sábado, 25 de setembro de 2010

Fragmentado 2

em uma semana, um longo período de descanso, inteiramente relaxante, e até decisivo, em até dizer chega de pensar, e no tempo de considerar, considerar, e considerar, coube ainda tempo para comemorar com os amigos qualquer coisa que não sei qual num irish pub. a conversa com a princesa margarida apple foi desastrosa e atordoante e não deve ser lembrada ou mencionada por ninguém mais. este assunto aliás deve ser enterrado, como todo assunto relacionado a princesas. porcaria de gostar esse meu que é um negócio que não vai pra frente então. fomos todos mais do que para a frente, fomos mais duas quadras subsequentes, e viramos na esquina do hospital de olhos. ali ao lado era o irish pub joyceano, lugar onde se encontram gentes, bichos-homem, escrotos e escrotas, com música ao vivo e cerveja importada.

- você já parou para conversar com o seu cérebro?
- oras, eu medito.
- oras, eu não minto. o cérebro tem todas as respostas para as suas perguntas, todas estão prontas, bem ali.
- a lei anti-fumo me faz menos sedentária, tendo de caminhar até la fora, fumar e voltar.
- observação interessante, lady.
- yap, one more!

o balconista demolei. a loira com grandes peitos e pequenas roupas. os copos, as garrafas, os baldes. gelo, está quente, está quente. alguns passos e os caminhos se bifurcam, trifurcam, quadrifurcam. gente infinita, cheia de assuntos e dos seus momentos. passa o tempo fica pior de lembrar, o que houve depois? tanta tristeza, coisa pequena que vai machucando como coisa grande, olhar para outro lado, qualquer lado, é só olhar... isso me mata. é só olhar. não é só olhar.

no segundo seguinte a isso eu estava do outro lado de fora sem nada na cabeça exceto a vontade de lembrar só disso depois, que me lembro agora para pouco falar certo. estou tentando. sei que eu pensava, e como era horrível, o quê de fundo, de tudo e de todo só me deixei cair; com a cara jogada no chão, abriu meu supercílio esquerdo e quebrou meus óculos o ocaso. bola de sangue por fora da pálpebra do globo ocular escondido. rasgo na vista, miopia e escuridão. vamos levá-lo ao hospital. não, obrigado, boa noite, apague a luz. acordei em choque, sem saber de nada, sem a minha cara de antes, e a certa falha descarada.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Fragmentado 1

conselho sobre as transformações, é particular. é sem dúvida tudo de mais preciso de que você precisa saber. há tantas imagens de um passado nas palavras que reencontrei. nos cumprimentamos cordialmente. as massivas porções de textos, nos mais variados formatos, há o que encontrei. conselho sobre transformações através de conceitos postos em resignificado, em laboratório. conselho caro, pois a dor vem logo ou muito depois. vem alguém me interromper no quarto, pedir isqueiro. saia daí, saia daí. desça as escadas e cante, pule o último degrau e grite, só não se arrebente. este ainda não é o conselho. fui interrompido, amasso alguns, outros rasgo em vários. são critérios de desfazer, isenção de culpa e autoautoridade. vão embora, não, vocês ficam. que libido nisso tudo, o pensamento fica quase mudo e sinto a libido nisso tudo.

som e imagem que não interagem, este é o conselho dentro do conselho. frase, palavra, letra, número, dia, hora, ano, semana, mês, quilo, ou mesmo aquilo em que eu me pensava: ciência. fausto era o cientista. encontrei nestes papéis que organizava quando tinha sido interrompido pelo casal dancer. tinha uma esboçada engenhosa de possível encenação de fausto, cujo nome seria philosophus philosophorum. idéia de encenar num estacionamento que já fora bordel, iluminação de carros em movimento, e cheiro tipicamente tóxico do fim dos tempos veiculares. o fausto atropelado por goethe e marlowe atrevia-se por baixo. pedido entre édipo e laio respondido entre o pai e o filho. a esposa, vamos comer, vamos comer, geralmente é isso. pisando em fausto com pés inchados.

ele chegou ou está chegando, o ator que se retirou: ele chamou aquela que se atirou de. que também chegou, só que já chegada morta. um sacrilégio com os pais. os olhos vidrados no vidro. eram auroras outroras criativas as minhas. eu posso fazer um poema para você, juro que posso.
ATRIZ: Diga, é importante que você se manifeste. Mas, diga em silêncio, em pensamento, porque você está proibido de falar.
(música alta. entra um carro. nas janelas da frente dois braços pra fora, apontados para a frente)
MEPHISTO: eu vou pisar no dedão do seu pé se você continuar assim. vou mesmo. vou pisotear o dedão do seu pé. e vai sair muito sangue do seu dedo porque eu vou arrancar a unha do dedo do seu pé. é sangue não é? então, vão juntar moscas no seu machucadinho. os cães e os pobres vão confundir o seu machucadinho com uma esmolinha ou um restinho de uma miragem. e vão ficar felizes e satisfeitos com isso. passados muitos anos, você receberá isso como presente.
(sangue no tapete e tomate no extrato)

ao mesmo tempo que penso escrevo. eu juro. são pastas e pastas, com folhas contendo uma única palavra, além de recortes de jornal e revista, ou recortes de notícias em parágrafos, ou recortes de parágrafos em forma de poemas. o que se carrega tem peso. e o que se contém se contenta.

"é pesado pois sou um homem imaginado por um gene de um germe de uma molécula de um músculo de uma parcela de uma parte de uma fatia de um porcento de um pedaço de uma placenta sobre um tijolo de uma parede de uma sinapse de um sentido de um sêmen que um pelo de uma barba de um cara de um deus de um signo de um semi de um astro de um som de uma luz de um som de uma luz de um som de um som que me chamou".

assim começava em fraca luz o silêncio. dando ouvidos a muitas vozes, humanos. em nenhum sentido verdade. e nada de algo de comunicação. melhor pôr os papéis em plásticos e embora com a desordem disso. lado a lado, um a um, com um fecho, e um lugar, frequentemente visto, não tanto acessado. adornar de ordem o caótico derradeirismo em pastas de arquivo. e acostumar-se com as presenças inofensivas dos ácaros que se acumulam, e do desarranjo de espaço em rearranjo. nesta reconfiguração, vejo meu pai em cheque, sentado com as mãos nos joelhos, e todo serenidade. faltam dois cadernos ou três, com poemas da adolescência.

sábado, 4 de setembro de 2010

Carta-aberta de comentário pessoal 1

Curitiba - Crei o universo cármico em torno da minha vida acadêmica no ano passado que hoje se reflete em realidade. Deixei as disciplinas que eu considerava as mais chatas (no hard feelings, dear teachers) para depois. E hoje pago os meus pecados (no hard feelings, i mean it). Bem vindos ao purgatório das disciplinas pendentes. Faço parte do segundo ano, do terceiro ano, e também do quarto ano. E por isso me refiro a este momento como uma experiência de purgatório, pois não tenho envolvimento vital com as atividades de nenhuma turma. Apenas cumpro o que eu devia e devo cumprir para a conclusão. Afinal, ao menos um curso eu tenho que concluir.

E, como num purgatório, sob uma ótica medievalista, caso minha alma alcance redenção, alcanço um status de paraíso, análogo ao que se observa nas catedrais antigas, destacadamente as provençais destacadas por Michel Vovelle, um precursor notável na história das mentalidades, continuada por Jaqcues Le Goff. Nenhum deles, aliás e nem Duby, encontram-se com William Shakespeare, afinal de contas, mesmo com avanços nas comunicações globais, alguns modelos de oposições histórico-idiomáticas ainda persistem, como a relação França-Inglaterra. Caso contrário, podemos purgar mais um pouco, Vovelle, Le Goff e Shakespeare, em jogos obsessivos de reflexão pelo Declínio da Idade Média. Há uma a purgação medievalista em Shakespeare, outra em Vovelle, e outra em Le Goff. Sim, mas, em linhas gerais, todos nós nos danamos. Essa tensão referencial, no exemplo destes dois idiomas, é importante sempre ser notada, inclusive por ser marcada com sangue, de um corpo e do outro, cada um estancando ao seu modo, seja na Nova História dos anos 60, seja na nova catarse shakespeareana, with all the blood through the eyes of The globe theater.

Não sei o que preciso provar para Curitiba. Provavelmente nada. Certamente que me incomodo, já que vim de fora. E, óbvio, temos que considerar também, tenho vinte e dois anos. E é bem pouco o que tenho de respostas. Mas, muita coisa tem me incomodado, por exemplo, a preguiça com relação ao auto-conhecimento, travestida de uma "mera" característica ocidental. Ocidental? Como assim? Do que nós nos orgulhamos tanto, quando enchemos o peito de indignação ao contato com a ausência de paz no oriente médio? Somos laicos, e temos outra relação de conceito quanto à paz. Somos laicos? O Ocidente, que chama modernidade ao que inventou, como o marco transgressor de tradicionalismos, foi cartesiano e surrealista ao mesmo tempo, mesmo que em períodos históricos diferentes. Como assimilar, não sei. No Brasil explodimos e derrubamos helicópteros da polícia militar. E nossa paz significa o que? Pratico meditação desde a adolescência, ninguém me ensinou, ninguém me doutrinou, ninguém me iniciou. É uma mutação religiosa em mim, que envolve paixão e libertação. Aqui se passa fome, sede e frio, não existe paz, amor e nem arte.

Uma dor no meio da minha testa. Dificuldades respiratórias, com tanta variação climática, mais para o seco do que para qualquer outra coisa. Então as mucosas estão vulneráveis. Como a maioria das pessoas são, e não se dão conta, vulneráveis. E quando se dão conta, tornam-se vulneráveis ao auto-conhecimento, a auto-percepção, que é tão catártica quanto purgativa. Tanto remédio quanto veneno. Tanto rotina quanto vício quanto dramaturgia. Dividi um cigarro com uma musa gripada, e ainda padeço. Os mesmos males solos. Maremotos em mares solos em males remotos em perpétuo retorno não, Mircea Eliade não! Não, isso é sério, não sei se são passos ao redor, ou se apenas trata-se de contemplação, exceto exista um objetivo sendo alcançado. Uma topeira shakespeareana que cava ou um coveiro shakespeareano que cava, redundam ambos em mim por Augusto dos Anjos.

Chega! As campanhas me dão vergonha, as politicas culturais me dão vergonha, os verdadeiros artistas me dão vergonha. Devo ter um problema sério com a vergonha então. Quem vem do interior tem dessas coisas. E aprende a rir de todas essas coisas depois. Só me avisem quando for pra rir então, OK?


LÍMERSON,2010


quarta-feira, 1 de setembro de 2010

ECCE

eis que o amor obsoleta
e se torna objeto obsidional
eis que quase uma visão
sonhada sem verdade se desloca

ponho-me de fronte e permito
o confrontamento facial aviltante
a frase se põe como num vômito
elíptico em diálogo sem diagonal

eis que acordo em pé num ônibus
comedido e envolvido em misérias
eis que passo além daquele ponto
salvo e entorpecido do etéreo

ponho uma frase num ouvido humano:
não sei voltar de onde estava
ela segue íngrime e fagulha em sonho
podendo ser retomada como espelho.

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