terça-feira, 18 de outubro de 2011

Penélope Pileata - Notas de Ensaios


24/09/2011

a falta de segurança que eu sinto sobre o meu trabalho me leva a trabalhar dessa forma. é o primeiro elemento motivador da minha propulsão em trabalhar dessa forma, aquilo que em proporções extremas poderia equivaler a repulsão. a insegurança. deste ponto de vista, a insegurança sobre o trabalho é um detalhe, importante enquanto detalhe, e que me coloca na obrigação constante de driblar o meu desespero pessoal. eu me considero um obcecado pelo teatro que estou buscando, porque isso ainda é uma busca onde o "ainda ser" não é implicação temporal de qualquer coisa que venha a ser. essa obsessão é também um prazer, e é também uma paixão, e é também uma necessidade fatal.

25/09/2011

experimento cronometrado da minha performance de ave. eu quebrei a garrafa que eu usava como objeto pessoal da dança. uma passagem geral cronometrada, e uma livre apropriação dos impulsos iniciais ao som da matriz lusitana do povo brasileiro de darcy ribeiro. como se eu tivesse buscado hoje verificar as associações verticais e as associações horizontais que me relacionam a cena. a parte que compete a mim na cena-performance penélope p. a verticalidade seria a passagem geral da performance, o principal trajeto, as insinuações de movimento e dança mais essenciais da performance, sendo elas: a imersão num outro estado físico de presença, a relação com a garrafa quebrada (cuello) e a despedida (tchauzinho). a horizontalidade seria o conjunto de associações internas que eu faço com o trabalho, compete ao plano invisível ao público, diz respeito ao instável, ao que é suscetível à passagem do tempo, ao work in progress.

26/09/2011

é como entrar em contato com outro idioma, e a partir daí perceber que altera a relação com o idioma de alfabetização, acontece alguma coisa. essa alteração consiste na contaminação dos dois registros colocados em contato, percebe-se os dois (ou mais) como uma coisa só, da qual não se distingue a origem. os idiomas em si permanecem nos seus lugares, e circulam juntos nos registros de uma pessoa, ao ponto de a palavra hincapié deixar de ser a mesma, embora fixada firmemente num vernáculo. a ponto de os dedos da mão esquerda, esticados como estão agora, um cigarro aceso entre dois deles, também se esxsxstendem até os instantes em que eles inteiros eram as unhas dos pés cravados na terra, e as penas das asas abertas que escapam, e as penas que escapam do pescoço (cuello), do lado de dentro e do lado de fora.

29/09/2011

dois idiomas, uma duas ou mais qualidades de movimento, que só se colocam em relação dentro de um ponto de vista. o ponto de vista, seja qual for, trata-se de uma premissa, uma condição sem a qual não. sem a qual não haveria um abismo, mas apenas uma evidente contradição aparente. o abismo entre a linguagem e a vontade de dizer, que coloca, por exemplo, qualidades de movimento em relação, uma relação que de chofre seria impossível. que no plano prático é impossível. o mesmo plano prático onde se afirma para si mesmo diante do espelho "tudo é possível". só existe na criação, só existe na vida considerando o princípio da criação. e se alguém saltasse de um registro até o outro só desfrutaria da trajetória em questão, cujo fim e o começo, partida e destino, seriam aparatos meramente insinuados, induzidos pela artificialidade dos contrastes.

Nenhum comentário:

Pesquisar este blog