quarta-feira, 11 de junho de 2014

Acabou a boca e o umbigo, prosa poética para três ou quatro vozes


- Quando as mãos se tocaram o que havia de memória tomou as intenções do corpo de sentidos. Estes foram se acumulando no corpo conforme os vestígios se despedaçam nas fantasmagorias que percorrem as narrativas em movimentos marcados, em endurecimentos que não estão mais ali. É o gesto da pesquisa que vai desencadear nesse labirinto a possibilidade de alguma ruptura, ou do sentimento de alguma prontidão dentre os escoamentos de ecoamentos de memórias que não estão mais ali? É uma interpretação desesperada e desimportante das profundidades que intercalam os limites das coisas que são? Escapou novamente, antes que o reconhecimento estimulasse o gesto necessário para a incisão. 

- É uma ameaça o percorrimento contínuo de escapamentos entre as prontidões. Enquanto alguns fazem desses centros atributos em torno de nomes e sobrenomes, eu engasgo feio quando passa de fininho uma saia de passarinha, sobretudo quando a voz lembrada cai de uma folha seca no chão. Quando eu mastigo os alarmes meticulosamente respiro o desmoronamento de perplexidades. Para ser execravelmente exato, quando o ar atravessa a garganta e os dedos atravessam a garganta e o ar atravessa os dedos e a voz atravessa os dedos e o ar atravessa a palavra nos dedos e a língua atravessa os dentes na boca dos dedos e uma palma da mão encosta uma nuca não consigo mais extrair ações dramáticas, ou ações quaisquer, ou corpos quaisquer. 

- Uma criança me ensinou que acabou a boca. uma criança me ensinou que acabou a boca e o umbigo. Uma criança em corpo de pedra, talhada em estátua, no centro da praça. Não tinha rosto, não tinha nome, não tinha autoria. 

- Uma criança em forma de rins. Uma homenagem sem drama. Uma drenagem.

terça-feira, 3 de junho de 2014

Por favor, continue

Filme Le Révélateur (Dir. Philippe Garrel, 1968)
- onde você estava? aonde você está indo?
- é impossível dizer a verdade! faz tempo que tudo anda descartável demais para salvar alguma vida por aqui, ou para uma musa ou para um herói.
- você já pensou em todo um elenco novo e invisível?
- é a história da minha vida. é a história da minha vida. estas constatações resumem isso que chamo de.
- onde você estava? aonde você está indo?
- eu estou morrendo de rir de medo da coragem. são cores em célula nervosa para miragem de menos amor. nós somos essa célula nervosa refletida naquela árvore.
- cansa tanto quanto o começo de um arremesso... quando a onda é só pedaços de começo e de arremate! poderíamos facilmente ser abandonados por aqui. ou prontamente estapeados ou esfaqueados. qual árvore?
- ou confundidos! confundidos com o mesmo outro de sempre. por isso, toda vestimenta é um lugar iniciático de travessões e de travesseiros e de e voz, e voz e voz.
- onde você estava? aonde você está indo?
- está começando a estaticidade. a luz azul no rosto congelado daquela árvore. parece apresentadora infantil, congelando o sinal infantil infinitesimal.
- que árvore? a do braço direito congelado? na verdade, ela ou tudo é uma vela ou uma tela ou um furo no fundo de uma abreviatura.
- o longe esvaziado no fundo do lago de algum lugar. só tem lago naquele lugar.
- tem um furo no lugar do fundo do lado de fora. no lugar do calor, tudo esvazia. uma vela no tronco de flor cinza, abrindo e fechando os arcos e flechas sagitarianos no corpo fechado do espelho.
- sim, tudo é uma vela no tronco de flor cinza desde então, uma abertura no dorso do dia, abrindo e fechando os arcos e íris sagitarianas no ombro do vestido sem plateia do corpo fechado do espelho.
- onde você estava? aonde você está indo?
- calma. obrigado. por favor. continue.

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