quarta-feira, 22 de junho de 2011

O Lábio


ao homem que morde o lábio

que sangra a boca insigne:

gozo não é câncer cínico


a crise na palavra clitóris

a crise evidente

o homem que morde

e sabe que vai morder

é já de tal modo engolido


ou meu engulho é uma tela

que tomo abrindo janelas

que homem lhe disse isso

aquele que não morde


a crise na palavra clitóris

a crise na palavra aparente

é óbvia se não se dá conta


que morder o lábio signo

até que a morte apareça

é o sepultamento e a pompa

dos legítimos aos joguetes


(até)

que a língua separe os dentes

crise na palavra aparente

evidente se não se dá conta

que existe um prepúcio na boca

terça-feira, 21 de junho de 2011

A ponta aquecida de um aço


vejo e bocejo o dia todo inteirado
lampeja uma risada no meio da manada
gracejo no meio da praça
e jazo no fim da pessoa
interajo com o que vaza
e escoa até fincar faltas
tais como a evidência vaga
que põe o dia sem glória
e fica em face ao solfejo
meio fada almofadada
o eco decanta o ego
de casaco de pele
sobre a roupa de elefante

seja e deseja o dia todo uma selva
nela lapido uma palavra 
nunca pronunciada
de toda lapela a metade
de toda verdade a palavra
gaze no meio da pessoa
jaze o dia deitada
reajo com garras à fala
recorro ao que levo no bolso
embaraço nos pelos ásperos
e a ponta aquecida de um aço

terça-feira, 14 de junho de 2011

Um Quarto de Pílula

hoje ao meio dia e meia

ingeri um quarto de uma pílula

e caminhei... caminhei... caminhei...


parei de fronte a jaula de penélope pileata

- quer comer meu fígado imortal, hum?

e caminhei... caminhei... caminhei...


no meio do caminho, aprendi uma lição

transmiti a lição para uma jovem árvore

que abria dois caminhos com dois galhos

quando a cadela prenha me deu passagem


caminhei... caminhei... caminhei...


parei num cruzamento de quatro vias

errei ao longo da encruzilhada árabe

roubei as cores e as formas do espelho

no meio do caminho, aprendi uma lição


e caminhei... caminhei... caminhei...


às quatro e meia da tarde

tudo já estava esquecido

o sol posto ante o lençol

e após gritar um palavrão


me inteirei sobre o que havia acontecido

inteirei... inteirei... inteirei...

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Ritual

apaguei o incenso três vezes

fui chamado de louco, e de mãe

o vento está querendo ser lembrado

e eu ri, caminhando estremecido

pode o incenso ter ficado acendido


o vento me acordou três vezes

fui chamado pelo som do incêndio

eu ri, me lembrando da menina

que cantava e urinava no mercado

pude ser reprimido e privilegiado


já curei meu cisto três vezes

uma sonhando e duas vigilando

meu modo de querer ser lembrado

atravessa uma moldura no pescoço

levo pelos de bigode no meu bolso


(Curitiba, 2011)

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Aclimatação

uma aclimatação em analogia direta porém insuficiente dados os próprios ares de mecanismo e de maquinaria onde maquiagem é mais que a máscara mais rubramente máscula ou por assim dizer bricolagem dos efeitos tensionados que não concluem o conluio combativo de onde dias e noites deixam de estar em direta similitude com o claro e escuro que elucida ou turva não apenas em processos excludentes:

de ontem a hoje houve um vento animando a porta da varanda no que os ouvidos interrogaram os olhos com o fito de ouvir os chamados convenientes ao agrado ou ao desgosto desses móveis tecidos fisiológicos do ontem ao hoje decididamente com menos rumos do que aqueles que procuram elucidar através de esforços empreendidos numa prática baseada em pactos de convivência em meio a respiratória inclui a poluição e danças de culto ao sincretismo onde não há subordinação do hoje ao nada a tez das urgências sem melhores palavras acabando tão mais munido quanto mais havendo projéteis disparados

a... quando as letras se juntaram à força a tensão das vogais se confundiu tal e qual em um feitiço com o poder verbal tomado em relação objetal de experiência do fecal e a vocalização em sendo a forma da ânsia não satisfaz senão enquanto moldura toda uma busca a... como sou livre só me resta lamentar lamentar só me resta rir a peneira dos meus vícios está bem aqui onde se choca a luz com o nariz e o olho resvala uma figura humana na outra dois fantasmas com globos oculares bem à mostra em estado de inteira órbita brancos ou pálidos eu me pergunto onde chegamos que não temos nem palavras como qualquer pessoa em transe meramente agradecida onde nem a vista bêbada concebe o trançar das pernas como o término de uma dança

as lembranças estupidamente por falta de tino tomadas pelo nome fictício de simples são alguns desses fantasmas mal resvalados essas equipes que buscam o combate entre espíritos de onde ainda expelem cavacos conforme colocam os cascalhos em contato ainda metafísico com a água mas qual boca sedenta não perceberia que geme se não se pode conceber sem um cuidado cristão de média idade e raso envelhecimento qualquer espécie qualquer espécie ainda que primariamente sofista de corpo ainda sem vagas ou nome ainda sem pregas ou órgão sem nunca ter células já que uma vez em que a pessoa está falando é assim

vivo longe dos mares em forma de água e vagas estando os personagens em vigília constante controla-se antes os mares com o próprio ignorante procedimento do não conhecer podendo-se contudo sempre considerar que existe a chance de procurarmos por ele seguindo as ruas mais tortas se for o caso de ter que escolher e não pretendendo grandes porções de moeda de troca unitária uma vez que é provável que eu esteja falando de um caminho sem volta isso é efeito específico digamos de uma aclimatação


Curitiba, 2011

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