segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Penélope Pileata - Notas de Ensaios




29/08/2011

tudo escuro. estou deitado, em paralisia. talvez seja a quase total paralisia. inclusive é isso o que espero. tornou-se insuportável acompanhar a paralisia de ontem trazendo a sempre absurda paralisia do hoje. queria ver o amanhecer pela janela, então noto que minhas duas janelas encontram-se embaçadas; não percebo o mínimo anúncio azul da manhã e me desagrada a ideia de perder o amanhecer. só mesmo indo até a varanda. só que para ir até lá eu teria que retirar os meus pés debaixo das duas almofadas que os mantem aquecidos. aliás não uso mais meias, porque meus pés suam demais, o cheiro vai para as meias, para as outras roupas e para a máquina de lavar.`meus pés concentram a experiência mais intensa de calafrio, suam e cheiram canela, e tremem às quatro e meia sem café.

30/08/2011

o catarro de fumante escorrido no joelho era meu. era meu arremesso, meu vôo, minha cara de joelho. será que é só gritar em silêncio, como quem ouve do berçário o choro de um viveiro, ou ela tem um canto secreto? ou ela canta mantendo os códigos em segredo? até aonde vai a caminhada senão até a repetição de um movimento? a repetição que também é um mecanismo do maquinismo do desejo. essa festa de despedida, para a qual estão todos convidados, celebrando a instauração de uma condição espetacular, celebra também a morte, como a fotografia-tiro-de-metralhadora kantoriana, ou apenas debocha de Kant, ou do canto onde agora eu não me escondo, de onde agora me encontro numa mirada irônica, cujo resultado é e deve ser melhor compreendido no icônico do efêmero que no efêmero do icônico. qual é a diferença?

cuidado com a cristalização das asas que respiram. isto é, com os púlmões que respiram pelas asas abrindo e fechando. para que o vôo seja um não vôo, é preciso deixar que as asas que protegem os pulmões se abram e fechem organicamente, num abrir e fechar de ossos que vá aos poucos sufocando os sensores com o fôlego renovado. no começo eram apenas dois pulmões mantendo um corpo em pé. depois de muita pele esgarçada no abdómen, no tórax, nas espáduas, nas pontas dos dedos, depois disso os ossos que protegem os pulmões já estão tão abertos que furam os olhos da plateia, muitas e muitas vezes.

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