sexta-feira, 15 de julho de 2011

Foi Sui Generis


VII.

Foi sui generis. Tenho para mim que o ponto final era uma sujeira na folha. Na esquina onde os carros se chocam, veiculava-se veia e vinho. Havia também venda a preços módicos de esfirras abertas. Foi naquele trecho que destravei as rodas do pedestal ordinário sobre o qual me locomovo. O que fazia com que do alto de tal escada sem topo nem estabilidade, qualquer musa que tivesse de dançar descambasse sem volta, com graves estragos nas vagas do rosto. Devassei as pregas, onde as dobras amassaram o paletó sob a pressão das alças. E, quando tirei a mochila, anulei a função ativa de um dos meus dedos. O dedo torto, inchado, cheio de hematomas. Usa-lo doía, e eu fiz aquilo por cautela. Tenho para mim que o ponto final era uma sujeira na folha do começo ao final da falação vagarosa. Foi sui generis.

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Foi Sui Generis

V.

Foi sui generis. Depois de atravessarmos a cidade inteira caminhando à procura de uma resposta científica sobre o dedo, celebramos o fato de não termos encontrado nenhuma. Celebramos o contrário da vertigem via simulação da vertigem, a tontura impessoal que torna pesada e penosa as parcelas mais delicadas da vida, e você me contradizia. Debochamos e celebramos sem que notassem a transição de um estado para o outro. Você utilizava as suas mãos anulando cautelosamente as funções ativas do dedo suspenso. Aproveitou para gesticular as mãos enquanto falava, aparentando o que parecia ser uma aristocrata barroca. Uma bem afetada de espasmos das costelas aos quadris, e dos quadris ao pescoço. Que quando dançava inclinava o pescoço porque era demais a dor de barriga para que se pudesse tão museológica parecer que começa pelo ventre. Quando dançava e inclinava a cabeça o pescoço ficava reto. E os espasmos interrompiam as palavras em murmúrios, eram espasmos da podridão atrás das cortinas da pele. Quase vômitos pelas golas das anáguas, ela era comunicativa tal o modelo de anfitriã o exige no banquete. Os seus únicos momentos tranqüilos pareciam ser quando seu bailarino particular dançava aos seus chamados. Apertamos as mãos e ficamos combinados sobre aquilo acontecer ainda no ano de 2011.

VI.

Foi sui generis. Por fim aprendi que aqui se anda nos ônibus em pé, e que é melhor não cair na armadilha das barras onde seguram as pessoas que desequilibram. Assim que aprendi inventei que já sabia. Imediatamente quedei-me prostrado, da próstata à pituitária. Estando em pé, conforme as costelas abraçassem a frente da fronte, e não a retaguarda resguardada como frontispício de um si que não está de fato em situação alguma. Há quem comprima os próprios intestinos quando debruçados sobre lugares que por dentro são todos iguais. Lágrimas latiram nos meus olhos, e ladrariam as duas lantejoulas na cara de toda pessoa, latejando o assim obtido como resposta quando se pergunta “e como se faz para passarem os dias num quesito que seja além do que a tarimba de melhor ou pior desabrochar lunar?”.

terça-feira, 12 de julho de 2011

Foi Sui Generis


III.

Foi sui generis. Ocorreu que me encontrei com conterrâneos enquanto esperava. Ao sentir o cheiro da lua desenhada daquela noite, eles me reconheceram por causa da nossa cidade. Eles me abordavam. Aproximavam-se de mim com histórias para contar sobre a cidade que era perto do satélite Lua, onde me colocavam bem no meio de uma cratera em tom de jocosidade e leveza saudosa, sobretudo ao dizer a palavra cratera. Diziam que haviam me visto no palco. Lembravam-me de que eu não marcava presença nos bares buracos acusando-me de ter cometido um erro que eles até conseguem considerar como normal, uma vez que respeitam a diferença. Tal qual a tormenta respeita o vento, inclinando-se por catástrofes em potencial, da qual são a porção natural do fenomênico posto em ar litúrgico grave ou manchete bomba. Queriam me enfiar qualquer fotografia goela abaixo, afirmando que era eu aquele que eu via, que era eu aquele, que era eu na foto. Então esperei, através de diálogo profícuo e incrível capacidade de paciência. Além é claro de nutrir preocupação, uma vez que não reconhecia nenhum deles, sendo o maior número de memórias fornecido resultante da menor fresta de lembrança.

IV.

Foi sui generis. Você apareceu com os cabelos mais compridos. E um dos dedos da mão inchado. Um dedo roxo e torto, mais grosso que os demais. Você me mostrou e disse “é esse”. Você quis enfia-lo no chão, como se pudesse atravessa-lo, numa atitude de mergulho. Dito isso, os médicos não compreendiam. E jamais compreenderiam. Após a análise que cada um fazia do dedo sempre terminavam com a mesma atitude de preencher um papel que imprimiam e te entregavam, resolvendo a consulta num projeto simpático de conversa sobre as coisas. Por mais que pudesse parecer um dedo fraturado, amassado e com hematomas, nenhum dos médicos demonstrou certeza sobre o conhecimento do caso. Houve papéis, pílulas e bulas, em nenhum momento em correspondência com a função de diagnóstico. Um papel que nos levava a um bairro, que produzia um papel que nos levava a outro bairro, no qual já esperávamos pelo próximo papel.

Foi Sui Generis


I.

Foi sui generis. Não tinha tino pra literatura. Não foi inspirador. E não era o fim da picada. Primeiro é preciso dizer que diante daquela árvore minhas rugas floresceram. Com seus sóis mais brilhosos que os dos céus que saem das noites da Terra e dos dias que nascem nas janelas do junco. E os próprios céus se encolheram entre as pedras e os cascalhos, numa espécie de aparição frontal que procedia como tela. Notei que ali também se fumava, ao ver alguém se aproximando, mais pra inseto que pra gente, que com uma mão na orelha gozava furtivos arroubos advindos de alguma comunicação, onde o pulso era clara inversão do intento voador da presença de um inseto. Notei que era pessoa quando fumou, e fumou até desaparecer, deixando sim as suas pegadas enquanto a informação com asas batia em retirada até algum destino. Contornos de patas no relevo pedroso do estacionamento.

II.

Foi sui generis. Ao tentar ler fechei o livro. E esperei. Esperei com as mãos na cintura. Ouvindo o silêncio através do qual eu percebia o que acontecia a portas fechadas. E esperei. Não se pode ler com música o tempo todo. Isso porque não se afirma um espectro através de um concordo com aceno de cabeça. Ou com dois dedos na têmpora. Ou com o cu comprimido. Ou com a culpa indo sempre de um lugar para outro. Não. Quando é assim é melhor fechar, desistir respeitosamente, refazer o caminho, novamente. Ninguém me convenceu de que é possível o como se fosse a primeira vez da inocência, embora todos pareçam estar bastante convencidos disso quando juntam seus pedregulhos. A partir dali procurei não ficar pensando, nem ficar em silêncio, nem deixar encostarem as minhas sobrancelhas. Não consegui, então esperei. E no que o tempo passou não há o que considerar. Não havia mesmo o que considerar. Entramos assumidamente em desacordo, e foi aí que imergimos na nossa experiência. É aí, e quem não gostaria de finalizar aí, eu mesmo morreria aí.

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Diurese


Vê como desmancha se digo,

que a sombra da lâmpada dá

uma dor ruim na bexiga.

Na palma da mão direita

cresce uma mecha ruiva,

a luva que escolhe cacho.

Vê como desleixam e gingam,

que a quinta-feira me fugiu

quando tuas moedas caíram.

No pátio da aplicação de flúor,

na reunião de pais e mestres,

os canais preservam silêncio.

Vê como desmancha tudo

que plantas atrás do espelho,

hoje quando amanheceram

nutriram luzes no reflexo.

E quebrar a xícara diária

foi o remédio da diurese.


Curitiba, 2011

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