminham para o seu fim. Pelas armas, a peste, a fome, os sentimentos de culpabilidade, o frio, e o calor, a morte possui mil meios de aniquilar de um só golpe a miserável humanidade... A discórdia impiedosa impera no meio da confusão do mundo (lá onde se organiza a confusão), a paz deixou a Terra, TUDO O QUE VÊZ CHEGOU AO FIM.

- O Império Romano não é mais infinito. Eu não conheci nem o Império Austro-Húngaro. Nem a União das Repúblicas Soviéticas. Nada. O máximo de intercontinentalidade em minhas experiências pessoais foi ter jogado um jogo russo dentro da Rede Ferroviária Federal do Brasil Sociedade Anônima. Sob o gigante meio viaduto em eterno inacabamento,imposto à ocupaçãodo espaço. Você conhece os meus amigos? Permita-me apresentá-los. Este é Tito Lívio:
- Oi, sou produtor cultural.
- Esse é Próspero, da Aquitânia.
- Oi, eu sou agente cultural.
- Essa é Mary, Mary Stuart.
- Oi, eu sou contaminadora cultural.
- Esse é o Wilson.
- Oi, eu sou representante cultural.
- E essa é Le Goff, recicladora de gêneros.
- Oi, eu sou o lixo cultural.
- Como você pode ver, nós defendemos a diversidade cultural.

WILSON: Os impérios,como os indivíduos, tem uma vida e uma existência que lhes é própria. Crescem, atingem amaioridade, e depois começam a declinar.
PRÓSPERO: A decadência dos impérios, sendo uma coisa natural, acontece de uma maneira idêntica a qualquer outro acidente, como, por exemplo, a decrepitude que afeta a constituição dos seres vivos.
WILSON: Afeta é a ausência de feto. No pós da ausência de coito.
MARY: Eu quero te confessar que eu aborto muito mais vezes do que me confesso.
PRÓSPERO: Eu me aborto. Por isso sou encucado em incubadeiras de todos os tipos, para todos os tipos.
LEGOFF: Eu gosto dos tipos típicos.
TITO: Pare de ser uma descompromissada com tudo!
WILSON: E o senhor, pare de ser uma concubina.

- Isso, continuem alimentando a minha sede é a mesma.

MARY: Spengler aborda uma história mais faustiana do que Nietzsche e Goethe juntos. Nietzsche e Goethe juntos são mais Sturm und Drung do que Tempestade e Ímpeto. Não tão tempestade e ímpeto quanto Stirb und Werde. Da morte a transfiguração, morrer é viver até o fim.

LEGOFF: No campo da política as origens são misteriosas, os nascimentos inexplicáveis, as estabilidades são raras, e os aniquilamentos são evidentes. A história da política é uma história de séries e séries seriais subseriadas em decadências relacionadas.

MARY: Morrer é viver até o fim.

- Então toma!
Ela atira em cada um deles, matando um à um.
- Isso é o que eu faço com os meus amigos. Esses são os meus amigos. Você os conhece? Nós somos mais do que um grupo de amigos. Nós somos uma civilização. A exploração de
- uma herança histórica morta, juntos.

LEGOFF: mórbidaaa...

- Somos a fase necrofágica de uma cultura.
- a agulha que desce, ou seja, o sol poente. o último imperador mexicano.
- Um Necrotropos num Necrocorpus num Necrolocus.
- Decadentistas! Por que você atirou no seus amigos?
- Oh... oh... oh... oh... oh... porque você pediu.
- Você às vezes age como um homem. Um homem frágil.

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