terça-feira, 23 de agosto de 2011

reticência


reticência sem tinta

a dor de uma pergunta por trás de uma ciência

a dor por trás da ponta de uma agulha por trás da tatuagem

a pele grudada no papel da pele incolor sem um papel


três pontos sem nó

o triângulo da sentença mal traduzido numa linha reta

a referência por trás duma goela pendular na garganta

o referente dum afogamento entre gotas grávidas


pincel duro não faz céu

a dor de uma pintura por trás da cor

o ator por trás da narrativa elucida um papel de ator

a estrutura a urdidura a aparência a encenação


emblema foge ao nome

o papel da palavra enruga a tela da palavra suja

o telo em cujo a fala em cujo a pele à luz da lua

e o que aconteceu por trás do que não vou dizer

sábado, 13 de agosto de 2011

o corredor do ginásio vazio


o corredor do ginásio vazio

imagina vazio

imagina a voz indo

a verdade vai se extinguindo

para quem vai de porta em porta

para quem está no meio do caminho

a morte não é uma meta

como o giro em linha reta

o corredor do ginásio vazio

imagina o passado indo e vindo

o tempo ultrapassa a divindade

para quem está atrasado

para quem tem uma justificativa

a minha mão é tão aberta

quanto a morte de uma língua

imagina o número vazio

a gente mais absurda indo e vindo

vai se extinguindo o paradoxo

até o verbo intransitivo

aliás

quanto ao inicio substancial

o corredor do ginásio vazio


(Curitiba, 2011)

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

quando eu parei


sol e chuva na manhã

parecia um espelho

um desaparecimento


a música não parava

a chuva ainda estava lá

ventava quando eu parei

cresceu até a mata ciliar


no topo da sua cabeça

o couro daquela cabeça

foi lá onde eu dancei

até quebrar os ossos

pela primeira vez


engoli o azedume e

fui cuspindo as sementes

na lixeira dos orgânicos

música, chuva e vento


um desaparecimento

parecia um espelho

sol e chuva na manhã


(Curitiba, 2011)

domingo, 7 de agosto de 2011

Canção para um pai hipnotizar um filho


visto de baixo para cima

um monstro cantarolava:


a gota de água quente

bateu no centro da testa

a pedra incandescente

saiu da boca analfabeta


a gota equilibrou parada

como uma verruga úmida

ficou onde queimava a ruga

eu fiquei sem comentários


eu fiquei sem comentários

arregalava as narinas


a pedra cenho calorosa

furo onde grela o dedo

a gota aguda ressecada

grito dito sem palavra


isso dito sem os dentes

um monstro de baixo pra cima


depois do travessão barbudo

do ato mito sem navalha

se brota sangue do adubo

o jorro puro é a gota falha.


(Curitiba, 2011)

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