sexta-feira, 10 de maio de 2013

O Medo de Furar Macunaíma


A mesma crítica de talvez quase meio século, essa que faz a leitura de um Macunaíma preguiçoso e mal caráter, e que parece ter apenas o Walt Disney e o Zé Carioca como parâmetro, é a que recentemente aproveita para tecer teses contra essa ou aquela característica artística dessa ou daquela arte que julga ser a única em curso no Brasil. E a mídia de grande alcance sempre trás alguém que julga ser alguma coisa num país como o Brasil, perpetuando uma humorística e superficial noção geográfica.

Alex Antunes, num ponto da entrevista para a qual coloco o link no final desse texto, aborda despercebidamente este aspecto de uma leitura crítica-idiossincrática da obra de Mário de Andrade que ainda não superou o estágio Zé Carioca. Essa leitura ainda é influente nas opiniões de artistas brasileiros abertamente comprometidos com seu próprio senso crítico, e Alex aborda o exemplo de Lobão, aproveitando o lançamento de seu novo livro. Lobão adora falar mal do Macunaíma, e não é só ele. Apesar de não faltarem motivos, a mesma leitura que só vê a preguiça continua em voga.

Vejamos os motivos. De fato, Macunaíma SÓ tem compromisso com a autonomia. Afinal, roubam-lhe SEU amuleto. ELE vai pra tudo que é canto pra reavê-lo. ELE! Mãe, irmãos, e outros personagens, se confundem com o herói. Todas as características e caracteres se confundem ao longo de toda a obra, e arquitetam armadilhas. Em toda a obra não há limpidez ou um discurso unívoco em nenhum caráter. Continuando, ELE engana o ladrão do amuleto se disfarçando de francesa! ELE manipula Céu, Sol, e entidades mil, tal qual um Exu. E até aí, concordo que sejam coisas de sarapantar.  Mas, qual a melhor estratégia para negar um elemento cultural?

Minha pergunta real é: Qual afirmação de Mário de Andrade de que pretendia com a obra esboçar o retrato de um brasileiro não pode ser confrontada com afirmações contrárias do próprio? Bastaria ler as cartas... O interesse em abordar a alma do brasileiro está na idiossincrasia de Mário de Andrade. No Macunaíma isso se deu através de um caráter em processo, à procura de um amuleto roubado. Como contrapor um aspecto idiossincrático num único resultado artístico?

Mesmo com os esforços de acadêmicos como Haroldo de Campos, Gilda de Mello e Souza, Telê Porto, as figuras notáveis dos diversos campos artísticos insistem na "preguiça" de Macunaíma para articular suas críticas ao cenário atual. Acho curioso, é como se a preguiça atribuída ao personagem se deslocasse para as possibilidades críticas de leitura da obra ao longo dos anos. Talvez por preguiça de ler mais de uma vez, talvez pela obrigação de leitura na escola, talvez pelo “não li, não gostei”.  Por pouco não crucificam o personagem. Nunca conseguem crucifica-lo e nunca apontam uma estratégia de combate. As idiossincrasias que se instauram em mídias de alcance massivo tem a mesma voz.

Levanto o medo da preguiça. É medo da preguiça? O medo é de abordar a própria preguiça e ver emergir uma caricatura vigente, facilmente codificável como ideologicamente conservador? Medo de furar o Macunaíma e observar por um tempo as coisas através do furo?

Minha preguiça é imensa e incide tal qual um cone de luz sobre ursas maiores que a iconografia que conta minha nojenta história recente. São 26 estados e mais de cinco mil municípios sem amuleto algum, virando constelação sobre constelação. Meu ponto é que seria necessário considerar outro Macunaíma, outro amuleto e outras constelações. 



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