domingo, 27 de março de 2011

Perempção cogitativa

Talvez eu morra

Mas já basta

Ao final não conta

Afinal, já basta

É claro que conta

Ao final não finda

O final ainda

É claro que vivo

Afinal de contas

Mas agora é dia

E alguém duvida

Eu quero morrer

E sei que consigo

Daí essa hipótese

Mas se não morro

Afinal é óbvio

Também não conta

Ao final já basta

A vida é que mata

Talvez fique claro

Afinal é dia

A pessoa à noite

Quando finda o dia

Ela mesma acaba

O corpo ainda

E se a forma morre

Ou arrasta a casca

Talvez já baste

quarta-feira, 23 de março de 2011

Corda Tencionada - Tensão entre aspas - Pulsar de Couraças


O homem é corda estendida entre o animal e o super-homem; uma corda sobre o abismo; perigosa travessia, perigoso caminhar, perigoso olhar para trás, perigoso tremer e parar;
(Assim Falava Zaratustra, Nietzsche)


LIMITAÇÕES E MORTE DOS FORMATOS

Precisam existir ilusões. Elas precisam ser derrubadas. A existência de limites implica que o que eles limitam transite através deles. Transbordamento. Através dessas aparências que nos restam da organização. Estamos ensaiando, o Núcleo de Espetacularidades, a pré-estréia da peça processual Las Morales... no Fringe curitibano. Existe alguma articulação misteriosa de contingências (as quais dou muita importância, as articuçações) que me faz... visualizar a nossa atividade cotidiana... encontros, ensaios, fofocas, desbundes e derrocadas... como resistência, ou melhor, ressonância, ou melhor, melhor ainda, reação. É assim que tenho visto, ou melhor, melhor ainda, mais que melhor, melhor assumirmos o poder sensualizante implícito nas nossas atitudes de nos encontrarmos. O poder.
O poder de um acontecimento, em instauração silenciosa, inevitavelmente errante, funambulesco. Existe, e precisa existir, a ilusão de que estão nos assistindo, e de que fazemos para alguém. É nisso que consistem os ensaios, e é isso o que eles deixam de ser, felizmente, em muitas situações. Nos nossos encontros vamos tramando, tramando, tramando, até que um dia ficam vendo tudo o que tramamos, dando certo e dando errado. O dia da apresentação é plena e decididamente diferente de cada dia de ensaio, que é diferente entre si. O que fazemos? Mostramos que estamos de mãos atadas, ou desatamos as atas das nossas reuniões, ou mentimos? Mentimos sempre. Por que?
A frontalidade, disposição espacial recorrente em todos os nossos trabalhos, é um limite que não superamos. Não abolimos a frontalidade, porque achamos que precisamos dela. Ao termos esta impressão, escolhemos. A frontalidade. Dizemos que escolhemos. Eis aí um limite através do qual o acontecimento/encontro propõe (estabelecendo ou não) movimentação de informação, produção de conhecimento, posicionamentos políticos. Eis aí um exemplo de um limite por onde se dão alguns desses exemplos de fluxo, de comunicação, ou vivência de linguagem. Não sei se é o melhor nem se vem ao caso sabê-lo. Como estou me referindo agora a uma noção muito específica de experiência de encontro, que é a maneira como estou interpretando a experiência teatral, tenho a impressão de que o melhor possa passar pela hipótese da invenção. Não a invenção originalesca, que derruba limites inexistentes (isto é, a transgressão via formulários), mas a invenção dos limites e dos formatos por onde transborda a subjetividade. Ou então posso dizer que prefiro a frontalidade para que eu possa assistir de lado.



OS CORPOS EM FRONTALIDADE

Palco e platéia. Pessoas se olhando. Luz e Penumbra ou Escuridão. Não gosto de assitir peças, não necessariamente por rejeição. Mas porque me incomodam os grupos grandes. Mesmo as platéias "fracas", isto é, as cadeiras vazias. Os grupos grandes me provocam ameaça e preocupação. Quando estou na platéia fico nervoso, tenso mesmo. Fico querendo assitir à platéia quando sou platéia. E aos atores quando não sou platéia. Ou seja, sempre sou platéia. Se eu sou platéia sempre, por que eu tenho que tomar decisões à respeito da apresentação, além do motivo óbvio de eu ser o diretor? Não sei, e acho que quando eu souber terei encerrado minha trajetória de diretor.
Por isso também sou autor. E quando penso nos corpos dos atores em relação frontal com a platéia, acho que produzo um pensmento de autor. Não o dramaturgo, e também não o diretor de cena. O que diferencia? As diferenças diferenciam, não é óbvio? Ai, como me divirto. Queria agradecer aos componentes caóticos que nos colocam em relação e em perigo à cada ensaio. Afinal, a frontalidade não se trata da invenção, enquanto a invenção não tratar da frontalidade. Tratar é conversar, manusear, cuidar (bem ou mal), expressar, interpretar, realizar ou modificar por meio de um agente. Mas, não é disso que eu estou falando. Do que é?
Os corpos são postos em relação frontal. A platéia é posta em relação frontal. O espaço escolhido é caracterizado pela relação frontal. À partir daí, duas perguntas. Por que as pessoas param para ver as outras? Também não se responde, mas acredito que seja uma condição da experiência de afetação. A invenção não se trata da frontalidade enquanto a invenção não se tratar da ilusão. Perto do encantamento, o hipnólogo e o hipnotizador colocam-se também em condição espetacular. A ilusão de inventar a roda, combatida pelos professores, devia continuar sendo posta em discussão. Ou melhor, ela sempre é a discussão, ao menos para mim. Afinal, enchemos de adereços sensoriais combinados previamente, a necessidade de se encantar pela presença do outro. E também enchemos de adereços dramatúgicos, de complexidade atordoante, ou de simplicidade perturbadora, ou de redundância hipnótica, a mais cruel manifestação de afeto que se dá no pacto do espetáculo. Somos extremamente perigosos e poderosos fazendo isso. E, ao mesmo tempo, somos marginais, ainda.



A MUSA

A musa é o arquétipo por onde passam os afetos mais significativos na minha, digamos, condição mais recente. Mas, a minha condição mais recente, digamos, a primeira dobra que emergiu nesta nova etapa da minha vida, é uma maneira com a qual tenho pensado a minha vida, ou melhor ainda, a vida sendo pensada numa abordagem pessoal de tempo onde o reconhecimento ainda está sendo produzido. Quer dizer, a Musa não é alguém por quem estou apaixonado, mas é uma paixão que se repete e se recusa a coadunar com a realidade. Afinal, as musas só inspiraram as disposições criativas, que não são necessariamente escolhas do indivíduo, mas configurações de manifestação afetiva onde a criatividade foi notada. A musa, tornar alguém musa, tornar algo como objeto de inspiração, é quase tão parecido com o que o museu faz com as pinturas, esculturas, e as galerias com instalações, performances, e as catedrais com padres, freiras, fiéis. Coletivo de musa é museu.
Claro que a Musa Inspiradora não tem mais o espaço e o tempo específico que pareceriam ter. Pensando que produção de inspiração seja produção de espaço e tempo. Uma situação de inventividade, um acontecimento. Desmoronando pelos limites de si mesmo. A musa é uma afetação da faceta anímica da autoria. A musa é ao mesmo tempo a mãe e a morte do amor impossível. A musa foi atingida por um lustre na cabeça (sabotagem de primeira executada pelo apaixonado/patético/patológico "fantasma da ópera" que é um assunto à parte, fundamental, ainda não citado). Claro, esta é a nossa abordagem deste arquétipo. Do Núcleo de Espetacularidades. Em Las Morales Dobles de Wilson.

LAS MORALES

Dia : 09/04/2011

às 21:30

Local: TEUNI

R. XV de Novembro, 1.299, Centro, Curitiba

Ingressos à $8 e $4


sexta-feira, 18 de março de 2011

Sonhos de Edward

No ano passado estava empolgado por muitas coisas. Trabalhei como ator em dois trabalhos de naturezas totalmente diferentes com o Elenco de Ouro, e me senti enriquecido (isto é, perdido em uma função com a qual não tenho uma identificação absoluta-inabalável-estruturada que é atuar). Mas, fora das artes cênicas, eu estava empolgada pela possibilidade de escrever uma prosa. Com o passar do tempo, a prosa foi ficando prosa-poética. Com o passar de mais tempo, virou dramaturgia (fragmentos usados em Sonholabirintorgia, na apresentação referente a conclusão do curso de artes cênicas em 2010). Com o passar de mais tempo, virou uma série de poemas, mais ou menos independentes, mais ou menos conectados.

Não sei no que mais pode se transformar. Em post de blog, que tal? Aqui vai o primeiro poema desta seleção, que foi utilizado como abertura dos primeiros resultados do Projeto Sonholabirintorgia. Agora, são 50 poemas. Mas, não sei não, um dia me preocupo melhor com eles. Agora, há algumas semanas da pré-estréia de Las Morales Dobles de Wilson, estou imerso na produção de significados com o Núcleo de Espetacularidades, e trata-se outro universo (que povoará este blog nos próximos posts)

Sonhos de Edward

1.


Danço para me libertar

então, eu não sou livre


uma planta livre de um aquário

será que eu sou livre quando eu falo

quando eu vejo uma luz estourando

numa das paredes da noite


um homem precisa ser charmosamente brutal para sê-lo

portando saias longas entrega um punhal entre os dentes

ao mínimo descuido, as garras rasgam a própria pele


embaixo da cama e encima dela

vamos, cavalheiro, bom cavalheiro, coloque-se mais

à frente de qual tempo


verbal ou verborrágico, contamino-me

sulcando as rochosas vestes do meu aspecto terreno


enquanto isso, evacuo o amor planetário


terça-feira, 8 de março de 2011

Fala

falo do pescoço

o gosto em fileira

a caça aglutina


no tronco cutâneo

falo do cabelo

a pele envolvida

agora encaracola

medo de visita

falo da vista

um olho e uma pista

nunca estive calado

nem à esse respeito

falo de memória

a queda do quintal

e cada fala alcançada

falo sem curativo

terça-feira, 1 de março de 2011

Gregos e Romanos ou O Primeiro Elo Perdido Encontrado entre o Verme e o Artrópodo



Gregos e romanos. Sangue e sêmen escorrendo do amor platônico. Um policial cada vez mais procura se policiar. A sua viatura é polida, semanalmente. Paulatinamente, o polido acumula cada vez mais polidez. E o idiota, deixa que escoe de si, deixa que extraia de si, o mais abstrato procedimento dos extratos metafísicos. Sangra e ejacula, evacua o amor planetário, num espaço cabível apenas para ele. O idiote.

E por falar em idiotice, choveu o domingo inteiro. Não havia ninguém por aí, e nem nada por lado algum. Romanos derivavam em ruas repetidas, vias ruelas, sem receio algum, o que é incrível. Gregos apenas gaguejavam, não sorriam e gaguejavam. Soluçavam e gaguejavam, suas clássicas soluções. A história das civilizações tomava-me de assalto.

Não apenas a civilização humana. Mas, e sobretudo, aquela que une os insetos numa mesma atividade. Que permite, em Curitiba, que uma aranha específica, mesmo que solitária, seja tão ameaçadora. Diante dos seus braços à postos com o inseticida em uma das mãos, ela age como um leão, ou um felino qualquer, com movimentos das patas no ar.

Por todo lado estão despencando formigas mortas, depois da dedetização. E quase eu mesmo despenco, entorpecido e envenenado. Mesmo saindo de casa, e voltando, com muito cansaço, ainda encontro o cheiro mortal, e as mortes resultantes, em lugares cada vez mais novos. No canto do banheiro atrás da porta, a marrom. Eu poderia estar morto no colchão inflável, mas chegou o momento em que eu tive que decidir á partir da observação que nos distingue por tamanhos. O que, eu juro, é o meu único pressuposto. Está morta.

As formigas tem um foco comum na janela do banheiro. Notei isso quando muitas despencaram, assim que fui abri-la pela primeira vez. Foi como uma casca de musgo úmido que se descola de uma região pouco acessada, quando acessada, desmanchando-se na pia. Só que neste caso, o que desmanchou foi um bolo de formigas. Que subiriam ralo acima caso eu não insistisse água abaixo com o máximo de torneira.

Creio que mantendo estas formigas longe da minha janela, e da minha casa em geral, as aranhas as acompanharão. Por isso tornei-me um sentinela aerosol. Ao menor sinal da menor variação de formiga que venho encontrando, estou sempre pronto com uma boa borrifada aerosol. No domingo, à todo momento elas desciam, como que do banheiro do apartamento de cima. Até a parede da minha sacada, onde encontra-se a janela do banheiro. Algo ali encima faz com que elas venham.

Apenas elas. Aproximam-se da área envenenada, ou vagam agonizando o inseticida. As aranhas não deram as caras, nem detrás dos batentes, depois da minha investida. Uma formiga está morta aqui ao meu lado. Veio morrendo ainda hoje, conforme pude acompanhar. Eu era uma espécie de idiota, grego, alheio aos seus conceitos politizados. Alheio como a aranha-marrom, que oferece ameaça e acredita que é um reforço mexer as patas como um leão enquanto é atacada. Alheio ao próprio domingo, quando nem gregos, nem romanos, nem vendedores de jogos de cama, nem o meu próprio umbigo, vagam por aí, ou mais além. Só as formigas vinham, trôpegas com o meu veneno. Apenas elas.

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