segunda-feira, 22 de novembro de 2010

"RECONSIDERAÇÕES CÊNICAS NARCONARCISISTAS 1"



LIMERSON: Ela lia meu último poema, resultado mal ajambrado de algum desacorçoamento grave.

DOMENICO: Quando o tabaco me beija, fico assim, pensando nas igrejas, considerando as suas imagens... ou na economia, telematizo-me no século dezoito. Assim abria a boca da sua primeira atriz, veja bem...

LIMERSON: Não me introjete seus ritmos de leitura, por favor. Faz-me reler os contextos por outro ângulo. E eu não quero aderir ao cubismo de mim mesmo.

DOMENICO: Vejamos como Lasch descreve o narcisista, referindo-se ao contexto social dos Estados Unidos:

"Apesar das ilusões ocasionais de onipotência, ele espera dos outros a confirmação da própria auto-estima. Não pode viver sem um público de admiradores. Sua aparente libertação dos vínculos familiares e dos vínculos institucionais não o torna mais autônomo ou orgulhoso da própria individualidade. Ao contrário, ele alimenta a sua insegurança, que só pode ser vencida captando na atenção dos outros o reflexo de seu "eu grandioso", ou associando-se a quem goza de carisma, fama e poder. Para o narcisista, o mundo é um espelho (...) A expansão da burocracia cria uma rede fechada de relações interpessoais, premia a capacidade de socialização e torna insustentável o desenfreado egoísmo do Adão americano. Ao mesmo tempo, todavia, rompe todas as formas de autoridade patriarcal e, portanto, enfraquece o Superego social, representado outrora pelos pais, pelos mestres e pelos pregadores. Mas o declínio de uma autoridade institucionalizada em uma sociedade aparentemente permissiva não determina, nos indivíduos, um "declínio do Superego". Ao contrário, favorece o desenvolvimento de um Superego rígido e punitivo que, na ausência de proibições emanadas de autoridades socialmente reconhecidas, extrai em grande parte sua energia psíquica de impulsos destrutivos e agressivos inconscientes. A ação do Superego acaba sendo dominada por elementos inconscientes e irracionais. Como na sociedade moderna as figuras de autoridade perdem sua "credibilidade", o Superego do indivíduo deriva em um grau cada vez maior das fantasias primitivas da criança em relação aos pais- fantasias impregnadas de ressentimento sádico - e não da interiorização de Egos ideais que se formaram pelas sucessivas relações com modelos de comportamento social amados e respeitados.
A luta pela preservação do equilíbrio psíquico em uma sociedade que pretende o respeito das regras de relacionamento social, mas que se recusa a fornecer um código de conduta moral sobre o qual elas devem fundar-se, favorece uma forma de egocentrismo que nada tem em comum com o narcisismo primário do Self imperial. A estrutura da sociedade é cada vez mais dominada por elementos arcaicos e o Ego regride - como afirma Morris Dickstein - para um estado primitivo de passividade em que o mundo permanece disforme, incriado. O Self imperial, egomaníaco e ávido de experiências, regride para um Ego grandioso, narcisista, infantil e vazio".

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