segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Exorcismos de Efemérides


Extravia


todo mundo estava vendo o sussurro decolando em balé ritual evocativo

o indicador ao redor do bico traçava com a ponta no mamilo as mais distintas dentre as mais tremendas espirais

o trajeto percorrido repetidas vezes na pele amacia a glândula da órbita porosa que trejeita um gesto e acompanha os olhos de cada quadro de cada esgar alguns acham graça quando surge humor que não se pertence

chora o leite derramado sobre o ramo deleitado o rabo levantado rebolava fustigando a pele friccionava a lata gelada no irriga vasos o cheiro das folhas chacoalhando coaxava as mãos nas coxas uma foda rápida com os olhos fechados os globos orbitaram ciclos orientais de cílios postiços de uma tribo interpenetrável

a audiência ali paredes sofás livros e as geografias afetivas em escalas richter

eles estão protegidos verde enrubescidos embaixo da membrana derretida um núcleo espetacular cujas têmporas também abertas permitindo eivando a seiva vibram as veias silvam decassílabas embarafustando na sombra lembrada de luz entrecortada em levante numinoso eles se reduzem ao mais implosivo do implora aplausos

pense na preguiça que daria se a dodecafonia definisse a notação de pelos apenas pelo arrepio a própria pele acaricia então a agressividade e então daria uma bofetada e deixaria em (e/ou) a cena essa carta bomba que se extraviaria na exaltação do remetente essa carta bomba seria um exorcismo de extravia




Exorcismo de Efemérides

caminhões, homens, ou pequenos fortes, e paióis, crepitando e sustentando os potenciais. escrúpulos e poderes de toda ordem ora admitidos como ardências de longo alcance, são feitiçarias tais quais fechar as cortinas. inescrúpulo é uma palavra que não existe.


olho bem para a estrada conferindo se poderei escrever naquele caminho daquela direção em diante a palavra escrúpulo. vácuos vestígios de vírgulas velhacas para evocar o equívoco histórico universal e só encontrar os pentelhos espalhados pelo branco piso frio onde os pés acordam flechados de ritmo.


o grito de reconquista duma nuca exorciza efemérides . língua para nervo lúbrico de sussurro em lua crepitante. esta é a decapitação de uma vídeo criatura. a autópsia do meu corpo de baile cavernoso causou-me um calo fálico. diversões eletrônicas adormecidas no deserto in land empire de Bauru despertam o ciclo em círculos.

(Dezembro/2012, Bauru)

P.S.: Os registros da performance Trauma Cha Cha Cha, realizada em 02/12 em Bauru. Nesta performance eu pisoteio e faço uma trajetória espiralada sobre folhas arrancadas de cadernos pessoais com escritos diversos dos últimos 10 anos.

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

"Elogio da crueldade revolucionária" *



Um barco furado no meio do deserto
Um buraco, aberto aos navegantes
Mas aviso: não é como era antes.

Os transgressores de cafeteira elétrica
Trocam açúcares e burlam porções
Amotinados no cultivo gélido
Arredio e escorregadio.

Dentre os movimentos movediços intangíveis
Passadiços tropeiros de terras interiores
O rosto encrespado esvai  pelo furo:
Outro minuto vira a ampulheta.

É o falso risco árido do riso falto calorífico
Na partenogênese da partênope iconoclasta
O gesto de esganadura no rosto hieroglífico
Desgaste do amor-ideia uma língua captura 
O trecho inabitado no novo já imergente.

Desconsiderasse a pedra desértica em estado cru
Mas agora ela não me acolhe e nem me ignora
A vastidão de vultos e os contornos ocultos
Por avistar e por desbastar
Por hora são apenas ataques de sono e de susto habituais.

*Extraí a frase que da título ao poema desse texto de Marcelo Coelho sobre a peça Acordes, publicado na Folha de São Paulo. 



quarta-feira, 10 de outubro de 2012

sem sementes


a ira da margarida árida engana o girassol obtuso

em torno da mira em que a pomba gira a gaia

o engodo do sol engolido pelo meio


se o céu do bolero que leva sem sementes

lava com urina o solo que velo acima do zelo zen

também suspiro e profiro  inclinações horizontalmente


mas o punhado de terra durante o canto causa sêde

o broto aquecido da nova ancestral emerge

e aperta a unha no dedo que me acorda

terça-feira, 9 de outubro de 2012

a tríade tétrica satírica


três gotas menstruais

caíram sobre meus versos

os meses do bairro silenciaram


três gotas plenilunares

o telefonema entre seres noturnos

calando... indicando... orientando...


diante e dentre três saídas idênticas

encontrei uma senda magnética

uma tríade tétrica e satírica


e desde quando  isso me ocorreu

toscanejo em versos, mês e pó

zero em vozes da noite grão


três latidos gotejantes

sobre o breu na brisa latente

calavam... indicavam... orientavam...

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Aquela Cidade


Aquela cidade onde ainda é escuro e venta é onde abro os olhos.

Tomo cuidado com a pele, as luzes e os despertadores.

Não quero que descubram aonde pode chegar.

Quando chego até ela pela madrugada

só me lembro dela quando venta.


E quando o vento fica em silêncio eu me levanto bem lentamente

fico parado mas não sai nada sobre.


Aquela cidade é o berço sobre o qual me debruço,

e um abraço ácido sobre o qual me debato

o excesso de luz sobre ela me confunde

ao abordá-la perco um pedaço.

No árido onde ninguém sabe que venta

em dado momento suspendo minhas atividades.


Aquela cidade da qual me ausentei

sob a plêiade das luzes de sódio

atravessa pelas veias abertas

em movimento é horrenda

aquela cidade está certa

ornamenta as origens doloridas

a vala onde resvalam raiz e sêmen

parafina paradigma de um sangue.


Aquela cidade presenteada com estradas

onde surgem novos shoppings presenteados

com estradas de terra e veias vinte e quatro horas

dentro de órgãos pulsando vinte e quatro horas.


É lá onde estou em movimento

as duas mãos dos membros ocupadas.


Aquela cidade fertilizada com pesos

e pontos dos quais eu não me esqueço

e não evoca melodiosas glosas nem verso nem vácuo

no vão entre até então espero que haja mais espaço

naquela cidade onde morri e retomei o compasso

com gestos rastejantes de certo preciosismo

a vida genuinamente impossível e mística

dançada e espiralada dos quadris.


Aquela cidade sem abajur acabou para mim

coloco as duas mãos no rosto que se transforma

quando venta no escuro o rosto se transforma

em pedaços de pássaro e folhas secas de carne

amalgamadas em persona de mulher tropical

disfarce do qual aproveito cada silhueta

deitado no peito da ânima daquela cidade.




eletrocutado


um choque percorre meu eixo e explode em facetas libertárias excretoras de baba

em gotas da escuridão lúbrica tidas como objeto de desejo de uma mata fechada

cada pedra nomeada com designação de parentescos apara as arestas e abraça

ecoa de cada memória escrita um alumbramento expressivo da oralidade

pela suspeita extasiada da ameaça e da presença que tem corpo

o corpo de um instrumento musical intencionado de madeira

uma história que conta, que canta, que dança e silencia

em sua quimérica e efêmera vontade de ruptura

o tigre dos meus ombros desliza pelos dedos

envelhecendo em estado de magia

Curitiba com Filtro


as gerações com unhas postiças

cravadas em solos férteis e excludentes

a história do extermínio em porções maciças

de lembranças desproporcionadas

posicionam-se no frigir de elásticos

um temporal de pupilas imanentes

fertiliza a fisionomia circunstancial

circunscrita na pangeia incrementada

escuta o latido latente destroçando o tímpano

que engorda e sapateia na febre de um trópico

brinda ao efêmero que já não conceitua

e escapa de mais um atropelamento

terça-feira, 11 de setembro de 2012

Trauma Cha Cha - Ensaio Aberto com Macunaíma Extático sob a Nova Lua


Trauma Cha Cha Cha - Ensaio Aberto com Macunaíma Extático sob a Nova Lua from Límerson Morales on Vimeo.


Trauma Cha Cha Cha - Ensaio Aberto com Macunaíma Extático sob a Nova Lua
DOMINGO , 16 na Casa Selvática

O Núcleo de Espetacularidades convida o público pela primeira vez a um ensaio aberto. Trabalho de cura e abertura de caminhos da cena Carta pras Icamiabas, um dos resultados artísticos previstos no processo, com apresentação marcada para Outubro em Curitiba.

Trauma Cha Cha Cha é um work in progress, motivado por inquietações, proposições e intuição em torno das dimensões performáticas nas atribuições do encenador-autor.


Sinopse em movimento da cena:

O balé trauma lança dados polivalentes no estado de tocaia diante das armadilhas de um procedimento de cura. Sim, a cura é uma armadilha onde são re-caracterizados os atores da montagem de Anti-Nelson Rodrigues. Eu não o levei a sério, não terminei o orçamento, e depois fui currado. Quando voltei para minha terra, as fábulas já eram polivalentes, e as homogeneidades ambíguas estavam montadas num cavalo ao contrário.

Corpo do Balé Trauma:

Ricardx Nolascx
Stéfano Belo
Guilherme Marks
Ailen Scandurra
Ailime Huckembeck
Danielle Campos
Límerson Morales

segunda-feira, 25 de junho de 2012

Trauma Cha Cha Cha - Segmento de Solilóquios



Solilóquio 1

NOT I: Tudo começou com escuridão na maternidade. Antes da escuridão veio a maternidade do antes. E as conseqüências funestas fundadas na cócega embaixo da pálpebra. Muito pouco equilíbrio o suficiente. Pelo máximo homeopático estupefaciente em parturientes audições eu vento. E vindo de cada janela fendas. O furo geométrico na parede erguida do corte epistemológico era o crivo da janela fechada. Café e cana de açúcar? Fedor de eucalipto na fábrica de desinfetante. Não, eu não trago reclamações disfarçadas de pareceres. É fato que eu reconheço expressões de perecimentos em suas naturezas diversas. E me afeto. Eu não entendia o porquê de tantas viagens que fazíamos sempre para o mesmo lugar. Algumas limitações sempre foram as minhas mais importantes motivações. 

Solilóquio 2

Um quarto. Dois meses depois. Um palestrante enfático imerge em estados de êxtase, e oscila. Como a janela estava aberta, os sons da rua invadiam agredindo, susto com diálogos ilusórios, e imersão na dúvida. Cada carro que passava com o som alto fazia ele dançar. Durante os quase silêncios alcançava arrepios. Foi quando a palavra quarto adquiriu um novo formato em seu pensamento. Adquiriu um peso intolerável e o seu alívio correspondente imediato. Não chegou a escorrer a lágrima. Acionou o inseticida contra dois insetos que passavam. Gostaria de saber o que os atraíam porque era intrigante. O melhor céu estava ao seu alcance. A melhor posição em relação à Lua. Para que a palavra quarto tenha se transformado num significado, numa vertente temática, afetada de vetores portadores de portas, precisou que chovesse gelo contra o vidro da varanda no primeiro dia. Na frente do espelho, atrás da cortina, uma nuvem dançava, passando de arco voltaico a vulto branco eivado de vazio cinza. Nuvens passavam sobre todos eles. Um grito, depois de tudo, quando os três já haviam atravessado a rua. Um transeunte da urbe que pegou um saco com o par de tênis encostado no poste. Tirou um dos tênis, jogou no caminho. Tirou o outro pé e jogou no caminho. No auge da transitoriedade, encontrou três outros transeuntes. Abordou um deles, enquanto os outros caminhavam mais devagar, olhando discretamente para trás. Conversas inaudíveis com oscilações tonais.

Solilóquio 3

Olho além dos arabescos depauperados e alcanço o vidro da porta. Não é muito longe. Com um pouco menos de esforço noto uma planta que floresce num grande vaso do outro lado. Eu tinha dado as costas para a chuva que alcançara todos os nossos esconderijos auditivos. Além dos arabescos depauperados fiz uma pergunta em desencontro. Ela alcançou a pedra da pérola do teto de vidro com a mão. Não a lâmpada, mas o texto de vinte anos atrás. O mesmo texto de vinte mil anos atrás. A paixão provocara os movimentos às cegas iniciais. Eles trouxeram cegueiras e vislumbres eivados de enlevo. Não importava o que era levado, o amor alcançava cada estímulo nervoso. A tradução era feita em onda, em arco vibratório, em dança de contato. Na transição de estados de atenção, nos orifícios secretos de portais incrustados na mitologia do corpo, nas arregimentações transversais de somenos importância os problemas de nervoso. O arrepio no dorso preenchia os braços para frente, os dedos longos no rosto gordo.

A cura é uma armadilha. Um passo além dentro do medo. Um passo no medo da continuidade de uma coisa cadavérica de cada vez. Disseram-me que há gente sendo feita o tempo todo. Nesse ponto, a continuidade entre decepção e tentativa parece um fenômeno evidente. A intensidade, o medo, a cura que tangem o processo budista da desfaçatez.

Solilóquio 4

Eu poderia ser fotografado naquela posição. Esta relação de exposição me excitava a incitar-me este desejo secretamente. Selecionando preferências com os braços no balcão. Afirmando modelos, na tentativa sádica de devorar os códigos, em definitivo. Os presidiários apóiam os braços para fora dos portões. As mãos nas grades posicionadas como adereços andrajosos ofereciam cinzas na manifestação do colorido poluído. As mãos eram toda a dor do mundo. A condição de exposição ao caos, e suas incidências, sobre a urbe o proto e o gesto. Até agora pouco eu quase me esqueço, e me pegava retomando a mesma relação de grade, pendurando-me no limite.

Eu poderia me estrepar, deixando cair um ou dois membros no meio do trânsito, atingindo tanto as pessoas como os carros com meus membros em despedaços, afetando-os dos interiores aos arredores, incitava-me eu mesmo com excitações secretas. Afetou-me o baço ontem. Um dia inteiro dedicado à função nenhuma, disfarçado de horas de trabalho, devotando melancolia e vômito. É que comi. Ao começar o jantar notei que havia um corte no meu dedo. Não dei conta da profundidade. O que me alarmou foi a retidão do corte na pele, a discrição do alarme, a sirene passou como um despertador por engano. Incomodou o outono nos contornos da cebola. Meu olho lacrimejou. Meu olho lacrimejou. Meu olho lacrimejou. Caminhei em linha reta, indo e voltando, repetindo o lugar num mesmo percurso num mesmo lugar. As linhas retas afetaram as manifestações transversais. O susto adjacente atirou-se pelas janelas abertas. Ao lado os espelhos sem cortina cuspiam tanto que acabou meu pai.

Silolóquio 5

Atenção, a felicidade sempre foi. A felicidade, certamente. A felicidade, instaurada no corpo de um lar, no corpo insular. Insuflada de peninsularidade, a felicidade é uma idéia dolorosa. A irrigação peniana genitalóide, arrebatada do e pelo ingênuo ingênero, não decifra a peninsularidade do significado. É insignificantemente intrigante. A demasiada inversão até o nada tornou a soar com o tom da absoluta encenação: a mendicância de sentidos na condição aniquilada da mendicância de recursos. A faixa dos ciclistas é vermelha, tem cruzes distribuídas no cruzamento. O que me assusta é a Lua da André de Barros.

Velo de ojos por los cuales parpadean las horas aburridas del médio... Lejanías mirables por las todavía no extrañadas suficientemente... por las ventanas todavía no abiertas mientras despiertan cierran hacia el medio del miedo en el todavía no extrañado suficientemente... Las lejanías mirables son las hojas en su parpadeo...

Esse gemido adolescente deve ser emitido enquanto se faz caso batendo os pés no chão ao som dos tacos marcando meio tom acima da normalidade até estourar a estrutura envidraçada dos espíritos instaurados tais quais os alicerces mais desnecessários de um pensamento caducado e carente, sem amor e sem poesia. Eu tenho saudade do lugar onde eu moro, e morro de ansiedade para produzir uma lembrança de deleite.

É por isso que tenho o mesmo marcador de página até hoje. Este que está até agora aqui, e que desde então tenho utilizado. Um pedaço de guardanapo de papel, escrito: um passo dentro do medo, a cura é uma armadilha. O mesmo, até hoje: os seres da redação ainda me parecem de um certo dramatismo traumatismo e têm não sei que toque de alucinatório.

Solilóquio 6

O que mais me incomodava naquele organismo aberto de afetações devia ser a escola de inglês cuja janela ficava bem na frente da minha janela. Uma janela com pessoas trabalhando dentro, exposta a uma janela com pessoas morando dentro fora. Ocorria intensa circulação sanguínea ali nas minhas coxas. Eu coçava e naturalmente surgiam pequenas bolinhas brancas na pele vermelha. O bi-articulado colocava-se na sua via que era específica à sua sujeira. Naquele ciborgue, irrigado de temporalidades fragmentadas, eu morava secretamente através de uma evidente experiência de traumatismo cronológico. A cronologia urbana, distribuição espacial de desigualdades, padrões em estado de fraude evidente, evidentes fluxos de vida, comércio, impermanência, e agressão de todos os tipos. Daquele ciborgue eivado de esvaziamento que eu falava. Fazendo parte daquilo, era como se eu sempre me despedisse.

O que está escrito aqui? Eu não vou repetir a pergunta infinitamente, flor de obsessão. Flúor é uma geléia nojenta e alienante na boca que baba. Toda essa provocação é insana. Quer dizer, provocações insones. O sono vem e vai, em todo momento. Dormíamos demasiado durante aqueles que foram os agora chamados últimos dias, e desejávamos muito pouco o estarmos acordados. Estamos oscilando demasiado sob a ótica alucinada de uma abordagem plural da emissão omissiva. Tanto é que se pronunciou essa cavidade de dentro pra fora. Essa concavidade com vértices convexos que do meu ponto de vista chamo de ponto entre arestas. A dança da fresta entreaberta. Convites antecipados. Eu vou estrear na noite, no melhor do rebolado. Os corpos parados não perdem, os corpos mortos lideram. Pronuncia-se uma concavidade.

Cuidado, não vá passar a borracha na folha em branco, alertou-me recordar-me de quando vivêramos em tantos sem tamanhos desencontros sem importância. Foi só uma bela passagem. Se coubesse poderia desenha-lo se soubesse. Em seus trajetos ocorreram transições e desaparecimentos. Utilizou-se muito o recurso do desmaio. Uma vez que ele se comunicava por gestos, despediu-se balançando a mão. Quando éramos presentes era melhor que sem ninguém, e no presente eu pensava: Passeia, mas sua. Fazia tempo que ele era um sonâmbulo.

Eu gostaria, portanto de chamar a atenção para uma seqüência de sutilezas, que para serem percebidas necessitariam da indiferença, da ignorância e da escrotidão. A alquimia da alegria aponta, dentre muitos dos seus caminhos, para este recurso. O desmaio da boa vontade pessoal em nome de uma rede impessoal. As impossibilidades de convivência que são evidentes, e evidências da necessidade de invenção, e evidências de que pouco tem provocado algum significativo efeito estrutural.

Solilóquio 7

Um passante da rua me olhou enquanto passava. Comentou com a sua companheira, uma passante: “ele não sabe, mas está sendo filmado”. Isso me assustou quando percebi. Teria eu ouvido aquilo de fato? Uma vez que ouço, vejo, sinto os cheiros, e sinto os gostos, como um objeto em experiência singular. Será que ele quis dizer que eu estou sendo um objeto de estudo? Uma equipe fotográfica tem registrado cada impulso e calculado. E eu começo meramente a me excitar lembrando o quanto era calculado. Ele dizia:

Estou delegando alguns palpites segundo minha intuição e minha percepção. O anti-nelson rodrigues que vou encenar será e conterá um anti-nelson rodrigues em erupção, um trauma referencial inoculado, que estaria acontecendo simultaneamente ao original. Coreografia de duplos, oscilação de personagens entre cada dois atuantes. Algumas narrações de macunaíma poderiam ser reconhecidas em passagens específicas de momentos fronteiriços.

-  e então, nós somos sedutores.
-  isso tem me assustado.
- calma, cuidado, atenção; esta informação é tão nova para você quanto é para mim. estamos aprendendo a lidar com isso, digerindo cada vez melhor este fator.
-  somos sedutores.
-  assusta-me que ainda façamos isso dessa maneira, não acha perigoso quando alguém diz “nós somos” alguma coisa?
-  digerindo cada vez melhor até o estado fecal.

Adquiri um estado de silêncio profundo. Um estado profundo de silêncio. Um estado de silêncio profundo. Profundo foi onde começou o rebolado. O aspecto espiral em excelência. Inspira e expira pelo nariz. Emanavam contornos violetas ao seu redor. Carimbava perfis, figuras-fundo. Despejava em relevos as camadas gustativas da atenção. Dialogava com os paralelos extensivamente perpendiculares. Além de expressar o espírito de gozo e raiva quando o espirro saía. Quanta maquinaria cênica... Elaboramos tantas compreensões de dramas pessoais, que quase colecionamos a nós mesmos. Ao redor de objetos da simplicidade mais desconcertante e arrebatadora, o que gostaríamos que fôssemos, mas não podíamos admitir que o éramos. Era o que nos restava fazer àquele respeito. A esse respeito os ladrilhos espatifaram na cara dos cancionistas. A cerâmica em pó irritou aquelas privilegiadas retinas, esborrando as fronteiras entre pupilas e pupilos.

Solilóquio 8

Não, eu não sou mineiro. Eu sou minério. Quer dizer, eu minero. Eu me nego a escrever mais um projetinho. Eu me nego. Não, eu não me nego. Eu não me nego. Eu não me nego. O torpor do sono é meu melancólico despertar sagrado. Fiz com que um manequim andasse de bicicleta pela cidade no meu lugar, para que eu pudesse estar aqui agora. Na presente condição de coleta indeterminada. De certo que se dão translúcidos percalços nos cascos dos espíritos mais transeuntes, mas não é só porque parece que é de tudo o que cola no seu espectro pegajoso que não exista critério algum, nem tenha que existir, nem tenha que existir falta de.

Solilóqui 9

Estava levando minhas coisas para outro lugar novamente. Uma parte delas já estava lá. Na verdade, o que está acontecendo agora, é que tento entender. Novamente. Na verdade, contei que ia subir e descer as escadas seis vezes. Descer e subir. Exauri-me em tanta decodificação, em tantas decifrações, em tantas dissecações. Ocorre que esta situação tem tantas pontas e tanto alcança quanto escurece tantos focos. Precisava estabelecer um começo para que pudesse haver continuação.

“Tão superficial quanto Nietzsche”, quem foi que me disse isso mesmo? Esta situação. Não acreditava que eu estivesse voltando. Embora eu estivesse levando minhas coisas de volta, eu não entendia aquilo como um retorno. Apenas se vai, não é? Ou melhor, é em movimento que as coisas sempre aconteceram, não é assim? Não é assim, isso deve ser sussurrado, como um bordão bordado em preto e branco. Eu estava tenso de felicidade. Logo que eu cheguei era um dia à menos que eu ficava ali. Comecei a entender que o que sei passou a ser o que podia ser percebido como vivo e perecível. Comecei a desconfiar, e a ter certeza de que desconfiava.

Eu não estou falando de nós como uma teia, eu estou falando de mim como um atrelado de teias. É mentira. Se o que eu estou falando pudesse ser lido com a inclinação menos melancólica que a minha própria disposição espacial em relação a informação, que por sua vez coloca em relação a informação falada, a informação lida, as impressões das minhas inclinações estaria salva dos segmentos detratores da experiência de leitura. 

sábado, 23 de junho de 2012

A Prática do Saudosismo Performático


O que me incomoda e ao mesmo tempo me entristece é a minha indecisão. Não, o que incomoda e entristece na minha indecisão é que não é minha indecisão, mas a decisão que eu tomar. É a decisão que eu tomei que não é. Nada demais, além dum furo no tempo que se insere no curto acontecimento da decisão, prolongado como um enredamento continuado. O que me entristece nessa indecisão é que me entristece a decisão. A insinuação no desenho da opção, considerando como esboço desses vestígios, as reações que obtive como resposta. 

Quando detive o próprio desenho da decisão, a opção sendo considerada, tinha um aspecto positivo inegável. Eu me detive nesse aspecto naquele dia em que estava deitado com tamanhos comprometimentos. O que me fez lamentar a opção provisória de voltar é que pareceu essa a opção menos lamentável no meu horizonte. Ao lamentar a perfeição dessa decisão, teci ponderações sobre as inúmeras vantagens envolvidas. Nisso eu fui perdendo a capacidade de expressar a decisão, e também o movimento tão importante que essa decisão acarreta. 

Determinado movimento de acordo processual no qual a associação de imagens configura um campo de probabilidades contagiosas. Despertai as ilusões das interações com as dinâmicas dos despertares. Sempre o mesmo despertar que vai dando a impressão de que não está fluindo, vai dando a impressão de que já fluiu melhor, e vai dando uma série de impressões à partir daí, sendo que uma parece anular a outra, conforme estabelece na verdade uma relação perversa de composição. Assemblage imperfeita de perversões.

Acredito que caso eu possa retomar a sensação de retomada indefinidamente: à partir de agora. Ou aliviar a impressão de que algo foi perdido: Exegese apologética da indecisão em que há um corpo vibrátil. O alento está arraigado em vivências trôpegas do que passei a chamar de condições da convivência: todas sem órgãos. Retomada do fluxo imagético-fantasmático: tanto tem invadido a pós-dramática quanto tem evadido da pós-traumática. Perseguição da intensidade do parto pós-traumático. 

Acredito que caso eu possa retomar a dimensão onde me colocava em relação a decisão tomada outrora ou considerada conforme: mais ou menos como você fazia. Retomando sempre o saudosismo performático que inventamos na kitnet. E seria além de tudo um tipo de dar de ombros, sendo mordido por um lagarto, dando a nuca pra varanda e pegando brisa na tatuagem.

L.

quarta-feira, 13 de junho de 2012

Trauma Cha Cha Cha - Manifesto Inacabado de Certo Repúdio Galináceo a minha própria Lira Saudosista


 
Abanei a rigidez das mãos. Abanei a rigidez das mãos esfaceladas. Sacudi como duas tábuas tentaculares as tentativas dos pedaços de madeira, sem peso algum, mas com certa rigidez que eu abanei. A rigidez da mão sangrando. Abanei a rigidez das mãos sangrando e os ombros também esguichavam nervos mnemônicos de músculos adormecidos. Memória da cloaca muscular, não, Memória da crosta muscular, não, Memória da couraça coroca que o que posso dizer é abanar os dedos no desenho de um leque, manifestando certo desapego na pulsão sacudindo as mãos.

Não posso dizer que saiba o que era aquilo que eu via escorrer das minhas mãos que eu sacudia. Não posso dizer mais nada. Estou ficando sem respostas. Chacoalho as últimas palavras esfaceladas pelo som que elas fazem ao não procurarem encontrar mais nada. Até que aconteça alguma emissão, alguma omissão ou alguma soma, ou alguma música que resuma o esquecimento para que o corpo todo interprete. Interpenetre. Se do nada isso não acontece faço minhas tentativas, minhas assertivas e minhas interrogativas, sem saber o que enfrento sem tocar o chão com os pés da estrutura passional nos diálogos que eu travo.

Não irei abana-las para que me refresquem aqui, ou para que elas refresquem a você. O vento que não é refrescante dentro da ótica ociosa do impossível inegável contra o qual travamos através de conceitos coceiras e outros tipos de trocas prazerosas de carne aquecida evanescente. Aquilo de que sumo escorra. Leque de possibilidades vocabulares incomunicáveis representativos da dualidade aparente em emissões holotrópicas, epifânicas, e de toda sorte de manifestações alfabético idiossincráticas.

Após ter contado todos os meus pertences em três caixas encerrei aqui todo meu processo de contagem. A cortina da varanda balançou em espiral, as pessoas no ponto de ônibus sacudiram em espiral, e minha platéia se abriu em leque, em flor de pétala a cortina vermelha. Suor no peito rendado do vestido bordô salgava a trama alambrada da poesia ralinha água com açúcar do seriado entre as sendas das mais polêmicas dentre as novelescas. O assombro do prenúncio de um caso de incêndio na família havia me tomado e me guiado enquanto eu arrastava aquelas três caixas sem apetite nenhum que impusesse à unhas cavacos de pele humana dentro da história não humana daquele e de todos os prenúncios.

Ao apertar o botão dos prenúncios estou me referindo a uma aparelhagem específica da natureza televisiva. Existe um olho aberto na extremidade de cada um dos tentáculos que parece estar interessado nisso. É alguma coisa que quando tocada eclode no seu próprio tegumento os elementos fragmentários da natureza originária de onde ela foi expelida. Através da qual minha ida e vinda é absorvida. De onde escorre espuma eclode esse curto circuito e ecoam cascas de castanha postas em combate dando o tom e conduzindo o ritmo.

O incômodo a respeito das caixas foi aumentando pouco a pouco. Ficou evidente quando eu hipnotizei o taxista no caminho até a rodoviária. A tendência impeditiva da negatividade, oriunda da interpretação univitelina do incômodo parturiente do sofrimento, vem confundindo o andamento dos meus números, de apresentação em apresentação, como se houvesse essa divisão. O que incomoda na intencionalidade das figuras emissoras de sentido é a humanização idiotamente idolátrica e ou iconoclasta, que deifica com o dedo os culpados graves, os culpados agudos e os culpados medianos, sem assumir responsabilidade alguma ou coroar o nome de nenhuma cor, de nenhuma forma, de nenhuma capacidade afetiva.

Pelo encontro como figura de emissão vital que sobrepuja toda imposição retentiva dos binarismos acerca da recepção.

domingo, 13 de maio de 2012

Trauma Cha Cha Cha - Intercambista em Santos com Desvios Macunaímicos

Trauma Cha Cha Cha em Feijoadão Macunaíma (Primeiros Experimentos)

Então, eu acordei com febre. Na verdade, eu acordei com tosse e já tinha ido dormir com muita febre no dia anterior. Eu acordei assim no dia seguinte ao meu retorno de Santos. Tinha ido como intercambista do FESTA 54, que é o Festival Santista de Teatro. Assisti a muitas coisas, não assisti a algumas, conversei com muitas intermináveis pessoas, e me apaixonei platonicamente por duas delas. E foi assim, durante nove dias, que alguma relação foi se rompendo e se re-estabelecendo em mim, conforme ocorria a convivência dos intercambistas entre si e com a cidade.

No outro dia, após ter chegado em Curitiba, eu estava com febre, tosse, dores em todo o corpo, em um estado de fraqueza tamanho, que nenhum membro conseguia se mover cordenadamente ou me servir de meio de sobrevivência. Quer dizer, eu não conseguia levantar para comer, escrever, ler, cagar, nada. Na verdade, fiz tudo isso, mas em estado de transe. Sob o efeito de muita febre. Quase que pondo em prática algumas insanidades, colocando alguns delírios no plano da realidade. Estava começando ali meu último mês na pensão. Isso terminou hoje. E ainda estou acordado. 

Cada vez mais eu moro menos, esse ponto vem sendo forte nos últimos dias. A presença marcante desse fator me causa um impacto irreversível, ainda que eu compreenda racionalmente que seja uma fase. Cada vez quero morar menos. É bem provável que eu vá para Bauru nos próximos dias, mas isso se deve ao meu desgaste energético. Cérebro, sangue, circulação e sistema nervoso, tudo em frangalhos. Cada vez mais querer morar menos me coloca em movimento, algo está se movimentando para frente. No carro que trouxe as minhas coisas hoje, eu tive a sensação de ter desfrutado muito prazerosamente o caminho. Ao chegar começa toda uma organização necessária para que eu esteja em movimento novamente.

Eu não sei porque ainda faço isso. Estas associações aparentemente me fazem ver a vida como algo mais leve, sagrado, insignificante. Associações muitas vezes da mais incômoda complexidade, que aparentam certa natureza aleatória quando apenas transmitem, nas suas especificidades, um percurso pessoal de impressões. Em meio a um processo criativo que vem tomando proporções mais densas, dentro de proposições que contemplam o longo prazo das realizações, tudo parece muito diferente e difícil de organizar. Ao mesmo tempo, tudo parece muito diferente e com uma capacidade própria de organização, um percurso único, que relaciona impressões o tempo todo. 

Fotos de Léo Glück dos primeiros experimentos da performance na Casa Selvática

Então, como eu acordei com febre, e isso já não era a primeira vez que acontecia, fechei três livros ao mesmo tempo, revirando-os do avesso. Um deles: Macunaíma, que muitas vezes já não deveria mais ser nem o anti-herói, dentre tantos outros nomes que ainda são lidos da mesma maneira, como se uma maioria de uma unanimidade fosse uma voz insuplantável vinda do inconsciente, como Nelson Rodrigues diria mas dito de outra forma. A forma que for necessária que me encontre com as malas prontas. E cada primeiro capítulo de Macunaíma, depois das primeiras páginas desse mito-plágio-feitiço rapsódico passado em São Paulo ou qualquer lugar "fora de casa" começa com Macunaíma acordando com febre, ou sempre muito adoentado.

Para quem perdeu alguma coisa em Santos, Bauru, Botucatu, Curitiba, Bacacheri, Campinas, Bela Vista, Floripa, Montevideo, Rio de Janeiro, Salvador, Recife, Mato Grosso do Sul, Porto Alegre, e está tentando retomar, readquirir, ou para quem nunca teve um símbolo dado de presente inutilizado nas mãos, o recado não é diferente. Não é recado nenhum, acho que não importa. As impressões práticas da vida, aquelas adquiridas pela experiência vivencial das situações, presenças, contextos, etc, são suficientemente ricas, complexas e inexplicáveis. Não importa porque, ao mesmo tempo que é uma traição das medidas vivenciais traduzir a experiência em linguagem, as medidas vivenciais são determinantes de operações linguísticas circunstanciais, efêmeras, necessárias. Então, o amor é importante, porra.

Depois do Feijoadão Macunaíma, na Casa Selvática, primeiro experimento do Trauma Cha Cha Cha

E as derivas empreendidas com o intuito de encontrar a muiraquitã foram contadas por um papagaio que levantou vôo. Ao mergulhar naquele tom de voz, eu tinha o intuito de levantar vôo. Os punhos emergiram num soco para fora da água. Nenhuma onda ou espírito garantiu que a espera seria uma alternativa diferente. Os dois punhos esperaram, erguidos, fechados, num soco para fora da água. Um era meu, o outro era eu. Nenhuma onda ou espírito de validação na tradução de cada palavra. Ao correr para sempre, com o intuito de sanar uma ansiedade, minha voz narrativa é lenta 

A muiraquitã que conta a minha história levantou vôo.  

Límerson 

Diretor Autor Teatral e Performer

Curitiba, 2012
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              

segunda-feira, 26 de março de 2012

doble hembra II




ao começar o jantar notei que havia um corte no meu dedo
não dei conta da profundidade com exatidão
o que me alarmou foi a retidão
o corte atravessando a pele
a discrição do alarme
a sirene despertou
algumas camadas de engano
o outono dos contornos da cebola
retas afetam eventos transversais
eu ia caminhar em linha reta
num mesmo percurso um mesmo lugar
o susto adjacente atirava-se janela afora
ao lado as veias dos espelhos sem cortina
escarraram tanto que acabou meu pai

domingo, 25 de março de 2012

doble hembra



uma cavidade se pronuncia
de dentro pra fora
na verdade é uma concavidade
com vértices convexos
um ponto entre arestas
a dança da fresta entreaberta
convites antecipados
eu vou estreiar na noite
no melhor do rebolado
os corpos parados não perdem
os corpos mortos lideram
pronuncia-se uma concavidade

sábado, 21 de janeiro de 2012

Mancha


Ah... tudo começou com uma profunda irritação com a espécie humana. Sua capacidade de gozar a aglomeração, de sustentar a boa convivência um com o outro (mesmo que às custas de certa vista grossa sobre o si mesmo). Chegar falando besteira e se despedir falando merda. Da trivialidade ao papo furado. Passar por tudo e todos sem extrair proveito de nada, sem extrair desgosto de nada, sem contrair nenhuma bactéria, parasita ou convicção. Os ilesos despreocupados, com seu desespero discreto. A mucosa escorrendo um líquido fino, denso, invisível. Foi aí que tudo começou.

Com aquela mancha que se estendia pela superfície, a marca de uma queimadura, estendendo-se constantemente, numa linha através do tempo. A mancha que vai revelando o caminho percorrido, e alterando a superfície utilizada. Parece uma chaga, uma cicatriz que caminha, quando se comporta como a mancha de uma sombra. O contorno de uma pessoa. Isso, que é explicativo enquanto moldura. Atravessando a multidão concentrada na praça, no centro da qual ocorria uma feira, contornando o chafariz e se estendendo depois dele. Passava por todas as pessoas, e tinha passos específicos, parecendo seguir uma marcação. Desviava de lado, parava e esperava, continuava fitando um ou outro par de olhos, e desaparecia entre uma pisada e outra. Pediu desculpas uma vez, quando atingiu uma bunda com a mão.

A mão é uma outra questão. Um outro campo de atuação, um outro ambiente de análise. Uma proposta diferente quanto às relações de peso. Puxavam os braços para baixo, no que os dois ombros eram dois ganchos, que puxavam as costas para cima e para frente. Um pé com cinco dedos, outro pé com seis dedos. Duas asas abertas dentro da pele respiratória, causando desconforto, testando a capacidade elástica na região torácica. Duas asas abertas que eram como dois olhos fechados, respirando, causando muitas dúvidas. E qual era a curiosidade, afinal? Para manter a espinha ereta, preferia não fazer nenhuma pergunta, sobre mais nada. Mas, para que existisse a curiosidade, afinal necessária, percebia que era melhor não deixar nada sem resposta. No que, ao surgir, uma pergunta era respondida imediatamente. Por exemplo: para onde estamos indo, afinal? Estamos indo para casa. E por que ainda não chegamos? Porque estamos perdidos. Então, não sabemos para onde estamos indo? Apenas andamos devagar. E nesse por aí vai, as perguntas se esgotavam por si mesmas. Restava o percurso.

Agora, bastante afastado das grandes aglomerações humanas, dos acúmulos de gente de médio porte, das saídas de escolas, dos encerramentos de feiras, das abduções coletivas do final da tarde, foi se aproximando de uma vitrine. Um ponto luminoso intenso, que distava ainda algumas quadras, e já fazia seus olhos se apertarem no rosto. Espremidos os olhos, a boca seguia o movimento de compressão nos lábios, chegando ao formato de um buraco redondo e pequeno. Um ponto final mudo. Ele se lembrou de um outro dia. Onde ele viu, da sua mesa no café da via expressa, o ônibus parar e expelir as pessoas que chegavam. Começou observando aquele acontecimento tomando o veículo como contexto, o ônibus que chegou a um limite, expelindo aquilo que não podia mais estar do lado de dentro. Quando ele via o ônibus ali, aliviando as suas necessidades, não como quem sua em movimento, mas como quem pára e abre as comportas dos intestinos, convencia-se de que estava diante de um organismo vivo, uma extensão do que ocorria entre a tensão e a harmonia.

Porém, o desembarque aconteceu com uma certa demora, e ele passou a considerar também o insustentável absurdo da aglomeração coletiva. A impressão perturbadora do excesso e do cansaço em cada passageiro que deixava o veículo. Atravessando a roleta giratória que é o modo sonoro de se instaurar o desligamento prático do mais absoluto desconforto passado dentro do veículo. A demora do desembarque naquela parada proporcionou essas duas naturezas de pensamento. Uma que partia do princípio de personalização, incluía o ônibus na continuidade do eu, e considerava a necessidade de ingerir e expelir. Outra que passava pela insuportabilidade cotidiana, da observação dos corpos que se movimentavam e atravessavam a roleta. Até que surgiu uma terceira interpretação, o epílogo do desembarque, o ponto final dos pontos de visão.

Aquela mulher que não conseguiu descer ali. Não que ela não precisasse descer naquela parada. Ela não conseguiu descer ali, onde ela se encontraria com o poeta com quem estava se relacionando. Às vezes ator, às vezes poeta, às vezes pseudo-produtor cultural... ela gostava dele. Não que fosse um gostar romântico, a partir daquela idéia perfeita de homem. Aquele estereótipo de companheiro para todas as horas. Não era isso porque ela estava mais se deixando levar. E não descer ali seria uma tolice, porque depois daquela parada, o ônibus faria uma brusca alteração no percurso, feita daqueles desvios traiçoeiros irrevogáveis. Mas, ela não conseguiu. Nem descer, nem se encontrar com o cara. A porta se fechou enquanto ela saía, deixando apenas uma perna e metade de um braço para fora. Além da cara, metade ansiosa e metade tranqüila, que ficou espremida entre as portas. As únicas partes do seu corpo que viram como seria se tivesse conseguido sair, e que puderam conversar com as partes do corpo que ficaram dentro do ônibus. Esse diálogo era uma dobra que uma só pessoa não nota em si mesma sem o susto.

O rosto dela, espremido pelas duas portas fechadas, parecia deixar um beijo para ele. Parecia um rosto sussurrando para ele, que lhe deixava um beijo tórrido, do fundo da alma apertada. Deixava um beijo, uma perna e metade de um braço para fora. A boca ficou do tamanho de um buraco redondo, com os lábios saltados em formato de bola carnal, semi-abertos. A secura foi instantânea, e a salivação foi iminente, pelo único buraco entre os lábios. Os olhos ativaram as mucosas secretoras. Na substancia expelida das regiões espremidas que se estendia a partir dali existia uma expressão de prazer. Ela se foi sem ter deixado nenhum lugar. A cara que nem sorria e nem chorava, mas encerrava a visão da mesa do café, e a lembrança que ele teve. Foi aí que a luz da vitrine cegou até mesmo a sua memória.

Serendipe. Faltavam dois passos para estar diante da vitrine, quando leu o nome da loja. Quando faltava só um passo para isso, encostou-se na parede. A luz que a vitrine emitia, branco com reflexão de branco, recortava aquele pedaço da rua de forma brutal. Como quem estabelece um conceito de maneira imediata, sem pormenores para serem considerados, sem investigações de somenos importância. E não produzia sombra quando resvalava no seu corpo encostado na parede. Ao longo de toda aquela quadra, não existia a sombra que comprovasse através de certa silhueta humana a presença de um corpo ocupando um espaço. Tinha uma mancha, em certo canto da rua, uma mancha preta, mistura de gente e árvore, poste e pedra, mesa e gente. Muito lentamente ele foi virando o rosto, as mandíbulas apertando os dentes, e os olhos quase fechados. E a luz da vitrine foi incidindo no seu rosto em crescente de intensidade.

Agora de frente, ele via uma máscara. Branca contornada com um detalhe assombroso de cor prata. Um suporte gris, conectado a um cubo branco. Todo o resto do espaço lhe pareceu também um branco sem fim, porque só a máscara chamava a sua atenção. O contorno prateado causava assombro porque sugeria um formato alongado em vertical. Um rosto puxado ao mesmo tempo pela base e pelo topo, cujo queixo e a testa se confundiam com o fundo branco. O contorno prateado espremia aquele rosto das laterais para dentro, como as mãos de um apaixonado espremem o objeto de paixão, ate que os olhos fiquem quase fechados, e a boca adquira a forma de uma bola. Uma bola de lábio carnal. Contendo apenas uma pequena abertura. Através dela escorria um líquido fino, denso, invisível. Esse fio fino que se estende por todo o caminho, deixando apenas manchas pela superfície. Alterando a sua textura ao longo do percurso, com essas manchas sempre presentes. A máscara, que nem ria e nem chorava, estava no seu máximo expressivo, causando-lhe susto e também conforto. Como todo objeto de paixão, deixava-lhe um beijo, uma mancha, e um fio de baba escorrendo das regiões mucosas espremidas. E foi aí que tudo começou. Ah... com aquela irritação profunda.

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