terça-feira, 12 de outubro de 2010

Desdobramentos (parte de narrativa em processo)

1.


Sei bem quem é. Um estranho. Melhor que um estrangeiro. Um estranho. Melhor do que eu. Fico molhado em saber que ele é melhor do que eu. Porque não tem importância no caso a geografia do lugar introjetada. O que tem importância no caso é a serigrafia da gentileza robusta que porta o homem que você espera. Diz que nada espera, mas em nada morre. Maldita raiva, dai-me espaço para a paciência. Deixe-me escoar o tempo. Expirar o tanto que é o quente. Produzir o suor salgado que seca. A tinta que na folha fresca seca. A folha ainda estava la.


2.


Hoje, quando comecei a escrever, começaram a brotar em mim um par de seios. Pequenos, onde ficam os meus mamilos. Com pelos ao redor do bico. Então pensei, uma metáfora glandular. E a ironia velada levou-me a mão a um deles. Escrevia a palavra língua sem escorrer-me o sangue dos seus personagens pela minha boca. Excitei-me acariciando o entorno com os dedos nas costelas. A explosão venosa e arterial em transito amplificada foi assim para todo o meu corpo.


3.


Você sempre se re-encontrava com ela na minha casa. Aquela sua amiga bufona que nos apresentou. É isso o que alimenta o nosso silêncio. Você conecta-se a ela, mesmo tendo se tornado você depois em outra. Aquela bufona shakespeareana. Que une um casal pelo potencial alcoviteiro que há nisso. Fico em silêncio quando você fala dela. Ficamos assim, sem nada mal disposto.


4.


Desde quando isso, estava pensando. Domingo ou segunda passada. Tem mais de uma semana isso então. De as vacas ruminarem. E é por quem que se guarda tanto. Por uma tolice tão difícil de apontar num átimo. Uma bostinha, como disse o meu amigo bailarino. Querer que isso vire verdade, apenas isso. Nunca o suficiente sem o dote do invento. Todos sabem, só me faço em perguntas. Diante do espelho enxáguo esponjas. Desde que a flor madura a fruta brota abrupta. Colho e guardo nestas pequenas vasilhas, depois de no varal seco.


5.


Os corpos vão para o abatimento que as almas já vivem. Alma é a queimadura marcada no braço. No ante-braço. A ante-sala do churrasco, onde ainda é crua. Ainda sou vasto enquanto isso conectar-se ao gesto. Meu dedo tensionado mordido pelo seu gato. Tensionado está pretenso a nada. Sou quem sabe da força que tem minha incapacidade. Isso me protege e só emerge quando alcança um formato. Edward disse que todos os amantes dela passarão por mim.


6.


No campo de batalha, reconheço a afirmação predita. Eles realmente me tomam exigindo de mim a indiferença. A que se exerce quando se evita providencialmente a repetição de um pensamento. Os corpos já abatidos estavam bem alimentados. As barrigas exalam. Fora um artifício este campo, uma mímese diria político-cultural. A nova ficção escrita por. O autor já basta no que não se basta.


7.


Escute o raro. Que a história se dá assim. Pelo raro presente em tudo posto por simplicidade. Quanto mais simples, mais rara a postura. Numa descostura complexa de organelas. Escute que descompostura, que mal comporta. Se o peso que eu carrego vem sendo por mim carregado, como ele deve considerar a minha atividade? Será que escreve cartas, como eu fazia habitualmente para resolver os nossos problemas meus.


8. - Você não está no meio de uma conversa importante?


Edward gosta de fazer isso. Andar em muros e subir em árvores. Escala tudo até o telhado. Quando inicia os saltos. Notei que este era um dos seus principais afazeres. Muitas vezes surgia com graves ferimentos, nas palmas das mãos, e nos joelhos. Os cruciais joelhos.

A forma que o peso carregado toma pode ser destacada. O seu movimento, através do tempo, pode ser encarado como uma repetição obssessiva. Pontuada por paralisias catatônicas. Uma infiltração preta desce pela parede. É o mar sendo visto num outro momento. Qual momento terá sido, em torno desta evaporação essencial.

Estas repetições carregam as suas próprias diferenças decorrentes do seu próprio funcionamento. Sou uma máquina de Edwards, coreógrafo do Balé Trauma. Atravessando o bairro pelos telhados. Nas manhãs algo descansa entre eles. Os atores quando captam a palavra bailam. E quando raptam, balem. Prefiro quando balem. Isso começa pela manhã.

Bom dia, moscas do dia. Vocês, que dividem quarto comigo, devem ter uma visão mais ampla sobre mim. Vivem melhor em grupo, e saberiam me analisar sob esta perspectiva. Quero ouvir de cada uma individualmente o seu olhar de fora à meu respeito. Um zumbido que cada uma puder apresentar-me. Estou suscetível aos comentários, elogiosos ou reprovadores.

Afinal de contas, o que vai sobrar do corpo carregado pelo que carrega. Em que o que carrego carrega estrita e irrestritamente o que carrega, sem traduzir a exatidão em escravidão. Cada relação de função que associa um conhecimento ao outro. O corpo do nosso encontro perece no meu corpo morto. Edward já esteve pendurado pelas vísceras. Você, no corpo do nosso perecimento, ficou junto a mim, no desagregar das engrenagens. Teus braços, orgulhosos, e pescoço, pélvico, desavisavam.

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