sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Inconformidades Estratificadas Desmoronando



As manobras já deram seu início. Muitos tiveram que procurar abrigo não exatamente da maneira como pretendiam. Não podemos esperar pelo dia do soldado sangrento, porque o amor é bom, mas não pode esperar. O esvaziamento que me atingiu é uma alegria. Uma porção de datas, uma porção de fatos, e pessoas diversamente potentes, especificamente abstratas, encontram-se misturadas, em estado de salada, celebrando o anseio de uma revisão partindo da degradação da tropicalidade. Tínhamos acabado de passar por Pedras Brancas.

O ôninus estava em movimento. Quando eu abri os olhos consegui ler apenas isso: Hotel Visual. Dizia um luminoso, cujo efeito de blackout fez desaparecer. Eu quis aplaudir. Mas tinha fortes dores escapulares, alguns nervos fora do lugar, e alguns músculos estavam imobilizados. Preciso descontorcionar o pescoço porque pernas abertas pernoitam, pensei (em escrever). Se eu projetei naquela visão uma reunião de artefatos tão especialmente insubstituíveis, foi por um anseio de extratividade descolado da lógica mecanicista da economia moderna. Foi porque as unhas nasceram assim, em rasgo epistemológico da hepiderme. Epiderme bolhosa essa sob a cobertura do linho. E uma peruca loira na máscara de costas.

É em nome de uma cenografia? É em nome de uma instalação? É assim que se começa a realizar um desejo, em nome de um deslocamento pela invenção do território de desejo? Quem responderia sem arrebentar as conexões entre os membros superiores e inferiores de uma criança... Havia acabado de entrar uma, de mão dada com um responsável. Fiquei pensando enquanto ela chorava. No nível etnográfico que alcançou a incomunicabilidade entre duas pessoas de mãos dadas. Ethos e Etnos, quem degrada quem? O responsável cumpria o seu papel, não fazia nada a respeito. Fazia seguir adiante em direção ao banheiro com o intuito de que ela vomitasse. Ela chorava.

Foram doze horas multiplicadas por quatro de reconsiderações profundas. E não foi o suficiente. Ainda que tenha causado em mim a impressão de uma eterna profunda inversão de possibilidades, posso garantir que não teria sido suficiente nem se aquilo se estendesse ao longo da eternidade. Foram reconsiderações sobre a cenografia, e sobre como os atuantes poderiam se deslocar através dela, alterando irreversivelmente os seus significados. O posicionamento dos corpos, os braços daqueles que são responsáveis por ascensorar as bagagens para cima e para baixo, um deles sinalizando um efeito sonoro, um deles funcionava como deixa. A minha posição de controle, a minha posição de conforto, a minha posição de ponto eletrônico, estava sendo bombardeada.


Límerson

09/12/2011

Curitiba

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

subindo o morro do bela vista





na casa onde os meus pais moravam, onde os meus avós já moraram, até que um dia eles trocaram. vejo meu pai na garagem. ele liga o motor de alguma coisa que faz barulho lá no fundo.

ele também abria a geladeira, dentro de casa, na cozinha. eu o chamo por cima das lanças do portão. quem me atende é o da garagem. eu mostro pra ele quem está na cozinha e pergunto se é possível.

ele também se assustou, imitando o meu susto, da maneira como eu aprendi a me assustar. o dedo traçou uma diferença temporal. entrou em casa. tenho certeza que escutei ele perguntar quem é.

era ele quem voltava até o portão, e respondia por cima das lanças que sim, que era possível. o motor de alguma coisa fazia barulho lá no fundo, eu me senti em casa, vendo do lado de fora.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Se o fade out terminou


Depois dessa equipe, depois desse dia, os próximos dias, deles em diante, não convem exagerar, nem colocar por baixo a importancia, nem considerar a necessidade de retomada, nem incentivar o desleixe integral integralmente, porque depois desse encontro as coisas só poderiam ser feitas por amor, e o amor é terrível, então me parece impossível, e como me inspira o impossível, na alçada das motivações primordiais, um bom motivo para acordar, os objetos permanecem nos seus lugares, a janela não abri, não abri a janela, quando amanheceu eu apenas me levantei, e apenas continuei, pensei apenas que haveria como equacionar, apenas pensei, que equacionando eu poderia colocar as coisas como que num mosaico, apenas um mosaico de onde fosse possível uma mirada, uma jornada apenas, e se for apenas isso

Daquele diretor de teatro que daquela vez o dirigia enquanto a morte se aproximava daquela vez, daquele momento em diante portanto bastaria mudar a temporal que a conjugação naturalmente se modificaria, como acontece naquele campo do conhecimento, qual é mesmo o nome daquela cantora, aquela cerveja que vem com bombom dentro, que se arrastava no chão entre os retalhos, eram pedaços de fotografias os lugares reconhecidos, entravam em choque porque enquanto os reconhecia, um líquido quente subia via esófago, quando saía pela boca era fumaça ao redor de entre, ao redor de entre não, subia em refluxo e isso todo mundo conhece, os lugares reconhecidos são suas chuvas de verão, veja os contos de borges que quando reconhecidos em lugares quaisquer costumam tornar-se tormentos

Desde que aquele braço me puxou, aquele braço me puxou, daquele momento em diante, desde que aquilo de me tirar, de que aquilo de uma coisa se transportar não se confunde com uma mudança romanticamente vendável, e se assim posso dizer contraditoriamente confunde-se sim com um vendaval homericamente vendável, eu escutei rangerem os ossos daquele braço que me puxou, eu escutei aqueles estralos fatais facilmente reconhecíveis, ao longo de um tempo, daquele momento em diante, acumularam-se camadas interpretativas, em que ao acumularem-se-me esboçaram esferograficamente uma espécie simples de sofisticação espacial

Desde que o arco investiu-se em suas envergaduras, envergonho-me ainda das minhas primeiras desculpas, mas não é o caso de iludirmo-nos com os benefícios da elucidação, na medida em que aquele arco expressivo se fechou oprimindo os primeiros componenetes que encontrou de um lado, como uma lua, uma porta entreaberta, uma mão entreaberta, e nada mais do que rascunhos em folhas pautadas do grito que desde que aquele instante não encontrava o seu remetente, e não fazia o caminho de volta, na medida em que desde então o arco expressivo encontrou aqueles elementos entre si no seu movimento de envergadura para um lado, distanciou do outro lado quase imediatamente oposto um joelho que já se articulava com dificuldade, um dia inteiro de lástimas no campo das decisões pessoais, junto de uma série de erros pequenos no campo da capacidade de diferenciação, isto é, deixou distantes entre si os elementos componentes do campo da dúvida e as somatizações de angústia sufocadas na indecisão do joelho esquerdo

Ele me viu. E nunca foi tão recorrente. As minhas quedas, no corredor antes da escada, enquanto não chegavam os microfones. Desde que essas camadas se sobrepuseram, desde que aquele arco, desde que isso, desde que aquilo. Ele me viu. Desde sempre, enquanto atravessávamos os morros à pé, enquanto atravessava o astro rei à pé, enquanto atravessava um dos piores pesadelos, à pé, como surgiam os planos mais importantes das nossas vidas para aqueles momentos, aquilo tudo será esquecido como o reflexo ressequido de um último pensamento num ciclo de vida, um último retrocesso a uma crise de sono, que embora tivesse retomado o seu ciclo, não teve corporiedade suficiente para que a espécie mais caricata de olho externo encontrasse satisfação, e consequentemente devolvesse em prazer, em prazer pelo trajeto e as trocas dentro do trajeto, que são pequenos prazeres, dentro de pequenos trajetos

Antes daquela apresentação, desde que houve aquele antes, o que é fundamental para continuarmos de agora em diante, é fundamental que atentemos para isso, o que é importante desde que consideremos o que houve naquele antes, porque daquele momento em diante começavam as primeiras considerações aquele respeito, seguidas das primeiras interrogações ao respeito das considerações, seguidas de que é muito provável, mas sei muito pouco como o faria, que antes daquela apresentação não se sabia como se desculpava pela falta de clareza na proposição como um objeto que se pega, e que desde então quando eu propunha maçã eu não propunha uma maçã que se pegue como uma proposição de um objeto que cairia caso não fosse pego, que o desde então afinal de contas trata disso, de distinguirmos a falta do excesso de clareza, e convivermos com a impossibilidade da visualização absoluta e integral como fundamental aqueles que empiricamente calculam a tendênca térmica no começo de um dia

Como se o que pode ser pego com as mãos, e protegido dos percalços e dos efeitos naturais, fosse decididamente algo mais claro, como se fosse uma questão de uma única pessoa que estivesse decidindo, como se perguntar tantas vezes qual palavra vem antes da que vem depois, e trocar setorialmente ao longo das frases por puro desejo erótico, sadomasoquismo estratégico, como se alguém estivesse tomando decisões, com as mãos no pescoço e diante de uma câmera, com as mãos no rosto e diante de uma câmera entre um diretor e essa pessoa, essa relação de suposição como se estivesse sendo feita por uma pessoa, como se uma única pessoa houvesse entrado ali e pedido a única mousse de maracujá naquele único dia quente dentre os últimos cinco dias, e uma garota saísse da sala incomodada com as cotoveladas investidas contra o tronco ereto, e os estrondos produzidos pelos pés em movimento coordenado com o bater dos pratos contra a parede da esquerda perseguissem essa garota, obrigassem a garota a procurar se distrair com o que tem que fazer enquanto troca dois vernáculos por um final de tarde em silêncio

Complete a frase, complete a frase sem utilizar um palavrão, complete a frase sem repetir a frase, ele me viu desde sempre com os braços no seu sempiterno serpenteio, tentando sufocar o quadril como se fosse o pescoço, porque é pelo quadril que o ar passa, e não pelo pescoço, e aquelas coerções se repetiam tantricamente sobre o trajeto tétrico da serpente, no campo em que os braços inalcançavam, um instante onde a experiência de estar vivo naquele contexto era a única coisa importante, é a única forma de segurarmos entre as mãos como se pudéssemos, a única forma na experiência de uma maçã, uma banana, uma medalha, um amuleto, uma pessoa, um amuleto, uma pessoa, e por aí vai, até que enfim chova, até que enfim o que o vento move finda em fécula, e fenda em morte, e fenda em fécula, complete a frase com uma fruta na boca, e uma garrafa na boca, e uma fenda na lingua, e uma alegoria a oferenda entre cada boca de cada greta

Vocês são os responsáveis, ele diz, olhando para o público, mas apontando para baixo, quase que para a boca de cena, ou talvez a primeira fila, a que foi mais diretamente atingida por perdigotos da frase, e da risada ridícula, porque ele riu depois de dizer aquilo, como se ponderasse toda a importancia castradora e a implicação genital, e toda a implicação social, e toda a implicação cultural, sem chegar necessariamente a conclusão alguma, ele justamente não ia muito ao fundo das questões, nós somos os responsáveis, disse ele, não interrompendo diretamente a risada ridícula, mas através do efeito fade out incidindo sobre o próprio ridículo, numa saída nada sublime, dado que quase antes do riso sair da arcada o queixo tornou-se quadrado, a sobrancelha arqueou a testa arabesca, pálpebras firmes e retomou, vocês são os responsáveis, novos esgares de risos dessa vez ocuparam o lugar da ridícula risada, gargalhou em fade out e voltou sem que o público pudesse se certificar, e ficou no ar a pergunta, qual fade out terminou?


(Essas fotos foram tiradas pela Tamíris Spinelli, durante a apresentação de Penélope Pileata, Núcleo de Espetacularidades, Curitiba, 2011)

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Penélope Pileata - 20/10

Ansioso, Animado e Deprimido por isso que ocorrerá amanhã:
O NÚCLEO DE ESPETACULARIDADES APRESENTA AMANHÃ (20/10), NO TEATRO NOVELAS CURITIBANAS, A CENA PENÉLOPE PILEATA, DENTRO DA 7ª Mostra Cena Breve Curitiba ÀS 19H E ÀS 21H (INGRESSOS $3 E $6)
"Dentro do viveiro de Penélope Pileata reina o silêncio. Quando caminha, ela ocupa quase toda a sua jaula no Passeio Público. Exceto o espaço ocupado pela outra Penélope Pileata. Em estado de celebração, uma Penélope se encontra com a outra, promovendo a sua primeira festa de despedida, que coincide com a inauguração da Usina Hidrelétrica de Belo Monte"
Penélope Pileata é uma cena performática de Límerson Morales e Ale Galcerán, com Diego Galcerán, Guilherme Marks, Heleno Moura e Clarissa Oliveira.
(mais abaixo uma introdução à uma série de posts sobre a criação)



terça-feira, 18 de outubro de 2011

Núcleo de Espetacularidades apresenta “Penélope Pileata”



Introdução às notas de ensaio de “Penélope Pileata”

Performance de Límerson Morales com Ale Galcerán



Duas situações interessantes: Quando o pensamento anda mais rápido que a língua, e quando a língua anda mais rápido que o pensamento! Qual é o pior? O pior é quando o pensamento e a linguagem andam na mesma marcha. Aí começa o tédio!

(Jean Baudrillard)


As experiências mais banais, aquelas do campo mais concreto possível, de onde seria um exagero e até uma limitação tecer considerações metafísicas e transcendentais, são as principais fontes de inspiração do Núcleo de Espetacularidades. O grupo foi fundado em 2006, por acadêmicos de artes cênicas, que tinham em comum a insatisfação com a sua própria condição de acadêmicos da área. Exatamente essa que seria a justificativa mais evidente de terem sido cooptados num grupo de teatro, o fato de estudarem teatro, acabou se confirmando como a mais importante fonte de frustração e de inspiração, ao mesmo tempo, em cada trabalho. Depois de cinco espetáculos escritos e dirigidos por Límerson, dentro do Festival de Teatro de Curitiba em 2009 e 2011, integrando o Coletivo de Pequenos Conteúdos, e as Mostra de Teatro da Fap, o grupo volta ao formato de performance solo na 7a. Mostra Cena Breve Curitiba.

Penélope Pileata é a o trabalho mais recente do grupo, com duração de 15 minutos, podendo ser definido como uma obra performática, que engloba o teatro, a dança e a literatura. Trata-se de um encontro entre um autor e uma fonte de inspiração, ou seja, uma celebração abstrata e figurativa da vida e da invenção da vida, e ao mesmo tempo um pacto com a morte. O autor é o diretor da cena, e a fonte de inspiração é a ave brasileira Jacupiranga, de nome científico Penélope Pileata. Existem duas espécies da ave no Passeio Público de Curitiba. Saindo da CEU um dia desses, após um ensaio frustrado de um trabalho anterior, onde apenas ele teria aparecido, o diretor acabou em paralisia diante da jaula da Jacupiranga. O fato de a ave ser nativa do estado do Pará, associado as idas e vindas do veto e da autorização da Usina Hidrelétrica de Belo Monte, imprimiu naquele momento posterior ao ensaio malfadado um aspecto inevitavelmente hipnótico. Ouviu o Xingu e o Tocantins: é uma celebração de despedida de P. Pileata, marcando a transição de sua condição natural para a sua condição teatral, isto é, em viveiros, reservas florestais, porta-retratos, caixas cênicas, copa de árvores cenográficas, circustancias, circunstancias, circunstancias...

A transição para a qual a cena aponta, através de menções e circunstancialidades, sempre reflete o estado do grupo, ou o estado oposto, ou o comentário que o diretor sempre acredita ser o comentário definitivo, até que seja encontrado (sem para sempre ainda). Existe uma necessidade de mudança, reavaliação e reinvenção vistas pelo grupo, sobretudo na relação de significado que o teatro estabelece com a sociedade. A burocratização, uma das principais marcas da mais recente geração que vive de teatro, pode estar deixando de lado, por uma questão de incompatibilidade terminológica, um dos fatores mais importantes e caros para a arte, do ponto de vista do grupo. A incompreensão como estímulo artístico, como fonte de inspiração, e como um dos elementos básicos para que ocorra a comunicação. Ao não saber qual nome dar para o que ocorreu naqueles instantes em que ficou paralisado diante da ave, o diretor considerou a incompreensão nesta que foi a primeira nota de ensaios da cena:

"Quando a comunicação deixa de se confundir com incompreensão, no mundo das artes, provavelmente pode estar acontecendo alguma coisa realmente mais perigosa do que a comunicação. O principal alvo de incompreensão, e conseqüentemente a principal fonte de inspiração, no caso do nosso grupo, são as tentativas mais pessoais de organização das experiências banais, as de somenos importância. Tudo o que é da alçada do menor, por exemplo, os atrasos de ensaios, as mudanças de elenco, as alterações constantes de texto e de marcação, os conflitos de egos, vaidades, idiossincrasias, isso que na história da humanidade nunca mudou e sempre teve o seu devido lugar, tudo isso nos é incrivelmente misterioso e fundamentalmente apto para material de cena".


"Penélope Pileata" - no dia 20/10, às 19h e às 21h
Teatro Novelas Curitibanas
Ingressos $6 e $3

Penélope Pileata - Notas de Ensaios


24/09/2011

a falta de segurança que eu sinto sobre o meu trabalho me leva a trabalhar dessa forma. é o primeiro elemento motivador da minha propulsão em trabalhar dessa forma, aquilo que em proporções extremas poderia equivaler a repulsão. a insegurança. deste ponto de vista, a insegurança sobre o trabalho é um detalhe, importante enquanto detalhe, e que me coloca na obrigação constante de driblar o meu desespero pessoal. eu me considero um obcecado pelo teatro que estou buscando, porque isso ainda é uma busca onde o "ainda ser" não é implicação temporal de qualquer coisa que venha a ser. essa obsessão é também um prazer, e é também uma paixão, e é também uma necessidade fatal.

25/09/2011

experimento cronometrado da minha performance de ave. eu quebrei a garrafa que eu usava como objeto pessoal da dança. uma passagem geral cronometrada, e uma livre apropriação dos impulsos iniciais ao som da matriz lusitana do povo brasileiro de darcy ribeiro. como se eu tivesse buscado hoje verificar as associações verticais e as associações horizontais que me relacionam a cena. a parte que compete a mim na cena-performance penélope p. a verticalidade seria a passagem geral da performance, o principal trajeto, as insinuações de movimento e dança mais essenciais da performance, sendo elas: a imersão num outro estado físico de presença, a relação com a garrafa quebrada (cuello) e a despedida (tchauzinho). a horizontalidade seria o conjunto de associações internas que eu faço com o trabalho, compete ao plano invisível ao público, diz respeito ao instável, ao que é suscetível à passagem do tempo, ao work in progress.

26/09/2011

é como entrar em contato com outro idioma, e a partir daí perceber que altera a relação com o idioma de alfabetização, acontece alguma coisa. essa alteração consiste na contaminação dos dois registros colocados em contato, percebe-se os dois (ou mais) como uma coisa só, da qual não se distingue a origem. os idiomas em si permanecem nos seus lugares, e circulam juntos nos registros de uma pessoa, ao ponto de a palavra hincapié deixar de ser a mesma, embora fixada firmemente num vernáculo. a ponto de os dedos da mão esquerda, esticados como estão agora, um cigarro aceso entre dois deles, também se esxsxstendem até os instantes em que eles inteiros eram as unhas dos pés cravados na terra, e as penas das asas abertas que escapam, e as penas que escapam do pescoço (cuello), do lado de dentro e do lado de fora.

29/09/2011

dois idiomas, uma duas ou mais qualidades de movimento, que só se colocam em relação dentro de um ponto de vista. o ponto de vista, seja qual for, trata-se de uma premissa, uma condição sem a qual não. sem a qual não haveria um abismo, mas apenas uma evidente contradição aparente. o abismo entre a linguagem e a vontade de dizer, que coloca, por exemplo, qualidades de movimento em relação, uma relação que de chofre seria impossível. que no plano prático é impossível. o mesmo plano prático onde se afirma para si mesmo diante do espelho "tudo é possível". só existe na criação, só existe na vida considerando o princípio da criação. e se alguém saltasse de um registro até o outro só desfrutaria da trajetória em questão, cujo fim e o começo, partida e destino, seriam aparatos meramente insinuados, induzidos pela artificialidade dos contrastes.

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Penélope Pileata - Notas de Ensaios




01/09/2011

um texto para penélope pileale. um texto dito por um diretor em off. na ponta da perna da coxia do urdimento que só mesmo a carpintaria mais kantoriana faria acontecer. into the wild. ataques de choro para dormir. algumas palavras chave conactadas pela palavra llanto. llaves secretas acontecem. muitas leituras, definitivamente muitas leituras sendo postas em relação. um texto de circustancia: h a d o - f u e r z a d e s c o n o c i d a q u e , s e g ú n a l g u n o s , o b r a i - r r e s i s t i b l e m e n t e s o b r e l o s d i o s e s , l o s h o m b e r s y l o s s u c e s o s - e n c a d e n a m i e n t o f a t a l d e l o s s u c e s o s - vai chorando que eu vou falando.

09/09/2011

o que motiva o encontro de duas propostas distintas de atuação? o que pode nos garantir que elas se encontram, numa trajetória de quinze minutos. isso não é uma resposta, é apenas uma resposta. um atuante com orientações de cena, outro atuante com outras orientações de cena, como se encontram? não é preciso que ocorra interferencia direta. isso não é uma resposta, é apenas uma resposta. "entre as verdades diligentemente exploradas e tais coisas pressentidas, permaneceu intransponível o abismo, por aquelas se deverem ao intelecto, estas à necessidade". a fome que deseja o alimento, pressente a existência do alimento, considera a saciedade e o temor no todo de um potencial. qualquer passo é qualquer na terra da incerteza?

22/09/2011

estes últimos encontros, os últimos primeiros encontros, pressuposto de ensaios e tomadas de decisões, tem servido para mapear o ritmo de produção e também para reinventar a forma de mapear o ritmo de trabalho até servir como uma redefinição postiça de uma forma de inventar. tem sido encontros que apontam para um novo olhar pessoal sobre o meu trabalho, necessidade de um pressuposto da passagem do tempo, até a redefinição da indefinição. à partir do cotidiano é um trabalho sobre o reconhecimento da intuição. eu trabalho com quem eu reconheço a manifestação sutil de uma circustancia atuante inconscientemente, numa base onde o desejo da intuição é um agenciamento da realidade, supondo a passagem de um tempo próprio para que as relações tenham a chance de serem preenchidas de sentido. se eu me pergunto da importancia disso, do além disso, do a partir disso e além disso, seria inviável acreditar na resposta?

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Penélope Pileata - Notas de Ensaios




29/08/2011

tudo escuro. estou deitado, em paralisia. talvez seja a quase total paralisia. inclusive é isso o que espero. tornou-se insuportável acompanhar a paralisia de ontem trazendo a sempre absurda paralisia do hoje. queria ver o amanhecer pela janela, então noto que minhas duas janelas encontram-se embaçadas; não percebo o mínimo anúncio azul da manhã e me desagrada a ideia de perder o amanhecer. só mesmo indo até a varanda. só que para ir até lá eu teria que retirar os meus pés debaixo das duas almofadas que os mantem aquecidos. aliás não uso mais meias, porque meus pés suam demais, o cheiro vai para as meias, para as outras roupas e para a máquina de lavar.`meus pés concentram a experiência mais intensa de calafrio, suam e cheiram canela, e tremem às quatro e meia sem café.

30/08/2011

o catarro de fumante escorrido no joelho era meu. era meu arremesso, meu vôo, minha cara de joelho. será que é só gritar em silêncio, como quem ouve do berçário o choro de um viveiro, ou ela tem um canto secreto? ou ela canta mantendo os códigos em segredo? até aonde vai a caminhada senão até a repetição de um movimento? a repetição que também é um mecanismo do maquinismo do desejo. essa festa de despedida, para a qual estão todos convidados, celebrando a instauração de uma condição espetacular, celebra também a morte, como a fotografia-tiro-de-metralhadora kantoriana, ou apenas debocha de Kant, ou do canto onde agora eu não me escondo, de onde agora me encontro numa mirada irônica, cujo resultado é e deve ser melhor compreendido no icônico do efêmero que no efêmero do icônico. qual é a diferença?

cuidado com a cristalização das asas que respiram. isto é, com os púlmões que respiram pelas asas abrindo e fechando. para que o vôo seja um não vôo, é preciso deixar que as asas que protegem os pulmões se abram e fechem organicamente, num abrir e fechar de ossos que vá aos poucos sufocando os sensores com o fôlego renovado. no começo eram apenas dois pulmões mantendo um corpo em pé. depois de muita pele esgarçada no abdómen, no tórax, nas espáduas, nas pontas dos dedos, depois disso os ossos que protegem os pulmões já estão tão abertos que furam os olhos da plateia, muitas e muitas vezes.

sábado, 8 de outubro de 2011

Penélope Pileata - Notas de Ensaios




25/08/2011


ele está demorando para voltar você não acha? ele está demorando para chegar ao outro lado. você não acha? ele não conseguirá chegar até o outro lado, como parece. não chega a ser o que não parece. ela, a outra extremidade, não chega a ser o que não parece. eu daria todas as respostas, nasci com essas ganas. ele, a outra extremidade, engana a essência à cada passo essencial. cada pé é eminentemente artificial. ela, a outra extremidade, não espera por ele do outro lado, não espera por uma conclusão nos seus desígnios. não espera nem pela morte nem pelo amor. ninguém, nenhum, dos quais, poderiam ser vistos na outra extremidade da outra extremidade. essas pessoas, esses pedaços do conhecimento, esses rastros da infinita descontinuidade, confundem-se com os seus lugares, confundem-se com o espaço que ocupam. ninguém, nenhum, dos quais, poderia dizer onde terminam esses espaços que ocupam e onde começam essas pessoas, esses pedaços da infantil infinitude, esses rastros do perpétuo em descontinuidade.

26, 27/08/2011

Guilherme Marks. Passagem com a garrafa na boca, mas ainda não é a original. Se tiver que prender com os dentes creio que os dentes não vão suportar, então melhor seria ter um bico que não fosse a aparência de um bico que carrego na boca mas no peito de uma concepção. Preciso de uma alternativa, menos tempo com ela na boca, ou um suporte de fixação dela na boca. Uma alternativa que comporte o peito da boca. O estado de pleno direito do bico do peito da boca. E quem sabe uma sorte de penduricalhos no pulso.

- "Cultura do Narcisismo" e "Esboço de Psicanálise", e chega.
- estou perdido/a pedra abriu os olhos/e me viu/entre o prédio e a avenida, escorado com um braço/entre a esquina e o fim do dia;
- "Uma espécie de deus amarrado a um corpo que apodrece";
- o mistério (?) da experiência mais banal à mercê de uma ou outra capacidade falha de interpretação;
- demandas da vida imediata e o destinho - tragico é o encarnado - trago bode;
- "a pulsão é regressiva - anda p/ trás - busca o repouso - do orgânico ao inorgânico - vai até a morte - aquilo que constitui é aquilo que trai a constituição".


sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Penélope Pileata - Notas de Ensaios

"mas qual o contrário de confirmação se a sonoplastia não age em conformidade?"



19/08/2011

comecei como ave e acabei como um macaco sem norte em êxtase com o corpo todo perfurado por entrada e saída de ar. agora tenho mais dúvidas do que qualquer outra coisa. a baba espirrou nos meus olhos durante a tentativa de explosão. quando tudo sempre perde a aparência de sentido o ressentimento afroxa os nós ressentidos. pontas da perversão surgem nisso, dedos da sombra galinácea massageiam os músculos da região escapular. como terminar com o que vem depois disso, depois dessa repetitividade auto-erótica vem o que? a garrafa tem que estar no próximo ensaio ou ela sempre esteve onde.

21/08/2011

o corredor onde eu converso com a talita ao lado do estacionamento da igreja onde são lavadas as roupas sujas em cujas janelas se fuma por causa da colega de apartamento . apagam as luzes no estacionamento os carros apresentam propostas de recortes com os faróis encendidos.

23/08/2011

ensaio com a garrafa. outro peso. ela precisa estar quebrada para estar ali. com a rachadura no bico. muito frio para pouco aquecimento. fiquei insatisfeito. devo quebrar a garrafa e escrever um texto. existe algo, algo vago, algo agonizante, engolfado quando afoguei. acordei de um sonho engalfinhando algo, algo vago, algo agonizante. uma história de amor que não deu certo numa cidade cujo projeto social não deu certo de acordo com os acertos vagos de uma moral pública mal fadada que melhor fado não daria certo em apenas uma trajetória onde de um ponto ao outro dentro dos campos de visão não estaria esgasgado com cacos de vidro na boca. amor incondicional, sem restrições.

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Penélope Pileata - Notas de Ensaios





16, 17/08/2011

- Eu vou até o fim (vai lentamente até a outra extremidade) de tudo; (no começo ou no final da escada)

- A garrafa quebrada na mão. A garrafa quebrada na boca. A garrafa quebrada na mão.

1- Penélope e Diretor de Teatro esperam/atraem/recebem o público;
2- Música. Diretor de Teatro vai até a escada. Penélope diz que vai até o fim. E vai, caminhando lentamente, até o fim de tudo.

eu vou até o fim de tudo
quando entro naquela copa
no começo ou no final da escada
até a outra extremidade outra
a garrafa quebrada na mão
o toque de um despertador

"Com a falta de pesquisas de campo detalhadas, não há informação real sobre o status verdadeiro da espécie em qualquer lugar de sua distribuição, e seu limite sul é desconhecido" (wikiaves)

sábado, 1 de outubro de 2011

Penélope Pileata - Notas de Ensaios


18/07/2011

caminhada lenta. gira grito curvo retorna ao lugar de onde saiu com os olhos. de onde saiu com os olhos o cru. cru. cruvo. curvo. penélope é uma galinha corvo pileata bem afeiçoada que com um par de óculos parece impor mais respeito que com um par de asas. termino anotando tudo, pingando baba da barba. não tem lamento, alem do lamento. alem da raiva e da explosão, calma. a pata levanta e bate no chão. a pata levanta e bate no chão. a pata levanta e bate no chão. o vôo mal fadado tem mãos, e não haveria um fado melhor, nem melhor não. e o fado é qual. o sorriso feioso, finamente narcísico, provoca o rebolado. explode o rebolado. estoura no quadril quadrilátero a boca preta de buracos.

22/07/2011

eu quero explodir. querer a explosão pode ser uma forma eficiente de gerar ansiedade, e estimular a confusão de tudo com tudo. não quero a explosão. eu perdi a respiração da experiência anterior. que também não era uma respiração específica, da qual eu pudesse necessariamente sentir falta. hoje foi totalmente oscilante. querer explodir é assim. aconteceu na máscara de sorriso-nojo. a ave que ri. e em boa parte de movimentos do quadril que chamo espirais quadriláteros. acho que vou começar em pé. ou melhor, vou começar repetindo as ações deitar-levantar... algumas vezes. para iniciar a caminhada em pé. até mesmo a pata que bate no chão eu perdi. não houve raiva e explosão que eu procurava por raiva e explosão vendo de longe como quem não vê de dentro. a respiração é o vestígio, o ar é a pólvora sacrificial.

25/07/2011

a respiração é a entidade, o corpo se apoia na continuidade, ainda que conceitual, ainda que perspectivista. estou perdendo minha mãe e me transformando num pássaro. estou perdendo meu pai porque sempre fui uma mulher. sempre fui o inventor da mulher do meu pai. tenho preferência por horários ao redor do começo da tarde, são ideais para ensaios desse tipo. ainda que sem clareza do que vai ser o acontecimento, uma vez que encaro isso como uma novidade, sinto carência da previsibilidade, de condensar marcações, e fazer de todo detalhe, vertical ou horizontal, uma nítida alusão a convención, hoje eu entendi a respiração do trabalho.

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Double Wilson - Vídeo

Double Wilson - Núcleo de Espetacularidades from Límerson Morales on Vimeo.


Acabei iniciando uma série de edições, das gravações que foram feitas em apresentações do Núcleo de Espetacularidades, com meu texto e direção. Acabou funcionando como uma revisão desses últimos seis anos, mais concentrada na prática, mais focada nas apresentações, mais interessada na espetacularidade como acontecimento, como acontecendo (happening).

Muito funcional para esse mês que antecede o novo trabalho do grupo, Penélope Pileata (sobre o qual pretendo escrever ainda antes da apresentação, na 7a. Mostra Cena Breve Curitiba). E muito mais funcional, e estimulante, especialmente para mim, terminar essa sessão de vídeos do grupo com a íntegra do nosso primeiro trabalho, Double Wilson, de 2007.


Curitiba - PR

Setembro, 2011

Las Morales (Dobles de Wilson) - Vídeo



Texto e Direção: Límerson Morales

Curitiba - 2011

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Loading (a work in process) - Núcleo de Espetacularidades



(Pausa Para o Café)



(Crise de Comunicação)


Outros dois vídeos de Loading

Work in Process de 2009

Com : Bruna Marros, Clarissa Oliveira, Guilherme Marks, Rafa Poli, Ricardo Nolasco, Vanessa Benke, Walace Brassero e Límerson Morales;

Orienteção: Luciana Barone

Curitiba - PR

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Loading - Núcleo de Espetacularidades (2009)






Em breve, novidades do Núcleo de Espetacularidades... novidades boas, cenas novas e algumas poucas boas notícias (poucas mas boas o suficiente para... )

Enquanto não termino o texto sobre as novidades, e sobre o de sempre, seguem vídeos do Loading, NOSSO work in process de 2009

Até Breve

Curitiba, Setembro, 2011

terça-feira, 23 de agosto de 2011

reticência


reticência sem tinta

a dor de uma pergunta por trás de uma ciência

a dor por trás da ponta de uma agulha por trás da tatuagem

a pele grudada no papel da pele incolor sem um papel


três pontos sem nó

o triângulo da sentença mal traduzido numa linha reta

a referência por trás duma goela pendular na garganta

o referente dum afogamento entre gotas grávidas


pincel duro não faz céu

a dor de uma pintura por trás da cor

o ator por trás da narrativa elucida um papel de ator

a estrutura a urdidura a aparência a encenação


emblema foge ao nome

o papel da palavra enruga a tela da palavra suja

o telo em cujo a fala em cujo a pele à luz da lua

e o que aconteceu por trás do que não vou dizer

sábado, 13 de agosto de 2011

o corredor do ginásio vazio


o corredor do ginásio vazio

imagina vazio

imagina a voz indo

a verdade vai se extinguindo

para quem vai de porta em porta

para quem está no meio do caminho

a morte não é uma meta

como o giro em linha reta

o corredor do ginásio vazio

imagina o passado indo e vindo

o tempo ultrapassa a divindade

para quem está atrasado

para quem tem uma justificativa

a minha mão é tão aberta

quanto a morte de uma língua

imagina o número vazio

a gente mais absurda indo e vindo

vai se extinguindo o paradoxo

até o verbo intransitivo

aliás

quanto ao inicio substancial

o corredor do ginásio vazio


(Curitiba, 2011)

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

quando eu parei


sol e chuva na manhã

parecia um espelho

um desaparecimento


a música não parava

a chuva ainda estava lá

ventava quando eu parei

cresceu até a mata ciliar


no topo da sua cabeça

o couro daquela cabeça

foi lá onde eu dancei

até quebrar os ossos

pela primeira vez


engoli o azedume e

fui cuspindo as sementes

na lixeira dos orgânicos

música, chuva e vento


um desaparecimento

parecia um espelho

sol e chuva na manhã


(Curitiba, 2011)

domingo, 7 de agosto de 2011

Canção para hipnotizar pai e filho



visto de baixo para cima

um monstro cantarolava

a gota de água quente

bateu no meio da testa

a pedra incandescente

da boca analfabeta

a gota equilibrada

como verruga úmida

onde queimava a ruga

vista de baixo pra cima

fiquei sem comentários

arregalando as narinas

a pedra no cenho quente

o furo onde grela o dedo

a gota ressecando aguda

o grito dito sem palavra

o isso dito sem os dentes

um monstro de baixo pra cima

depois do travessão barbudo

do ato mito sem navalha

se brota sangue do adubo

o jorro puro é a gota falha

(Curitiba, 2011)

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Foi Sui Generis


VII.

Foi sui generis. Tenho para mim que o ponto final era uma sujeira na folha. Na esquina onde os carros se chocam, veiculava-se veia e vinho. Havia também venda a preços módicos de esfirras abertas. Foi naquele trecho que destravei as rodas do pedestal ordinário sobre o qual me locomovo. O que fazia com que do alto de tal escada sem topo nem estabilidade, qualquer musa que tivesse de dançar descambasse sem volta, com graves estragos nas vagas do rosto. Devassei as pregas, onde as dobras amassaram o paletó sob a pressão das alças. E, quando tirei a mochila, anulei a função ativa de um dos meus dedos. O dedo torto, inchado, cheio de hematomas. Usa-lo doía, e eu fiz aquilo por cautela. Tenho para mim que o ponto final era uma sujeira na folha do começo ao final da falação vagarosa. Foi sui generis.

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Foi Sui Generis

V.

Foi sui generis. Depois de atravessarmos a cidade inteira caminhando à procura de uma resposta científica sobre o dedo, celebramos o fato de não termos encontrado nenhuma. Celebramos o contrário da vertigem via simulação da vertigem, a tontura impessoal que torna pesada e penosa as parcelas mais delicadas da vida, e você me contradizia. Debochamos e celebramos sem que notassem a transição de um estado para o outro. Você utilizava as suas mãos anulando cautelosamente as funções ativas do dedo suspenso. Aproveitou para gesticular as mãos enquanto falava, aparentando o que parecia ser uma aristocrata barroca. Uma bem afetada de espasmos das costelas aos quadris, e dos quadris ao pescoço. Que quando dançava inclinava o pescoço porque era demais a dor de barriga para que se pudesse tão museológica parecer que começa pelo ventre. Quando dançava e inclinava a cabeça o pescoço ficava reto. E os espasmos interrompiam as palavras em murmúrios, eram espasmos da podridão atrás das cortinas da pele. Quase vômitos pelas golas das anáguas, ela era comunicativa tal o modelo de anfitriã o exige no banquete. Os seus únicos momentos tranqüilos pareciam ser quando seu bailarino particular dançava aos seus chamados. Apertamos as mãos e ficamos combinados sobre aquilo acontecer ainda no ano de 2011.

VI.

Foi sui generis. Por fim aprendi que aqui se anda nos ônibus em pé, e que é melhor não cair na armadilha das barras onde seguram as pessoas que desequilibram. Assim que aprendi inventei que já sabia. Imediatamente quedei-me prostrado, da próstata à pituitária. Estando em pé, conforme as costelas abraçassem a frente da fronte, e não a retaguarda resguardada como frontispício de um si que não está de fato em situação alguma. Há quem comprima os próprios intestinos quando debruçados sobre lugares que por dentro são todos iguais. Lágrimas latiram nos meus olhos, e ladrariam as duas lantejoulas na cara de toda pessoa, latejando o assim obtido como resposta quando se pergunta “e como se faz para passarem os dias num quesito que seja além do que a tarimba de melhor ou pior desabrochar lunar?”.

terça-feira, 12 de julho de 2011

Foi Sui Generis


III.

Foi sui generis. Ocorreu que me encontrei com conterrâneos enquanto esperava. Ao sentir o cheiro da lua desenhada daquela noite, eles me reconheceram por causa da nossa cidade. Eles me abordavam. Aproximavam-se de mim com histórias para contar sobre a cidade que era perto do satélite Lua, onde me colocavam bem no meio de uma cratera em tom de jocosidade e leveza saudosa, sobretudo ao dizer a palavra cratera. Diziam que haviam me visto no palco. Lembravam-me de que eu não marcava presença nos bares buracos acusando-me de ter cometido um erro que eles até conseguem considerar como normal, uma vez que respeitam a diferença. Tal qual a tormenta respeita o vento, inclinando-se por catástrofes em potencial, da qual são a porção natural do fenomênico posto em ar litúrgico grave ou manchete bomba. Queriam me enfiar qualquer fotografia goela abaixo, afirmando que era eu aquele que eu via, que era eu aquele, que era eu na foto. Então esperei, através de diálogo profícuo e incrível capacidade de paciência. Além é claro de nutrir preocupação, uma vez que não reconhecia nenhum deles, sendo o maior número de memórias fornecido resultante da menor fresta de lembrança.

IV.

Foi sui generis. Você apareceu com os cabelos mais compridos. E um dos dedos da mão inchado. Um dedo roxo e torto, mais grosso que os demais. Você me mostrou e disse “é esse”. Você quis enfia-lo no chão, como se pudesse atravessa-lo, numa atitude de mergulho. Dito isso, os médicos não compreendiam. E jamais compreenderiam. Após a análise que cada um fazia do dedo sempre terminavam com a mesma atitude de preencher um papel que imprimiam e te entregavam, resolvendo a consulta num projeto simpático de conversa sobre as coisas. Por mais que pudesse parecer um dedo fraturado, amassado e com hematomas, nenhum dos médicos demonstrou certeza sobre o conhecimento do caso. Houve papéis, pílulas e bulas, em nenhum momento em correspondência com a função de diagnóstico. Um papel que nos levava a um bairro, que produzia um papel que nos levava a outro bairro, no qual já esperávamos pelo próximo papel.

Foi Sui Generis


I.

Foi sui generis. Não tinha tino pra literatura. Não foi inspirador. E não era o fim da picada. Primeiro é preciso dizer que diante daquela árvore minhas rugas floresceram. Com seus sóis mais brilhosos que os dos céus que saem das noites da Terra e dos dias que nascem nas janelas do junco. E os próprios céus se encolheram entre as pedras e os cascalhos, numa espécie de aparição frontal que procedia como tela. Notei que ali também se fumava, ao ver alguém se aproximando, mais pra inseto que pra gente, que com uma mão na orelha gozava furtivos arroubos advindos de alguma comunicação, onde o pulso era clara inversão do intento voador da presença de um inseto. Notei que era pessoa quando fumou, e fumou até desaparecer, deixando sim as suas pegadas enquanto a informação com asas batia em retirada até algum destino. Contornos de patas no relevo pedroso do estacionamento.

II.

Foi sui generis. Ao tentar ler fechei o livro. E esperei. Esperei com as mãos na cintura. Ouvindo o silêncio através do qual eu percebia o que acontecia a portas fechadas. E esperei. Não se pode ler com música o tempo todo. Isso porque não se afirma um espectro através de um concordo com aceno de cabeça. Ou com dois dedos na têmpora. Ou com o cu comprimido. Ou com a culpa indo sempre de um lugar para outro. Não. Quando é assim é melhor fechar, desistir respeitosamente, refazer o caminho, novamente. Ninguém me convenceu de que é possível o como se fosse a primeira vez da inocência, embora todos pareçam estar bastante convencidos disso quando juntam seus pedregulhos. A partir dali procurei não ficar pensando, nem ficar em silêncio, nem deixar encostarem as minhas sobrancelhas. Não consegui, então esperei. E no que o tempo passou não há o que considerar. Não havia mesmo o que considerar. Entramos assumidamente em desacordo, e foi aí que imergimos na nossa experiência. É aí, e quem não gostaria de finalizar aí, eu mesmo morreria aí.

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Diurese


Vê como desmancha se digo,

que a sombra da lâmpada dá

uma dor ruim na bexiga.

Na palma da mão direita

cresce uma mecha ruiva,

a luva que escolhe cacho.

Vê como desleixam e gingam,

que a quinta-feira me fugiu

quando tuas moedas caíram.

No pátio da aplicação de flúor,

na reunião de pais e mestres,

os canais preservam silêncio.

Vê como desmancha tudo

que plantas atrás do espelho,

hoje quando amanheceram

nutriram luzes no reflexo.

E quebrar a xícara diária

foi o remédio da diurese.


Curitiba, 2011

quarta-feira, 22 de junho de 2011

O Lábio


ao homem que morde o lábio

que sangra a boca insigne:

gozo não é câncer cínico


a crise na palavra clitóris

a crise evidente

o homem que morde

e sabe que vai morder

é já de tal modo engolido


ou meu engulho é uma tela

que tomo abrindo janelas

que homem lhe disse isso

aquele que não morde


a crise na palavra clitóris

a crise na palavra aparente

é óbvia se não se dá conta


que morder o lábio signo

até que a morte apareça

é o sepultamento e a pompa

dos legítimos aos joguetes


(até)

que a língua separe os dentes

crise na palavra aparente

evidente se não se dá conta

que existe um prepúcio na boca

terça-feira, 21 de junho de 2011

A ponta aquecida de um aço


vejo e bocejo o dia todo inteirado
lampeja uma risada no meio da manada
gracejo no meio da praça
e jazo no fim da pessoa
interajo com o que vaza
e escoa até fincar faltas
tais como a evidência vaga
que põe o dia sem glória
e fica em face ao solfejo
meio fada almofadada
o eco decanta o ego
de casaco de pele
sobre a roupa de elefante

seja e deseja o dia todo uma selva
nela lapido uma palavra 
nunca pronunciada
de toda lapela a metade
de toda verdade a palavra
gaze no meio da pessoa
jaze o dia deitada
reajo com garras à fala
recorro ao que levo no bolso
embaraço nos pelos ásperos
e a ponta aquecida de um aço

terça-feira, 14 de junho de 2011

Um Quarto de Pílula

hoje ao meio dia e meia

ingeri um quarto de uma pílula

e caminhei... caminhei... caminhei...


parei de fronte a jaula de penélope pileata

- quer comer meu fígado imortal, hum?

e caminhei... caminhei... caminhei...


no meio do caminho, aprendi uma lição

transmiti a lição para uma jovem árvore

que abria dois caminhos com dois galhos

quando a cadela prenha me deu passagem


caminhei... caminhei... caminhei...


parei num cruzamento de quatro vias

errei ao longo da encruzilhada árabe

roubei as cores e as formas do espelho

no meio do caminho, aprendi uma lição


e caminhei... caminhei... caminhei...


às quatro e meia da tarde

tudo já estava esquecido

o sol posto ante o lençol

e após gritar um palavrão


me inteirei sobre o que havia acontecido

inteirei... inteirei... inteirei...

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Ritual

apaguei o incenso três vezes

fui chamado de louco, e de mãe

o vento está querendo ser lembrado

e eu ri, caminhando estremecido

pode o incenso ter ficado acendido


o vento me acordou três vezes

fui chamado pelo som do incêndio

eu ri, me lembrando da menina

que cantava e urinava no mercado

pude ser reprimido e privilegiado


já curei meu cisto três vezes

uma sonhando e duas vigilando

meu modo de querer ser lembrado

atravessa uma moldura no pescoço

levo pelos de bigode no meu bolso


(Curitiba, 2011)

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Aclimatação

uma aclimatação em analogia direta porém insuficiente dados os próprios ares de mecanismo e de maquinaria onde maquiagem é mais que a máscara mais rubramente máscula ou por assim dizer bricolagem dos efeitos tensionados que não concluem o conluio combativo de onde dias e noites deixam de estar em direta similitude com o claro e escuro que elucida ou turva não apenas em processos excludentes:

de ontem a hoje houve um vento animando a porta da varanda no que os ouvidos interrogaram os olhos com o fito de ouvir os chamados convenientes ao agrado ou ao desgosto desses móveis tecidos fisiológicos do ontem ao hoje decididamente com menos rumos do que aqueles que procuram elucidar através de esforços empreendidos numa prática baseada em pactos de convivência em meio a respiratória inclui a poluição e danças de culto ao sincretismo onde não há subordinação do hoje ao nada a tez das urgências sem melhores palavras acabando tão mais munido quanto mais havendo projéteis disparados

a... quando as letras se juntaram à força a tensão das vogais se confundiu tal e qual em um feitiço com o poder verbal tomado em relação objetal de experiência do fecal e a vocalização em sendo a forma da ânsia não satisfaz senão enquanto moldura toda uma busca a... como sou livre só me resta lamentar lamentar só me resta rir a peneira dos meus vícios está bem aqui onde se choca a luz com o nariz e o olho resvala uma figura humana na outra dois fantasmas com globos oculares bem à mostra em estado de inteira órbita brancos ou pálidos eu me pergunto onde chegamos que não temos nem palavras como qualquer pessoa em transe meramente agradecida onde nem a vista bêbada concebe o trançar das pernas como o término de uma dança

as lembranças estupidamente por falta de tino tomadas pelo nome fictício de simples são alguns desses fantasmas mal resvalados essas equipes que buscam o combate entre espíritos de onde ainda expelem cavacos conforme colocam os cascalhos em contato ainda metafísico com a água mas qual boca sedenta não perceberia que geme se não se pode conceber sem um cuidado cristão de média idade e raso envelhecimento qualquer espécie qualquer espécie ainda que primariamente sofista de corpo ainda sem vagas ou nome ainda sem pregas ou órgão sem nunca ter células já que uma vez em que a pessoa está falando é assim

vivo longe dos mares em forma de água e vagas estando os personagens em vigília constante controla-se antes os mares com o próprio ignorante procedimento do não conhecer podendo-se contudo sempre considerar que existe a chance de procurarmos por ele seguindo as ruas mais tortas se for o caso de ter que escolher e não pretendendo grandes porções de moeda de troca unitária uma vez que é provável que eu esteja falando de um caminho sem volta isso é efeito específico digamos de uma aclimatação


Curitiba, 2011

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Ao Longo de um Tempo



Curitiba - Estou perdido. Fui sim revisar poesias que eu havia escrito há uns seis ou sete anos atrás. Fiquei perturbado com cada palavra, e com o significado que cada uma têve nessa releitura. Não me senti confortável para fazer muitas das postagem que planejei fazer. O blog é tão sem rumo quanto eu. Age conforme estímulos que na metade da ação perdem o seu vígor estimulante. Serviu? Pergunta a vendedora, do lado de fora do provador.

Confesso que já não sei. Mas, é bom dizer que sim, se for pra responder. Passar pelos últimos dias me confrontando com uma imagem idealista, que todo adolescente idiota faz de si mesmo, foi importante para confirmar o seguinte: continuo estripando os meus ídolos, e me relacionando mal com eles. A relação é ruim porque hoje em dia, e eu demorei pra perceber isso, os ídolos não tem importancia como ídolos, na elaboração filosófica que estabelece a forma cíclica iconografia/iconoclastia. Quer dizer, isso não está dentro de nenhum projeto criativo, de uma forma tão consciente do pensamento que uma humanidade faz acerca de si mesma, quanto condizente mais ao fenômeno da permeabilidade criativa que ao fato da permeabilidade inerente ao próprio passar de cada segundo quando observado externamente ao longo de um tempo. Assim como os inimigos não tem mais importancia como inimigos. Assim como o teatro, que deixou de ter importancia. Ao longo de um tempo.

E por aí vai. Com essa minha calma irreal, vou assimilando as novidades deste ano. As nossas novidades ínfimas. As de grande impacto na rede, tenho tanta dificuldade com elas, uma vez que são seguidas de tantas outras, imediatamente concatenadas, sem haver relação entre elas senão a da própria rede. Aliás, isso de escrever na internet, para mim, fica uma coisa cada vez mais perigosa. Falo isso porque, como eu escrevo muito, às vezes passa pela minha cabeça o fato de que alguém poderia ler (mas só às vezes) um pouco do que eu escrevo. E passa pela minha cabeça pelo motivo óbvio que se mostra em toda essa celebração estimulante da facilidade em ser notório. Com 'minha cabeça' estou me referindo a certa concepção trazida lá de Bauru até aqui, a respeito da...

Pode-se falar daquilo que morreu em si mesmo sem acabar tomando estupidamente como vivo e perdendo estupidamente o tempo que poderia ser utilizado para o que de fato está vivo? Estou perdido, e não sei. Estou feliz também. Acho importante que eu esteja tendo tempo para assimilar este ano e este presente. Penso quarenta vezes antes de postar qualquer coisa, principalmente neste blog, e ainda acho pouco. Quando parece que é só ansiedade, melhor deixar as reações químicas queimarem de outra maneira, onde os elementos sem durabilidade acabam naturalmente se extinguindo. E este é o meu procedimento com a internet, uma vez que ela vive me desafiando pelas armadilhas da ansiedade. Mas estou em vantagem, porque se tem uma coisa mais irreal do que isso tudo já me soa, essa coisa é a minha calma, e a minha paciência.

E assim declaro encerrada a revisão das poesias escritas em Bauru.

Uma boa semana! Cheia de si mesma, e mais nada!

Límerson

quinta-feira, 26 de maio de 2011

O Papel da Vontade


já quis ser papel

hei de chover água

dizia décor: agora já


e o papel da água

sempre se choveu

em roupa molhada


e o papel da idéia

a vontade não seca

amassei com a mão

Uma árvore



uma árvore no meio do caminho

os pais conversam logo abaixo

quem tem papas nas árvores


a planta impossivelmente parada

procura dançar enquanto desfila

quem tem figuras envelhecidas


quem tem uma lagoa no ouvido

bate o cajado no sentido abrindo

entre isso e o que não foi visto

quarta-feira, 25 de maio de 2011

Órgão Questão



Órgão questão

Este órgão está em questão.  A mãe não o sabe. O pai não o tem. 

Quem quer comer este órgão? A pai o comprou. O mãe o fritou.

A conserva confunde o signo com o sabor.

Como seria isso se eu supusesse o que aconteceria?

Onde este órgão fica? Na mãe é um sangue que estica.  No pai é enquanto não finda.   

Quando este órgão acaba, tudo o que ela diz acaba, e tudo o que ele cala é válido. 

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Na nova manhã



Na Nova Manhã

dorme a dor
o ar dorme
me dorme
ardor me
medoar

toda a manhã


o ar dorme

na dor do
arder-me
por dentro
doarme

a cada manhã

dói-me
acordar
dai-me ar
que o menor
nome é enorme

na nova manhã

terça-feira, 17 de maio de 2011

Deriva

Somos derivas divididas

Em vazios emoldurados


Dizem isso com palavras

Depois voltam pra casa


E quanto ao pé direito

Só um alicerce ósseo


Uma malha muscular

Seria insuficiente


Hoje terminei de joelhos

Amanhã será até a morte

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Duas Sendas

voz serpente da boca

grito sem guizo

sai e entra

ante o céu entorpecente

o da mandíbula engasga

em guisa de formatos

o guia na silhueta deserta

sem guisa na visão que avisa

fecha e abre a pálpebra

para e entra o ar

foi tudo parido

quem havia comido

a própria cauda escutava

falo da boca cheia

onde a língua serpenteia

os lugares quando não estamos lá

grita a boca quando sai a palavra

ela sai pela boca e roçaga

na enseada chamada instante

(aquela onde se encontram duas sendas)

sexta-feira, 29 de abril de 2011

Ao Meu Redor

a flor cristã circuncidou

cifras e siglas encontradas

quando os ponteiros cruzaram

problemas ao meu redor

em volta o corredor

na casa dos meus pais

deitados abertos ao meio

com dois golpes de machado


colapsado o léxico do estado de choque

(porque eu entendo de choque elétrico

não há tensão de faíscas

ao meu redor não há

problema que não saia

do peito de um tronco

a raiz rouca da palavra

tensão de cimento e ramos)

faíscas racionais no peito duro

segmentos da Terra os homens

problemas ao redor de um olho

pilares ao redor do outro

sopro do cisco dito globo


o martelo decora o alvo

e perde o algo do martelo


que fazer senão estar

em evidente e em aparente

estado inviolável de contorno

se a mentira não tivesse foco

nem imagem inoculada

- não há luz lúdica induzida -

ombros, quadris ou braços

que não imaculasse

mesuras ao meu redor

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Las Morales Dobles de Wilson - Sobre o Pacto da Frontalidade

"Eu tenho a medida que designo – e este é o esplendor de se ter uma linguagem. Mas eu tenho muito mais à medida que não consigo designar. A realidade é a matéria-prima, a linguagem é o modo como vou busca-la – e como não acho. Mas é do buscar e não achar que nasce o que eu não conhecia, e que instantaneamente reconheço. A linguagem é o meu esforço humano. Por destino tenho que ir buscar e por destino volto com as mãos vazias. Mas – volto com o indizível. O indizível só me poderá ser dado através do fracasso de minha linguagem. Só quando falha a construção, é que obtenho o que ela não conseguiu."

Clarice Lispector, A Paixão Segundo G.H.

Curitiba - Há alguns dias anteriores ao dia 09/04, quando o Núcleo de Espetacularidades apresentou a pré-estreia de Las Morales Doubles de Wilson, escrevi um texto neste blog, que nas "redes sociais" anunciei como sendo sobre o caos e o processo em Las Morales. Este texto está aqui.


(Mariana Zimmermann em Las Morales; Foto: Talita Morais)


Não tenho muito para escrever aqui sobre a apresentação, mas um pouco tenho. É o pouco que se relaciona com a postagem em questão. Primeiro, que foi a primeira vez que de fato entendi o esqueleto onde este caos e este processo se deram. O esqueleto que mostramos à quase cinquenta pessoas. Ainda com poucas articulações, e nada de cartilagem. Cheio de erros. E cheio de acertos. E toda uma falta de cuidado que se arrisca, funambulescamente, a ser uma justificativa de olhos vendados, de certa circustancia ("marginal" ou outro nome) na qual nosso grupo se encontra.


(Léo Glück em Las Morales; Foto: Talita Morais)

Cogitações. O Núcleo de Espetacularidades é um núcleo porque se trata de um momento específico da experiência de encontro. A especificidade é o espetáculo. A frontalidade, sobre a qual escrevi, sobre a qual tenho me interrogado. Fiquei intrigado com a apresentação. E encantado. E aqui encontro uma maneira de pensar sobre estas impressões, já que viver dos seus afetos, e das suas afetações, certamente não é o suficiente. Já que me intrigo tanto com a frontalidade e com o pacto instaurado de parar para ver o outro.


(Mariana Zimmermann, Clarissa Oliveira e Guilherme Marks em Las Morales; Fotos: Talita Morais)


O que me interessa no parar para ver o outro é o encantamento. A espetacularidade, que é alquímica por esta própria condição de pacto. Mas, quando penso em pacto, com todo o amadorismo arqueológico que me persegue, não acho que o pacto tenha acontecido quando uma pessoa contava histórias e a(s) outra(s) ouvia(m). Porque sempre tem alguém debochando de quem está falando. Que não tem o mínimo interesse na história sendo contada, mas, por exemplo, está impressionada com o tamanho do nariz do contador. Então, pelo menos para mim, não é por aí. E isso não é uma postura que se opõe a contação de história, digamos assim, mas uma carência de mais elementos de caracterização presentes na própria maneira que se dá a falaria. Por essa carência sempre tem alguém debochando ou (o que não é muito diferente) celebrando. Ou de saco cheio. Porque quando penso em pacto penso em morte. O grande pacto. Que, graças a Deus, acontece com tudo. Então, fico pensando, nos primeiros seres humanos, quando eles viram alguém, que era vivo, morto. E agora?


(Ricardo Nolasco em Las Morales; Fotos: Talita Morais)

Não sou historiador, com isso só estou querendo incrementar minha intriga, meu intrigamento, com o pacto da frontalidade. Esse pacto acontece, na minha opinião, quando alguém é afetado pela impressão de morte no que causa impressão de vida. Está ficando mais claro isso para mim, através das experiências mais práticas (ensaios e apresentações). E quanto a apresentação, fiquei feliz e triste. Odiei ter ficado no mesanino, embora não houvesse outra opção técnicamente viável. Detestei a falta de cuidado com o outro, sintoma de que há uma humanidade prosseguindo em problemas de convivência. Há uma humanidade prosseguindo sem que haja algum parâmetro de convivência que tenha alcançado a mesma etapa de prosseguimento. Depois de anos e anos de confrontamento com a morte. Amo todas as presenças desta peça, e estou também em transe, tentando me segurar para não perder minhas referências de como organizar esta processualidade que estamos inventando. E esta apresentação, desastrosa e deleitosa, responsável e revogável, causou os impactos mais importantes e mais necessários para a reflexão da minha função neste mundo. Uma das minhas funções neste mundo cruel e besta.


(Las Morales - 09/04/11 - Curitiba - Fotos: Talita Morais)


O Núcleo de Espetacularidades existe desde 2006, e tem sua sede em Curitiba, embora não possua (e esteja precisando de) um espaço fixo para o prosseguimento da sua pesquisa. É composto pelo encontro de inúmeros artistas, e pelas influências que estes imprimiram durante a sua passagem pelo grupo, e também pelo derrubamento dessas impressões.

Límerson,

Autor e Diretor de Teatro

Abril, 2011

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