quinta-feira, 17 de novembro de 2011

subindo o morro do bela vista





na casa onde os meus pais moravam, onde os meus avós já moraram, até que um dia eles trocaram. vejo meu pai na garagem. ele liga o motor de alguma coisa que faz barulho lá no fundo.

ele também abria a geladeira, dentro de casa, na cozinha. eu o chamo por cima das lanças do portão. quem me atende é o da garagem. eu mostro pra ele quem está na cozinha e pergunto se é possível.

ele também se assustou, imitando o meu susto, da maneira como eu aprendi a me assustar. o dedo traçou uma diferença temporal. entrou em casa. tenho certeza que escutei ele perguntar quem é.

era ele quem voltava até o portão, e respondia por cima das lanças que sim, que era possível. o motor de alguma coisa fazia barulho lá no fundo, eu me senti em casa, vendo do lado de fora.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Se o fade out terminou


Depois dessa equipe, depois desse dia, os próximos dias, deles em diante, não convem exagerar, nem colocar por baixo a importancia, nem considerar a necessidade de retomada, nem incentivar o desleixe integral integralmente, porque depois desse encontro as coisas só poderiam ser feitas por amor, e o amor é terrível, então me parece impossível, e como me inspira o impossível, na alçada das motivações primordiais, um bom motivo para acordar, os objetos permanecem nos seus lugares, a janela não abri, não abri a janela, quando amanheceu eu apenas me levantei, e apenas continuei, pensei apenas que haveria como equacionar, apenas pensei, que equacionando eu poderia colocar as coisas como que num mosaico, apenas um mosaico de onde fosse possível uma mirada, uma jornada apenas, e se for apenas isso

Daquele diretor de teatro que daquela vez o dirigia enquanto a morte se aproximava daquela vez, daquele momento em diante portanto bastaria mudar a temporal que a conjugação naturalmente se modificaria, como acontece naquele campo do conhecimento, qual é mesmo o nome daquela cantora, aquela cerveja que vem com bombom dentro, que se arrastava no chão entre os retalhos, eram pedaços de fotografias os lugares reconhecidos, entravam em choque porque enquanto os reconhecia, um líquido quente subia via esófago, quando saía pela boca era fumaça ao redor de entre, ao redor de entre não, subia em refluxo e isso todo mundo conhece, os lugares reconhecidos são suas chuvas de verão, veja os contos de borges que quando reconhecidos em lugares quaisquer costumam tornar-se tormentos

Desde que aquele braço me puxou, aquele braço me puxou, daquele momento em diante, desde que aquilo de me tirar, de que aquilo de uma coisa se transportar não se confunde com uma mudança romanticamente vendável, e se assim posso dizer contraditoriamente confunde-se sim com um vendaval homericamente vendável, eu escutei rangerem os ossos daquele braço que me puxou, eu escutei aqueles estralos fatais facilmente reconhecíveis, ao longo de um tempo, daquele momento em diante, acumularam-se camadas interpretativas, em que ao acumularem-se-me esboçaram esferograficamente uma espécie simples de sofisticação espacial

Desde que o arco investiu-se em suas envergaduras, envergonho-me ainda das minhas primeiras desculpas, mas não é o caso de iludirmo-nos com os benefícios da elucidação, na medida em que aquele arco expressivo se fechou oprimindo os primeiros componenetes que encontrou de um lado, como uma lua, uma porta entreaberta, uma mão entreaberta, e nada mais do que rascunhos em folhas pautadas do grito que desde que aquele instante não encontrava o seu remetente, e não fazia o caminho de volta, na medida em que desde então o arco expressivo encontrou aqueles elementos entre si no seu movimento de envergadura para um lado, distanciou do outro lado quase imediatamente oposto um joelho que já se articulava com dificuldade, um dia inteiro de lástimas no campo das decisões pessoais, junto de uma série de erros pequenos no campo da capacidade de diferenciação, isto é, deixou distantes entre si os elementos componentes do campo da dúvida e as somatizações de angústia sufocadas na indecisão do joelho esquerdo

Ele me viu. E nunca foi tão recorrente. As minhas quedas, no corredor antes da escada, enquanto não chegavam os microfones. Desde que essas camadas se sobrepuseram, desde que aquele arco, desde que isso, desde que aquilo. Ele me viu. Desde sempre, enquanto atravessávamos os morros à pé, enquanto atravessava o astro rei à pé, enquanto atravessava um dos piores pesadelos, à pé, como surgiam os planos mais importantes das nossas vidas para aqueles momentos, aquilo tudo será esquecido como o reflexo ressequido de um último pensamento num ciclo de vida, um último retrocesso a uma crise de sono, que embora tivesse retomado o seu ciclo, não teve corporiedade suficiente para que a espécie mais caricata de olho externo encontrasse satisfação, e consequentemente devolvesse em prazer, em prazer pelo trajeto e as trocas dentro do trajeto, que são pequenos prazeres, dentro de pequenos trajetos

Antes daquela apresentação, desde que houve aquele antes, o que é fundamental para continuarmos de agora em diante, é fundamental que atentemos para isso, o que é importante desde que consideremos o que houve naquele antes, porque daquele momento em diante começavam as primeiras considerações aquele respeito, seguidas das primeiras interrogações ao respeito das considerações, seguidas de que é muito provável, mas sei muito pouco como o faria, que antes daquela apresentação não se sabia como se desculpava pela falta de clareza na proposição como um objeto que se pega, e que desde então quando eu propunha maçã eu não propunha uma maçã que se pegue como uma proposição de um objeto que cairia caso não fosse pego, que o desde então afinal de contas trata disso, de distinguirmos a falta do excesso de clareza, e convivermos com a impossibilidade da visualização absoluta e integral como fundamental aqueles que empiricamente calculam a tendênca térmica no começo de um dia

Como se o que pode ser pego com as mãos, e protegido dos percalços e dos efeitos naturais, fosse decididamente algo mais claro, como se fosse uma questão de uma única pessoa que estivesse decidindo, como se perguntar tantas vezes qual palavra vem antes da que vem depois, e trocar setorialmente ao longo das frases por puro desejo erótico, sadomasoquismo estratégico, como se alguém estivesse tomando decisões, com as mãos no pescoço e diante de uma câmera, com as mãos no rosto e diante de uma câmera entre um diretor e essa pessoa, essa relação de suposição como se estivesse sendo feita por uma pessoa, como se uma única pessoa houvesse entrado ali e pedido a única mousse de maracujá naquele único dia quente dentre os últimos cinco dias, e uma garota saísse da sala incomodada com as cotoveladas investidas contra o tronco ereto, e os estrondos produzidos pelos pés em movimento coordenado com o bater dos pratos contra a parede da esquerda perseguissem essa garota, obrigassem a garota a procurar se distrair com o que tem que fazer enquanto troca dois vernáculos por um final de tarde em silêncio

Complete a frase, complete a frase sem utilizar um palavrão, complete a frase sem repetir a frase, ele me viu desde sempre com os braços no seu sempiterno serpenteio, tentando sufocar o quadril como se fosse o pescoço, porque é pelo quadril que o ar passa, e não pelo pescoço, e aquelas coerções se repetiam tantricamente sobre o trajeto tétrico da serpente, no campo em que os braços inalcançavam, um instante onde a experiência de estar vivo naquele contexto era a única coisa importante, é a única forma de segurarmos entre as mãos como se pudéssemos, a única forma na experiência de uma maçã, uma banana, uma medalha, um amuleto, uma pessoa, um amuleto, uma pessoa, e por aí vai, até que enfim chova, até que enfim o que o vento move finda em fécula, e fenda em morte, e fenda em fécula, complete a frase com uma fruta na boca, e uma garrafa na boca, e uma fenda na lingua, e uma alegoria a oferenda entre cada boca de cada greta

Vocês são os responsáveis, ele diz, olhando para o público, mas apontando para baixo, quase que para a boca de cena, ou talvez a primeira fila, a que foi mais diretamente atingida por perdigotos da frase, e da risada ridícula, porque ele riu depois de dizer aquilo, como se ponderasse toda a importancia castradora e a implicação genital, e toda a implicação social, e toda a implicação cultural, sem chegar necessariamente a conclusão alguma, ele justamente não ia muito ao fundo das questões, nós somos os responsáveis, disse ele, não interrompendo diretamente a risada ridícula, mas através do efeito fade out incidindo sobre o próprio ridículo, numa saída nada sublime, dado que quase antes do riso sair da arcada o queixo tornou-se quadrado, a sobrancelha arqueou a testa arabesca, pálpebras firmes e retomou, vocês são os responsáveis, novos esgares de risos dessa vez ocuparam o lugar da ridícula risada, gargalhou em fade out e voltou sem que o público pudesse se certificar, e ficou no ar a pergunta, qual fade out terminou?


(Essas fotos foram tiradas pela Tamíris Spinelli, durante a apresentação de Penélope Pileata, Núcleo de Espetacularidades, Curitiba, 2011)

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