quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

esquecimanto


(Frente)
(Verso)


sem o esquecimanto

de quem leu o poema do medo

no pedaço de papel dobrado

sobre si em tantos membros

se quem em cada dobra de ombros

à luz da indisposição calada

e dos danos nas pontas dentro do bolso

deu conta que era a mesma que a imensa incitou

a cerzir o umbigo com aspecto de teia

e pouco usando o dicionário

pois o dedo estava conferindo profundidade

ao acordar o redor e a direção do vento

no dia que era o aniversário

e tinha razão ao ler alerta onde era


a letra canela e a letra cautela na lembrança


(Do livro fictício "Do mais excruciante Dezembro", 2014)

* Fotos - Registro da Performance do Outro Núcleo de Espetacularidades no dia 12/12/2014, no lançamento do 1º foto livro da fotógrafa e jornalista Amanda Rocha. “A Imagem no Museu do Sonho – Uma Visão Imaginária de Sandman”. Créditos exatos? Por enquanto, infelizmente não sei. 

Um Fio

(Frente e Verso)

Estou guardando um fio de cabelo dentro do chapéu que nunca me serviu. Dentre tantas coisas abandonadas, esse fio foi encontrado por mim, bem debaixo da minha cadeira. É longo demais para ser ter nascido na minha cabeça, e preto e espesso o suficiente para soar estranho a qualquer morador da casa que, por ventura, possa ter, digamos, passado por debaixo da minha cadeira em algum momento. Durou pouco minha primeira impressão, a de que esse fio de cabelo fosse o fio da vida, rompido em estaturas indeterminadas, fio de tecidos combinados no estômago do engolidor de figurinos seria algo mais específico, e não condicionado a esse encontro tão improvável quanto encontrar qualquer outra coisa debaixo de coisas abandonadas. Não porque seria triste demais constatar que o fio da vida possa ser apenas um fio de cabelo. É que esse fio de cabelo que encontrei é uma boa companhia.

(Um fio "Do mais excruciante Dezembro", um livro fictício, 2014)

Depoimento real do mais excruciante Dezembro (frente)


O empenho de um em envolver ao outro

em sua retórica sofisticada de degraus acima

não deixou alternativa ao outro

senão bater a porta na cara do eloquente,

que mesmo assim mantinha insatisfeito o pensamento (da plateia)


em sua estética novelesca de degraus abaixo.

Depoimento real do mais excruciante Dezembro (verso)


Disseram que a experiência da cidade no teatro

não só não é o teatro

como é o não arrogante de tudo.

O não de tudo aquilo que foi lido

é o que todo mundo escuta


na experiência da cidade no teatro. 

Diálogo real do mais excruciante Dezembro

(Frente e Verso)

- Você viu Pulp Fiction?

- “Royal with cheese”.

- O real com queijo.


- O real é impossível.

sábado, 27 de dezembro de 2014

Pelo menos ele faz aquela dancinha



E ficou olhando igual uma plateia olha. Sempre com muita atenção, pelo menos até ele começar a fazer aquela dancinha. 

- Você fica aí chorando pelas portas abertas, como se elas estivessem penduradas das suas máculas.

- Deus se ouça, ela disse. Deus se ouça.

- Não sei por que não fecha essas portas de uma vez ao invés de ficar aí chorando.

- Deus se ouça, ela disse. Deus se ouça.

Ele diz que estava escrevendo. Um diálogo “Do mais excruciante Dezembro”, 2014, um livro fictício.

- Fale mais sobre isso.

- Do mais excruciante Dezembro é o mais excruciante Janeiro, é o mais excruciante Fevereiro, é o mais excruciante Março, é o mais excruciante Abril, é o mais excruciante Maio, é o mais excruciante Junho, é o mais excruciante Julho, é o mais excruciante Agosto, é o mais excruciante Setembro, é o mais excruciante Outubro, é o mais excruciante Novembro do mais excruciante Dezembro.

- Parece um golpe publicitário muito pontual. Mas, nunca se esqueça, um golpe publicitário muito pontual mesmo teria que ser um golpe desferido pelo tempo! Sem nenhum tipo de concessão! Frente e Verso!

- A conversa está boa, mas chegou a hora. Desaparecerei diante de vocês, conforme o combinado.


E ficou olhando igual uma plateia olha, sempre com muita atenção, pelo menos até ele começar a fazer aquela dancinha.  

(Do livro fictício "Do mais excruciante Dezembro", 2014)

domingo, 21 de dezembro de 2014

Estrela de síntese

(Verso)

Estrela de adstringência explodida da boca

se pendura entre os dedos e oscila a mandíbula

Ela está posando para a fotografia.

Transfere a luz telúrica da madrugada

para as gengivas equiparadas, e depois

para as cutículas anestesiadas.

Esqueletos de camisa não inspiram confiança

isso é só para cabides de seguro desemprego pendurados.

Flores de inclinação cigana na boca de estrelas diagonais

Desconectaram-se dos corpos quando eles se levantaram.

Não reparei se caiu no chão, mas fiquei olhando

Para a minha barriga e para o chão.

Ainda bem que você está aí me escutando

porque às vezes algumas coisas escapam


E se desconectam do meu corpo também.

(Do livro fictício "Do mais excruciante Dezembro", 2014)

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

A graça daquela palavra

(frente)
(verso)



Havia gordura ao redor da árvore

Desde o umbigo até os ombros dos galhos

Gordura da orelha à boca do estômago

Ela estava em estado de graça

Ela estava protegida por raízes

Expostas na fratura do solo

E ao lado da fatia exposta

Solo de plástico e pedaços de sapato

E água, magma e cabeças de brinquedo

E a gordura da orelha à boca do estômago

É a graça daquela palavra na realidade

Ela estava protegendo pelas raízes

Era o punho cravado no vão da terra

(Do livro fictício "Do mais excruciante Dezembro", 2014)

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

Uma Síntese do Escuro


(Visão de Dezembro - Frente)

Ainda me lembro do primeiro apagão em copo d´água

Era melhor não ter aplauso do que não ter a vaia

Não haver silêncio algum entre os chapéus caía bem

Assim que sentia o cheiro meu cachorro chorava

Mas era um poema fotoverbivocal abafado

Para alguém com as pálpebras apertadas

Ocorre estar escuro em todos os lugares

Acostumados com a luz e os pés na areia

Num lugar aqui perto onde já amanheceu

Para alguém com as pálpebras apertadas

Longe de entrever as intimidades na pupila

As distancias entre as escuridões estão aqui



(Do livro fictício "Do mais excruciante Dezembro", 2014)

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

o despertador

(Frente)

o despertador silencia
uma madrugada de alarmes
daí o cuidado em conferir as horas
quando os relógios estão dormindo
a cadência crua do cair da tarde
é a catalepsia da corda
o tempo sugado de um dia seco
é o pesadelo do pêndulo 
não há noite sem o giro delirante
dos mais profundos atrasos
para que o relógio acorde
o despertador anuncia

uma madrugada de alarmes

(Do livro fictício "Do mais excruciante Dezembro", 2014)

sábado, 6 de dezembro de 2014

Essa é a última imagem de infiltrações sufocadas

(Verso)
(Frente)


É o último dos esclarecimentos texturizadores de atmosfera no muro

É o último movimento que não cala com um gesto que congela no meio da fala

É a última parede mãe sobre essa parede mãe, onde voltamos ao fôlego

de quem vai cair, e que tem o mesmo nome, e o mesmo objetivo

de prestar alguns escurecimentos

É pisando nas almofadas chuvosas que o passado invisível fecunda

Do cru das infiltrações no corte aos planos de bosque reconhecido

Porque depois de atravessar todos os cômodos da casa

e escorrer pelo vão dos tacos, ela volta

pelo calor dos olhos do chão

quando não atravessa.


(Do livro fictício "Do mais excruciante Dezembro", 2014)

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Decisão


(Frente)
(Verso)

É uma palavra que corta


perto da linha que separa


da palavra omissão


e tem excruciado o mês doze


desde o mês onze, desde

as vias da respiração

no interior do estado.


Essa palavra não diz mais nada

que possa ser esquecido


que deva ser lembrado.



(Do livro fictício "Do mais excruciante Dezembro", 2014)

fôlego

(Verso)

(Frente)

na boca sem fôlego que se move
está com a garganta cortada
esse pensamento que infinda.
é assim que o infinito te pensa
na boca sem fôlego que se move
pergunta o motivo do medo.
e o pensamento encurta o infinito
e o infinito curva a garganta
na boca sem fôlego que se move.


(Do livro fictício "Do mais excruciante Dezembro", 2014)

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