sábado, 4 de setembro de 2010

Carta-aberta de comentário pessoal 1

Curitiba - Crei o universo cármico em torno da minha vida acadêmica no ano passado que hoje se reflete em realidade. Deixei as disciplinas que eu considerava as mais chatas (no hard feelings, dear teachers) para depois. E hoje pago os meus pecados (no hard feelings, i mean it). Bem vindos ao purgatório das disciplinas pendentes. Faço parte do segundo ano, do terceiro ano, e também do quarto ano. E por isso me refiro a este momento como uma experiência de purgatório, pois não tenho envolvimento vital com as atividades de nenhuma turma. Apenas cumpro o que eu devia e devo cumprir para a conclusão. Afinal, ao menos um curso eu tenho que concluir.

E, como num purgatório, sob uma ótica medievalista, caso minha alma alcance redenção, alcanço um status de paraíso, análogo ao que se observa nas catedrais antigas, destacadamente as provençais destacadas por Michel Vovelle, um precursor notável na história das mentalidades, continuada por Jaqcues Le Goff. Nenhum deles, aliás e nem Duby, encontram-se com William Shakespeare, afinal de contas, mesmo com avanços nas comunicações globais, alguns modelos de oposições histórico-idiomáticas ainda persistem, como a relação França-Inglaterra. Caso contrário, podemos purgar mais um pouco, Vovelle, Le Goff e Shakespeare, em jogos obsessivos de reflexão pelo Declínio da Idade Média. Há uma a purgação medievalista em Shakespeare, outra em Vovelle, e outra em Le Goff. Sim, mas, em linhas gerais, todos nós nos danamos. Essa tensão referencial, no exemplo destes dois idiomas, é importante sempre ser notada, inclusive por ser marcada com sangue, de um corpo e do outro, cada um estancando ao seu modo, seja na Nova História dos anos 60, seja na nova catarse shakespeareana, with all the blood through the eyes of The globe theater.

Não sei o que preciso provar para Curitiba. Provavelmente nada. Certamente que me incomodo, já que vim de fora. E, óbvio, temos que considerar também, tenho vinte e dois anos. E é bem pouco o que tenho de respostas. Mas, muita coisa tem me incomodado, por exemplo, a preguiça com relação ao auto-conhecimento, travestida de uma "mera" característica ocidental. Ocidental? Como assim? Do que nós nos orgulhamos tanto, quando enchemos o peito de indignação ao contato com a ausência de paz no oriente médio? Somos laicos, e temos outra relação de conceito quanto à paz. Somos laicos? O Ocidente, que chama modernidade ao que inventou, como o marco transgressor de tradicionalismos, foi cartesiano e surrealista ao mesmo tempo, mesmo que em períodos históricos diferentes. Como assimilar, não sei. No Brasil explodimos e derrubamos helicópteros da polícia militar. E nossa paz significa o que? Pratico meditação desde a adolescência, ninguém me ensinou, ninguém me doutrinou, ninguém me iniciou. É uma mutação religiosa em mim, que envolve paixão e libertação. Aqui se passa fome, sede e frio, não existe paz, amor e nem arte.

Uma dor no meio da minha testa. Dificuldades respiratórias, com tanta variação climática, mais para o seco do que para qualquer outra coisa. Então as mucosas estão vulneráveis. Como a maioria das pessoas são, e não se dão conta, vulneráveis. E quando se dão conta, tornam-se vulneráveis ao auto-conhecimento, a auto-percepção, que é tão catártica quanto purgativa. Tanto remédio quanto veneno. Tanto rotina quanto vício quanto dramaturgia. Dividi um cigarro com uma musa gripada, e ainda padeço. Os mesmos males solos. Maremotos em mares solos em males remotos em perpétuo retorno não, Mircea Eliade não! Não, isso é sério, não sei se são passos ao redor, ou se apenas trata-se de contemplação, exceto exista um objetivo sendo alcançado. Uma topeira shakespeareana que cava ou um coveiro shakespeareano que cava, redundam ambos em mim por Augusto dos Anjos.

Chega! As campanhas me dão vergonha, as politicas culturais me dão vergonha, os verdadeiros artistas me dão vergonha. Devo ter um problema sério com a vergonha então. Quem vem do interior tem dessas coisas. E aprende a rir de todas essas coisas depois. Só me avisem quando for pra rir então, OK?


LÍMERSON,2010


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