domingo, 13 de maio de 2012

Trauma Cha Cha Cha - Intercambista em Santos com Desvios Macunaímicos

Trauma Cha Cha Cha em Feijoadão Macunaíma (Primeiros Experimentos)

Então, eu acordei com febre. Na verdade, eu acordei com tosse e já tinha ido dormir com muita febre no dia anterior. Eu acordei assim no dia seguinte ao meu retorno de Santos. Tinha ido como intercambista do FESTA 54, que é o Festival Santista de Teatro. Assisti a muitas coisas, não assisti a algumas, conversei com muitas intermináveis pessoas, e me apaixonei platonicamente por duas delas. E foi assim, durante nove dias, que alguma relação foi se rompendo e se re-estabelecendo em mim, conforme ocorria a convivência dos intercambistas entre si e com a cidade.

No outro dia, após ter chegado em Curitiba, eu estava com febre, tosse, dores em todo o corpo, em um estado de fraqueza tamanho, que nenhum membro conseguia se mover cordenadamente ou me servir de meio de sobrevivência. Quer dizer, eu não conseguia levantar para comer, escrever, ler, cagar, nada. Na verdade, fiz tudo isso, mas em estado de transe. Sob o efeito de muita febre. Quase que pondo em prática algumas insanidades, colocando alguns delírios no plano da realidade. Estava começando ali meu último mês na pensão. Isso terminou hoje. E ainda estou acordado. 

Cada vez mais eu moro menos, esse ponto vem sendo forte nos últimos dias. A presença marcante desse fator me causa um impacto irreversível, ainda que eu compreenda racionalmente que seja uma fase. Cada vez quero morar menos. É bem provável que eu vá para Bauru nos próximos dias, mas isso se deve ao meu desgaste energético. Cérebro, sangue, circulação e sistema nervoso, tudo em frangalhos. Cada vez mais querer morar menos me coloca em movimento, algo está se movimentando para frente. No carro que trouxe as minhas coisas hoje, eu tive a sensação de ter desfrutado muito prazerosamente o caminho. Ao chegar começa toda uma organização necessária para que eu esteja em movimento novamente.

Eu não sei porque ainda faço isso. Estas associações aparentemente me fazem ver a vida como algo mais leve, sagrado, insignificante. Associações muitas vezes da mais incômoda complexidade, que aparentam certa natureza aleatória quando apenas transmitem, nas suas especificidades, um percurso pessoal de impressões. Em meio a um processo criativo que vem tomando proporções mais densas, dentro de proposições que contemplam o longo prazo das realizações, tudo parece muito diferente e difícil de organizar. Ao mesmo tempo, tudo parece muito diferente e com uma capacidade própria de organização, um percurso único, que relaciona impressões o tempo todo. 

Fotos de Léo Glück dos primeiros experimentos da performance na Casa Selvática

Então, como eu acordei com febre, e isso já não era a primeira vez que acontecia, fechei três livros ao mesmo tempo, revirando-os do avesso. Um deles: Macunaíma, que muitas vezes já não deveria mais ser nem o anti-herói, dentre tantos outros nomes que ainda são lidos da mesma maneira, como se uma maioria de uma unanimidade fosse uma voz insuplantável vinda do inconsciente, como Nelson Rodrigues diria mas dito de outra forma. A forma que for necessária que me encontre com as malas prontas. E cada primeiro capítulo de Macunaíma, depois das primeiras páginas desse mito-plágio-feitiço rapsódico passado em São Paulo ou qualquer lugar "fora de casa" começa com Macunaíma acordando com febre, ou sempre muito adoentado.

Para quem perdeu alguma coisa em Santos, Bauru, Botucatu, Curitiba, Bacacheri, Campinas, Bela Vista, Floripa, Montevideo, Rio de Janeiro, Salvador, Recife, Mato Grosso do Sul, Porto Alegre, e está tentando retomar, readquirir, ou para quem nunca teve um símbolo dado de presente inutilizado nas mãos, o recado não é diferente. Não é recado nenhum, acho que não importa. As impressões práticas da vida, aquelas adquiridas pela experiência vivencial das situações, presenças, contextos, etc, são suficientemente ricas, complexas e inexplicáveis. Não importa porque, ao mesmo tempo que é uma traição das medidas vivenciais traduzir a experiência em linguagem, as medidas vivenciais são determinantes de operações linguísticas circunstanciais, efêmeras, necessárias. Então, o amor é importante, porra.

Depois do Feijoadão Macunaíma, na Casa Selvática, primeiro experimento do Trauma Cha Cha Cha

E as derivas empreendidas com o intuito de encontrar a muiraquitã foram contadas por um papagaio que levantou vôo. Ao mergulhar naquele tom de voz, eu tinha o intuito de levantar vôo. Os punhos emergiram num soco para fora da água. Nenhuma onda ou espírito garantiu que a espera seria uma alternativa diferente. Os dois punhos esperaram, erguidos, fechados, num soco para fora da água. Um era meu, o outro era eu. Nenhuma onda ou espírito de validação na tradução de cada palavra. Ao correr para sempre, com o intuito de sanar uma ansiedade, minha voz narrativa é lenta 

A muiraquitã que conta a minha história levantou vôo.  

Límerson 

Diretor Autor Teatral e Performer

Curitiba, 2012
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              

3 comentários:

Danilo Castro disse...

Legal que tem um blog. Talvez de caráter bem mais intimista que o meu. Também escrevi sobre o Festa por lá. Melhoras de saúde, e continue se expressando diante dos seus lampejos criativos. =]

Mister Wild disse...

cada vez mais morar menos. isso poderia ser do debord. uma nova babilônia onde não há moradia fixa, casas em hotéis. produção para as máquinas. devir e fruição para aqueles que já foram escravizados.
quem come quem. é uma questão.

Límerson disse...

quem menos come quem

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