terça-feira, 18 de outubro de 2011

Núcleo de Espetacularidades apresenta “Penélope Pileata”



Introdução às notas de ensaio de “Penélope Pileata”

Performance de Límerson Morales com Ale Galcerán



Duas situações interessantes: Quando o pensamento anda mais rápido que a língua, e quando a língua anda mais rápido que o pensamento! Qual é o pior? O pior é quando o pensamento e a linguagem andam na mesma marcha. Aí começa o tédio!

(Jean Baudrillard)


As experiências mais banais, aquelas do campo mais concreto possível, de onde seria um exagero e até uma limitação tecer considerações metafísicas e transcendentais, são as principais fontes de inspiração do Núcleo de Espetacularidades. O grupo foi fundado em 2006, por acadêmicos de artes cênicas, que tinham em comum a insatisfação com a sua própria condição de acadêmicos da área. Exatamente essa que seria a justificativa mais evidente de terem sido cooptados num grupo de teatro, o fato de estudarem teatro, acabou se confirmando como a mais importante fonte de frustração e de inspiração, ao mesmo tempo, em cada trabalho. Depois de cinco espetáculos escritos e dirigidos por Límerson, dentro do Festival de Teatro de Curitiba em 2009 e 2011, integrando o Coletivo de Pequenos Conteúdos, e as Mostra de Teatro da Fap, o grupo volta ao formato de performance solo na 7a. Mostra Cena Breve Curitiba.

Penélope Pileata é a o trabalho mais recente do grupo, com duração de 15 minutos, podendo ser definido como uma obra performática, que engloba o teatro, a dança e a literatura. Trata-se de um encontro entre um autor e uma fonte de inspiração, ou seja, uma celebração abstrata e figurativa da vida e da invenção da vida, e ao mesmo tempo um pacto com a morte. O autor é o diretor da cena, e a fonte de inspiração é a ave brasileira Jacupiranga, de nome científico Penélope Pileata. Existem duas espécies da ave no Passeio Público de Curitiba. Saindo da CEU um dia desses, após um ensaio frustrado de um trabalho anterior, onde apenas ele teria aparecido, o diretor acabou em paralisia diante da jaula da Jacupiranga. O fato de a ave ser nativa do estado do Pará, associado as idas e vindas do veto e da autorização da Usina Hidrelétrica de Belo Monte, imprimiu naquele momento posterior ao ensaio malfadado um aspecto inevitavelmente hipnótico. Ouviu o Xingu e o Tocantins: é uma celebração de despedida de P. Pileata, marcando a transição de sua condição natural para a sua condição teatral, isto é, em viveiros, reservas florestais, porta-retratos, caixas cênicas, copa de árvores cenográficas, circustancias, circunstancias, circunstancias...

A transição para a qual a cena aponta, através de menções e circunstancialidades, sempre reflete o estado do grupo, ou o estado oposto, ou o comentário que o diretor sempre acredita ser o comentário definitivo, até que seja encontrado (sem para sempre ainda). Existe uma necessidade de mudança, reavaliação e reinvenção vistas pelo grupo, sobretudo na relação de significado que o teatro estabelece com a sociedade. A burocratização, uma das principais marcas da mais recente geração que vive de teatro, pode estar deixando de lado, por uma questão de incompatibilidade terminológica, um dos fatores mais importantes e caros para a arte, do ponto de vista do grupo. A incompreensão como estímulo artístico, como fonte de inspiração, e como um dos elementos básicos para que ocorra a comunicação. Ao não saber qual nome dar para o que ocorreu naqueles instantes em que ficou paralisado diante da ave, o diretor considerou a incompreensão nesta que foi a primeira nota de ensaios da cena:

"Quando a comunicação deixa de se confundir com incompreensão, no mundo das artes, provavelmente pode estar acontecendo alguma coisa realmente mais perigosa do que a comunicação. O principal alvo de incompreensão, e conseqüentemente a principal fonte de inspiração, no caso do nosso grupo, são as tentativas mais pessoais de organização das experiências banais, as de somenos importância. Tudo o que é da alçada do menor, por exemplo, os atrasos de ensaios, as mudanças de elenco, as alterações constantes de texto e de marcação, os conflitos de egos, vaidades, idiossincrasias, isso que na história da humanidade nunca mudou e sempre teve o seu devido lugar, tudo isso nos é incrivelmente misterioso e fundamentalmente apto para material de cena".


"Penélope Pileata" - no dia 20/10, às 19h e às 21h
Teatro Novelas Curitibanas
Ingressos $6 e $3

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