sexta-feira, 29 de abril de 2011

Ao Meu Redor

a flor cristã circuncidou

cifras e siglas encontradas

quando os ponteiros cruzaram

problemas ao meu redor

em volta o corredor

na casa dos meus pais

deitados abertos ao meio

com dois golpes de machado


colapsado o léxico do estado de choque

(porque eu entendo de choque elétrico

não há tensão de faíscas

ao meu redor não há

problema que não saia

do peito de um tronco

a raiz rouca da palavra

tensão de cimento e ramos)

faíscas racionais no peito duro

segmentos da Terra os homens

problemas ao redor de um olho

pilares ao redor do outro

sopro do cisco dito globo


o martelo decora o alvo

e perde o algo do martelo


que fazer senão estar

em evidente e em aparente

estado inviolável de contorno

se a mentira não tivesse foco

nem imagem inoculada

- não há luz lúdica induzida -

ombros, quadris ou braços

que não imaculasse

mesuras ao meu redor

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Las Morales Dobles de Wilson - Sobre o Pacto da Frontalidade

"Eu tenho a medida que designo – e este é o esplendor de se ter uma linguagem. Mas eu tenho muito mais à medida que não consigo designar. A realidade é a matéria-prima, a linguagem é o modo como vou busca-la – e como não acho. Mas é do buscar e não achar que nasce o que eu não conhecia, e que instantaneamente reconheço. A linguagem é o meu esforço humano. Por destino tenho que ir buscar e por destino volto com as mãos vazias. Mas – volto com o indizível. O indizível só me poderá ser dado através do fracasso de minha linguagem. Só quando falha a construção, é que obtenho o que ela não conseguiu."

Clarice Lispector, A Paixão Segundo G.H.

Curitiba - Há alguns dias anteriores ao dia 09/04, quando o Núcleo de Espetacularidades apresentou a pré-estreia de Las Morales Doubles de Wilson, escrevi um texto neste blog, que nas "redes sociais" anunciei como sendo sobre o caos e o processo em Las Morales. Este texto está aqui.


(Mariana Zimmermann em Las Morales; Foto: Talita Morais)


Não tenho muito para escrever aqui sobre a apresentação, mas um pouco tenho. É o pouco que se relaciona com a postagem em questão. Primeiro, que foi a primeira vez que de fato entendi o esqueleto onde este caos e este processo se deram. O esqueleto que mostramos à quase cinquenta pessoas. Ainda com poucas articulações, e nada de cartilagem. Cheio de erros. E cheio de acertos. E toda uma falta de cuidado que se arrisca, funambulescamente, a ser uma justificativa de olhos vendados, de certa circustancia ("marginal" ou outro nome) na qual nosso grupo se encontra.


(Léo Glück em Las Morales; Foto: Talita Morais)

Cogitações. O Núcleo de Espetacularidades é um núcleo porque se trata de um momento específico da experiência de encontro. A especificidade é o espetáculo. A frontalidade, sobre a qual escrevi, sobre a qual tenho me interrogado. Fiquei intrigado com a apresentação. E encantado. E aqui encontro uma maneira de pensar sobre estas impressões, já que viver dos seus afetos, e das suas afetações, certamente não é o suficiente. Já que me intrigo tanto com a frontalidade e com o pacto instaurado de parar para ver o outro.


(Mariana Zimmermann, Clarissa Oliveira e Guilherme Marks em Las Morales; Fotos: Talita Morais)


O que me interessa no parar para ver o outro é o encantamento. A espetacularidade, que é alquímica por esta própria condição de pacto. Mas, quando penso em pacto, com todo o amadorismo arqueológico que me persegue, não acho que o pacto tenha acontecido quando uma pessoa contava histórias e a(s) outra(s) ouvia(m). Porque sempre tem alguém debochando de quem está falando. Que não tem o mínimo interesse na história sendo contada, mas, por exemplo, está impressionada com o tamanho do nariz do contador. Então, pelo menos para mim, não é por aí. E isso não é uma postura que se opõe a contação de história, digamos assim, mas uma carência de mais elementos de caracterização presentes na própria maneira que se dá a falaria. Por essa carência sempre tem alguém debochando ou (o que não é muito diferente) celebrando. Ou de saco cheio. Porque quando penso em pacto penso em morte. O grande pacto. Que, graças a Deus, acontece com tudo. Então, fico pensando, nos primeiros seres humanos, quando eles viram alguém, que era vivo, morto. E agora?


(Ricardo Nolasco em Las Morales; Fotos: Talita Morais)

Não sou historiador, com isso só estou querendo incrementar minha intriga, meu intrigamento, com o pacto da frontalidade. Esse pacto acontece, na minha opinião, quando alguém é afetado pela impressão de morte no que causa impressão de vida. Está ficando mais claro isso para mim, através das experiências mais práticas (ensaios e apresentações). E quanto a apresentação, fiquei feliz e triste. Odiei ter ficado no mesanino, embora não houvesse outra opção técnicamente viável. Detestei a falta de cuidado com o outro, sintoma de que há uma humanidade prosseguindo em problemas de convivência. Há uma humanidade prosseguindo sem que haja algum parâmetro de convivência que tenha alcançado a mesma etapa de prosseguimento. Depois de anos e anos de confrontamento com a morte. Amo todas as presenças desta peça, e estou também em transe, tentando me segurar para não perder minhas referências de como organizar esta processualidade que estamos inventando. E esta apresentação, desastrosa e deleitosa, responsável e revogável, causou os impactos mais importantes e mais necessários para a reflexão da minha função neste mundo. Uma das minhas funções neste mundo cruel e besta.


(Las Morales - 09/04/11 - Curitiba - Fotos: Talita Morais)


O Núcleo de Espetacularidades existe desde 2006, e tem sua sede em Curitiba, embora não possua (e esteja precisando de) um espaço fixo para o prosseguimento da sua pesquisa. É composto pelo encontro de inúmeros artistas, e pelas influências que estes imprimiram durante a sua passagem pelo grupo, e também pelo derrubamento dessas impressões.

Límerson,

Autor e Diretor de Teatro

Abril, 2011

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