terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Ano Osso

Há um ano uma cadela foi abandonada à escuridão aberta das paredes da garagem. Não sei se foi a poesia que abriu as portas, ou se foi o palco que abriu as pernas, não sei. Era meia-noite e ela se escorava nos cantos, escutando fogos sem euforia. Sem sombra de dúvida o que ela ouvia sangrava, mas a cadela não lambia desprovida das forças da língua.

Ela se dissolveu imersa nas ondas mensais. Mas quando os furos silenciaram pariu-me afora, para que eu não contasse a história de um poema, ou colocasse em cena qualquer voz oca sem escória. Pariu-me para quebrar a perna e derrubar a porta. Girar os dramas da vida em espirais de cantigas de roda. Termine o ano latindo como uma cobra, ela disse.


O que os meus órgãos vitais estão fazendo na cena, ela me perguntou o ano todo. E pra mim era meu rim, meu pulmão, meu cérebro, meu sexo e meu coração que me abandonavam. Não o amor ao amor próprio, ou vozes sem correspondência. Faz um ano que ela deitou abandonada no óleo velho de números. Mas cavalgará na sétima semana, depois desses membros largarem o osso. 

domingo, 29 de dezembro de 2013

Salvo Olhar em Guerra


O teu olhar mergulhou em mim e resgatou inutilidades no dorso da carcaça nua do transatlântico. Dali, o anjo tecnológico abraçou um código, e do topo da torre se abriu em víscera.

O teu olhar mergulhou em mim e procurou pela superfície de onde emerge tanta tristeza e vontade de potência ao mesmo tempo. Duas pastilhas borbulhando no corpo.


O teu olhar mergulhou pra sempre no líquido que derrama o eixo de estragos e esquemas familiares. Da cintura pra baixo até a cintura pra cima torpor. Mas agora foi salvo de olhar em guerra.

sábado, 28 de dezembro de 2013

Árvore-Tipo é uma Reza Interior



Novo Videopoema + Performance do Outro Núcleo

Com Walace Brassero, Marcos Tamamati e Límerson
Câmera - João Ricardo Ribeiro
Textos e Edição - Límerson

BYE BYE BANZO ou DESABAFO DA PERSONA LEVITANDO AO URDIMENTO

- é desde sempre que me perco na simultaneidade das informações. basta o reencontro com o mato silenciado de calor no cruzamento da rua da extinção com aquela que acaba debaixo do viaduto. escuto tantos recursos respiratórios que pode-se afirmar, dou ouvidos à respiração de vozes consumadas em grafemas de contornos antropomórficos. desde antes vão ficando frases engasgadas aqui e ali, nas dobras das diversas instâncias emissoras, diante dos aparatos disponíveis ao final do ano. acontece algo no corpo quando elas esfriam para reencontro. e nós já passamos tanto frio em cena, circundados de saudades, outras vidas, sol, lua, estrelas, e formas de falésia em vocês. corpos em colisão de atmosferas. saudações de fogos e solidificações nos atravessaram até então. ao constatar o formigamento nas costas associado a fragilidade no discurso tenho comigo que até a pouca importância passa.

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Árvore-Tipo


Últimas Actions de Poesia Performática com
Outro Núcleo de Espetacularidades
Dezembro 2013


Árvore-tipo Secreta - Sonra Vegan Rurales (15-12-2013)
Árvore-tipo Secreta - Sonora Vegan Rurales (15-12-2013)


Árvore-tipo Secreta - Sonora Vegan Rurales (15-12-2013)





Registro quase completo da performance Árvore-tipo III, realizada no Exílio Art Pub (Bauru - SP)

05-12-2013



Árvore-Tipo Birthday
Performance de pintar uma TV de branco
Performance, vídeo e edição - Límerson Morales
02-12-2013 

sábado, 30 de novembro de 2013

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

Duas situações despertas excluídas do texto original


Um estranho. Um manequim. Amante ameaçador. Um bebê manequim. O invasor familiar que bate à porta. E um boneco infantil que não é familiar. Grita e chora enfiando as unhas nas minhas costas. Ele está trabalhando por aqui, mas não inspira confiança. E ele, ali, debaixo de mim quando eu levantei. Embora eu não o conheça eu o alimento eu o levanto nas minhas costas. E então recrimino cada gesto, gritando que dói, reagindo. Fico exaltado e grito ‘pára!’ e o expulso. Então acordo. E então acordo.

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

O Hiato é aqui


nada foi feito olhos pulsando em pé preto – algo foi feito olhos pulsando pretérito – nada foi feito olhos pulsando em pré pé – algo foi feito nada pulsando em pé preto – nada foi feito dessa canção no pretérito – nada foi feito dessa canção em pre pé.

flora tristán. flora tristán. flora tristán.
estamos esperando gauguin. flora tristán.
gira a lima deixa para devorar.
flora tristán gira flora tristán. flora tristán.
esconderijos não digeridos dessa canção.

flora tristán tzara
flora tristán tzara
gira flora tristán tzara
teatro de kantora flamenca
teatro de cantora careca
flora tristán. gira flora tristán tzara
uma peruca enamorada
flora tristán tzara
em tadeusza kantora enamorada
em flano menga, enamorada
em flano mengue, enamorada
em flano menga.
flora tristán. gira flora tristán tzara
em flano mengue
de nina simone
flora tristán gira flora tristán tzara:
são linhas de força
em nina simone enamorada
flora tristán tzara
em flano mengue
de nina simone
enamorada.




segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Maxilosa Perspectiva

quem quer morder sorri melhor e tem perspectivas maxilosas, quem quer lamber mostra a língua e está sempre com cara de ânsia. quando todo mundo quer morder, quem quer lamber só atrapalha. quando um lambe ninguém morde mais. quem morde quer arrancar um pedaço e deixar no espaço arrancado apenas o melhor, o mais especial, disfarçar o ressentimento em desapego, e assim estabelecer os limites. menos a língua. quem morde esconde a língua. e tudo assim, de dentro pra fora - todos os exemplos são inapropriados, e incompreensíveis. se você sente falta da boca, deveria pensar como um boneco. o buraco do fantoche é mais embaixo.  

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Maxilosa Perspectiva

no primeiro ato eu dialogo com a susan. no segundo ato eu dialogo com a dercy. no terceiro e último ato as duas se encontram lentamente. mas antes que a rinha se instaure em tanglomanglo elas se afastam estocásticas, seduzindo uma a outra, deduzindo uma a outra. um exercício de paciência com a minha própria intolerância cuja imitação é severamente desaconselhada.

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Maxilosa Perspectiva


nem aqui, nem lá, aquilo é aquila. áquila é aquilo, olha lá, é áquila. sem desperdício, sem excesso, ausência de cuidado transbordando. flutua nos lábios da sapho de lesbos a maxilosa perspectiva de engole-ventos. atores, era uma atriz. atriz em casa de orates, atores. as torres de alta tensão estão se aquecendo. arrasa e afunda um mundo sombrio de significados. sorry, susan, isso não está sendo dito direito.

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Eu comi a placenta de prazeres



Eu comi a placenta de prazeres. Eu comi a placenta de prazeres, e parindo aos poucos de perdão. A manhã amniótica do eu lúcifer é esférico e estático despertar, do novelo embrionário esvaindo pelas dobras do domingo na vovó e no vovô ao estômago de sono vazio. Últimos instantes de amor sem dor pelos canais de âmago vazio.

Eu comi a placenta de prazeres. Voz sinal do fantasma senil tranquilo. Interrupção indômita dos começos senoidais. Satanás sagrado expira de futuras toxinas o vazio incinerado no silêncio de um pulmão desacordado. Da traição que escorre o sangue vozerio a arquitetura da vila dá luz a uma gestação feudal, que infla e continua.


Eu comi a placenta de prazeres. Comi e pairei com a cara de rua oito é choro. Na certa agradando o cachorro com o osso de incesto pânico, sempre buco salivoso arrebentando contra portas se aciona um tímpano. Pelas bordas derretidas de um cachimbo chino as fitas do contorno de um sutiã. É a placenta Pã faminta de envelhecimento e dos sinais forjados e familiares de gratidão.  

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Aviso de Recebimento

Este aviso de recebimento deve ser acessado segundo as seguintes instruções:
a)      Túnel é um templo de passagem;
b)      Você está vendo de dentro o que está vindo de fora;
c)      Lá vem a luz, leve para fora do templo;
d)     Leve para fora do templo a luz no fim do tempo;
e)      Leve para flora do tempo a luz no fim do templo;

f)       Você está vindo de dentro o que está vindo deflora.

sábado, 10 de agosto de 2013

Mãos à dobra

The Silent Enigma - Francisco Reina
A sombra das obras e as sobras dos ombros, incômodos numa casa que se desdobra. A rodoviária da casa ainda está em obras. As pessoas às vezes reclamam, ou apenas dão risada, quando pesquisam distraídas. E nos espelhos, passantes das máscaras passantes, a convicção econômica de que alguma passagem foi profanada. Espelhos indexados nas paredes Google. Ainda estão em obras as estradas da casa.

Abre a janela com espelhos e acena para a câmera web um corpo nu, apenas com passagens nas mãos. Ao que o reflexo ri e reclama da sombra, apenas com passagens nas mãos. Enquanto sobra o inacabado vão se abrindo as janelas. Às vezes reclamam, às vezes dão risada. Os melhores cálculos apontam para o desvio ideal. A sombra das obras e as sobras dos ombros, incômodos numa casa que se desdobra.  



Passagem nas mãos

The Silent Enigma - Francisco Reina
saí à procura de uma luva (com garras de monstro e pele de bruxa). encontrei uma mão sendo puxada em terra aberta, com dedos de deserto e unhas moles de borracha.

o não haver a luva caiu como um dilúvio. indicadores anulares cumprimentam esticando o fio enovelado da organza. aplausos de sereia tecidos em retalho vocal.

entusiasma que haja miragem e passagem por onde fugir. espelhos nas janelas. câmeras secretas nos espelhos. carne humana nua em estado de graça. e apenas passagens nas mãos.


terça-feira, 6 de agosto de 2013

O Olho de um Furacão

The Silent Enigma - Francisco Reina
Quando a casa encontrou o ponto onde não havia mais vento nem desvio. Apenas o redor em círculos espiralados desmembrando em calor laranja horizontal que amarela verticalmente na décima sexta hora da parede de face norte.

Para chegar até o olho do furacão a casa se deixou mover pelo frenesi de ombros afetados ao vento, e foi desviando. Códigos gestuais circulavam em atropelamento, o riso confundia as condições intrínsecas de circulação nos cômodos. Espirais desviavam sangue.

As únicas janelas eram monitores high definition exibindo imagens provenientes de uma rede de câmeras em tempo real. Essas eram as únicas janelas, com máscaras penduradas para inalações. E os desdobramentos giravam.


Na décima sexta hora do dia a face norte da casa apresentou as condições térmicas arquetípicas de um sofá sob o amarelo alaranjado da janela. Uma faixa amarela subindo pela vertical como um horizonte amarelo de vidro. É o fim do calor no olho de um furacão.  

quinta-feira, 11 de julho de 2013

Poema novo no Jornal Relevo

Um poema novo meu foi publicado na estreia da coluna de Adriana Zapparoli, integrando o Jornal Relevo, de Curitiba. Na mesma coluna, Claudio Daniel e Guilherme Junqueira.

quarta-feira, 10 de julho de 2013

Despimento Inaugural Dzi Corséculo


Foto de Stéfano Belo - Dzi Corséculo


Não me profanei por nenhum furo. Não perfurei meu cérebro com nenhum tiro. Não, e eu não me valho também de galho arrogado. Quando estou certo de que à meia pálpebra observo mais atento a espessura dos buracos de narina. Mas uma torrente de ansiedade juvenil me arremessa dessa altura. É uma maldição. O gabo com a textura cicatrizada de uma fruta. Na boca a fala perfumada com uma bala. Atravessa prismas e as pupilas estatelam. Mas os planos se segmentam em profundidades sem solução. É o caso de perpetrar um plágio inconclusivo. Não vou mudar. Esse plágio não tem conclusão. Sou fera frutífera, na unha e no caule, desse teatrão.

Colômbia de Férias - Curitiba


Está lançada a programação da 2ª Colômbia de Férias, em Curitiba, na Casa Selvática.

Estarei lá ministrando uma oficina de performance que concluirá com o Rito de Arte Cênica Climatérica. 

Programação e inscrição no site: http://colombiadeferias.wordpress.com/

quinta-feira, 27 de junho de 2013

verso vindo

video

"verso vindo"abra suas aspas"verso vindo"solte suas tremas"verso vindo"sem nenhuma dobra"verso vindo"numa linha reta"verso vindo"sem nenhuma métrica"verso vindo"é a tua deixa"verso vindo"é uma epidemia"verso vindo"verso vindo
abre o travessão

aos uní-vocos


quinta-feira, 20 de junho de 2013

Poema em Off usado na performance Dzi Corsécluso



Fotos - Eliana Borges - IOrnitorrinco


Dzi corsécluso. Dzi corsécluso, despimenta inaugural. Ziiiiiii. Eco lo qual? Dziiiiii. Eco lo qual? Tdziiiiiii. Echolocualz?
Dzi Corsécluso. Sos beintidos. Disléx yx machinna. Transex ex machinna, Cross dress X – box.
Dzi Corsécluso being beintiuno beintidos.

Espetáculo barnabé que antena arraiga toda zéra tombará.
Caipora de zinco esfarrapa meu parangolé.

Dzi croquéclusos que dzirculam pelos sescs, e também pelo cescs, e ao longo da triste distritópolis e da pluri púbis, que é um país em clausura di clausula e casulo de clausura discurcidada. Fora de tudo. Fora de tudo. Fora onde é dentro. Fora onde é dentro. Agreste de antena arraigada, está na hora da derrubada, my pai. Oh, my pai.

Era Dziéculo Z. Tri croquetes atacam-se à burla.
Ka buLra! O burlaco embaisso na cauda saída da boca.
Ka burla o nó no caudo do canudo. A caneca vazôa e ecôa porque enfim deu derrubo de calda.
Ka vazôa que eclusa entre a plausía e a pílula.

Há de se habsituar as plumas entre as palmas para tantos Dzi Corséclusos, em cerimonia despimenta inaugural. 

Ziiiiiii. Eco lo qual? Dziiiiii. Eco lo qual? Tdziiiiiii. Echolocualz? 





domingo, 9 de junho de 2013

As seis perguntas básicas da reportagem

Onde é dentro. Pergunta que cabe à música habitar. Onde é dentro há ondas com e sem centro. Tenho pânico de flautas que choram palidamente. Há Pã onde vãos são altibaixos. Ondas de invasão com e sem plano. Fora onde é dentro!

Quem nunca saiu de casa para chupar o dedão do pé de alguém apenas discursa em pele de ternurinha labial? Seja o besouro verde do tamanho de um caminhão, seja a aranha alaranjada fechando tudo e movendo as pernas como um robô na teia. Quem mofou ali não. 

O que é um trono senão uma madeira coberta de veludo? O que diferencia coincidência de convivência senão o preenchimento de uma lacuna? O que sobrevive a sub reprodutibilidade? O que não sobreviveria? O que é uma questão acerca.

Quando começaram a aparecer estas bolinhas brancas, circundadas irregularmente por vermelhidões, deixei abertas duas páginas no mesmo dicionário. Uma na palavra “sincrônico”, e a outra na palavra “simultâneo”. E cocei a virilha até arder de maravilha.  

Como a morte regressiva ensina romeno em menos de nove meses sem insônia. Como ao dizer esquecê-la eu silenciei enquanto cantava a canção. Como instrumento musical no pescoço descoberto de bandeira, tremo um cordão de ovos expelido do ninho de notas fragas.


Com porquê sai mais caro do que com beijo. Com porquê sai mais caro porque tem acento grave e circunspecto. Porque essa é a base de toda reportagem.

sexta-feira, 7 de junho de 2013

Dzi Corsécluso no I Ornitorrinco

Dia 14 de Junho (20h30') estarei em Curitiba apresentando um solo novo chamado Dzi Corsécluso - despimenta inautural. Dentro da programação do I Ornitorrinco, um festival produzido pela Selvática Ações Artísticas em parceria com a Editora Medusa.



Dzi Crosécluso – Rasgarei minha roupa para prantear a impenetrabilidade do trinca lábios em órbitas despetaladas. O trânsito de uma fresta ao longo de três paredes que nunca tombam. A trinca ao longo da queda da quarta parede. Usarei os dentes trituradores da única questão territorial que rachadura. Hasteio a bandeira que me veste, e profiro um hieróglifo enquanto giro. Enquanto giro a bandeira nega. Enquanto giro a bandeira nega. Enquanto giro a bandeira nega.

PROGRAMAÇÃO COMPLETA:






sexta-feira, 10 de maio de 2013

O Medo de Furar Macunaíma


A mesma crítica de talvez quase meio século, essa que faz a leitura de um Macunaíma preguiçoso e mal caráter, e que parece ter apenas o Walt Disney e o Zé Carioca como parâmetro, é a que recentemente aproveita para tecer teses contra essa ou aquela característica artística dessa ou daquela arte que julga ser a única em curso no Brasil. E a mídia de grande alcance sempre trás alguém que julga ser alguma coisa num país como o Brasil, perpetuando uma humorística e superficial noção geográfica.

Alex Antunes, num ponto da entrevista para a qual coloco o link no final desse texto, aborda despercebidamente este aspecto de uma leitura crítica-idiossincrática da obra de Mário de Andrade que ainda não superou o estágio Zé Carioca. Essa leitura ainda é influente nas opiniões de artistas brasileiros abertamente comprometidos com seu próprio senso crítico, e Alex aborda o exemplo de Lobão, aproveitando o lançamento de seu novo livro. Lobão adora falar mal do Macunaíma, e não é só ele. Apesar de não faltarem motivos, a mesma leitura que só vê a preguiça continua em voga.

Vejamos os motivos. De fato, Macunaíma SÓ tem compromisso com a autonomia. Afinal, roubam-lhe SEU amuleto. ELE vai pra tudo que é canto pra reavê-lo. ELE! Mãe, irmãos, e outros personagens, se confundem com o herói. Todas as características e caracteres se confundem ao longo de toda a obra, e arquitetam armadilhas. Em toda a obra não há limpidez ou um discurso unívoco em nenhum caráter. Continuando, ELE engana o ladrão do amuleto se disfarçando de francesa! ELE manipula Céu, Sol, e entidades mil, tal qual um Exu. E até aí, concordo que sejam coisas de sarapantar.  Mas, qual a melhor estratégia para negar um elemento cultural?

Minha pergunta real é: Qual afirmação de Mário de Andrade de que pretendia com a obra esboçar o retrato de um brasileiro não pode ser confrontada com afirmações contrárias do próprio? Bastaria ler as cartas... O interesse em abordar a alma do brasileiro está na idiossincrasia de Mário de Andrade. No Macunaíma isso se deu através de um caráter em processo, à procura de um amuleto roubado. Como contrapor um aspecto idiossincrático num único resultado artístico?

Mesmo com os esforços de acadêmicos como Haroldo de Campos, Gilda de Mello e Souza, Telê Porto, as figuras notáveis dos diversos campos artísticos insistem na "preguiça" de Macunaíma para articular suas críticas ao cenário atual. Acho curioso, é como se a preguiça atribuída ao personagem se deslocasse para as possibilidades críticas de leitura da obra ao longo dos anos. Talvez por preguiça de ler mais de uma vez, talvez pela obrigação de leitura na escola, talvez pelo “não li, não gostei”.  Por pouco não crucificam o personagem. Nunca conseguem crucifica-lo e nunca apontam uma estratégia de combate. As idiossincrasias que se instauram em mídias de alcance massivo tem a mesma voz.

Levanto o medo da preguiça. É medo da preguiça? O medo é de abordar a própria preguiça e ver emergir uma caricatura vigente, facilmente codificável como ideologicamente conservador? Medo de furar o Macunaíma e observar por um tempo as coisas através do furo?

Minha preguiça é imensa e incide tal qual um cone de luz sobre ursas maiores que a iconografia que conta minha nojenta história recente. São 26 estados e mais de cinco mil municípios sem amuleto algum, virando constelação sobre constelação. Meu ponto é que seria necessário considerar outro Macunaíma, outro amuleto e outras constelações. 



terça-feira, 7 de maio de 2013

Estudos para Iconografema


Apolo e os continentes, afresco. Apolo e Dafne, óleo sobre tela. Apolo e Dafne, mármore. Dafne transformada em loureiro, prato em majólica. Apolo, o matador de lagartos, cópia romana de um original em bronze, mármore. Apolo no carro do Sol cercado pelas Horas, seguindo Aurora, óleo sobre tela. Apolo com as Musas da música e da métrica, óleo sobre tela. As Musas Clio, Euterpe e Tália, óleo sobre tela. Apolo e as Musas, óleo sobre painel. Apolo e as Musas, óleo sobre tela. Apolo citarista, afresco. Suma musa, suma. Apolo matando Coronis, afresco sobre tela sobre madeira. Apolo coroado com coroa de ramo de loureiro, cálice de cerâmica. A morte de Jacinto, óleo sobre tela. Taça com figuras vermelhas, cerâmica. Sem título, prato de cerâmica esmaltado. O estupro de Cassandra por Ajax, litografia colorida. O triunfo de Apolo, afresco. A carruagem de Apolo, carvão sobre cartão. A Sibila de Delfos, afresco. A Sibila de Delfos em seu tripé, xilogravura. Diana, que os romanos associavam a Lua, discretamente pousada em sua cabeça.




Cabeça janiforme de Dionísio e Apolo, mármore. Nietzsche doente em seu leito, esboço a óleo. O oráculo de Delfos, xilogravura. Andrômaca chorando, óleo sobre tela. Heitor, óleo sobre tela. Canto de amor (segunda versão de Natureza morta com cabeça de Apolo e luva de borracha), óleo sobre tela. Aquiles costurando os ferimentos de Pátroclo, vaso grego de figuras vermelhas. O funeral de Pátroclo, óleo sobre tela. Detalhe de cratera itálica do século IV a.C. Carroceiro délfico, óleo, vidro, cobre e prata. O castigo de Midas, óleo sobre cobre. O castigo de Níobe, óleo sobre painel. Nióbida agonizante, mármore grego. Pan seguindo Sírinx, relevo em mármore. Pintura de tema mitológico, óleo sobre tela. Fonte de Leto, mármore. Leto transforma os camponeses em sapos, óleo sobre cobre. Esfolando Mársias, óleo sobre tela. Apolo vitorioso sentando no dragão, acompanhado de Eros, carvão vermelho, lápis e guache sobre papel. Apolo coroando a si mesmo, mármore. 

terça-feira, 23 de abril de 2013

o recém chegado


irmanado em mater fractal o besouro cléópátrio aparece. imantada, a forma de aura salienta o magnetismo axial da noite silente.

o recém chegado surge de peruca na barriga do sete para o oito. que povinho bonitinho, ele diz. que coreia. que clerezia.

desce a escada pelúcida na cleptolagnia da outra noite e foge. e depois clepsidra, até o desaparecimento insurgido.

sábado, 20 de abril de 2013

Pedaço da Poética de Encenação

Ocorreram algumas alterações por aqui. Talvez a cor do suporte anular acoplado aos candelabros. Enquanto queima o minuto em parafina gotejam ralas porções previamente filtradas de sádicos recursos expressivos. Isso esteve em questão desde quando cintilou na língua o sabor de papilas despejadas nas pupilas da primeira plateia. Talvez não. A degustação termométrica involuntária e oscilante das maravilhosas identidades requer uma aparelhagem resultante de ferramentas hábeis em penetrar trânsitos, e não da estruturação científica de todas as suas funcionalidades.

terça-feira, 2 de abril de 2013

Sobrecarga

Dormi e acordei seis horas antes. Toda a casa estava escura. Acreditando ainda ser cedo, dormi por mais meia hora. Acordei trinta minutos antes. Estava ainda mais escuro. Preocupado, realizei mais alguns testes da mesma natureza. Estes só me levaram a perguntas. Dentre as quais: 

1. Não está claro que ao acionar o visor do relógio digital, este antes mostra o último horário em que o visor foi acionado? 

2. Não está claro que estou apenas acordando tal qual quem embarca em instantes num mesmo sono movediço e superficial? 

Mesmo quando eu dormia com o intento de acordar até antes o bastante que pudesse, buscando voltar em definitivo, eu me deparava com os construtores adormecidos sobre degraus de obras inacabadas. Também descanso sob essa sombra mal dormida quando me sobra um horário.

domingo, 31 de março de 2013

Um rochedo


a escuridão é um rochedo

o mar atrás é a escuridão rochaz

a pálpebra fechada se abriu


ao escuriço de uma escurial

o ressoo do mar trás escuridão

a pálpebra fechada se abriu


e nada mais além de um nomadismo inabitado

na estrada que atravessa a cidade da janela

da pálpebra fechada que se abriu

Sobre os últimos primeiros dias


Sobre a latitude que vibrei em pé até os últimos primeiros dias:

Tiram-me as vestes de luto

Queda de véus movediços

Dança sobre a lama lancinante

O passo lento alinha e tombo nisso

Que tonalidade simpática de sentido

Sustenta emissões vapores de vogal

Mas o espírito de tempo se deita

Debruçado sobre a longitudinal escuridão dos primeiros últimos dias.

quinta-feira, 28 de março de 2013

Perfuro


Ângulos perfuram-me o quarto escuro
São tantos poros que não admiro mais
Nenhuma revelação sequer (se dá)

Ângulos perturbam quanto ao futuro
São tantos polos que não admito mais
Nenhuma admiração por mim

Anjos perpendiculares, à esquerda um quadro
E ali o agudo de uma luz sem dono
Estoura em corpos e arrebenta em dias

Eis que quando abro os olhos admito e admiro:
Hoje não conseguirei dormir.

sábado, 16 de março de 2013

Ave(ce)ssa - Ave Cessa



Resgate: uma brevidade vibra
Gosto de vontade no rasgo
formiga na fotografia.

Reforma em silêncio escuta
a velocidade de frêmitos
fervem vaga sem vela.

Todas as faces ameaças
sopros na frequência corpo
acordam os cômodos da casa.

Pela aspereza de um campo
ecoa do sonho a sombra
da porosidade perdida.

Em glândula rubra imagética
extensão de água estagnada
turva lágrima magmática.

Vaia e excesso de aplauso
O avesso da luva virado:
Um acesso de dúvida.

acendedor de orelhas pequenas


eu era uma sereia com voz de veludo

pacotinhos de pente escrito sustentável

tangível à prateleira dos aerossóis

eu era uma mulher pós-concreta

no meu quarto com orelhas pequenas

coloria gerúndios com penetráveis

velas do hermetismo impermeável

para o amor que eu matei ser um filho

um menino com olhos signos de seca

eu era a bússola de um sudeste sem luz

a voz poluída de um discurso solipsista

sem membros de ir nem decurso de vôo


quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

La voie en Rose


imersão introdutória por retomadas de reviravoltas

degola de cabeça goliarda com epígrafe pêndula
e uma lembrança que papila na pupila


O erotismo é tensão social que o sexo relaxa.
Jorge Majfud

toque premonitório de tambor e totem: ano da elegância transbordante, e brilhantes laços nós, e molho reforçado de tinta mediterrânea. das entranhas aos pulmões, devolve ao espelho que revoluteia. o espelho que oferece o toque e a chance de alteração sensorial absoluta. reverte retoma e reverbera o vento da roda da fortuna em giro de arcana. reza voa como uma coroa. o olho incondicional encantado de contexto dilata em rota. o olho nem sempre de mãos dadas com o toque ao atravessar a rua amagota. 


mora no quarto onde desabei sobre mofados cortes epistemológicos os véus sobremaneira lençóis numa laje lápide. o medo da impressão não elucida onde nem tudo são sinais emitidos: se a vida decorrida de amizade compartilhada é um aqui e agora que degringola em vereda rosa rosada, eu celebro a maquinaria frágil que era aquela cidade, num brinde seleto, solene, cerimonial cine memorial à irmã que discorda em pele ofídica drapeada de ferida incógnita. devolve altercações, terçol e cãibra com uma crueldade ainda maior.

um ventre de barro se choca e estilhaça nessa cabeça e ameaça um buda dourado. assusto e resisto sem saber lidar com talvez não ter havido mudança alguma em não querer ou não ter sacado o querer tua exequibilidade em desempenho de voo: a felicidade de você me transformar realizando movimentos inóspitos e intrépidos trepida insólita e introvertida na distorção que retoma a origem de nocivas concepções de naturalidade confundidas com aportes ao opressor.

ânima dos campos pineais desatina em cumes que animam apenas em quando mora. investida de pneuma atravessa a treva em pontos trívios investidos de demoras nos demônios da memória, minha amiga de asas assimétricas, irmã de ângulos singulares, por quem acendo o incenso da minha própria vida comburida.

os cinco dedos ao redor do meu pescoço. as distancias tem estímulos nervosos na ponta. a origem não pode ser apontada apenas dentro de uma biblioteca de jornais jograis. no balcão de lamentações nos servimos do colírio e da cevada. garranchos zaum traçam xis e zês sobre os fantasmas que saem da minha boca.

o dedo em riste no espaço entre a carne e a unha não estima istmos dêiticos com tanto riso. essa passagem humorada de sucos humos e fibras aprazentes, atravessa estimulada nas alas da anarquia mística que transforma reza em ritmo, e desmembrar sombras em pedras ornamentais de coronada pontiaguda. 

a descontinuidade continental eloquente na cabeça goliarda apavora like a rolling stone. desenrola uma cena fictícia à lua cheia de ensaios excessivos na segunda-feira. dispende de mim espíritos de tempo chamados caminhada lenta. do beijo de mentira ao abraço irmanado que acalora mi lunes like a rolling sun. então a cabeça que rola acalora.

abro as pernas. dores sem endereço circulam calor pelo não concreto. a maquinaria cênica da intimidade nos buracos do corpo humano eclode em pavores genitais, tremores de estirar os nervos a começar pelos eixos axiomáticos das irrisões. a lava que toma a cidade na sexualidade inner expressiva de um erotismo chulo e nulo é uma questão de iluminação pública. 




sábado, 19 de janeiro de 2013

ESGARÇADO GESTO ESPIRAL

Trauma Cha Cha Cha no Vox Urbe - Encontro da Revista de Poesia e Arte Contemporânea Mallarmargens - Foto  Maria Cecilia Sakhr

distorço a bola de fogo desfoca esgarçando o pulso no fole de luz que acendo. numa lambida uma carícia comove o discurso alusivo alijado ao que nos últimos dias foram os trópicos da indiferença indefensável a quem não conversa os meses com os dias tropeçado em trupes que já começaria a lamber os felpos de tapeçaria. 

cada qual no seu cômodo infiltrado e devorado por colônias do desde a pré-história da pré- expressividade até a comoção de um rinoceronte gravado na lua. inglórias transições de entre tribos derretendo confundidas com a passagem do tempo atravessando a rua. os que olham pelo buraco da passagem do tempo se colidem porque é uma questão de temperatura. 

no meio da indefinição e indiferente a ela acabo contaminado pelo esguio humano interior do estado em suas loquazes pinceladas e seu apartamento de arrebatamento irreversível somente comparável ao sair pela boca fina em ar de fumo o contorcionismo ereto da cidade reverbera aroma em vidro e agora acorda ressequido.  

o nome do destino ralo ao observá-lo escorrer desfoca diante do oco em desemboco de garoa aberta aponta a porta de vidro. esquece que a procura escorre em qual quer era o nome daquela linha reta. a caneta vermelha me consola e me ajuda a esquecer a caneta azul que me orientava. agora olha só a beta na minha glândula lacrimal. 

ao perde-la torno impermanente e sem solenidade nula especulo o espetáculo ao anotá-lo nalgumas frases. você discorda da encenação que derivo em dramaturgias maleáveis às voltas com deidades em jogos de esconder cursos até abrir num furo a dureza doce de um rochedo em contraposição dialética uma vez que em resolução de 300 dpi. 

o peito começou a crescer e o pinto começou a encolher. o pinto começou a crescer e o peito começou a encolher. deformada a fixidez inflamava de falências infláveis. voz que presencia disforia na infra inflamada de fleuma e furos que fizemos no concreto até alcançarmos o estádio. naquela língua você precisa dizer infalível. 

o clown que cagou no palácio do poder plantou uma árvore no jardim do patamar empático onde uma esquina para a alegoria da trupe não tanger nem flexionar sem metade teatralidade foi estabelecida inatingível. ele acabou preso onde eu acabei atravessado em vulto entretendo os viadutos nesse esgarçado gesto autofágico.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

DOBLE FÔLEGO



deslize em mútuas de matinas sabores in natura sobre o doble fôlego em fogo intelectivo amanhece com arco flecha e trotes do casco no extremo ambiente cume perto do fim o inferno astral viceja o par de córneos extravagante estufa em até a barriga cheia da alvorada disparate

ateio fogo à flâmula que hasteio com mucosa e conhecimento a anestesia de necessidades chama sem chuva e cerveja nessa belga que já não respira muito bem

no acesso ofegante afago entradas de intervalos

as vias aéreas encurtam a duração dos tamanhos

dos alcances impulsores de mensura cores a textura envelhecida estafa o brilho dos olhos saído pela culatra das cidades acoberta que estamos sendo deflorados por uma gravíssima impenetrabilidade em penhascos de estratificação

depois que o sino dobra se desdobra em vibrações e decibéis de decisões mais ou menos inconcebíveis arvorece o alvo do céu em tardes quentes restam nos pulsos adstringentes

sem nunca parar de vibrar a pujante língua das glândulas salivares em tecidos latentes de gota em gota ecoa uníssona sinuosidade as curvas cuneiformes dos oximoros oxidados ali

nos dobres onde se desdobra o sono de um desaparecimento

 na insurgência peles desejosas de hábitos noturnos

num gole envergado que pela garganta o gosto aguado afora na lufada pulsa iluminado sonho dos pulmões aflora pensamentos quando somos afogados

domingo, 6 de janeiro de 2013

Trauma Cha Cha Cha - Prólogo de uma Arte Cênica Climatérica




acenderemos a primeira chama de uma arte cênica climatérica. Vamos derreter o núcleo de espetacularidades em despedaçados membros arrojados de trauma cha cha cha. Uma vídeo-criatura de otávio donasci será decapitada. o resultado disso será pesquisado no google.

tudo começou com um chamado. triunfa o núcleo de espetacularidades a estreia perene de um elenco póstumo. sussurra a língua da pós-modernidade. o que trazemos com nossas mãos estendidas está disposto sobre o nosso corpo estirado e se coloca disponível quando encaixamos o quadril para o consumo “in natura” desde o extremo ilíaco ao pequeno píncaro pineal que eclode em pétalas.

a conexão do movimento dos braços com as costas se distende para inflar em discos entre as vértebras. inflando até girar em campos inflamados de visão. esse giro espirala até o queixo na mira o fluxo a mera tessitura da emissão. tentamos extirpar de nossa exímia minúcia a mais execrável e a mais inextinguível estrutura pétrea de pensar âmagos.

galhos de âmagos também são frutas climatéricas para pôr os dentes esporádicos nos gomos de suas fábulas rapsódias.  medulas de copas voluptuárias em vidro para cultivar abraçado um cubo de gelo e ao escoá-lo lavar a rua e colher membrana da penumbra alumbra. a condutora escura o vão da cortina.

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