terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Ano Osso

Há um ano uma cadela foi abandonada à escuridão aberta das paredes da garagem. Não sei se foi a poesia que abriu as portas, ou se foi o palco que abriu as pernas, não sei. Era meia-noite e ela se escorava nos cantos, escutando fogos sem euforia. Sem sombra de dúvida o que ela ouvia sangrava, mas a cadela não lambia desprovida das forças da língua.

Ela se dissolveu imersa nas ondas mensais. Mas quando os furos silenciaram pariu-me afora, para que eu não contasse a história de um poema, ou colocasse em cena qualquer voz oca sem escória. Pariu-me para quebrar a perna e derrubar a porta. Girar os dramas da vida em espirais de cantigas de roda. Termine o ano latindo como uma cobra, ela disse.


O que os meus órgãos vitais estão fazendo na cena, ela me perguntou o ano todo. E pra mim era meu rim, meu pulmão, meu cérebro, meu sexo e meu coração que me abandonavam. Não o amor ao amor próprio, ou vozes sem correspondência. Faz um ano que ela deitou abandonada no óleo velho de números. Mas cavalgará na sétima semana, depois desses membros largarem o osso. 

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